Lista de Poemas

Para-raios

Você atrai olhares,
raios em tempestades.
Aos incrédulos impacta 
com elétrica sensualidade.

Sua energia explosiva
com charme me eletriza, 
levando-me ao solo
com sua carga impulsiva.

Para-raios da sinceridade,
com emoção e fascinação,
percebo sua eletricidade
como verdade e intensão.

Entrego-me aos seus brios.
Seus raios em desvarios 
percorrem meu corpo,
fulminado meu coração.
253

Tradição que tutela

Parece dança, mas é luta!
Com voadora e rasteira
avança a capoeira,
pura arte e cultura.

Rabo de arraia 
salva a arraia-miúda
de razia ou submissão,
apesar da criminalização.

De capangas dos senhores
chega-se aos mestres, 
ao som do berimbau. 

Hoje, na favela,
é tradição que tutela
o jovem fora da tragédia. 

(heliovalim.blogspot.com)
286

Madrugada insone


Desperto em plena madrugada,
olho pela janela, contemplo a rua
que se desnuda sob um negro véu,
enquanto o silêncio a envolve.

Exponho-me à brisa presente,
de extenuada noite de verão,
tal qual expiração corrente
do imenso e quente borrão.

Agora, que a imposição da hora
impacta meu insone pesar,
deixo meu pensamento vagar
e rendo-me ao momento sem lutar.

Relaxo, contemplo o emergir
de um alvorecer fulgente.
Reflito, sobre o desejo de fugir
e fixo-me ao real que me prende.

A rotina acorda e me desconecta
desta madrugada cabotina
e, assim, o jovem dia a sabatina
sobre a realidade que me intima.
306

Sentimentos em flamas


Desânimo sorrateiro,
muitas vezes, bate à porta.
Escamoteado pela retórica
nos atinge certeiro.

Sintomas de abatimento
tornam-se brasas rubras
onde ardem sentimentos
em flamas de desalento.

Fogueira da ansiedade
queima a nossa sanidade
no braseiro da realidade.

No rescaldo das cinzas
apura-se a certeza de viver
e a opção de se reerguer.
250

Emoções no rolimã

Carrinhos de rolimã!
Singelamente construídos
com tábuas, restos de obra,
rolamentos automotivos
e sonho executado com afã.

Carrinhos de rolimã!
Surfam nas ondas do asfalto
em manobras no concreto,
velozes no tubo mais alto,
na garantia do freio de chinelo.

Carrinhos de rolimã!
Em imprevisíveis manobras radicais
vivenciam urbanas experiências,
rolando velozes, descendo ladeiras,
na cidade, pegando ondas maneiras.  

Carrinhos de rolimã!
Livres, correndo pelo prazer,
deslizam com imensa emoção,
sem disputa ou competição,
apenas o simples sobreviver.

Carrinhos de rolimã!
Na brincadeira da infância
a incansável felicidade,
talvez Juvenil inconsequência,
que se perde com a maturidade.
260

Adoção


Encontro de almas em conciliação,
ajuste divino de pura sensação.
Coração aberto para a ocupação,
sem consentimento ou autorização.

Chega devagar, como suave brisa,
marcando presença, inundando a vida,
conquistando espaços de afagos
nos corações mais calejados.

Vivendo grande esperança, abraça
a dádiva da vida com temperança,
na certeza do generoso envolvimento,
percebido nos gentis movimentos.

Vidas entrelaçadas, em doação
de sentimentos de grande paixão.
Transcendendo dúvida e hesitação
na trama tecida em profunda emoção.
265

Jornada


Densa mata intensa,
incontáveis seres
habitam-na, sensíveis
aos desígnios divinos.

Convictos e invictos
certos de seus destinos,
entre raios e trovões,
seguem com suas opções.

Mata que concebe,
percebe e persevera,
impõe marcha severa
aos súditos que gera.

Corrompe, mas, cura
na jornada que endura
os passos do caminhar,
por trilhas, ainda, a trilhar.

Trilhando entre rios,
atravessam a mata
sem rumo, apenas brios,
seguem a caminhada.

Avançando obstinados,
superam a travessia
e aguardam extenuados,
o término de vital primazia.
286

O sabor do ponto final


Provo, porque as palavras fluem.
Como doce néctar escorrem,
em suculentas gotas de advérbios,
mas engasgo-me com impropérios
que amargam o meu degustar.

Provo, porque as palavras fluem.
Coquetéis de frases inteiras
consumo até a derradeira,
embriago-me de tal maneira
que me perco entre saideiras.

Provo, porque as palavras fluem.
Sorvo, até os textos que contesto,
pois, palavras são drinques,
suaves ou não, que aprecio,
os quais não canso de deleitar.

Provo, porque as palavras fluem.
Líquidas, pela garganta vertem,
algumas resistem outras divertem.
No fim, todos provam, afinal,
nada como o sabor do ponto final.
274

Irracional

Perco-me em minha loucura,
totalmente envolvido
com emoções e desatinos,
Sem controle,
não sei se opino
no rumo que quero tomar.
Deixo-me levar sem destino,
pois, só a loucura é meu caminho
onde me perco e me acho,
se você quer me guiar, com seu jeito
moralista de ser... Não me guie...
Se você crê que pode me ajudar,
pensando em me cuidar... Não me ajude...
Mas, se você deseja me curar... Me esqueça...
Se é para você me conhecer... Me entenda...
Se você julga que não mereço sua fé... Não ore...
Só lhe peço, quando de mim se esquecer... Não me ignore...

Tributo à Clarice Lispector, inspirado no poema Passional
310

Uma pausa para o café

Coado em coador de pano,
servido em bule da ágata,
sorvido sem o correr insano
no viver de uma vida pacata.

O ritmo que flui com o cheiro
do café torrado e moído,
no tempo certo curtido,
guarda leve amargor brejeiro.

Memórias excitadas pelo olfato
evocam épocas de outrora,
atenuando a urgência do agora
presente nestes tempos de impacto.

Da correria do café expresso
quero a morosidade do café coado.
Mas, sem relutar, eu confesso
qualquer café aprecio empolgado.
326

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

Alguém interessado em usar a poesia como uma crônica poética do cotidiano, com realismo e imaginação. Possuo mais de 30 anos no magistério superior tendo lecionado em Instituições de Ensino no Rio de Janeiro. Sou mestre em Engenharia, pós-graduado em Metodologia do Ensino Superior e graduado em Engenharia Civil e Arquitetura.