Lista de Poemas

Das conveniências do sono em ritmo alheio

jogo às manhãs
os restos da noite
como quem garimpa o tempo
na luta do povo

e nas costas da madrugada
perdura o conforto
da certeza do futuro
e a ilusão intensa do novo

como é bom acordar
no sonho dos outros !
83

indígena apreciação da vida

indígena
assim primitivo
deixo-me estar futuro
em todos meus indícios

a vida
que transito sem datas
é a intrínseca razão
da humana prática

e consumo
como uma planta que invento
as patentes das matas
e as mercadorias do tempo

é que a vida é assim simples
como um cocar ao vento
128

Da constância do verso em diferente âmbito

no papel
o verso deitava
com a ilusão intacta
de que a caneta
era o caminho
por onde passeava
e o poeta dirigia
o fraseado da alma

no teclado
o verso salta
com a ilusão intensa
de que é astronauta
e voa um cosmos informático
com um algoritmo nos braços

ainda bem que a poesia
permanece em seu encalço
63

Inventário em bemóis e disfarçadas claves

o violão
inventa nas cordas
um transeunte contumaz
que arquiteta notas

os bemóis são gorjeios
que revogam as claves
e suspiram acordes
nos ombros da tarde

o violão é inventor de calmas
e nem sabe
62

Resenha dos 69 em idade e volição

aos 69
tanjo o tempo e a liberdade
com a simples compreensão
de que sou tarde
mas trago ainda nas mãos
a chave exata da vontade

o resto é remar a vida
nos barcos em que me caiba
81

Do perdão em rasa cena

e na mente
as pegadas da culpa
inventam os atalhos
em desculpas
tudo que é vontade
da-se às escusas
da liberdade grávida
das escutas

o favor do perdão
é só uma bandeira difusa
que tremula a palavra
como um gesto de luta
111

Pião de mim em brinquedo

infante
meu pião sabia
todos os verbos
do que me dizia

é que girando
rodava meu mundo
e pintava na terra
os destinos de tudo

hoje, meu pião cogita
declarar-se guerrilheiro
rodando no vão dos sonhos
em que me semeio
94

Da contrição e seus teatrais invólucros

os céus de que me visto
têm todas as dúvidas
dos infernos que tangem
minhas culpas
e por tê-los inventados
nas rugas dos enredos
hei de tê-las enormes
nas lacunas do que devo

é que o céu é só um jeito
dos infernos que criamos
no avesso do mêdo
111

O pulsar da prática em coletivo instinto

a prática divide
como oficina
o homem e o próximo
em matérias-primas
tudo que lhes alcançam
dá-se por paradigmas
uns dados no exercício
outros dados à míngua

tudo que versa a prática
é o fato como estigma
118

Onírica menção aos deveres da razão

o sonho
singra a vida
como um transatlântico furtivo
que navega todos os mares
de todos os sentidos

é como uma resposta
sem pergunta
no calendário desajustado
dos meandros da luta

ao homem cabe apenas
isentá-lo de suas culpas
127

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.