Lista de Poemas

Do ser e outros

moenda de mim
invento o novo
nos saltos que construo
no jeito do outro
 
moenda de mim
giro inconcluso
em todos os nadas
que existem em tudo
 
parecer-se humano
e só invenção do uso.
156

A toque de soneto em quase verso

nem do só viver morra o presente
naquilo que sobrou pelo passado
e que se tenha futuros renitentes
nas construções do tempo desejado

que a vida inteira se contemple
como um devir presente no espaço
em que todos avançam adredemente
a construção coletiva do abraço

flua desembestada, assim como corrente
dos rios todos e tantos desses mares
que navegam o jeito de todos os viventes

deite-se na instância tardia e quase urgente
em que se tenha futura em seus olhares
abraçada aos fatos de todo seu presente
63

Tributo ao Camarada Pablo Neruda

no Chile
as pedras voam
rompida a gravidade
entre os segredos das ruas
e o peito da cidade

Neruda,
gerente do poema,
arquiteta palavras,
ainda morto,
na exata relva
que lhe cobre a alma

e as pedras
encenam seus poemas
grávidas de amor
em seus gestos de arma
119

Sonata II de introspecção

nem a minha saudade
por se ter tão vasta
preencha o quanto de tua ausência
em que se diga ávida
ou que se fora pouca
ou que se faça marca

meu coração
é uma bandeira exata
de tremular em ti
na tua falta

nem a minha vontade
tenha-se controlada
em distribuir tua voz
no vão dessa cidade

meu coração
é um motor inato
de sempre ter sido tão em ti
voraz e automático

não dessas energias
que se filtram aos pedaços
mas que em cada novo gesto
descubram assim tão de repente
que a vida sempre boia nos teus olhos
comigo apenas navegante do teu jeito

nem os infinitos
que se contam comumente
ousem desembaraçar em ti
aquilo que em mim
é de te ter tão vasta
e condição de me ter como vivente
100

Minudências da vida em relance

o triz
é só um descuido
do que por um triz
não se quis futuro

é como se o passado
perdesse o compasso
e esquecesse no futuro
só um pedaço

a gente, por um triz,
deixa um triz no espaço
138

Das flexões da alma em lúdico rompante

os exercícios da alma
são flexões diferentes
o músculo é o juízo
como ofício de gente

é assim um exercício
que explode de repente
e nas esquinas do mundo
apascenta os viventes
nesse consumir-se largo
de futuros, passados e presentes
nos saltos que o tempo dá
nas sinapses urgentes
104

Ode informática ao negro Manassés

dos eletrons
nem sabias 
que teus dias
não eram dias
mas noites que em ti
traziam auroras
sem serventia

teu átomo
se tão exato
perdeu-se na concepção
que tinhas dos teus passos

e foste cursor
do drama em que estavas
lavrando apenas a insurgência
na raiz de tua alma
99

do poema em trânsito fugaz

o poema costuma
voar dos lábios
e pular nas almas
nos ombros das palavras
roi entranhas
e desarma
quando, engatilhada, a vida
lhe desfralda
e é bruma e brame
encapela-se nas tardes
quando sangue
mas, antes de mais nada,
o poema tece em chamas
nas rendas do peito
os bordados da alma
115

Coletivos de mim em plena messe

quanto mais eu perceba
como tu percebes
mais ainda o coletivo
me persegue
é que vário
não me entregue
a ser só indivíduo
em cada messe

a pluralidade de mim
é só um aviso
dos coletivos 
que a vida tece

despejá-los em mim
é só uma tarefa adrede
58

De Maria Pajeú em bailarina urgência

na dança
em bailarina avença
Maria Pajeú
é uma África imensa

em sua pose
os tambores gritam
todas as esperanças
de uma massa aflita

frente ao divino
como uma garça urgente
Maria Pajeú
dança todos os sonhos que pressente
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.