Aforismo
Mas é isso que nos separa no preconceito
e nos une na mortalidade
Honoré DuCasse, além de um pseudónimo, é também um heterónimo, uma personagem literária imaginária com uma personalidade demarcada e muito própria. "O Libertar das Sombras", mais que uma antologia, é o deixar a "nu" a sua intimidade enquanto poeta.
n. 1799-06-29, Paris
Metade do teu olhar
É quanto me basta
Para que o dia
Me doa menos
E a noite
Me seja clara
Há mãos que se dão
porque na memória ficaram
Há mãos que esperam
Que se olhem no toque
Há conexões que se formam
Porque no olhar se tocaram
Há palavras que não se escrevem
Porque já foram lidas
Há vidas que se tocam
Porque as almas
já se uniram
Não sei o que o mar sente
Quando a lua se ausenta
Não sei de cor é o céu
Quando habita a tormenta
Sei que a noite pesa
Para além da idade
Sei que o silêncio
Se gosta para além dos dias
Sei que o amor se basta
Num singelo e sincero
abraço
Dias a fio
Escuto a voz incessante
Deste rio
Assombro molhado
No chão cansado
Olho descalço
O vento irado
As noites frias
Do inverno demorado
Onde incerto, abrigo
Sobrevivo acordado
Nada se compara ao espreguiçar
Das manhãs de Outono
Ao murmúrio das aves sonantes
À poesia das folhas dormentes
E ao romper dourado
Da aurora crescente
Na meia-idade
Despem-se as cores do tempo
Ouvem-se os tons da natureza
Promovem-se as pausas
Agigantam-se os silêncios
O futuro habita no presente
Torna o passado refúgio
Regressa-se ao interior
Num caminho já feito
Que se sabe seguro
Consolidado
Longe das amuradas
E das tormentas
Na meia-idade
Voamos mais alto
Ganha-se outra perspectiva
Não há deslumbre
Nem mágoa que se padeça
Olha-se de cima o futuro
Sem bater asa
Retiramo-nos em silêncio
Para que na morte
A vida aconteça
Como só tu soubesses
Onde escondo o pôr-do-sol
E a lua pela vida
É como se a noite
Me emprestasse o saber
Entre o verso e a alvorada
O desejo e a eternidade
É rasgo
É tudo
É momento
Teu abraço devoluto
É nuvem incerta
Que seduz o vento
Dilúvio enfermo
Céu que flameja
Deixa a descoberto
As entranhas do tempo
O poema desobedece
Sempre que o corpo adoece
E se torna refém da vida
Há um caminho
Percorrer nas letras
O que falta aos dias
E deixar por legado
O que na memória
Adormece
Gosto das palavras com sentimentos
Emoções com gestos
Gosto da chuva sem vento
E das conversas sem tempo
Gosto dos invernos à meia-luz
E dos abraços que não se pedem
Gosto de olhares marcantes
Quando os nossos corpos se perdem
Gosto dos dias a acabar
E da noite por dizer
Gosto de amar
E do por do sol
Junto ao mar
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