1971
Lista de Poemas
JESUS VÊM
Sem tato descarto o que é santo, sem manto sou rebelde desencanto, sou flagelo. Cúspide do zangão amarelo, ferrão de morte, sem sorte. Cego vago pelo tato, sou extrato da conformidade que tropeça, que cai e recomeça. Sou um, sou mil, um milhão sem fronteiras, buscando a paz, um lar, recursos, às eiras nem beiras, besteiras. Todavia nem o crido ou o cético as vezes tem um canto, todavia tem espanto, pranto. Mãos calejadas, cicatrizes não fechadas. Aonde tudo isso vai dar, para o grande ou o pequeno na terra não haverá mais mar. O que esperar, quantos já se foram e quantos ainda virão. Para falarem de lucros e riquezas, quantos ainda esperarão.
Sou desassossego, vaidade, asperezas, todas as belezas murcharão. Sou todo olho que cego vaga vão apoiado num frágil bordão. O tropeço, a queda, o recomeço, tudo tem o seu preço para a mão que balança o berço. Sou diapasão que afina o instrumento, homem cego que toca a nota distinta no certo momento, e ouve o sonido da trombeta. O arrebatamento. Jesus vêm.
Erimar Lopes.
A MÃO ESTENDIDA
Meus braços já perderam as forças
Meus pulmões inalam ar poluído
Minha senda tornou-se-me em forcas
Meus olhos cansados, semblante caído.
Meu querer sempre foi ignorado
Minha paz por cruéis foi roubada
Fazendo o meu lar alvoroçado
Minha amada de mim foi tirada.
Aqui ninguém que me queira ou console
Quem devolva minhas conquistas
Só sinto abandono em cada gole
Do fundo do poço que me faz visitas.
Às vezes vejo uma mão estendida
Já tentei segurá-la e me firmar nela
Mas meu coração bate em recaída
E minha fraqueza vil sentinela.
Já desprezei a solidão e a morte
Que me confortem poucas lembranças
Nesta escuridão tenho tido sorte
Pois ainda vivo sob más ordenanças.
Quem me dera as suas mãos
Quem me dera águas passadas
Quando me esperavam corpos vãos
E eu entrava a ti nas noites douradas.
Quem me dera mais uma única canção
Sob doces olhares com nostalgia
Quando sentia sua aveludada mão
Nos desfechos sussurros de alegria.
Ah meu querer, sempre desprezado
Eu não posso morrer sem redenção
Nem seguir tragando cálice batizado
Para que eu possa alcançar minha bênção.
Erimar Lopes.
AS COISAS MUDAM A TODO INSTANTE
As coisas mudam a todo instante, o tempo é volátil.
E há fases de um sofrimento constante, mas que nunca é táctil.
Na volatilidade desta vida, o amor. Ele que fomenta sonhos e fantasias.
Que chega tão cedo ou tão tarde, ou às vezes não tem hora para chegar.
Que arrebata a alma e a faz sofrer por um querer inexplicável, inexplorável.
Mas também a faz triunfar e se jubilar de gozo quando cremos.
Este sentimento inabalável, que suprime a fome e a sede físicas, mas nutre um desejo insaciável de estar junto, de se tocar, de se sentir, de se conhecer, de se acariciar e de nunca mais se distanciar ou se separar um do outro. Não há como detê-lo, não há prisão que possa contê-lo. Ele é livre por natureza por ser abstrato. É como uma brisa que passa, como o vento que vai e que vem, e não sabemos para aonde vai, quando cessa ou é dissipado. Quando nos toca somos capazes de enfrentar a mais dura batalha, doamos nossa vida, morremos de amor e por amor. Ele nos embriaga, nos adoece, nos entorpece, também nos cega, se faz maldito transformado-se em ódio. E nesta fugacidade dos momentos há uma grandiosidade de vidas vazias que apostaram no amor. Quem sou eu para conhecê-lo! Furtivo. Sorrateiro. Errante. Possessivo. Repreensivo. Puro...
Dono de tudo e ao mesmo tempo sem ter nada. E se vai com o vento, e às vezes volta como uma tormenta e é preciso domá-lo. Amamos sempre os duros de coração, amamos os indesejáveis e desagradáveis, os insuportáveis, sempre na esperança de que eles mudem. Os que são amáveis são recíprocos, mas aqueles somente o amor pode acolher. Onde fui eu entrar, pela porta do sofrimento, todavia as coisas mudam a todo instante e o tempo é volátil.
Erimar Lopes.
O LOBO SAGAZ
O lobo noturno sagaz, mas diurno é perspicaz
Um cheiro de sangue, farejar de longe ele é capaz
Na casa, os moradores a caça que o satisfaz
A fome desse lobo é uma doença eficaz.
Os olhos que não veem o que esse lobo faz
Esse lobo é de fato um enviado de Satanás
Transtorna a casa e se diverte com que o apraz
Leva outros miseráveis famintos atrás dele audaz
Esta casa invadida está fadada à Alcatraz
Prisioneiros da desgraça deixados para traz
Onde o limbo enlouquece a cabeça de um vivaz
Esses lobos ideologicamente entram em sua casa em paz
O lobo sagaz, se não morto, mata de forma voraz
Come a sua carne, bebe o seu sangue e a sua alma jaz
Cuidado com o lobo enviado de Satanás
Na escuridão traz maldição, de dia à porta é sábio loquaz.
