Lista de Poemas

De Camilo Cienfuegos e a história andante

Camilo Cienfuegos
em póstuma vigência
espalha inventos
pelas consciências

é que a história
arma-se no tempo
como um gesto etéreo
dentro dos viventes

e atiça todas as avenças
como um desejo isento
que enfeita a luta do povo
nos rumos do momento

nada como reviver
fuzis, palavras e inventos
100

Comícios em declarada vazão

nas larguras dos gestos
as mãos deflagram
todos os protestos
nos ombros da praça

sobre a multidão
como uma garça
a liberdade aponta
os trejeitos da massa

e o verbo voa nas horas
uma sofreguidão incauta
de quem monta a história
com as vestes da prática
82

Das metragens do amor em claro rompante

o amor esparramado pela cama
transcorrido assim dentro da gente
diz que se faz de quase drama
de atores que criam o presente

e ultrapassa o retângulo da cama
no matemático limite reticente
de que os infinitos quase medem
as larguras daquilo que sente
99

Palavras à Cidade Ho Chi Min

em  cada coração
borbulha impunemente
um vietnã escondido
engavetado na gente

e se sobe à garganta
engasgado na palavra
esse vietnã não mata
mas frequentemente arma

e em cada liberdade
como um recado sem fim
viceja uma ilusão exata
da cidade Ho Chi Min
79

Os simulacros correntes em norma coloquial

eis o simulacro:
nem sempre me encontro
onde me acho
o corpo apenas responde
uma razão 
que nem me basta

eis o simulacro:
palavras são pavões
que se embaraçam
nas cores indefinidas
das humanas caudas

eis o simulacro:
as circunstâncias nem admitem
o que ainda se tenha de razões
ou simplesmente de desfalque
tudo atiça a ilusão
de uma pretensa liberdade

eis o simulacro:
os dias ainda são manhãs
que renitentes se declaram
e o futuro sempre cabe
nesse intenso desabraço
74

Das vaquejadas informes da mente

rápida a mente
salta no fato
e virtualiza o tempo
do seu ato

lúdica
em sinapses
joga um riso público
pela face

e o homem,
vaqueiro e privado,
tange o mundo em si
com seu jeito de gado
107

poeminha de construir futuro

o amanhã
é só um jeito
que o tempo esquece
pelo peito.
carga que não seja tanta
quando o futuro que se declara
habite nas mãos e na garganta

37

Das vivências e suas maquinações

rasuro minha angústia
com o riso ininterrupto
de quem convive farto
com os cheiros do futuro

nado nas manhãs 
em que lágrimas baldias
tecem um desejo de tange-las
montando alegrias

é que viver é um formulário
preenchido a cada dia 
remetido aos ombros do tempo
com o gosto que se vivia.

134

Ilações em jangada e olhares

a jangada
borda o mar com sua vela
e transborda nos olhos
como ondas e vazantes
esse nosso desejo intenso
de horizontes

e assim como flutua
nas esquinas do olhar
adormece todos os sóis e luas
lavrando as costas do mar

e deixa dentro do homem
as velas que inventar

49

Das índias funções do simples

na taba
a liberdade grava
o rito exato
da palavra

em passos
a tribo instala
a dançarina ética
das almas

simples
e desmedida
a aldeia comenta
a própria vida
92

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.