Lista de Poemas

Gritos, bandeiras e as mãos do futuro

gritos serão bandeiras
em gargantas hasteadas
para construir as esquinas
da grande madrugada

mãos serão bastantes
para todos os abraços
e os afagos urgentes
na liberdade que nasça

e os homens
viverão a estranha matemática
que faz de todos só um
no dorso unânime da prática

alinhavar o futuro
é jeito de astronauta
63

Antropofágica procissão em termos

antropofágico
o sistema delata
as ruas da morte
que asfalta

exato canibal
enganoso e mórbido
desenha iscas
para humanos bólides

e no meio do caminho
nas rasuras do medo
a vida regurgita o espaço
na esperança de rompê-lo
125

meu tempo em resenha flagrante

pela manhã
assim de repente
o tempo esqueceu
de estar contente
e eu chorei as horas
tão perdidamente
que esqueci meus olhos
nos ombros do presente

pela tarde
assim vadia
a vida boiou nos mares
das ondas que eu dizia

à noite
o futuro nasceu
como o novo dia
102

Discurso dos 29 anos

a vida
aos 29 anos
diz que está dada
nos metros engolidos
na certeza da estrada

não que esteja presumida
em uma moldura intacta
mas que começa no peito
e se engravida da prática
explodindo o coração
no amor urgente da massa

a vida
aos 29 anos
carrega mil sonhos no bolso
misturados a afetos
molhado nas amarguras
mas intensamente transparentes
nos ombros da ditadura

a vida 
aos 29 anos
é de um amor patente
que se derrama pelo vão dos olhos
que esmaga o coração por entre os dentes

dos 29 anos
digam-se mil
sofrendo dessa américa
no meio do brasil

e neste tempo debulhado
por entre os nós dos dedos
por sobre o chão da face
murcharam todos os medos

a vida agora é uma luta
vivida frequentemente
no meio da transformação
que habita essa gente
51

Da dialética pretensão conjuntural

a síntese
resvala
nos descaminhos
das teses que propala

a antítese
nem se cala
nos ombros das sínteses
que ataca

as teses apenas indagam
em manifesto
a solidão dos homens
em seus nexos
105

Das origens e povo de rosa e gente

rosa
originalmente
de proteínas humanas
plural processo e drama
do  progresso: substância

rosa
plural menina
contrariamente
embrião e albumina
do processo e do futuro
constantemente

rosa povo
futurável e urgente
da fruta do novo
como semente
75

Da coronariana vazão da vida

o coração
nem sempre é pouco
que um pouco de razão
não lhe dê fôlego

o coração
caminha avaro
nas razões que pulsa
em seu resguardo 

o coração
quase nunca é pouco
que não caiba em seu vão
um pouco do povo
99

Dos aviamentos e vieses

aviarás a vida
em receita avara
nas gramas do ser
dos teus pesares

aviarás a vida
em receita farta
nos risos bordados
nos desvãos da alma

aviarás o outro
em receita coletiva
em que te disponhas
a cometer a vida.
113

das pendências regulares da vida

de tua face
pende a vida
insuspeita ordem
de tua lida
em construir um tempo
em que decidas
tê-la presa aos outros
numa intensa desmedida
86

A coletiva messe da paz

entre aflitos
ninguém é neutro
e sem grito
tudo que tange a aflição
ressoa coletivo
desde a multidão
até o indivíduo

a guerra é plenária
de todos os sentidos
nada subverte o modo
de sabê-los decididos
95

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.