Lista de Poemas

Da palavra em diverso plano

a palavra
é um tanto avara
nem tudo que diz
às vezes declara

é que espelho
de um ato profuso
voa como simples
em complexo uso
e soa como presente
adivinhando futuros

e quem a traz
fugindo da boca
nem percebe a viagem
e as inversões
de quem a ouça
90

Palavras ao guerrilheiro Osvaldão

o Araguaia vagando
rasga líquido a terra
sentindo o gosto da pátria
nos meandros da guerra

Osvaldão vigente,
ainda camarada,
vive coletivo e guerrilheiro
em todas as estradas

aquelas que o povo inventa
nas lutas, com seu jeito,
e as das guerrilhas
que trazemos no peito
140

Contrita sujeição das estacas do mundo

descerá das horas
um jeito submisso
de tornar-se escravo
de ritmos e ritos

a vontade
guardada em trânsito
imagina-se num desmaio
de todos os ângulos

e o homem ajoelha-se 
na contrição dos rumos
como se fora resposta
às dores de tudo

e nem repara nos braços
que carrega o mundo
41

Posologia das horas em trâmite

ao futuro presente
cabe um passado
contumaz e renitente

tudo que se luta
nas costas do tempo
como uma saudade
resvala lá na frente
assim como um girassol coletivo
esperando o nascente
86

De Olinda recatada no calado do frevo

o frevo assim calado
nos ventos da pandemia
estanca milhões de passos
nos ombros das avenidas
e leva, assim de roldão,
um bom pedaço da vida

é que o grito do carnaval
quando se alastra no peito
é uma represa de gente
prendendo o passo do frevo
é assim uma coragem
fantasiada de medo

Olinda engole calada
a sombra do seu enredo
80

Das delações da vida em trâmite privado

nos meio dos atos
cada um retrata
as várias razões
em que naufraga
e pulsa nas ruas
os rios e rumos
dos sonhos que navega
nas costas do mundo

no meio dos atos
cada um tremula
as bandeiras da vida
nos mastros da luta

e a vida é uma serpente
rastejando aventuras
127

Universal roldão dos caminhos do mundo

o universo
em seu andar e desfastio 
é uma eterna recorrência
de todos os seus ritos

corre em sobressaltos
nos descaminhos e largos
em que se derrama pelo homem
como um infinito contado

o homem em seu pulo
na razão de que se vista
deixa-se pensar absoluto
na condição de sempre relativo

é que o universo galopa sozinho
as léguas que nega a seus finitos

43

União dos tantos como um coletivo

ombro a ombro
a vida se abraça
e a unidade grávida
quer-se infinita e plástica

e nesse contrato
a manhã de todos
é a véspera formal
do grande ato:
todas as noites do mundo
caberão nesse espaço

ao homem resta somente
distribuir seu jeito nesse abraço
96

Factual ensejo do poema em exegese

o fato
como navalha
corta o jeito
da palavra
e avança afoito
como declara
a imunidade
intrínseca do que fala

o poema
como uma lança adrede
só enfeita seus ombros
com o dizer do que tece
79

Da dízima do tempo em clara sinergia

a velhice
é só um jeito
que a juventude dá
dentro do peito

é que o tempo
é cachoeira fecunda
dos rios que se inventa
nos fatos do mundo

envelhecer é só cursar
a mocidade de tudo
113

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.