Lista de Poemas

Dissertação à bandeira do meu partido

nesses ares de pomba
nenhuma mansidão é tanta
que possa calar o grito
que drapejas nas gargantas

não um grito que apenas boie
na balsa intensa dos ouvidos
mas um clamor que em si confunda
a instância mais pública do infinito

nesses ares de lençol
estendido pelas avenidas
com o vasto sonho das dúvidas
e as certezas mais empedernidas

e nos ombros do comício
assim flutuas a jangada da vida
nos mares que o povo inventa
em todas suas contraditas
86

Da arte em hipotenusas e malabares

a arte enfim
não é só um contrato
de afagar o cérebro e arrepiar as emoções
em lúdicos sobressaltos

é uma mentira exata
tangendo uma verdade
que a gente traz por dentro
e nem sabe

é uma verdade plena
de quem constata
sua feição de pluma
e de máquina

a arte cabe inteira
em todas as matemáticas
104

Da verdade em factual vigência

a verdade,
seja dito,
monta no fato
escondida:
é que há uns tempos
de parecer relativa

a verdade
acredita
que o fato é só um barco
onde se explicita
nesses mares avaros
em que habita

ao homem
restam os indícios
de vive-la como fato
nas esquinas do possível
74

Do amor em vaga militante

o amor
é um poema avaro
deixa-se estar a dois
e perdulário
comete-se nos infinitos
em que se declara

o amor
é um poema caro
custa todas léguas
que decorram
dos enredos das palavras

é que o amor assim militante
é uma usina inteira da alma
58

Das pedras em continência

assim empertigada
nos ombros da natureza
a pedra apenas comenta
uma incauta certeza
os ventos que equilibra
em estática paisagem
tem a insistência das pedras
e a fluidez das miragens
é como se o espaço montasse
o tempo em que viaja
74

Elegia com saudade e ânimo

era primeiro
o que não se tinha
mas que havia e tanto
um gosto avulso na cidade
um tempo atravessado na garganta
era um fastio grave
e uma greve enorme
de tudo aquilo que se sabe

logo depois
num raciocínio mais afoito
o que se tinha, tem-se e tanto
na caverna mais rasa do esforço

salta nas mãos
um objetivo magro
de rasgar os sonhos com os dedos
e remoer a vida num trago

e de repente
a uma nesga do que se tinha
grava-se o coração urgente
num grito concreto
de ânimo, carne e repente
115

Da insuficiência lírica em discurso

meu eu lírico
é louco e indeciso
nunca administra unânime
os verbos de comícios
é que faltam palanques
para ter-se contrito
nas orações em que o poeta
debulha seus escritos
nesse rosário intransigente
de tantos adjetivos

é que o verso às vezes intenta
muito mais do que é preciso
139

Da midiática vazão do sistema

na manchete
o sistema diagrama
os centímetros ineptos
de neurônios e enganos

a frase inóspita
posta necessária
cabe no homem
como resposta vária

e a informação
como um fuzil troante
dilacera a razão
do pretenso pensante

informação é só um disfarce
semeando letras e sangue
112

Da crise em rápida viagem

a crise
é só um levante
que a vida constrói
como uma ponte

no seu desarrumado
há uma ordem constante
em que as respostas explodem
nas dúvidas dos ontens

e as vidraças quebradas
são janelas bastantes
por onde o futuro voará
como uma garça no horizonte

a crise é só um esgar
em que a felicidade se esconde
71

Dos açudes líquidos e viventes

o açude
é um mar retraído
todas as suas ondas
estão contidas
é que o esforço
em parecer pacífico
cobra-lhe dos ombros
o sacrifício
precisa sempre estar calmo
apesar de todos os conflitos

o açude da alma
é extremamente lascivo
arrebenta todos os mares
para estar consigo
74

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.