Lista de Poemas

CANÇÃO DA CHUVA II

Quando a chuva do céu desata,
o verde da campina logo resplandece.
Velozes, serpenteando, os fios d'água
o árido e ressequido chão umedecem.
Com avidez a bátega infrene
fecunda da terra-mãe o ventre indene
e a vida, por todo o sertão, pulula, vibra e estremece.
3 450

ANJO DECADENTE

Sob a ponte de tábua
a correnteza d’água
quebrando-se nas pedras
em notas suaves, breves
de doces melodias!

Na abóbada celeste...
Meu Deus, quanta harmonia!
Um arfar d’asas doiradas,
de anjo que se perdeu,
rompe o silêncio do infinito.

Em terra firme, o anjinho foi mirar-se
no espelho móvel do rio.
Ficou tão surpreso ao vê-se n’água refletido
que num desmaio adormeceu!
Mas uma canção de longe
foi do sono profundo acordando
aquele pobre anjinho enteu!

Os dias foram-se passando
e o anjinho, que levava a vida sempre cantando,
nem sequer poderia supor
que noutra imagem refletida
lhe sangrasse a ferida:
a férula chaga do amor!
3 643

EPINÍCIO

Com o tempo se desfazem as tempestades
Os remoinhos de vento, os pós dispersos pelo caminho.
Na margem do Rio-Vida hão de soprar
Crestos, ainda, os vendavais festivos da bonança
E a luz ressurgirá no fim do túnel anunciando um novo tempo.
Intimoratos, atravessaremos esse mar de escolhos e de angústias
Cobertos, embora, com os últimos trapos que nos restaram
Ao nosso lado – o que mais nos importa- os filhos amados
O Bem Supremo que a mala sorte não nos roubara.
 
DA OBRA MEUS PRIMEIROS CANTOS, ENCANTOS E DESENCANTOS, DE PEDRO PAIVA
 
 
 
 
 
 
 
 
2 415

RESIGNAÇÃO

Eu já não te suplico um beijo

que te enche de mágoas e revolta.

Eu já não quero que me queiras.

Eu já não espero a tua volta.

 

Eu já não sinto a tua falta.

Eu já não quero mais teus beijos

que em nossas bocas eclodia

as chamas de infernais desejos.

 

Resoluto... Quebrei a cama.

Esqueceu-me teu corpo quente.

Volta às ilusões de quem tu amas

Que eu fico com a solidão, consciente!

 
 

 

307

SÍNTESE

Ontem, fui deus
recriando universos.
Vestígios de luz
na escuridão.                       
Arquétipo do homem-bicho
na cosmogonia da criação.
 
Hoje, sou apenas verme!
Obra inacabada.
Profusão de átomos.
Protótipo do não-ser.
A síntese do nada
neste osmótico viver-morrer!
                                                           
DA OBRA AMOR PRA VIDA INTEIRA, DE PEDRO PAIVA
638

MÃE

De santa te fizeste humilde e peregrina,
dando aos pobres mortais exemplos de amor.
Alma resignada e pura ! Desde menina
transformas em riso o pranto, a tristeza e a dor.
 
Benfazeja criatura! A todos ensinas,
com fé e esperança, o caminho do Senhor.
Em ti me comprazo, ó Mater Divina!
Pra louvar a Deus o homem gentio que sou!
 
Escuta, ó mãe, do teu filho a piedosa prece
que dos  lábios irrora num plectro de emoção.
Pra imortalizar-te na lira dos meus versos
de joelhos te faço, ó Santa, esta oração!
 
 DA OBRA MEUS PRIMEIROS CANTOS, ENCANTOS E DESENCANTOS, DE PEDRO PAIVA
 
 
 
360

ENIGMA III

Há um tempo em ti chamado de Eternidade. 
Há outro tempo em ti chamado de Mistério. 
Mas o Amor em ti é mais inexorável que a eternidade e o mistério.
Ah, como eu amo esse indecifrável enigma!

