Lista de Poemas
Indumentária furtiva

Recordo tudo com a memória
vinculada em mim
Engaveto saudades em prateleiras
disponíveis no passar dos tempos
Faculto à liberdade todas as
algemas onde imponho
cada presídio cativo dentro de mim
Deixo pra outros uma
parcela de futuro
onde não cabe mais
a centelha de tempo passado
enterrado...prematuro
Deixo-me saborear em cada maré
sorvendo a maresia
renascida no invólucro do tempo
apressadamente renovado
desbravando cada madrugada
ao teu jeito... nesse vai e vem
cavalgando nos acordes do destino
que tão aconchegado a mim
acalenta e anestesia
Escuto nos ventos
outras badaladas em
cada hora onde vago
esmaeço felizes e irrequietas
memórias
deixadas na colecção dos
murmúrios virtualmente
escritos em cada inescrutável
momento da história
Fugi pra sempre
e nem endereço te deixo
sei somente onde plantar
cada detalhe inesperadamente
tatuado na doçura de um sorrido
tão crucial...tão tacitamente
Perpetuamos instantes
deixando nossas indumentárias
vaporizar-se furtivas
rasgando a noite
com céus adornados de desejos
simétricos, intuitivos
conspirando por entre sombras
desta vida se escapulindo
em versos renovados na amalgama
de tantos abraços que deixei
expontâneamente quase,
quase de improviso
Frederico de Castro
493
Um de nós...

Brota minha escrita
desatando a rota no dia
que galopa rumo à tua
guarida
- Um de nós
deixará as saudades
se confessando entre
dois olhares quase indeléveis
correndo neste poema
que te deixo em epígrafe
quase me desintegrando
impassível
- Eu sei
como te desatar
os silêncios
Sustentar toda a posse do tempo
que nos algema irreversívelmente
- Um de nós
inexoravelmente
deixará amarradas
todas as emoções corrediças
onde nos banqueteamos
com palavras irrecusáveis
e jamais esquecediças
- Consumiremos todas as
harmonias
que se atam ao nó
dos meus silêncios
Maquinaremos tantos abraços
em cada segundo
enclausurado no tempo
que a nós se apega
desata, sossega
galga
e jamais renega
- Um de nós
traçará os ritmos onde
se imolam paixões
onde se lavram insurreições
colhendo em todos os
cântaros de vida
um milésimo de tempo
onde
pernoitaremos insinuantes
sem mais restrições
Frederico de Castro
432
Olhos nos Olhos

Deixaste-a
assim, minha vida
olhos nos olhos
na grafia singela
dos meus cantos de alegria
que assim persigo na periferia
desta já longa travessia
assim tu me queiras
sem mais utopias
assim eternos numa
longa cinematografia
Frederico de Castro
486
Geometria da beleza

Assim se desenha um sorriso
Mesmo que imaginário
Ele está ali à mão
Tatuado com lápis
Na geometria da emoção
Assim se pinta a beleza
Com traços de tanta envidência
Onde mora a arte
Que esta folha de papel
Tentadoramente reverência
Frederico de Castro
632
Lágrimas do mar

Abre-me todas as janelas
sobre o teu mar
onde caibam somente as
lágrimas em deriva
repentinamente
em teu seio mergulhar
Naveguem todos os barcos
por teu mar
onde a foz se embebeda
de amores
por amanheceres casta
do tamanho de todos os oceanos
só pra mim
oh tu que ladrilhas
o silêncio dos meus beijos
afogados em lágrimas
de tanto mar
Vou a cada anoitecer
contornar-te as margens
preenchendo os vácuos
de solidão que fervilham
entre suspiros semeados
nos ventos que albergam
cada sonho desfiando
neste meu pulsátil coração
descarrilando em ondas de temperança
e louca conflagração
Deixo que os aromas
primaveris sepultem toda
a nascente onde jorra o tempo
costurado em naperons de palavras
póstumas e refinadas de meresias
Na longitude mais além
quando te contemplo pelo vértice
de tempo
sei onde me embriagar com
cada milagre de vida neste aguaceiro
onde bebo todo o oceano
e emolduro teu retrato despindo-se
em torrentes de amor numa procissão
exuberante
e depois lapido cada labareda
do teu ser
que desejo delirante
Frederico de Castro
798
Procurei por ontem...

Encontrei
na soleira do tempo
o último degrau ao cimo
do horizonte estonteante
onde a noite se despe grisalha
embriagante
Procurei por ontem
mais que tuas evidências
insinuantes
a quietude poética
onde me abandono
em ti redundante
Tanto,tanto ansiei
e somente encontrei
as essências camufladas
em doces gargalhadas
velando um raio de sol
que se dissipa em teu
generoso colo quase flamejante
Procurei por ontem
despoletar em nós todos
os afectos e utopias
que planejei
Resguardei pra sempre
aquelas meigas manhãs
onde apressados
nem finda sequer a noite
ressuscitávamos estirados
no breve tempo que mingua
tão sedutor e ofegante
Procurei por ontem
e sei
que amanhã despentearemos
as saudades regurgitando
nossa vida em múltiplas
cascatas de beijos
tão extravagantes
Procurei por ontem
saber porque existes
num dia qualquer
depois de amanhã
quando emigrares
feliz em cada silêncio
que jaz em nós assim
de rompante
coleccionando todas
as cumplicidades tateantes
agraciando o ser que
em ti desabrocha tão pujante
Hoje encontrei-te colorindo
a janela do meu tempo
onde dormito itinerante
fundindo-me em tuas planícies
emanando ali toda a formosura
espelhada num cálice de néctar
onde te bebo com delicadeza
embriagando todas as fiéis harmonias
que teu ser meticulosamente
surpreende e embeleza
Frederico de Castro - ao Ciro meu filho terceiro
405
No teu palco

