Lista de Poemas

O MEU NETO TOMÁS

Tomás, teu rosto é ternura

Tua boca esvai-se em sorriso

Tuas mãos a diabrura

Entre risos de improviso


Brincalhão de olhos matreiros

Forte me abraças com doçura

Não resisto aos teus encantos

Fico cega de brandura


Tua voz misteriosa

Dou voltas para te entender

Sempre encontro forma airosa

Para o que dizes perceber


Inteligente, dás-me a volta

Com a tua psicologia

Quando queres alteras a rota

E deixo-me levar p’la magia.


18-08-2013 Maria Antonieta Matos

585

ALENTEJO INSPIRADOR

Alentejo inspirador

Eleva-me só de te olhar

Ao meu passar, abres cores

No campo p'ra me cortejar

Na primavera raiam flores

Entre o verde disparador

Malmequeres e papoilas

Salpicam o lindo esplendor

Pela noite a maresia

Gotas d'orvalho te afagam

Neste leito de amor

Bichinhos ali se amagam

Depois chega a alvorada

O sol dá o bom dia

Saem pássaros da ninhada

Sonidos de melodia

Num despique natural

Paz de espirito a apaziguar

Entoam cigarras e merlos

Cegarregas e grilos

Num silêncio a explanar

Para quem ouve escutar

E encantar-se a sonhar

Canta o galo no seu poleiro

Acorda a gente que dorme

E faz saltar do galinheiro

As galinhas de uniforme

A vida começa a surgir

Vem a chuva num vai, vem

Vem da alma a poesia

O sentir que a gente tem

Correm regatos e rios

Desfraldados enchendo o rego

Saciando as plantas do estio

Que o verão as seca cedo

Os animais de noite e dia

Correm o tempo a pastorear

Sob a velha copa acarram

Enquanto o sol abrasar

Vestem-se os montes de branco

Teu chão perde-se ao avistar

De azul te cobre o teu manto

Nuances, pairam a realçar

As vinhas mudam as cores

Conforme o tempo que passa

À mesa levam os sabores

Uvas,vinho ou em passa

Oliveiras e azinheiras

Azeitonas e bolotas

Os azeites de primeira

Os aromas e as compotas

Os queijos muito apreciados

Os enchidos saborosos

São pelo mundobadalados

Por embaixadores vigorosos

Alentejo musical

Entrelaçado no canto

És pintura divinal

Cresce molhares de espanto

Alentejo, não te esqueço

Mando lembranças daqui

Ouvintes de todo o mundo

Sempre Alentejo é aqui

A Rádio Solar de Londres

A quem muito agradeço

Na pessoa de Manuel Venâncio

SEMPRE ALENTEJO não te esqueço

MariaAntonieta Matos 25-09-2013

607

CONTROVERSAS

O governo que foi eleito

Com promessas de veredicto

Deixa o povo agora desfeito

Trocando o dito pelo não dito


Cada dia cria um imposto

Para a dívida poder pagar

Ficando o povo sem encosto

Como se vai desenrascar


Arca com muitos encargos

Sem nenhuma alternativa

Tem os filhos desempregados

Sufocando-lhe a sua vida


Preces de mundos e fundos

Tinham uma nova visão

Havia solução para tudo

Vendedores de ilusão


As medidas de combate

A esta dura austeridade

Arrasa os pobres e invade

A sua própria dignidade


Levam o tempo a perguntar

Qual é a alternativa

Mas quando dicas lhes vão dar

Não as tomam para mudar

03-10-2012 Maria Antonieta Matos

591

CORRE MARIA

Maria corre

Corre o santo dia

Corre que morre

De tanta arrelia

De manhã acorda

Corre a cambalear

Prepara a roupa

P’ra todos vestir

Corre a se lavar


Maria, Maria

O tempo não dá

Para ao espelho te mirar

Corre para o quarto

Corre a se vestir

Levanta o menino

Para a escola ir

Corre para o lavar

Corre para o vestir

Corre para cozinha

