Jorge Augusto

Jorge Augusto

n. 1976 PT PT

n. 1976-01-29, Seixal

Perfil
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Há Um Olhar Encantado

O teu olhar não mente
Que escondes segredos que estás já a cantar

E olhas simplesmente
Para nós, quais tencionas encantar

Olhos nos olhos já sabes que encontrarás

Meus olhos verdes teus amigos
Com que podes sempre contar

E tens mais olhos, e barriga
E mais sentidos sem sentido p’ra abraçar

E tu devoras e nem ligas: tens asas e voarás

A voz é tudo e tu és mundo
Que sem crer vais conquistar

Mas a amizade que em ti nutro
Mais nada quer do que o teu vibrante olhar.
Fútil: qué quisto quer dizer?

Percebi... Tantas coisas que eu queria nunca ver;
Percebi... Tudo. Ou nada? Vá-se lá saber;
Percebi... Ou não? Diz-me se acerto
Este aperto no meu peito
É ou... É o meu coração
Que sem guelras não consegue... E não aceito;

Que ele viva sem o sangue que lhe des-te
Porque é que o fizes-te?
Se não querias...
Hoje vivo porque entendo que não sou;
Que de nós o tempo, esse, já voou
E conheço já tuas doces fantasias;

E que não entendo... Nem percebo mesmo nada;
Uma coisa só já aprendi:
O tempo é uma questão
De saber ou não como o passar
E eu não passo sem esta lição
De novo repensar,
Matutar as letras que disso não passam;


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Poemas

21

Apokaeclipse

O meu sentido está a leste num mundo sem norte
Sem bússula parte em busca do seu sul
E à sua frente nada encontra e sofre
Tanto... pois não vê atrás a Vida, só a Morte;
E teima tanto, o estúpido não deixa crescer
A esperança que nasceu no peito bebé que nunca nasceu
Mas isso não prende as cores que desenhei
No céu pastel e aguarela ardente
Sem noite mas dias tão sós e distantes
Em cima de mim descarregam
E doem
E saem
E entram em mim
E pões seu peso nos braços tão fracos
Os meus
Sem os teus
Óh, Deus
Que dor, que dói, que mói
Me aperta e te aparta de mim
Porquê? Não respondo, sem voz, não te chamo
Nem te amo... mais
E trago na pele o cheiro da tua
Imunda
Delícia
O trago saboroso que a vista devora
Em segundo
Que ficam
E voam e passam e morrem sem demora.


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489

Poema Escrito Num Líquido

E enquanto eu não puder
Eu vou escrever
Enquanto houver céu
E luz

Enquanto os olhos alcançam
No céu
Brisas de cor
E mel

Não pode haver
Também
O ar que não respiro
Mais

Não vou ouvir
Ninguém
Ao longe quando grito
Eu sei

E enquanto houver
No céu
O não que eu escrevo
Fico.



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509

Se não for

Diz-me de uma vez por todas,
Ó desgraçado que te encontras escondido.
É em ti que eu vejo a mágoa e um desejo desentendido.
É a mágoa que em ti vejo cada dia
Num olhar que já não consigo esconder
De ti, só de ti!
Mais ninguém consigo ver...
A não ser tu,
Ó meu igual tão parecido
Tão distante ao mesmo tempo,
De um tempo que não passa e nada muda
Aqui...

E lá tudo se sabe, tudo se vê e modifica.
E aqui?
O que ficou aqui?
Minhas tristezas, incertezas?
Talvez! E também o fim de uma vida que não quis continuar
Porquê? Não conseguia ver e era difícil pensar
Que seria bom um dia poder pelo menos, se puder,
Fico a sonhar.
«Mais depressa» - disse a vida ao passo

Saber que existo, aqui, agora
E não sentir-te mais, a ti, eu choro
Por falar comigo, só, demoro
A descobrir a vida, dói, demora...

Mas sentir que só existo, em ti, eu morro
Por saber que só vais ver, em mim, a mágoa
E ao dizer “adeus” eu choro, as águas
E mentir que lá não vivo, assim... Eu moro

Descobrir que a longa vida é forte, caminha
Longos passos, vai a descer, da rua à torre
Ao chegar diz-me que apresse, o passo, à toa
Sem lembrar que a trago aqui, comigo... Voa...


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450

Sonho (em “mix”) da Vida Real

Sou o amante aventureiro, só boné e fato branco
Sou actor, o marinheiro, sem bóia na terra firme
E sou pecado, imaculado
E sou pavio, a toda a vela
Acendo e ardo corações na praia cheia de desejos;

Sou peixe tímido e contente, que sem água respirar
Sou amor de barco ausente, sem um porto para atracar
E sou amado, abandonando
E sou deixado... Todas elas
Falta a experiência de viver e sigo e lembro que ficaram os segredos;

Sou doce e terno, sonhador que te dá o coração
Sou cozinheiro do amor, sem pés assentes no chão
E sou adorado, amargurado
E sou ventura, sentinela
Deixando a dor na despedida, nossos corpos separados e deixados;

Sou alma inferno, no teu céu que vivo e sinto ardendo
Sou falso e dramatizo o gelo, sem te querer fazer sofrer
E sou no fim, desmascarado
E sou a voz, na tua boca bela
Dou tanto e tiro tanto mais, amando e procurando por ela.


