Lista de Poemas

Pensar em debandada marcha solene

a razão
é só um disfarce
que a verdade intromete
nas nervuras do fato

joga a palavra
em sonoras teses
como co-autora
do que a vida tece

pensar é um caminhar solene
naquilo em que, humano, se esquece
133

Marítima locução de ondas e viventes

quando rola na praia
no colo de suas ondas
o mar apenas discursa
os ventos e suas sombras

é que no leito, deitado,
dessas areias e pedras
dá-se como resguardo
destas grávidas terras

e transmite ao vivente
esse desejo fugaz
de inventar todas as ondas
dos mares em que se traz

e ao homem resta ser o mar
das ondas todas do que faz
116

Da vivência e seu caudaloso rumo

admito
a vida é só um exercício
há que tê-la no próximo
e vivê-la num ônus coletivo

a razão de sofrê-la
é só um indício
de tangê-la sozinha
por descaminhos e ritos

admito
em tudo que se explicita
viver é só um espetáculo
da construção coletiva

ao homem cabe apenas
arrumar o jeito da vida
trazê-la nas cachoeiras
dos rios em que desliza
e desembocar nesses mares
dos mundos de onde grita









113

Coach e compliance em frugal demanda

cheia de coaches
a vida estremece
em compliance estado
do que a tece
o cifrão das esquinas,
adredemente estabelece:
todas as vidas
renderão suas preces
e os juros serão dos poucos
que cogitam em números
o que exercem

aos tantos resta a fome
dos construtores da messe
73

Algoritmo temporal dos futuros em tese

vivente das horas
o tempo trafega
como um lapso temporal
de nossas esperas

urde no crânio
um labirinto exato
dos futuros que guarda
em seu regaço

e quase sempre anoitece
quando ainda somos tarde
111

Da divina inclusão dos viventes

e deus
na sua inexistência
desgoverna o mundo
em contritas avenças
como se fora exata
sua liquidez e permanência

tudo que lhe delata
é uma breve consciência
e a necessidade urgente
de conformação e paciência

e dobram os sinos da vida
na procissão do que se pensa
100

Das humanas contrações do sentimento

humano
deixo-me estar amando
simples usina e chama
daquilo que sonhamos

do coração
aos pulos
pula a razão
todos os muros

e usineiro de mim
amo o povo e a amada
com todos os laivos
da urgente madrugada
64

Pacífica redação de uma paz ausente

ainda bruta
a paz labuta
em todas as guerras
que a lutam

bólides e bulas
de acordos e rusgas
canhões pacíficos
da mortal disputa

marcos e marcas
de monetárias alças
dos fuzis comprados
com o suor da massa

e assim adredemente difusa
nas entrelinhas do mundo
a paz abandona todos
pelos caminhos de tudo
60

Das mundanas matanças em revista

Auschwitz insiste
em declarar-se presente
na monetária hemoptise
e os privados pulmões
vomitam a mundana crise

tudo que lhe tange é a notícia
de que o sistema cogita à vista
permitir-se matar os homens
como avanço da estatística

e o mundo embarga o futuro
nos autos do processo absurdo
103

Em aditamento ao trâmite das horas

nos dias
em que as noites não terminam
e cumprem esse tempo
como recorrentes oficinas
construindo a escuridão
das vidas e das esquinas
há que tanger os fatos
pelo curso da memória
e retorna-los intactos
aos braços da história
para tece-los novamente
com as linhas das horas

ao homem cabe um tempo
de adiar todas as demoras
91

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.