No elenco do tempo
saudamos cada recital de palavras
eloquentes
Decifrámos os ritos
de todas as paixões impetuosas
e convergentes
Recompensámos cada cena
neste palco sem artifícios
onde criamos vida
alegrando a plateia
com teus olhares complacentes
no equinócio de um cio reíncidente
Preenchemos universos
de poesia
transbordando na impaciente
manhã que regurgita
em presságios de amor
que interpreto quase em heresia
Gratificámos com aplausos
todo fecundo cenário
onde se arquitectam
reveladoras emoções
fechando as cortinas
no palco de todas as insurreições
No silêncio da vida
onde agora trajo com amor
as palavras meigas
onde agora trajo com amor
as palavras meigas
desabito meus cantos
suspirando por tuas loucuras
bailando na expectativa
de tantas inebriantes travessuras
O tempo promulga cada existência
impregnando minha escrivaninha
com apalavrados cânticos
perambulando pelos
bastidores dos teus insinuantes
gestos semânticos
Emprestemos à coreografia
da vida
todos os sorrisos trilhados
no roteiro de cada cena
galgando meu vocabulário
intimista
embebedando estrofes
tão malabaristas
Vou deixar somente
que os ecos infusos aplaquem
o romântismo travesso
saltitando em cada métrica
aclopada a nós de ilusões
colorindo com requinte
estes versos meus
fecundando mil sombras
se imolando no anfiteatro
das nossas paixões
Frederico de Castro
526
No aconchego dos silêncios
Sopram os ventos
parindo ondas banhadas
de luz
indagando cada aconchego
nos meus silêncios
Propaga-se o tempo
e penso já desatento
onde pernoitam as saudades
calando cada vigília
trazida nos ventos ágeis
das nossas cumplicidades
Na inquietação das memórias
não deixo adiar um dia
qualquer fascinado na paisagem
que chega breve
perdida em vadiagens
Reporto à vida que floresce
como uma tela pintada
se vivifica tão predestinada
com a invocação desta poesia
que tateia a noite sustendo
suspiros
de serenidade
enquanto me aconchego
na cortina esquecida do tempo
Não importa mais desarrumar
o vazio onde me encontro
basta só
habitar-te silenciosamente
clonando cada gomo formoso
de luz que tantos gracejos
paridos invocam no improviso
da imensurabilidade da vida
com que te festejo
Basta deixar-te apalavrado
o gesto de boas vindas
descansando nessa maravilhosa
luz despedindo-se do dia
num adeus indigente
deixado no gueto
dos nossos lamentos
timidos e tão literalmente
complacentes
É tempo de perfumar
todos os aromas vindos
na solvência primaveril
do dia
É hora de aplaudir todo
o despertar quotidiano
onde imortalizamos nossos
sonhos mais tácitos
exauridos na revelação da vida
peregrinando súbita
pelo aconchego dos meus
silêncios incautos... sem mais
indultos, avassaladoramente
(in)suspeitos
Frederico de Castro
438
Nas margens do tempo

Fui correndo atrás do tempo
preenchendo cada anoitecer
com o poente apressado que
em fugas cintilando
nos surpreende e embriaga
Retratei felizes migrações
viciadas em teu sorriso
pra junto das nossas súbtis
existências
onde moram os poemas
encarcerados
bisbilhotando apenas cada recanto
onde guardei a
alma inteira
alojada pra sempre
à vida onde nos consumimos
em labaredas matreiras
Domaremos felizes esse fogo
derradeiro
deslizando pelas cumeeiras
onde se rematam todas as
aliciantes loucuras
todas as urdidas
e devoradoras aventuras
E na procura incessante
dos desejos onde te
ostentas aliciante
partilho esta imensidão de tempo
que urge tão viciante
Apaziguo todos os silêncios
nas margens da vida
onde se extravasam nossas
súplicas quase inacabadas
nossos beijos deixados
sózinhos...até nunca mais
Sigo hoje os mesmos
roteiros do tempo
deixando no paisagismo
dos ventos
um delirante e indisfarçável
gomo de beijos
espalhados na maciez madrugadora
de cada hora
onde se atropelam
exaustivos abraços
fantasiando com benevolência
o grau de parentesco onde
nos embebedados de amor
sem mais embaraços
Resta seguir somente a fragrância
do teu perfume onde me incorporo
feliz, táctil
colorindo as margens do tempo
que corre em teu encalço
a cada hora matutina que se
avizinha assim tão ágil
Frederico de Castro
366
De cor e salteado

Algumas palavras
sei-as de cor
outras vislumbro-as
salteadas
no guião deste verso
enssopado no licor
dos teus beijos
Em palavras escorregadias
quebras meus silêncios
espelhados em cada lampejo
de amor
onde albergamos gestos
enfunados de paixão
guardados no cântaro
de cada fragrância, banhando
a pecularidade desta solidão
sempre, sempre...em ebolição
Soltei as palavras, qual incenso
sem as memorizar
Voei daqui, volatilizado
até me seduzir nos véus
da tua esperança
pernoitando no destino
dos teus braços
numa procissão de fé
em orações
fatalmente tão resignado
Ninguém mais viu
a alegria quando te acenei
minha euforia
Ninguém revelou teus sorrisos
quase hilariantes
Ninguém surpreendeu o silêncio
quando calei minha voz
só pra te algemar de vez
em nossas loucas simetrias
Todos viram outras
páginas de um fim
sem desfecho
num livro onde não
mais aconteço
pois da alma somente
vislumbro o eterno começo
da vida
conversando sossegada
ao sabor de cada verso onde
em ti cordialmente transpareço
Frederico de Castro
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