Lista de Poemas

Pequena balada da vergonha

no lixo
um pedaço de queijo
é uma rosa amarela
enlaçada nos olhos
do menino que a revela.

nunca que soubesse
que todos os seus medos
medem mais que seus sentidos
amarrotados, assim,
nos seus cabelos.

nunca que soubesse
das possíveis traições
que as rosas tecem
nos vãos de seus perfumes

do veneno 
restou a morte, o acinte 
e uma infinita vergonha
nas ruas do Recife.
42

Das bigornas do mundo em confluência

as bigornas batiam no meu peito
e as cores desmaiavam em confins
e com a morte, monstro afeito
às diagonais do universo em mim,
a febre dos contrários me insuflava
jogando milhões de bombas no meu peito
105

Filosofia em ritmos e fatos

a filosofia
é uma verdade arisca
tanto mais esconde
mais explicita
o que vem do homem
nos fatos que exercita

em verdade
dá-se à vida
como uma lente
incontida

a filosofia é um fardo
atado em desmedidas
impunemente plantado
nos roçados da vida
86

Do peso dos passos

o homem
traz preso nos passos
o peso da sua ausência
em tudo que não foi passo
caminhante
das ruas do pensamento
deixa de inventar espaço
na dosimetria do tempo

caminhar é só uma urgência
quando o fato é complemento

87

Demarches da construção do mundo

a mais-valia
escondida, habita
o concentrado êxito
da notícia

em curso
os valores usam
todas as trocas
e todos os abusos

o suor do operário
é só efeito
dos salários despejados
em seu peito

a produção é uma usina cínica
de notícias e seus enredos



62

informes e batalhas no campo da massa

plástica
da forma
elástica
norma

plural
estrutura
famigerado
informe

a luta
enorme
bruta 
e intensa

da moenda
no canavial do povo:
p(r)ensa
68

Metabolismo em rasante manifesto

meu metabolismo
é um trânsito intenso
das estradas que em mim
moldam minha essência

proteínas, glicoses
enchem meus neurônios
com a razão de admitirem
a montagem dos meus sonhos

a razão de minhas células
é a condição urgente
de estar ombro a ombro
com o que me sente

viver é só metabolizar
nas estradas de gente
65

Das felinas razões do exato

o gato no salto
é arquiteto nato
dos metros que define
quase exato

de suas abcissas
prolate-se
qualquer lacuna do tempo
em que se desate

porque em ser felino
nem se aperceba
das exatidões que põe
sobre a natureza

47

da coca cola e outras efervescências


é preciso
que a morte sobreviva
no lucro inconteste
de todas as medidas

na garrafa de Coca Cola
a morte explicita
os líquidos todos
que nos habitam

há que molhar a garganta
de quem se suicida
morrer é quase um viver
quando o sistema diga

e no cartaz luminoso
subverte-se a desdita
de quem foi incapaz
de alinhar-se à vida.

a coca cola
efervescente
engole a razão
adrede(mente)
100

Da desinformação e outros dramas

primeiro
é dada ao incauto
a ilusão de que comanda
os seus dados
fluem argumentos
pretensos fatos
a mídia cobre de favores
o desinformado
em poses graves
a informação pontua
tudo que os senhores
querem das ruas
o desinformado
já não discursa
veste a camisa de uma verdade que nem é sua
e a abraça
com a sofreguidão
de quem utiliza a vida
à contramão
tudo que não é seu
é seu refrão

então o moderno
é ser latente
estar sempre
num trânsito diferente
o homem passa a cursor
dos mouses de quem nem sente
bebe os bites transversos
de uma verdade incoerente
aquilo que é a paz
bebe a guerra de repente

engenheiro ineficaz
o incauto nem pressente
que a base da construção
é sua vida inconsequente
e a democracia é apenas
uma palavra morta
e incoerente
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.