Lista de Poemas

CRIANÇA MALTRATADA

Delírio percorre meu íntimo

Num desassossego inesperado

Ânsia para mudar o destino

A quem vive maltratado

 

Criança pálida num olhar triste

Meiga e frágil sedenta de amor

Emudecida como jamais viste

Mas que sentida emoção de dor

 

Um simples gesto a faz sorrir

Com pouco, muito lhe parece

A dor aquece sem nada sentir  

 

No aconchego se transparece

Caindo o medo que a entristece

Afagando-me terna sem resistir

 

25-10-2013 Maria Antonieta Matos
In "Poesia Sem Gavetas III"

585

ESTE PAÍS ESTÁ PARADO

Este país desgovernado

Sem cabeças para pensar

Tira o ganho ao desgraçado

Que já anda penhorado

Até para ir trabalhar


Não pode pagar transporte

Não pode nem almoçar

Se está doente mais um corte

Onde vai isto chegar?


Papagueando versões

Do que lhe interessa mudar

O governo faz confusões

Para os seus não molestar


Dizia que tudo faria

Quando era oposição

Agora sim que … podia!

Ao povo lhe tira o pão!


Mede pela mesma bitola

As classes deste país

Aponta uma pistola

Ao povo… corta a raiz


Não há justiça que opere

Não há saúde que cure

O corte em tudo interfere

Não há governo que se ature


Andam para cá e para lá

Com as contas baralhadas

Desculpas a quem não está cá

Para ocultar trapalhadas


Quem estudou está de partida

Procurando um novo rumo

Porque não tem alternativa

Neste país sem arrumo


Estudar já não é para todos

Neste nosso Portugal

Repleto de desempregados

Sofrendo todos os males


12-10-2012 Maria Antonieta Matos


608

AI O ESTADO LASTIMOSO

Ai o estado lastimoso

Em que está este país

Anda alguém muito guloso

Que pensa ser poderoso

A crescer-lhe o nariz

Já não existe classe média

Professores para ensinar

Está a torna-se em tragédia

Aprender e estudar

A saúde está a acabar

O povo já está sem cheta

Como se aguenta a depressão

Se este estado não se endireita

Paga mal a quem dá lucro

E muito bem ao astuto

Que faz o povo cair

Para o andar a servir

Sem o mínimo de dignidade

Mas onde está a humanidade?

Só existe falsidade…

Ai liberdade, liberdade

Acabaram com os direitos

Consignados na constituição

Os direitos são defeitos

Valorizam o ladrão

Não o que rouba para comer

Mas o que se quer encher

Que tremenda confusão

Casais desempregados

Com as contas para pagar

Vêm-se sem ordenados

E com os filhos a chorar


O governo bem sustentado

Acrescenta austeridade

Não corta o seu ordenado

Fomenta a desigualdade

Deixa fechar as empresas

Não lhes dá estabilidade

Desespero e incertezas

É um poço de dificuldades

Jovens sem segurança

Apoiam-se nos velhos pais

Que esticam sem a esperança

Que os filhos não precisem mais


Maria Antonieta Matos 24-04-2012

516

CANTO DAS PEDRAS

Olho a escadaria iluminada e mergulho na fantasia,

No pensamento brotam murmúrios a lampejar

De corpo inteiro sigo a imponente fortaleza e a magia

Admiro cada pedra subindo ao céu, como a um altar


A arte e seus contrastes são inebriados até ao infinito.

A imagem fica gravada nos sentidos e no fundo da minha alma.

Do céu ao lusco-fusco observo e estremeço. Oiço surdo grito!

Absoluto silêncio reina o momento contemplador, sem vivalma!


Cismo através dos séculos, em outras eras, o abandono,

as majestosas edificações, as guerras e as conquistas austeras

Povos mortos de cansaço, obedecem a altas esferas!


Cercados por medos, experimentada miséria e leves de sono,

suplicam de mãos postas ao céu, prosperidade e paz na terra,

para que os homens impiedosos, acabem com as guerras!


25-04-2013 Maria Antonieta Matos “ In Poetizar Monsaraz II”

594

AMOR

Amor que um fósforo acende vigoroso

Se revela num só peito emaranhado

Verte emoções a palpitar, sonho extremoso

Com mil desejos, do sentir aconchegado


Amor enfeitiçado, que não desagarra

Se enciúma e desencanta, a outro olhar

Amor doentio, amor louco que atrapalha

Amor sincero, que nada tem para cobrar


Em todos os amores, há uma loucura

Segredo, desavença e ternura

Tempero que a multiplicidade faz durar


Numa amizade enternecida enquanto firme

Uma atracção perdidamente a respirar

Amor se ganha pela vida a respeitar


10-10-2013 - Maria Antonieta Matos  
 In "Nós Poetas Editamos V"

694

ROSTO DOS TEMPOS

Escondeu-se a paz em qualquer planeta

Tudo adormeceu esquecido no tempo

Rasgados os sonhos no fio da baioneta

No escuro o maltrato, luta contratempo

 

Quão diferença faz a algibeira vazia

O malfadado destino a ti preordenado

Os farrapos e indigências que te cria

O mais triste tempo ensanguentado

 

Tanta desumanidade imponderada    

Embora tu não queiras te é arrancada

Vives do vento como alma penada

 

Fazem morrer o contentamento vivo

Parindo as dores do sofrimento e castigo

Que satanás no fogo do inferno lavra

 

05-11-2013 Maria Antonieta Matos
In " Nós Poetas Editamos V"

568

NÃO FALES MEU AMOR

Não fales meu amor, não digas nada

Deixa o silêncio no nosso amor penetrar

Abraça-me ao teu peito bem apertada

Aquece-me a boca e o coração com teu beijar

 

Deixa p’ra lá tudo aquilo que não presta

Que nos faz sofrer nesta vida dura

Faz uma pausa que é tudo o que nos resta

Para acalmar a euforia que não cura

 

Vibra entrelaçados com olhar cego

Mergulhando neste desvario vero

Sente o meu olhar dizer que te quero

 

Saboreia o momento neste aconchego

Como se o paraíso fosse esse deleite

Deixa que o pensamento em mim se deite

 

Maria Antonieta Matos 31-10.2013
In " Poesia Sem Gavetas III"

639

MOMENTO DO TEMPO

Um raio de luz penetra na rua

Pleno silêncio acalenta a mente

Porquê o tempo a largou tão nua?

