Lista de Poemas
Soltas ventanias

Meia noite
escondem-se os vultos
sem medo das ventanias soltas
Percorrem ruelas
num silêncio cativo
onde arde a madrugada
repentinamente
deixando o tempo escapar
por entre as mãos da vida
em fuga inadvertidamente
Cai a noite
e a escuridão permeia o vão
de todas as minhas solidões
Tenho que repensar o dia
mesmo sem sol
deixar as insónias incrustadas
num verso marital
indelével e tão factual
É meia noite
e só tenho gula de ti
desarranjando minha biblioteca
só pra te ler
desnuda alimentando
meu jejum gemendo
espontaneamente
Até as pedras falarão
quando te recostares neste
poema...quieto
em marcha para ti
congratulando teu despertar
que se desprende em silêncios
num ímpeto selecto acalentar
Frederico de Castro
384
Sem reticências...
De admiração
Em afeição
Com sorrisos celestiais
De contemplação
Sem raiva ou medo
De orações e arrependimentos
Com cânticos imemoriais
Com todos os temperos e sabores
De total comprometimento
Sem reticências do saber
Nas palavras e versos
De coragem e entusiasmo
Nas memórias e saudades
De fé e da razão
Celebrando existências
De paz vivida em deflagração
Sem reticências no
momento
De todas as certezas
Sem mais parênteses
nas veias jorrando em
perfusão e analgesia
toda ela em subtileza
Sem reticências na vida
toda ela
se esvaíndo fantástica
em tua imensurável cortesia
à mercê do dia que
a mim se acorrenta em
transfusões de tanto amor e poesia
Frederico de Castro
448
Outono do nosso amor

Voltarei a ver
as cores deste Outono
desenhando a beleza
que se despe perscrutando
em uníssono
nossas lágrimas
perfumando as sombras
empoleiradas
em simultâneas gargalhadas
de agitação
calafetando os sonhos
coabitando em cada cronologia
do tempo em exaltação
Frederico de Castro
452
내안의 작은 숲 - Um bosque dentro de mim

- Deixo que os aromas
primaveris sepultem toda
a nascente onde jorra a luz
costurada em naperons de palavras
póstumas e refinadas de tempo
ainda imaturo
onde me embrenho em tuas
loucas e indecifráveis
aventuras
de um dia que agora
fenece...espantado... prematuro
Frederico de Castro
595
Musicanto

Na pura plumagem do dia
aguardam pelo voo imóvel
dos silêncios
o canto das aves
sossegando o rumor
dos timbres silvestres
poisando na calmaria
do tempo que paira
acariciando a luz
despertando em romaria
Frederico de Castro
566
Sem adiamento...
De tanto adiar
cada letra refugiada
em mim
despoletei uma repentina
onda de versos faustos
tragando toda a faminta
noite que se esgueira
extinta
a cada resposta adiada
no tempo que nos algema
tanto tempo
liberta e cada eco requinta
De tanto adiar
as tuas estações frutíferas
colhi nesta sementeira propícia
todas aquelas canções
trovando a doçura de uma salmo
às tuas sombras inebriadas
onde
me embebedo em castas
vindimadas com cachos de loucura
apiritivados no tempo
que hoje cessa na moldura da vida
De tanto adiar
o dia, até perdi teu
entardecer
deixei o sol morrer
ali pertinho
do poente onde nossos
beijos
tardando também morriam
como a luz que se esvai no
silêncio brisado
das palavras de amor
que pra nós sedentas
em maresias confidentes corriam
Não sei se tenho
mais que adiar o amor
soprando-o no teu ser
apetecer-lhe todo tua
integridade delicada
redundar
versando cada desejo
na eternidade do tempo
que faminto alegrias por ti
invento e cortejo
Frederico de Castro
426
Tempo de afectos

Vou deixar por instantes
que adormeças todos
os meus céus
algemando a luz como troféu
Pousar em todas as minhas luas
amadurecer todas as minhas ternuras
como a fé que se propaga marginal
entre a baínha de tempo
e as paisagens que afloram os
rituais de alucinante formosura
convergindo nos ventos
em infinita clausura
Frederico de Castro
478
À flor da pele

Acordei para uma madrugada
muito devagarinho
ateando aos sonhos mais
voláteis uma réstia de chama
que se renova na fartura
de vida que assim nos aclama
Acordei residindo nos teus
braços
dissolvendo-me nos teus perfumes
semeados à flor da pele
onde tatuamos com amor
todas as eferverscência de vida
convergindo na sonolência
de cada palavra mais atrevida
Acordei
esgueirando-me entre rimas
e gargalhadas felizes
Busquei todas as confissões
num mar de esperanças audazes
Tranquei nesta poesia arguta
um inóspito poema
prisioneiro traçado
no vasto silêncio tenaz
que nos acalenta
em todos os solstícios pintados
na aguarela do mundo
vibrante que em mil moléculas
de amor transpira e sedenta
Vou aproveitar
uma réstia deste sonho
pra te soprar na alma
todo o doce planar de um
beijo
Converter-te na minha vestimenta
eterna
onde habitaremos mais quânticos
qual presságio arquitectado
no desejo breve que em nós
se alimenta no pavio de tempo
...e jaz agora temporário
nas insígnias de um verso romântico
fatídico e tão mediático
Frederico de Castro
532
Estado de graça

É assim
meu estado de graça
revivendo-te a cada hora
mílimetricamente estático
entre tua formosura dissimulada
ao longo da maciez impregnada
em cada perdão trajado de
apaziguamentos
embalsamando todos os olhares
que trazemos grávidos de elegâncias
afabilidades, céleres
e tão invulgares
É assim meu dicionário
de verbos inconstantes
de momentos atraentes
evaporando-se por entre
cada existência trazida até
ao indulto de um poema que
morre inexoravelmente
apaixonado
em cada perfeito e memorável
silêncio irreverente
É assim
que amiúde em todo
o tempo
te peço só um gesto
ou olhar esporádico de paixão
e deles façamos depois
desejos reicidentes
tão recorrentes
até ao mais ínfimo e fértil
sabor que deixamos tatuado
na voragem dos tempos
É assim que vejo
meus sonhos fitarem-te
ininterruptamente
É ali que se juntam
a mescla dos tempos
tacitamente abraçando-nos
reveladores
colorindo todos os
cenários e recantos desta
eternidade onde nos amámos
pormenorizadamente
Será assim
escrito neste dicionário
que me deslumbrei com palavras
espontâneas
que me nutri dos teus afagos
e raptei pra sempre aquela
universalidade no teu perfil
onde descanso as existências
que revivem paralelamente
pra sempre em nós...irremediavelmente
Frederico de Castro
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