Honoré DuCasse

Honoré DuCasse

n. 1799 FR FR

Honoré DuCasse, além de um pseudónimo, é também um heterónimo, uma personagem literária imaginária com uma personalidade demarcada e muito própria. "O Libertar das Sombras", mais que uma antologia, é o deixar a "nu" a sua intimidade enquanto poeta.

n. 1799-06-29, Paris

Perfil
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Aforismo

Somos todos iguais na diferença.
Mas é isso que nos separa no preconceito
e nos une na mortalidade
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Poemas

23

Memória Distante

Quando a minha existência

for apenas uma memória distante

verás que, para além do poema,

nada mais subsiste

que a dor imensa de o ter escrito

846

Ruas Ausentes

O teu amor tem a finitude

De um beijo

E das ruas sem nome

A tua ausência é um cais que parte

Nas primeiras chuvas de outono

O que me consome não é a saudade

Mas, sim,

os poemas que te procuram

866

Epílogo

Sou uma manhã que se arrepende

Sempre que a aurora toma a forma do medo

E da janela do meu tempo se escondam

dois olhos em súplica

Como se fossem o epílogo anunciado

De uma alma que não lhes pertence

1 138

Amarras

Não me falta o anoitecer
Porque o amanhecer já não me espera
Deixei de acontecer
Porque as manhãs me pesam
Restam-me as escarpas por promessa
E a cobardia das amarras
Que não desatam
Já não sei quem sou
Nem de que poema me faço
Morri no tempo
Porque o tempo também me morreu
Estou cansado de estar cansado
Nem sei se grite ou se rasgue a página
Se declamo ou se parto
Porque este poema
Se um dia for lido
É porque estarei fora do tempo,
Esquecido
Deixado aos livros
1 063

Murmúrio incerto

Sente o vento

Que gela a sombra na palavra

Deixa que o olhar se demore

para além do instante

Há muito que me deixei partir

Sobra a leve memória

E o murmúrio incerto das arribas

E dos dias gastos

Que deram à costa

1 204

Formas em sonhos

No teu deserto

Habitam formas em sonhos

Olhares nocturnos

O antes e o depois

Como se a expectativa

Nos fosse um afago maior

1 065

Poema maior

Há um poema que me deixa a meio

O de sentir que a palavra me foge

Para as noites da nossa pele

870

Outono

Que sabes tu, Outono

Dos rios que choram

E da chuva que dói?

Que sabes tu, Outono

Do choupo desnudo

Quando o vento acontece?

Que sabes tu, Outono

Da folha que tomba

E da morte que nos enternece?

882

Cravos Flamejantes

Gostava de poder imprimir

Os sonhos que se evadem

Ao ritmo da chuva

E das pedras seculares

Cultivo a dissidência da vida

Com a força de um poema

Na boca trago os cravos flamejantes

De uma aventura com o teu nome,

Por mote

1 129

Poema que sente

Prefiro o voo das aves

À indiferença da palavra

Prefiro a insanidade

À distância que dói

Prefiro a cicatriz que lembra

À memória que fere

Prefiro o abraço que demora

Ao beijo que foge

Prefiro o poema que sente

Ao verso sem voz

Prefiro o suicídio no poema

Ao sonho que acorda

921

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