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426

Fuga

Cabras estúpidas, longe estão
Vacas parvas a mugir
O homem velho é cabrão
Da mulher que torna a vir

De longe, p’ra onde?
Não digas, está longe
O dia donde
Virão elas... Foge.

Para longe, foge
Outra vez dos parvos
Foge, foge.

Pretos vão os corvos
Não te deixes apanhar
Virão muitos, tantos, tantos
-acudam-me santos


Fujo p’ra outro lugar
Outro céu talvez
Outro azul, quem sabe?
Lá em cima vejo
Cá em baixo, bate
O sol que vem do alto
O sol que vem de cima
De cima a ave solta
Um grito que não volta
A acordar a menina

Dorme
Descalça,
Corre
Na dança,
Vive,
Diz-me
E descansa.


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496

Insónia

Era longa a noite e não adormecia
Fiquei acordado na noite vazia
O mar está longe e cheira a maresia
Na maré vazia adormeço e... não queria.

Queria amar, amar, amar e... sem querer
Amei alguém que nunca mais verei
Amei, amei e tudo sem querer
Um amor tão louco que tento esquecer

Tão longa a noite e eu não adormeço
Meus olhos ardem com a luz de uma lua
Uma luz de lua que não mais esqueço
Porque esqueço a noite, longa, ao fundo... a rua

A rua ao fundo já cá não está
E demora a vinda de uma solidão
Estou só e digo a quem não viverá
Que na longa noite encontro podridão

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494

As Três (Des)Graças

Sonhei um dia que eram três

O Amor, o Ódio e a Beleza.

Ah! É verdade - Era uma vez...

Bem, o melhor é começar, concerteza

Pois é assim

A Beleza era gorda

Gorda quer se farta

E disse que me amava.

“ - Pois, sim!”

Pensei eu.

Depois disse, lá p’ró fim

“ - É verdade, eu não minto!”

E... mentiu?

Não sei.

“ - Eu sei” - disse o Ódio

E eu gostava do Ódio

Porque eu não o odiava.

Mas o pior é que não o amava

Pois sendo assim, era fácil

Depois do beijinho, eu casava

E nem sequer namorava.

“ - Não é preciso”

Disse de seguida

Quase para consigo

O Amor, que por acaso

Nem era nada de especial.

Mas bastou dar-lhe atenção

Pediu logo a minha mão

E disse que me amava.

481

Encontro O Céu No Teu Mar

Dos teus olhos brotam pérolas cinzentas
Tão cinzentas, quase azuis feito Oceano
Um Oceano cheio de ondas violentas
Um mar azul quase cinzento, tão bonito

Nesse teu mar velejo e sonho encontrar
Caricias, beijos, ardente espuma do teu sal
Vou no meu barco pequenino a velejar
Nas ondas grandes violentas - nunca vens

Quero sorver teu mel, meu mar, doce ideal
Nas conchas serve o cheiro,... invento - dá-me mais
É teu o fel que já não sinto no meu cais
Invento as horas que dispenso... é meu mal

Meu doce fel que antes sonhava ser azul
Agora cinza, sem sorrir diz-me que amarga
E eu velejo, estou de volta, encontro o sul
Não nado já, nos olhos teus o sonho acaba.

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530

O Sonho do Pássaro Esquecido

A delícia a que eu quero resistir
E que dos teus lábios quero devorar
Arrancar
Arranhar
Vou esperar que te vás vestir

Senão vão achar-me louco neste chão
A roer as tripas do pássaro que voou
O meu peito trincou
Arrancou
Também este meu vermelho coração

É vermelho, está corado, é tímido
E nem sei o que lhe deu
Mas não apareceu
Esqueceu
E nós simplesmente tínhamos acordado.

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492

Cada concha tem um segredo que quero partilhar

...E cada gota de um Oceano
A lágrima de uma dor
E cada choro desse Oceano
Saliva do beijo... melhor...
Dos beijos... molhados.

...E não digas nada,
Não faças, não beijes,
Não contes a ninguém
Que o segredo que eu guardo
Que a palavra que eu escondo
É tua também

...E que é húmido o mar.
Talvez seja suor
Meu amor
Transpirar,
Do trabalho de amar.


...E se forem anos?
Quantos não tens
Não os contes
Não os digas
Nem contes a ninguém.

...Que a palavra que eu guardo
Que o segredo que eu escondo
Que a concha do mar
Que o beijo molhado
Que a vida suada
É tua também.

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457

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