Ao tirar as vestes que o olhar sente


Nuvens pardacentas, pálida luz

Casas branquinhas pintalgadas

Que o tempo corrói e seduz

Brilham regatos na calçada


Gotejam prantos a cair do telhado

Galhofam nas frestas em cada pedrinha

Pulam contentes, daquele matizado


No céu o sol sorri entre a “nuvenzinha”

Se escapa e brincam à “escondidinhas”

Ganhando o sol iluminado


Maria Antonieta Matos 05-10-2013

612

O MEU NETO MIGUEL

Ainda mal sabe andar

O Miguel de olhar sereno

Leva o corpo a balançar

Uma gracinha tão pequeno


De bico de pés dá os bracinhos

Para que o leve onde quer

Aproveito para lhe dar beijinhos

A sorrir diz bem me querer


Curioso em tudo mexe

Tudo quer descobrir

Quer fazer o que lhe apetece

Os degraus quer subir


Fica com ar tão engraçado

Que põe todos a sorrir

Como se estivesse aprovado

Que não há mal, pode seguir


Maria Antonieta Matos 10.04-2013

631

AH! SE SOUBESSEM QUE O SONHO

Ah! Se soubessem que o sonho

Vive em cada movimento,

No sol, na sombra, no vento

Na lua, no cultivo, no rebento

No calhau mais duro e tosco

No olhar dum vidro fosco

No rio das águas correntes

Nos bicharocos, nas serpentes

Nas árvores verdes e às cores

Nas estações do ano, mil sabores

No colorido das casas

Nas chaminés com as brasas

Nas cascatas e nas fontes

No mais belo horizonte

Há sempre um sonho a espreitar

No florir do imaginar!


Ah! Se soubessem que o sonho

Vive em cada pobrezinho

No chilrear do passarinho

No inocente menino

Na solidão do idoso

No doente, no revoltoso

Na carroça, no caminho

Na neve, com tudo branquinho

Na chuva, nas gotas de orvalho

Nas brumas, no mar salgado

No Céu todo desenhado

Nas nuvens do céu cavado

Há sempre um sonho a espreitar!


Ah! Se soubessem que o sonho

Vive no sentir, no olhar

Na paisagem, no viajar

Na montanha alta e baixa

Ou no vale a verdejar

Há sempre um sonho que quer

Um poema te inspirar!


Ah! Se soubessem que o sonho

Vive em nós a perfumar

Em qualquer canto do mundo

No campo, no mar, no ar

No mais belo respirar

No mistério, na magia

Numa real fantasia

Todos podemos sonhar!


Maria Antonieta Matos 13 01-2013

In "Nós Poetas Editamos VI"

670

Comentários (2)

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namastibet

obrigado por me ler

Val
Val

Gostei , escreves bem :)

Maria Antonieta Rosado Mira Valentim de Matos - MARIA ANTONIETA MATOS, nasceu em 1949 em Terena, Concelho de Alandroal e reside em Évora, Alentejo, Portugal Aposentada da Função Pública
Editou o livro “ Visita à Aldeia da Terra” através de Edições Poejo, baseado e inspirado na Aldeia de esculturas em barro e cimento, sita em Arraiolos, livro de quadras e fotografias personalizadas na atividade e profissões da aldeia, apoiada pela junta de freguesia de Arraiolos. Fez apresentação do livro em escolas e Bibliotecas Municipais para crianças do jardim-de-infância, escola básica e séniores. Colabora em vários grupos de poesia e blogs.
Editou o livro "OLHARES RITMADOS - Nada Sou... Mais Do Que Eu", em 2022
Participação em Coletâneas: “Poetizar Monsaraz - Vol I” “Poetizar Monsaraz Vol II” “Nós Poetas Editamos V” “Nós Poetas Editamos VI” “Sentir D’um Poeta” “Eternamente Poeta” “Poesia sem Gavetas Parte III” “Poemário 2015” “Conto de Poetas Parte III” “Amor Eterno” \"Poemário 2016\" \"Apenas Saudade\" \" Fusão de Sentires\" \"Poemário 2017\" \"Mais Mulher\" \"Perdidamente II\" - Autores Edição - Pastelaria Studios Editora Grupo Múltiplas Histórias \"Sopro de Poesia\" - Autores Edição Orquídea Edições - Grupo Múltiplas Histórias \"Poesia a Cores\" - Pastelaria Studios Editora Grupo Múltiplas Histórias \"Dança das Palavras\" - Pastelaria Studios Editora \"Poesia com Reticências (...) - Pastelaria Studios Editora \"Poemário 2018\" - Pastelaria Studios \"Cascata de Palavras\" - Pastelaria Studios Editora \"Perdidamente Vol. III\" - Poem' Art - Grupo Literário Amigos - " Delírios de Verão"  - Delírios de Outono" "Poesia na Escola"  Verso & Prosa 

https://tradestories.pt/maria-matos/livro/visita-aldeia-da-terra