Lista de Poemas
O pastor dos silêncios

Um silêncio quase místico deambula
Pela planície do tempo correndo desatinado
Até deixar pequenos sonhos alimentar uma
Catarse de ilusões comovidas e refinadas
A memória ruiu ladeira abaixo, embalando
Um lamento contristado e tão maltratado
Deixando no redil das palavras tantos ais
Pastando um desejo literalmente sequestrado
Vem o dia agora infestado com uma luz felina
Convidando o perfeito silêncio a desfraldar a
Esperança que mora numa fé imensa e aquilina
Por fim extingue-se toda a solidão e nós encrustados
Numa ilusão efémera e bem confeccionada,
Amarfanhamos esta hora que desfalece, veloz e desapontada
Frederico de Castro
179
Rara é a noite...

Rara é a noite que não coloco entre os sarrafos
Da solidão uma esperança escorada nesta fé
Resoluta gemendo na alma tão carente,
Quase imolada e irreverente
Rara é a noite onde com vestes esfarrapadas o luar
Gentil não cobre a nudez de uma ilusão mais burlada,
Deixando exposta esta escuridão tão ríspida,
Tão concisa...tão precisa
Frederico de Castro
165
Indulgência

Na frota do tempo circula a vida
Sedenta e alucinada, desabotoando
Devagarinho a alegria suprema e fascinada
Pela noite dentro sequestro tantos acústicos
Silêncios que uma brisa apaixonada depois
Disseminará feliz e inanimada
A alma nua, em transe, soletra uma palavra
Quase indecifrável até se alimentar de esparsos desejos
Muito pretendidos…tão dissuadidos, sempre aplaudidos
Como muita prosopopeia o tempo discursa por
Este silêncio caído ali, quase inanimado, deixando
Perplexo o tanger de um eco mais legitimado
Nas noites cálidas e brandas flutua um luar viril
Beijando cada gomo de escuridão tão esfaimada
Para que a noite nos acoite intacta e bem escorada
Fenece a arfar uma saudade frívola e intimada
Deixa a memória a decímetros de uma ilusão confinada
À lembrança que além se queda pasma e chacinada
Frederico de Castro
236
Conversando com um chuvisco...

O céu alarmado abriu as comportas
Do tempo e delas desaguou um chuvisco
Tão radiante…emancipado e viciante
Perguntei a uma nuvem por aquele
Aguaceiro que além pinga e perfuma
Toda a solidão cada vez mais esfoliante
E respondeu-me de pronto afogando o imenso
Silêncio que respinga gota a gota e farta a Terra
Sempre ávida, cordialmente feliz…mais reconfortada
E chovem assim tantas gotas de chuva consolante
Regando e embebedando esta fé gerúndica e anestesiante
Oh, tamanha gentileza que a alma assim recorda tão aliciante
Frederico de Castro
173
Uma colher de ilusões

A noite chega de mansinho em colheradas
De solidão fumegando com imensa emoção
Até coabitar na imutabilidade do tempo
Que se pôs em fuga…numa outra dimensão
Repetitivos e dissonantes os sonhos vegetam
Encastrados numa pluviosa sonoridade, além onde
Os aguaceiros despencam felizes e cheios de serenidade
Até que exaustos se afoguem com plena amabilidade
A noite apaixonada desperta odores poéticos e aveludados
Desenha no altar do amor uma luminescência cordata, até
Tragar cada gomo de luar que se ergue nesta escuridão tão grata
Trago as mãos sedentas de palavras que escrevinho a eito
Arquitecto-as a meu jeito, revivo-as sem ser insuspeito e depois,
Enfeito-as colorindo a vida fluindo, fluindo a preceito
Frederico de Castro
166
Além navega a solidão

Tomba pela face do tempo uma lágrima
Vencida, castrada…quase irascível
Deixando enlutada esta noite que fenece desprezível
Na parada da madrugada desfilam tantos apetecíveis
Lamentos imprescritíveis, que a escuridão depois
Abarrotada de tristezas, desnuda-se num pranto tão indescritível
Caiada pela imensa solidão a manhã desponta abrupta
Embriagada e insubstituível desbravando todas as calmarias
Embebedadas por maresias que se despem numa imensa gritaria
Entre as brechas do tempo sucumbem horas e desejos
Tão absurdamente inexprimíveis, que estes versos agora
Somente se satisfazem com palavras prenhes e inflexíveis
Frederico de Castro
209
Sereno aguaceiro

Abriu-se o invólucro dos céus e de lá
Despencou um aguaceiro sereno
Molhou de mansinho o corrimão dos silêncios
Para que a noite depois sucumba feliz e tão amena
A escuridão imune a tanta solidão deserta num
Eco vagabundo, quase patogénico
Acoita-se na guarida do tempo uivando desafinado
Deixando irrequietos segredos a flertar tão obstinados
Ausentou-se na madrugada marejada de lágrimas, uma
Reminiscência desta fé plantada na toillet das palavras
Corteses, atrevidas, absolutamente ágeis e comovidas
O aguaceiro caindo serenamente rega minha memória
Quase desatinada, deixando pegadas de cumplicidade
Além desarrumadas nas prateleiras onde mora só a saudade
Frederico de Castro
179
O Vírus do silêncio

Dormita agitada esta noite reemersa num
Silêncio, fraterno e extasiado
Acalenta os disjuntores da solidão electrizada
Qual elo fraterno fenecendo electrocutado
Ostento num sonho espevitado uma lacerada
Ilusão quase contrafeita…quase corriqueira
Oh, intima e explosiva emoção que sublime
Te bamboleias entusiasmada e batoteira
Com um olhar distante e sobranceiro ouço o
Pestanejar da noite que chega fofoqueira, saudando
A grandeza das palavras snifando sempre perdigueiras
De não querer mais despedidas disto-me no tempo
Deixando a saudade fluindo à deriva, pelo vírus deste
Misantropo silêncio rebelde, favorito, digno de um piropo
Frederico de Castro
198
Horas mortas

A hora morreu neutra e enjeitada
Desquitou-se da noite que bêbeda e
Discreta, suspira tossindo enferma e debilitada
No exilio do tempo condimento minhas ilusões
Com poções mágicas, apimentando o discurso das
Paixões e das nossas caricias sempre aos encontrões
Rumino cada bago de silêncio deixado na trepadeira
Dos dias e das horas abandonadas, além onde late e
Rosna a solidão desengonçada…tão assustadora e indignada
Num fiapo de palavras corteses desposo a madrugada
Rendilhada de bilros elegantes, bebericando todas as
Maresias cirandando o lustral sorriso cada vez mais extravagante
Frederico de Castro
140
A ponte

A ponte…
Suspensa no silêncio, liga as margens do tempo
E da esperança, atravessando rios e riachos da vida
Trajada com coloridas e insuperáveis perseveranças
A ponte…
Deixa passar este rio que sossegadamente navega
Pra montante,galgando os sensuais atalhos do tempo
E desagua no estuário das maresias mais além a jusante
A ponte…
Que tão esbelta se ergue altiva sobre o rio
Serpenteia a solidão que caminha pelos viadutos
Deste silêncio vagabundeando em reclusão
A ponte…
Sob a laje de pedra ergue-se qual arco sustentado
Nos pilares da fé, numa dinâmica de forças e
Tensões suspensas pelo aço da estabilidade tão quântica
Frederico de Castro
319
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