Faz o pequeno-almoço

Chama-a a vizinha

São horas de sair

Dá pressa ao menino

Para acabar de comer

Corre a fazer as camas

Limpa a mesa a correr

Dá pressa ao marido

Que não se quer mexer


Maria, Maria

Vá lá perceber

Sempre numa arrelia

Pra nada esquecer

Corre para sair

Leva o menino à escola

São horas de seguir

Corre para o trabalho

Sempre a trabalhar

Encolhe-se, troca a perna

Mas é uma pena

Não pode parar

Corre a almoçar

Que o trabalho aperta

Vai aliviar

Deixa a porta aberta

Corre a se lavar

São horas de trabalhar

Corre Maria

Que tens que acabar

Esse trabalhinho

Que te vai premiar


Corre Maria

São horas de sair

Vai buscar o menino

Toma conta dele

Para não cair

Corre rua abaixo

Corre rua acima

Corre a entrar em casa

Pelas escadas acima

Senta o menino

Para fazer os trabalhos de casa

Corre a fazer o jantar

E o almoço para outro dia

Corre a passar a ferro

E põe a roupa lavar

Corre, corre Maria


Corre para arrumar tudo

Põe a mesa para o jantar

O marido é sortudo

Sentou-se a ler o jornal

Come de pé a correr

Lava a loiça, limpa a loiça

E vai-se pôr a cozer

Corre Maria

Maria corre

O menino não quer dormir

Corre conta-lhe uma história

Não resulta a correr

Quer mais uma a seguir

E não consegue adormecer

Corre Maria agoniada

Já sem forças para correr

Cai na almofada cansada

Sem o menino ouvir chorar
Tem pesadelos a dormir

Fala alto a ressonar

Corre Maria

Acorda pela noite dentro

Levanta-se escangalhada

Corre para cama sem alento

E leva a noite acordada

Corre Maria

Maria corre

Já entrou a alvorada

Corre Maria

Maria corre!


Maria Antonieta Matos 05-10-2013

583

MONSARAZ (versão Dia Chuvoso)

Ah…Quanto elevado se sente o pensamento

Quando o dia, lá fora corre atormentado

No aconchego, as brasas falam ao silêncio

Faúlhas me fazem ver o céu estrelado


Adeus dia chuvoso que na calçada

Cascatas fazes e abraça os teus rios

Ao vento que ouço aos assobios

Ringindo portas que me causam arrepios


Enches de lismos, despes o branco do casario

Tiras-lhe a cor e o matizas de rabiscos

Lacrimeja o beiral contente aos salpicos


O escuro se ilumina, cessa o vento e o frio

O reflexo dos regatos alinda a calçada de xisto

Flores nascem na rua, entre pedras e nichos

II

Monsaraz de ruas estreitas perfumadas

De boa gente que te quer conhecer

Que se prende por muito bem te querer

Nos teus olhares se sentem enfeitiçadas


Paisagens que cegam de grandeza

Enchem de inspiração a alma de artistas

Que acolhem o visitante de gentiliza

No palco divino em que és protagonista


Ruas singelas, pedras de xisto a fascinar

O tempo longínquo que se sente a rodear

Em cada pedra em cada canto um desejo


20-08-2013 Maria Antonieta Matos


538

SOL RADIOSO

Amanheça o dia com o sol radioso

Cortem-se todos os males pela raiz

Floresça a alegria num alvoroço

Resplandecendo a paz com ar feliz

 

Morram as injustiças e as ambições

Sintam o pensamento a harmonizar

Acalentem de amor os corações

Sintam correr calmo o rio, a trautear

 

Prendam o olhar nas flores a crescer

O chilrear dos passarinhos a penetrar

Levantem os olhos, para ver e admirar

 

As cores no horizonte transparecer

O rastejar e andar, a lindeza de cada ser

Emudeçam-se em aromas a contemplar

 

30-10-2013 Maria Antonieta Matos
In "Nós Poetas Editamos V"