Erimar Lopes.
EU SEI O QUE BRILHA
Eu sei o que brilha, é inevitável, eu sei.
Para os céticos a morte os assombra.
Muitos deles sabem o caminho, eu sei.
A morte os assombra, eu sei.
Não há riquezas, poder ou sabedoria humana. São teimosos eu sei.
São relutantes, obstinados, eu sei.
Perecerão em seus bankers ou estações espaciais, eu sei.
Eu sei o que brilha, a luz para todos os homens, Ela é inevitável, eu sei.
Não há para onde fugir, eles pensam que há, mas eu sei que não há. Ainda é tempo aceitável, sem ser remediável
O destino está à porta, a ira, a vingança. A palavra da verdade.
Eu sei o que brilha, a luz que não cessa. Jesus, a porta estreita, o caminho apertado que leva à salvação da alma.
Erimar Lopes.
FAÇA DE MIM
Faça de mim pequenino grão de terra esquecido.
Pisado pelos homens, cuspido e humilhado.
Deixado como milhões de grãos esparramados pelo chão.
Faça de mim espetáculo do Seu poder
para que os homens possam crer.
Faça com que os olhos cegos vejam um minúsculo grão de areia.
Na sua penúria debaixo dos pés que pisam sem piedade mostrar a Sua grandeza.
Faça de mim a Sua justiça e a Sua verdade para os grãos que são pisados pelos homens sem piedade.
Faça de mim alguém importante num cenário de ceticismo onde reinam as trevas.
Faça de mim pequenino um trunfo contra a perdição das almas dos pequeninos grãos nesta geração.
Faça de mim segundo a Tua vontade.
Erimar Lopes.
NÃO SOMOS CONFIÁVEIS?
Por que negamos um olhar quando gostaríamos de ver dentro dos olhos do outro olhar ao cruzarmos uns pelos outros? Parece um instinto, mas não uma atitude racional. Vemo-nos de longe, muitas vezes nos mesmos lugares, acabamos nos conhecendo pela aparência. Por que não nos permitimos, quando o que realmente queríamos era essa troca de olhar mesmo que de relance? Surgem dúvidas quanto a outra pessoa, medo, incertezas, ou pura timidez. Não permitimos nem um “oi”, ou um “bom dia”, baixamos a cabeça, olhamos para o vazio, parecemos acanhados ou defensivos, ou preocupados com a nossa privacidade. O medo do desconhecido, ou caracteres suspeitos. Permita-nos um olhar quando eu passar por ti, permita-nos olharmos nos olhos um do outro por um instante, é instigante. Não tenha medo, somente quero te descobrir. Descobrir o segredo dos teus olhos.
Erimar Lopes.
QUEM PLANTA AMOR NÃO ERRA
Não amar é terra seca
O amor irriga a alma
Quem não ama peca
Traz pedras na palma.
Ressequida a minha alma
As torrentes de amor
Essa água me acalma
Quando elevo meu clamor.
Uma voz no deserto
Onde a chuva não cai
Minha penitência decerto
Meu louvor ao Grande Pai.
Florescerá a seca terra
Rebentará nela renovos
Quem planta amor não erra
Ele é a salvação para todos os povos.
Erimar Lopes.
QUE SONHO!!!
Que sonho! Uma linda amada em meus braços. Linda, muito linda, até medo de tanta beleza. Um regozijo tão grande, tão memorável. Ainda lembro o seu nome: Érica. Vi tudo como um filme que passa rapidamente, um lapso que fica gravado em sua mente. Foram poucos instantes daquela sensação maravilhosa, daquela experiência tão gostosa. Em meus braços, em seus beijos, em seus olhos, em seus cabelos, em seu sorriso, em seus lábios, em sua empatia, em seu desejo, toda a excelência do amor vivo, toda uma virtude de um coração puro. Muitos eram os presentes naquele sonho, pessoas com seus rostos risonhos, não as conhecia, mas estavam felizes em volta daquela união, parecia um devaneio de amor de um coração para outro coração. Acordei com aquela lembrança, até agora sonho essa esperança em meu mundo real, esse amor glorioso que eu possa encontrá-lo sem nenhuma barreira surreal.
Erimar Lopes.
CHÁ DE GRANDE AMARGURA
Se eu disser que sou feliz
Serei como os mentirosos
Da tristeza sou aprendiz
Por anos inescrupulosos
Voo o pássaro que canta
Canto triste desgostoso
Cativo em minha garganta
Meu canto espalhafatoso
Esta angústia frustrante
Quer ficar a todo custo
Matando-me bem adiante
Como se fosse algo justo
Enganou-me sem critério
Desde aquele dia satírico
Vivo todo este deletério
Que ensaia clima fatídico
Dizer que não estou feliz
É a verdade dita absoluta
Pelo desfavor que me fiz
Labuto contrito nesta luta
Chá de grande amargura
Em dias sem frescor doce
Esta alma sofre a loucura
Por uma união tão precoce
Erimar Lopes.
Comentários (3)
amei parabéns
Olá, Erimar. Tudo bem? Gostaria de pedir autorização para usar o seu poema https://www.escritas.org/pt/n/t/119320/o-sabio-homem-e-o-grande-rio
Belo poema