Lista de Poemas
De corpo e alma

Nem procuro mais
o que não existe
É tempo de dar sossego
aos meus cansaços
É tempo de adiar todas
as depressões
recorrer e devorar
todos os maus pressentimentos
algemados em famintos corações
É hora de aceder aos ponteiros
da vida e rever no tempo
todas as intocáveis saudades
Renascer em cada
momento perdido
na esteira dos nossos
lamentos
Iluminar nossas existências
com gargalhadas e saudações
arrancadas às memórias do poeta
alinhando-se vertiginosamente
em inusitadas e breves palavras
que teus lábios sossegadamente
um beijo por fim desperta
Como tudo é inverossímel
faz-se do silêncio um festim
de paixões impossíveis
Acorrenta-se a luz do dia
e oferta-se às noites nossos
sonhos
o corpo e a alma
a espera do nada
quando os instintos exultam
fulgurantes
e os afectos ainda ígneos
em delírios nos incendeiam flamejantes
Hoje nossas monotonias
soltaram-se na arte e no rigor de todas
as apetecíveis ousadias
consumindo-se em encantos esculpidos
num punhado de versos alastrando
até ao morrer de cada hora tardia
Frederico de Castro
Subtil elegância

Atrevida
Espreguiça-te
Enfeita-te com vestes
Colhidas de gentileza
Celebra-te com arte
e Delicadeza
Escancara-te vestindo
Com delírios teu voar
silenciando a noite
triunfante derradeira
Frederico de Castro
Púlpito da eternidade

Aguarela celeste
te contemplo colorindo
este jardim
plantado nos lírios dos
teus olhos
Os campos trigados repousam
na planície dos meus silêncios
enquanto colhes as espigas
de esperança cevando na efeméride
de tempo com arte e meiguice
onde teu colorido ser
em vigilia todo o amor bendiga
Deixo a soleira onde perpetuo
minhas solidões
camuflando-me na noite
onde digito palavras saturadas
de tristeza
Imagino cada quadrado
desta hipotenusa rigorosa
entreaberta na álgebra
concisa dos nossos matemáticos
cenários
absolutamente profiláticos
Faço-te maremoto num
pleno êxtase
afogando todas as
ausências desaguando
no púlpito da eternidade
rendida ao poisar súbtil
do teu ser esvoaçando
nos ventos da alvorada
onde me alojo em cada alameda
do tempo espreguiçando-se
em cascatas de criatividade
Frederico de Castro
Escapulindo - ao meu irmão Ricardo

Perpetuamos instantes
deixando nossas indumentárias
vaporizar-se furtivas
rasgando a noite
com céus adornados de desejos
simétricos, intuitivos
conspirando por entre sombras
desta vida se escapulindo
em versos renovados na amalgama
de tantos abraços que te deixei
expontâneamente quase,
quase de improviso
Frederico de Castro
Guardador de rebanhos

Os pensamentos abrigam
o encurralado rebanho dos
meus pensamentos
apascentando o tempo onde
desgarrado pernoito entre
os lençóis perfumados da terra
saciando os vícios cerzidos
na gentileza pastoril
que teu ser sossegadamente encerra
no aprisco de um olhar tão seduzido
Frederico de Castro
Longe da vista...

Somente existe um vazio
Mirada

Emolduram-se estrelas
Pela mirada do tempo
Onde escrutino o puro
Sorriso que trazes rasgando
Os olhos da vida
Sorrateiramente me devorando
Frederico de Castro
Deixa-me ir...

Deixa-me ir
vestir-te a noite
com véus de seda
iluminando teu sono
dormitando à
toca
da eternidade
Deixa-me ir
descrever-te como sorris
unindo os vazios que se
apressam a engolir todos
os silêncios madrugadores
adocicados e tão primaveris
Deixa-me ir
esvaziar o tempo que resta
escorregadio
deixado ali na lápide
da vida onde se enterram
lívidos cânticos dissimulados
evaporando mais uma noite
que se distancia feliz
enamorada nos ventos
com teus perfumes ornamentados
disponíveis e tão sedentos
Deixa-me ir
percorrer todo o infinito
e no fim de todo além
alienar todos os sussurros
quer trazes esteticamente
descritos em teu ser
revelado em versos sinuosos
que a mim se alojam
tão sorrateiramente
Deixa-me ir
espraiar-te meu mar
navegar-te à vista
sempre com marés
ondulantes e impetuosas
Abrigar-me dos temporais
num acto sereno
a ti comuflado
Arribar contigo até
a plenitude das manhãs
se irmanarem em existências
felinas
que se desnudam, vasculhando
minuciosas tuas digitais
tatuando-me assim repentinas
Deixa-me ir...
pintar-te como rima
eculpir-te em monumento
escutar-te com instinto
fintar-te com palavras
hermeticamente transformadas
num canto selecto de açoites
Deixa-me ir
percorrer uma vez mais
todas as avenidas onde
endereçámos os abraços
vagueando no corrocel
dos mesmos costumes
gritando em folia
incrustada neste pensamento
onde de prazer na calada
da noite
te velo, recrio e invento
Deixa-me ir...
Frederico de Castro
Dançando à chuva

Chove a noite
Em pingos de solidão
Soltam-se ventanias
Em nuvens repentinas
Trajadas de preces
Perfumadas de gratidão
Dançam os ventos
Pálidos minuciosos
Serpenteando o pacificado
Balé onde te contemplo
Em cada salpico deste
Aguaceiro tão delicado
Frederico de Castro
Às Vezes, alguém...

Às vezes... alguém
insurge-se entre nós
e a ténue nesga de tempo
feito cântico de alvorada
se reerguendo de enxurrada
Desperta vivificando
todos os sorrisos, curaticos
fluindo em cada migalha
eufórica de vida espairecendo
em nós, feliz....dissimulada
Às vezes...alguém
madruga connosco
ficando à mercê dos véus
da luz casta
passarinhando a vasta
faúlha do tempo onde
nos embrenhamos cuidadosamente
Às vezes...alguém
desabrocha em nós impetuosamente
mesclando todas as emoções
que sustentam o marulhar da vida
renascida milagrosamente
Às vezes...alguém
ascende à essência que
se dilui em nós
perfumando toda a identidade
onde tatuamos
alucinados cânticos de amor
trajados de cordialidade
Às vezes...alguém
atravessa nosso caminho
perscruta cada revelador
véu da noite
Deixando cavalgar
sem mais rédeas a pluma
do tempo onde selamos
com afagos
o silêncio rigoroso das manhãs
penetrando em cada eco
malandro
insólito
onde satisfeito me embriago
Às vezes...alguém
fecha as pálpebras à luz
inebriante, trancada
em nossas entranhas
Passeia todo o ser mártir
dopando até os dias
mais nostálgicos
onde espelhamos quase
em uníssono toda a flébil
palavra orbitando o olímpo
dos desejos insaciavelmente fantásticos
Frederico de Castro