602

REVOLTA DOS SENTIDOS

O acumular de situações

Sem nenhuma objetividade

Provocaram rebeliões

Na gente duma cidade


Cérebros de muito pensar

Não descansavam há dias

E começaram a agitar

Numa grande rebeldia


As bocas em alvoroço

Gritavam quanto podiam

Veias engrossavam no pescoço

Que as vozes já não lhes saíam


Contentes estavam os ouvidos

Da tremenda barulheira

E de acordo todos os sentidos

Por não ser uma brincadeira


Os olhos controlavam tudo

Tinham essa grande missão

Não acertasse dedo pontiagudo

Vindo do meio da rebelião


No meio desta embrulhada

Os narizes, conferiam odores

E serviam como espada

Na cara dos exploradores


Com grande fúria as mãos

Desataram à paulada

Que terríveis confusões

A cidade estava tomada


Era tanta a rebeldia

Que os ossos estavam a desencachar

O matemático corria

Para todos numerar


Veio o médico de urgência

E os maqueiros com as macas

Cirurgiões com as facas

No meio de muitas ameaças


Maria Antonieta Matos 27-10-2012

644

OLHAR

Quando vejo o teu olhar

Fixo no meu sem parar

Leio o que neles me dizes

Sem uma palavra me dares


Se estás triste ou contente

Se tens ódio ou se me amas

Tudo o que o teu coração sente

Nos teus olhos se inflama


Quando vejo a natureza

Num silêncio interior

Desfruto aquela beleza

Num olhar mais sonhador


O que mata um jardim

É a indiferença do olhar

A inconsciência sem fim

Duma flor deixar murchar


Quando vejo olhar o umbigo

Sem nada ver ao redor

Um distanciamento é sentido

Por nele ver ambição maior


Há o olhar como um som

Expressivo revelador

Mostra o que alma projectou

Num momento inspirador


Olhar sábio que vê distante

Tudo pode descobrir

Realizar coisas importantes

Mesmo sem estar a agir


Um olhar diz uma coisa

Outra coisa diz outro olhar

Porque a diferença da coisa

Está no olhar a pensar


Um olhar atencioso

Vai fazer toda a diferença

Num doente ou no idoso

Pelo ato da deferência


21-01-2013 Maria Antonieta Matos

581

MEU CANTO

Com meu canto direi coisas    

Que no peito trago apertadas

Quando tão injustas palavras, ousas

Com as pessoas descriminadas

 

Sentes-te poderoso sem mácula

Cortando… cínico e desvairado

Sonhos e asas vindo arranca-las    

A gente que nasceu no triste fado

 

Gente humilde labutando em vão

Enquanto tu… tens tudo à mão

Em doce leito te deitas descansado

 

Crianças que maltratas e apregoas

findar seu sofrimento…  palavras boas

Apenas pr’a te mostrares abençoado

 

Maria Antonieta Matos  30-11-2013

593

SOLIDÃO II

Escondo-me na solidão envergonhada

Nem o sol, o campo verde, me consola

Sinto-me desfalecer nesta abrigada

Perante o saque que me fazem, sem ter nada

Sem asas, esquecida, proibida d' aqui morar

Rasgam-me o ventre, tiram-me o sono e o sonho

Arrancam-me os filhos e os netos para emigrar

Tudo é longínquo, tudo é dor, tudo é medonho

Aqui no escuro levo meu sentido a desorientar

"Vivo" acabada, tiritando e a saudade não tem fim

Espero noite e dia por um carinho, para acalmar

Aguardo a esperança, que não vislumbra em mim

Aqui desesperada vejo as flores, a desgostar

Os lagos, os rios, em silêncio sem me bradarem

Nenhuma brisa, não sinto a alma, cega o olhar

Estou sem ninguém, a perecer, olhos a fecharem

Maria Antonieta Matos 10-01-2014
In NPE " Sentir D'um Poeta"

607

Comentários (2)

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namastibet

obrigado por me ler

Val
Val

Gostei , escreves bem :)

Maria Antonieta Rosado Mira Valentim de Matos - MARIA ANTONIETA MATOS, nasceu em 1949 em Terena, Concelho de Alandroal e reside em Évora, Alentejo, Portugal Aposentada da Função Pública
Editou o livro “ Visita à Aldeia da Terra” através de Edições Poejo, baseado e inspirado na Aldeia de esculturas em barro e cimento, sita em Arraiolos, livro de quadras e fotografias personalizadas na atividade e profissões da aldeia, apoiada pela junta de freguesia de Arraiolos. Fez apresentação do livro em escolas e Bibliotecas Municipais para crianças do jardim-de-infância, escola básica e séniores. Colabora em vários grupos de poesia e blogs.
Editou o livro "OLHARES RITMADOS - Nada Sou... Mais Do Que Eu", em 2022
Participação em Coletâneas: “Poetizar Monsaraz - Vol I” “Poetizar Monsaraz Vol II” “Nós Poetas Editamos V” “Nós Poetas Editamos VI” “Sentir D’um Poeta” “Eternamente Poeta” “Poesia sem Gavetas Parte III” “Poemário 2015” “Conto de Poetas Parte III” “Amor Eterno” \"Poemário 2016\" \"Apenas Saudade\" \" Fusão de Sentires\" \"Poemário 2017\" \"Mais Mulher\" \"Perdidamente II\" - Autores Edição - Pastelaria Studios Editora Grupo Múltiplas Histórias \"Sopro de Poesia\" - Autores Edição Orquídea Edições - Grupo Múltiplas Histórias \"Poesia a Cores\" - Pastelaria Studios Editora Grupo Múltiplas Histórias \"Dança das Palavras\" - Pastelaria Studios Editora \"Poesia com Reticências (...) - Pastelaria Studios Editora \"Poemário 2018\" - Pastelaria Studios \"Cascata de Palavras\" - Pastelaria Studios Editora \"Perdidamente Vol. III\" - Poem' Art - Grupo Literário Amigos - " Delírios de Verão"  - Delírios de Outono" "Poesia na Escola"  Verso & Prosa 

https://tradestories.pt/maria-matos/livro/visita-aldeia-da-terra