ENIGMAS

3 947

O LOBISOMEM DO ROCHA

           Nos idos de 70 corriam por todo o Batalhão, Bacurizeiro e regiões vizinhas, boatos de que certas criaturas de costumes estranhos e misteriosos que ali viviam, nas noites de lua cheia, saramandaiavam pelas ruas do bairro, colocando em polvorosas todos os moradores da região.
       Rocha, um morador do Bom Princípio e perdulário das noites da provinciana Altos, jurou, de pé junto e pelas chagas de Cristo, ter visto dois bichos- mistura de gente com lobo e porca - correndo atrás dele.
     Foi um rebuliço dos diachos! Naquela noite ninguém mais dormiu. Os alaridos dos cães nas ruas deixavam todos ainda mais assustados e temerosos de um ataque brusco e inesperado das tais monstruosidades que o Rocha supostamente tinha visto.
     Noite longa aquela, meu Deus! Tremia todo dentro da minha rede só de pensar na possibilidade de ser atacado pelos lobisomens do Rocha. Logo eu, que todas as noites abria a janela do meu quarto para namorar a lua, não o fizera naquela madrugada. Morria de medo só de pensar na possibilidade de, repentinamente, dá de cara com aquelas criaturas esquálidas e horripilantes que tinham corrido atrás do Rocha o qual tremendo mais do que vara verde, se refugiara na minha casa.
       Na manhã seguinte, como era costumeiro, fui comprar manga d’água e tamanho foi o pavor que tomou conta de mim, quando, de repente, saiu da alcova um homem velho, com as vestes sujas, rotas e amarrotadas, nariz adunco, o rosto, golpeado pelo tempo, parecia o de uma caveira que, a passos lentos e desengonçados, perambulava pela casa suja, imunda, escura, solitária, deserta e completamente desarrumada.
     Os cabelos compridos, fulvos, embaraçados, desgrenhados, de um branco amarelado e fusco, unhas grandes, sujas e afiadas. Dos lábios descaídos escorria uma gosma nojenta por entre a barba longa, densa e amarelada. 
       Por todo o casarão exalava um fedor de fumo que se misturava ao azedume da sujeira e à catinga azinhavrada de enxofre que vinha lá do fundo daquela enxovia horrenda e asquerosa. Por todo o corpo daquela caquética criatura, cobria uma camada densa e farta de pelos tão pontiagudos, duros, tensos e afiados que espetavam impiedosamente as moscas e varejeiras que ousavam pousar na pele dele.
       Cenas macabras aquelas e, por um momento, pensei está diante de um dos mensageiros do maldito.
      Gritei: - Valha-me Deus! É o lobisomem do Rocha! Apavorado, desabei na carreira para o refúgio sagrado do meu lar e nunca mais fui comprar manga d’água.

1 996

SOLIDÃO

Há em mim uma saudade latente, 
entranhada bem lá no fundo do meu ser
que grita de angústia no silêncio da solidão
e que, aos poucos, vai abrindo-me feridas n'alma.

Há uma tristeza ensombreando o meu rosto
no pandemônio das horas sarcásticas e obtusas
que se arrastam lentas no relógio da sala de estar,
e   se escabujam bem ali na minha frente,  
rindo com escárnio e gargalhando de mim
nas algazarras e arruaças que aprontam dentro do meu ser.

Há uma vontade louca de te querer
aqui bem pertinho de mim,
trazendo acalantos para o meu coração
que geme e que suspira na distância
a dor da tua sentida e ressentida ausência.
Mas eu sou em ti e tu és em mim
e só assim eu sinto, para me redimir,
o afago e o calor da tua presença.

 

 

 
656

HORIZONTE

Vem! Dá-me tuas mãos.
Segura-me as mãos.
E caminhemos! ...
Caminhemos juntos
nessa direção.
Em busca de um horizonte
largo, aberto, livre e iluminado.
Encubramo-nos distantes na poeira da estrada.
Colhamos flores nas planícies alagadas.
E juntos cantemos uma nova canção
falando de amor e de paz
num Mundo que agoniza na guerra.
 
DA OBRA MEUS PRIMEIROS CANTOS, ENCANTOS E DESENCANTOS, DE PEDRO PAIVA
955

Comentários (1)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Meu caro Senhor Poeta...Pedro Paiva...Amor - mistério - e a eternidade ... somente o lado feminino consegue decifrar este enigma . Pois é de se amar mesmo este texto. felicidades. feliz ano novo. para ti e tua familia.

       Nascido em Altos- PI. Graduado e Pós-graduado em Letras/Português, Ciências Contábeis, Administração de Empresas, Administração Pública. Pedro Paiva é professor de Portugês,  Literatura, Redação, Direito, Economia, Contabildiade, Estatística, Empreendedorismo,  Administração Financeira e Administração da Produção dos cursos de Administração, Contabilidade, Comércio e Informática. Exerceu os cargos de Gerente de Suporte do Banco do Brasil S.A,  Presidente da Câmara Municipal de Vereadores, Secretário Municipal de Administração, Secretário Municipal de Educação. Premiado em 1º lugar no I Concurso de Crônicas e Poesias Mário Quintana, promovido pela AABB, de São Paulo. Premiado em 2º lugar no Concurso Mostrando Poesia, promovido pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI, campus de Campo Maior PI. Ex-Prefeito. Membro-fundador da Academia de Letras e Línguas Nativas Altoenses - ALLNA, ocupando a cadeira nº 03 que tem como patronesse Josefa de Paiva Macedo. Participação na coletânea CONTOS DE TERROR ALTOENSES. Autor da antologia poética AMOR PRA VIDA INTEIRA (prelo).