Aforismo
Mas é isso que nos separa no preconceito
e nos une na mortalidade
Honoré DuCasse, além de um pseudónimo, é também um heterónimo, uma personagem literária imaginária com uma personalidade demarcada e muito própria. "O Libertar das Sombras", mais que uma antologia, é o deixar a "nu" a sua intimidade enquanto poeta.
n. 1799-06-29, Paris
Quando a minha existência
for apenas uma memória distante
verás que, para além do poema,
nada mais subsiste
que a dor imensa de o ter escrito
O teu amor tem a finitude
De um beijo
E das ruas sem nome
A tua ausência é um cais que parte
Nas primeiras chuvas de outono
O que me consome não é a saudade
Mas, sim,
os poemas que te procuram
Sou uma manhã que se arrepende
Sempre que a aurora toma a forma do medo
E da janela do meu tempo se escondam
dois olhos em súplica
Como se fossem o epílogo anunciado
De uma alma que não lhes pertence
Sente o vento
Que gela a sombra na palavra
Deixa que o olhar se demore
para além do instante
Há muito que me deixei partir
Sobra a leve memória
E o murmúrio incerto das arribas
E dos dias gastos
Que deram à costa
No teu deserto
Habitam formas em sonhos
Olhares nocturnos
O antes e o depois
Como se a expectativa
Nos fosse um afago maior
Há um poema que me deixa a meio
O de sentir que a palavra me foge
Para as noites da nossa pele
Que sabes tu, Outono
Dos rios que choram
E da chuva que dói?
Que sabes tu, Outono
Do choupo desnudo
Quando o vento acontece?
Que sabes tu, Outono
Da folha que tomba
E da morte que nos enternece?
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