Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Na madeira, marcava-se a toada – era um lírio, seu rosto descoberto – sobre o palco, passinhos, delicada, movimentos de areia no deserto...
O quimono da gueixa, iluminada, sob um feixe de luzes, entreaberto, é bordado em brocado e, na beirada do decote, uma pérola, decerto
dá realce a uma pele sem sinais. E na dança folclórica descerra várias vezes a arte do pintor:
Sobre o leque fineza de dispor sutilezas – a síntese da terra – as nuances das crenças ancestrais.
Nilza Azzi
194
Requerer
Entre infinitas formas de querer, este querer me escolhe, sem que eu queira, como se fosse dono do meu ser, sem pejo, diz que é só uma brincadeira...
Que não me preocupe com sofrer, nenhum dos sofrimentos vem na esteira, das mais perfeitas fontes do prazer, quando o prazer é coisa corriqueira.
Mas como confiar num inimigo, alguém que já se sabe é fraudulento? A entrega que me pede não consigo!
Não quero mais a dor, isso eu lamento. A falta de anuência, em que me estribo, conduz ao ponto do indeferimento.
Nilza Azzi
44
Apagam-se as luzes
Medrava, entre as pedras, a gramínea, rasteira, mas constante em seu crescer; bem forte, não importa, curvilínea, seguisse sua trilha a se estender.
Sabia que no a, havia a alínea; fugia com horror da alínea b... Conquanto se notasse consanguínea, queria a complacência de quem lê!
Por falta de tesoura, extrapolou, criou belo tapete, o tal gramado, e tudo se tornou, sem mais, informe.
Ao pé da letra, não se fez um gol, nem mesmo um escanteio foi marcado. Alguém trocou a placa e o campo dorme...
Nilza Azzi
173
É um poema!
Nasceu sorrindo e nem lhe dei um tapa! Logo ele quis engatinhar sem mim... Se não me cuido, lá vai ele, escapa, mas, se me deixa cedo, isso é meu fim. Recém-nascido, gosto de mimá-lo, em mil cuidados, sempre me desvelo porque depois que parte, num estalo, entre nós dois, se rompe qualquer elo.
É meu poema, meu rebento, e é tal minha alegria quando vem à luz, como se fosse d’alma a doce voz.
Também parece que é tão natural, quando o concebo a ideia já reluz, porém, nos cabe pouco tempo a sós...
Nilza Azzi
39
Mar revolto
Há um soneto que permeia minha vida, tal ferida com casquinha que se arranca, como tranca de uma porta sem saída, casca morta que cutuco feito santa...
É um poema que mantenho vivo em mim, nesse tema que alimento com cautela, pois não quero ver alento no meu fim, em ferrenho aguilhoar. Eu fujo dela,
dessa insana tentação de poesia. Que ousadia! Só quer ter o meu querer, mas não cedo, não vou dar braço a torcer.
Afinal, só lero-lero não resolve! Quero mesmo o tal um poema livre e solto, mas navego feito nau num mar revolto...
Nilza Azzi
43
Faíscas
Estrelas desse céu, noturno e magnífico, segredos que guardais, contai-me, por favor! Acaso vós sabeis por que vos dignifico, por que vos tenho amor e a vós procuro expor
o sentimento atroz – não pode haver pior – de alguém que busca a luz, mas segue como um cego, nas trevas que jamais desfaz ao seu redor? Espanta-me essa dor, sou fraca, isso eu não nego,
diante do que traz a mim o amor possível; da dor sem salvação, da busca de um conforto. Certeza de viver de um modo que deploro,
saudade de um querer; será que um dia tive-o? Viver esse sem fim (o estado de absorto), no amor que chega a mim, tal chuva de meteoros.
Nilza Azzi
44
Teus olhos
Quero envolver-te em óleos perfumados, fazer-te ouvir o coro celestial e revelar sem pejo, os meus pecados, em liberdade ter o teu aval...
Talvez andar à toa, no jardim da tua infância, lá, onde brincavas e resgatar o brilho, a luz enfim, banhar teus olhos com água de malvas.
Depois chorar por eles o meu pranto e recolher as lágrimas salgadas. Bem devagar, cantar um acalanto...
Daquelas gotas, quando enfim geladas, fazer compressas e cuidar entanto, de admirá-los, tal como me agrada.
Nilza Azzi
37
Fantasia
Ouvindo um bolero, lembrei de você, daquela semana passada na praia. Dos nossos passeios, na luz que desmaia, ao bulício das ondas, decerto porque, da grande janela daquele ateliê, – tão perto ele estava – que ouvia-se (o mar), com seu vai e vem, a canção entoar... De nós abraçados, em frente à janela, ouvindo um bolero, a canção tão singela, os olhos nos olhos e o cheiro do mar.
E tal era a força daquele momento, (os beijos e afagos geravam calor), tornando possível a ausência supor, nos corpos unidos, de comedimento. A música traz essa imagem que eu tento, no meu coração, com vigor aclarar, tornar mais real essa tela sem par. E doce era a dança que nós dois dançamos, bem perto de nós, os lilases, seus ramos, naquele terraço na beira do mar.
Nilza Azzi
36
Reflexos
Dos cantos onde esteve emaranhado, meu verso se livrou. Isso é passado. Um pessegueiro solta as flores róseas! Por entre os galhos, ora abertos, cose-as,
atônita, a formosa borboleta... Enquanto um tico-tico faz pirueta, a cada vez que soa um canto triste, mais luz banha o pomar e o som consiste
nos restos que sobraram, nos ruídos dos ecos dos lamentos não retidos. O certo é que me vejo nesse espelho,
com ares de feliz, não me assemelho a um brilho de cristal. Rastro hialino, ao longe, sou um vulto pequenino.
Nilza Azzi
36
Catarse
Por que me dói o coração, em dor tão forte, e por que bate em descompasso, à tua voz, cada vez mais, sem encontrar o que o conforte, e dói, e dói, dói sem cessar, e dói após
saber que tudo que lhe resta é dor ainda? Por que me dói o coração, sofre esse corte, e dói bem mais, sendo essa ausência dor infinda, e mesmo assim, esse doer pouco lhe importe?
Ora, ele dói por esse amor, tão renitente, ora, também, por esse amor, pleno e completo. Dói-me, porque bendiz a festa do presente
e ainda dói por ser rebelde e inquieto... E nessa dor, sofre de um modo diferente, em regozijo por amar-te, ó meu dileto.