Lista de Poemas

Das mortes e vidas em trajeto

volto à terra meus neurônios
em estática pose
de quem cumpriu a história
e não mais se coube

passo de animal
a mineral e outros
estudado em cartilhas,
genérico e quase todo

mas saio da vida
um tanto endividado
por ter arrecadado emoções
em infinitas quantidades

morro como homem
para viver no que me caiba
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Da racional feição do caminho

a vida
é exato invento
quando em porteira aberta
do pensamento

é que o pensar
é um viver diferente
que se esparrama no verbo
tão flagrantemente
como uma usina tenaz
de tudo que se sente

tanger a razão no peito
é navegação recorrente
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Caminhos, veias e vertentes

ruas 
são veias do povo
um rio de sangue
em alvoroço
que molha a história
e pressente
os futuros que caminham
nessas vertentes

ruas
são destinos urbanos
num agrário panorama
que traça a terra dos homens
nos passos e nos dramas
que a vida carrega pelo ombros
até que seja chama.
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Da pandemia em oníricas visagens

e as razões baldias
soletradas entre os dentes
dizem o grito que havia
no vão desses viventes
como se fora um clarão
num céu inconsequente
é assim como um riso
que chorasse de repente
e jogasse pelo mundo
uma tristeza contente

é como se uma pedra
furasse o sonho da gente
nessas dialéticas futuras
que enxovalham o presente
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Grávida manhã em lauto percurso

se faltarem as manhãs
nas alegrias da tarde
escalaremos as horas
em militar estado
e as traremos continentes
nos braços da madrugada

manhãs são fragmentos
postos à mercê do espaço
para que o homem discurse
os anoiteceres e as tardes

é assim um parto do tempo
em todos seus avatares
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Das guerras em mim e armistícios

das guerras que cometo,
assim pacífico,
melhor contê-las desarmadas
em largos armistícios
é que as armas da razão
atiram artifícios
calados verbos rasantes
nas costas dos gritos

das guerras que cometo
apenas identifico
essa necessidade da paz
em que me habito
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Das medições cósmicas em singela vazão

o universo
é só um distrato
da ordem finita
de todos os esquadros

tem-se em réguas
por desacato
àquilo que por léguas
dá-se como palmos

e o homem avaro e imediato
mede apenas seus sobressaltos
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O tempo em suas contrações e usos

há dias
em que não vou ao futuro
deixo-me passado
nos presentes que procuro
e esse tempo
como um abuso
torce as horas que crio
dos futuros que uso

é assim como um mergulhar
nos mares do meu discurso
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Atômicas razões dos caminhares

o íon
balança o àtomo
nas redes incautas
dos fatos

a matéria
diversa e grávida
dilacera seus àtomos
nos muros da prática

e os homens
nessa atômica pauta
carregam os encômios
de suas passeatas

é que palavras são elétrons
que se jogam nas marchas
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Virtuais intentos da crise no composto verso

em crise
o poema assiste
as ranhuras da vida
e as do poeta, inclusive

o eu lírico
adormece a fala
nas esquinas verbais
em que se declara

a vida, o poeta e o eu, todos líricos,
inventam a madrugada
como um tempo urgente
de montarem nas palavras
e escoicearem pelo mundo
os verbos todos da alma.
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.