e dos campos regados com o suor de seus homens cresce uma nesga de fartura pelos ombros da fome
dos frutos que engravida compare-se à tristeza das coisas que não se dão tão conformes à natureza
e se um dia cansa de gerar tanta abundância a morte tem mais de tática de protelar a esperança
não trai o jeito do arado que lhe sulca todo o peito e isenta-se das amarguras nos leirões em que é desfeito
e quando mesmo brasil um roçado compulsório sustenta a força da terra em cada palmo de ócio
e escancara para o mundo lambida por esses mares que lhe roem as entranhas apesar dos seus pesares
de sua geografia pensada em seus botões sente-se mais uma américa sem nenhuma divisão
e as linhas das fronteiras nos caminhos do seu corpo as tem como grilhões levados com muito esforço
e não cansa de achar uma insensatez exata que se divida seu corpo quando permanece intacta
se por acaso lhe ferem na ânsia de consumi-la mais transita combatente nas encostas desta lida
e molha-se no suor caído de suas trilhas transpirando essas matas em recorrente vigília
e da-se por contente quando no fundo da alma arranca um riso camponês que se espalha pela cara
e vê o futuro geral em que escreve sua fala assim meio escondida nas palavras que guarda
106
Pátria locução em transe e esperança
não! as manhãs não se cerraram o povo ainda é o norte mesmo quando as vozes calam
não! os sorrisos não murcharam ao contrário, vigem é que se fazem tímidos é que se fazem tristes na pouquidão humana dessa noite em riste
não! os amores não marcharam de dentro do peito como uma catapulta voam pelos soluços, à espreita, e brotam enormes na grande aurora brasileira
101
Famélica introspecção com ligeiros traços de fuga
quem me tirará da boca o gosto amargo da miséria? e essa cabeça que boia no juízo como uma balsa incompleta? quem mastigará o pão que cresce nas esquinas do tempo e que nas mãos soluçam como aves fartas? quem balançará nas redes que a alegria arma no peito das inconsequências? quem chorará os risos que do mais fundo surgem como palmeiras debruçadas nos ombros do mundo? quem amolgará tanta matéria nas pontas de rosas desses dedos que desabrocham as manhãs com a obesidade das circunstâncias? quem porá rédeas nas carnes para que elas não sufoquem os quilos mais tangidos da felicidade? em que horas mastigaremos as peças mais exaustas da angústia? quem soluçará por nós as horas passadas em desespero quando o riso escorre da boca com a mesma intimidade do medo? quem suspirará de saudade quando não mais restarem todas as chagas da cidade? quem, por fim, soletrará o meu discurso quando os pães soterrarem minha boca e a vida tornar-se um valor-de-uso?
165
Batalhas ensimesmadas com ligeiras fugas
quando estou já me sinto matéria e norma meus instintos
e digo-me repente na dor e na fuga e nas formas mais gerais dessa ditadura
e sou, com a faca nos dentes, a revolta do homem contra esses repentes
85
Do poema em militância
que o poema se permita derramar-se farto na politica
e não se proste só nas formas num gotejar esnobe isento da história
é que a arte abarca o mundo e todas quantas peças debrucem sobre tudo
120
Do pintor em declarada ânsia
o gesto repete o sonho em tirar do bolso o encontro
nas cabeças restam chapéus voando, borbulhando no pincel
do ato resta a vontade de pintar a cor da liberdade
74
De Eldorado dos Carajás em bruta rima
agrária a vida permanece no leito moribundo de suas vestes
a terra assassinada perde seu jeito de ser estrada
até que um dia de repente o povo desarrume tudo que enfrente
143
Pequena história do meu país
burros de carga, cangas cio do futuro vermelhos mandacarus, réguas de prumo e a noite alinhando-se lenta na esquina transitória da tarde. Quem guardou o tempo no bolso? Dizei, camponês, para que não ardas nessa saudade intensa daquilo que não sabes. Era um dia um menino curvo turvo como sua fome e que tinha num desvão do peito uma semente curva de homem. Brancos acenos, velas de cera e o Amazonas debruçado chora essa noite brasileira. Quem regou os olhos dessas marias para que se desfizessem mansamente nessas léguas de pranto? Dizei, mulher, para que não caibas, assim impunemente, nessa lagoa rígida de sentimento. Travaram o dia com uma noite dentro.
66
Cordel da impaciência
Quelé, Clementino, onde vais nesta hora? Vou com João, com Severino, vou com Penha, vou com Dora forjar um novo destino no espinhaço da história
levo a faca levo a fome levo a morte e o talvez trançados na minha sorte que, por sorte, rebelei cansei de ser tão escravo e, agora, ponho-me lei
nos caminhos desta vida bati muita continência hoje levo a paciência pendida no meu facão e tanto mais me digam sim eu repetirei o não que venha sempre comigo esse desejo desse chão
104
Ode à mulher das esquinas
neste teu mercado de tão viva tecitura trazes o amor à tiracolo como te trazem à mão nas noites nuas e não te dizes tão noturna quando assim na cama despetalas as últimas frações de gente com que a vida te declara
e neste químico mister de tecer o amor em cada esquina coletivizas um prazer exato distribuindo em vão tuas albuminas é assim como um parto fictício das profundezas de tua sina
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.