Reirazinho

Reirazinho

n. 1999 BR BR

Túneis de pensamentos perdidos.

n. 1999-01-09

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Luna

A melodia que se escorrega nua
Em seus florais que se revelam almas
Numa sonata que acorda a lua
E o seu som desliza em folhas calmas.

A sua beleza que se encarna crua
Pelas magnólias nos pés e palmas
E seu amor cheiroso atenua
O musical das madrugadas alvas.

Todos sorriem pelo tom solene
O lumiar, pelo contrário, chora.
A madrugada se tornou Selene…

E as magnólias viraram sono
Onde se dorme a perdida hora.
Não haverá outra voz nem outono.

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Poemas

62

A sinfonia última

Corda do celo rasga a nota,
do último trágico som,
mortal à alma já quase morta. 
Mitigado no penumbre bom.

Fúnebre adágio nos ouvidos
é o turíbulo que pendula lembrança.
Nostalgia de dias anímicos,
marcados com pureza de criança.

Luctíssono é sensível ao toque. 
Do garoto colérico ao austero sujeito,
escuro mundo de sentimento fechado.

Espelho manchado de desfoque,
é o reflexo penoso do homem afeito.
Sinfonia lamentosa do ser apartado.
235

Meu ideal

Meu ódio é obscurecido pela minha temperança calma, onde demonstro a imagem de um monge, sempre sereno com as circunstâncias da vida. Todos os problemas com pessoas que me afligem são transgredidos em palavras apaziguantes, gestos de tranquilidade e expressões faciais ilógicas à minha alma. Acabo por escrever míseras linhas onde afogo meus detentores, estas mesmas linhas que são imprescritíveis no meu âmago; me odeio, no fundo do coração, me odeio. Não consigo me expressar em meu social e muito menos em prosas de palavras infindáveis. Um terço do que digo não é uma gama do que realmente penso, na realidade, tudo o que escrevi são vômitos na privada prontos para sumir na descarga. Essa prosa de agora, por exemplo, não é o que minha angústia quer falar, ela pede para se libertar, mas eu estou fitando-a todos os dias, guardando-a em meu peito.
Eu sou um mudo, sou deficiente, de palavras vazias a ideais quiméricas. Sou um plantonista em excelência: vivo imaginando uma vida onde consigo realizar meu bem-estar, meus livros e minhas conquistas. Com pesar, abro os olhos, me deparo com a realidade, ela dói. A minha velha companheira Angústia sempre retorna quando penso muito sobre isso; ela tenta me consolar, como uma mãe que consola seu filho após se sentir triste. Mas ela se esquece que ela me faz mal, coloca a mão no lado esquerdo do meu peito e começa a me afagar. Sonho no dia que tudo isso vai acabar, onde após a minha morte, me restará eu sozinho no mundo, no espaço sideral, junto com as lindas estrelas e planetas orbitando o nada. Quero derramar a última lágrima e subir ao céu como um foguete, serei um ínfimo elemento da galáxia dando razão a existência.
Eu sou pequeno demais, mas minha fantasia é magnânima, onde lá na minha imaginação, o bom e belo são a quintessência de meu mundo. Cada segundo que se passa, me converto a esse ideal; talvez tudo seja melhor para mim se eu for em direção ao caminho universal da vida, quando finalmente serei pleno.
233

Túneis de pensamentos perdidos

Pensamentos leves como penas,
transvoam o espaço feito fenas.
Superficiais feito idosas na rua,
fatídico à vida feito a sua.
Embalagem plástica é a emoção.
Lixo reciclável é toda a corrosão,
Faz mal ao meio ambiente,
degradação necrótica me é suplente.    
Tudo o que vem, morre no amanhã,
sou o paciente póstumo do divã.
Queimei cigarros após o sexo,
tudo foi tão bom... se tivesse nexo;
Você na minha imaginação deu vida,
mas no contraste do real, és olvida.
Mais um devaneio me foi tirado:
sonhei que tinha me matado.
Sorri na vertigem do abismo-além;
Faca na clavícula corta meu ‘’amem’’.
Já no céu, os anjos compõe o belo,
no além-vida eu quebro meu elo:
Os deixei e voltei a vida bastarda.
Infeliz, atomizei a existência fracassada.
 
211

Retrotemporal

Calendário anno domini ao contrário
Relógio retrocede os segundos temporários
Corro na contramão da necrofalmognose
Vivo meus dias na necrocitose
Quero encontrar o ponto inicial
Para balbuciar o destino fatal
Retroalimentação do meu ser anormal
Eternamente vivendo o loop infernal
Vertigem de Kairós me oportuna
Meu Aeon é meu castigo de usura
Quebrado novamente o ciclo itinerário
Voltemos ao maldito calendário contrário
218

Amante da vida (ode ao viver)

Sou devoto à vida, simplesmente não suporto a ideia de morrer. A amo como as folhas que caem no fim de primavera e as miúdas gotículas d’água que exaure de meus olhos no simples ato de contemplá-la. Minhas lágrimas de felicidade transbordam meu amor e faz do mundo um dilúvio de alegria. Eu criei o sol e o sol me mimetiza, eu sou o conceito do brilho e do bem. O taciturno da lua é como deixo o céu mais agradável às vidas cotidianas no meio da noite. Bebo todos os dias a Artemísia da natureza; a planta que me intersecciona e, ao mesmo tempo, me une ao todo. Sou o tronco das árvores, os vermes da terra, as leoas da mata e tudo o que nasce e morre em instantes. Sou o verde do pântano, o mesmo verde da cor da esperança e liberdade. Não há tempo em meu ser, o cronos é um erro. Tudo a mim, é eterno, não só sentimentos, como atitudes — sou especial, pois, não existe angústia em meu coração, só amor. O todo sou eu, assim como o amor é o todo.
A beleza da vida é verbalizar ao abrir os olhos no amanhecer do sol, em sílabas, ‘’Eu sou feliz!’’ sem o maior receio. Na realidade, não preciso dizer estas palavras, a própria vida já sabe disso, porém, eu sacralizo tal frase sem pestanejar, somente como ato benfazejo em gratidão ao viver.
O sorriso da minha boca é a forma neutra do meu rosto; talvez meu rosto seja deformado, pois, sou incapaz de mudar de expressão. Tudo a mim, é engraçado e perfeito; não entendo como existem pessoas que não entendem o ato de ser feliz. A vida é simples: viva. Meu cérebro não contempla muito bem ‘’tristeza’’, para mim, você só está triste quando é ignorante. A ignorância é o ato de ignorar o fato que a vida é ato puro (ser feliz). Tudo sempre deu certo para mim e nunca houve problemas. Queria lamentar para os depressivos que rotam no errante, mas felizmente, não consigo lamentar, pois, como disse, só sei ser feliz e me sentir bem. Uma ‘’lástima’’ aos afortunados que não são amantes da vida como eu sou.

234

Resistência de um homem qualquer

Eu olho para esses lugares abandonados onde a sinergia entre as pessoas já inexiste, a nostalgia melancoliza minha pele e me faz chorar lágrimas de sangue com aquilo que poderia ser belo, que os pássaros grisalham em cadáveres e a vida derretida pela lava de desolação. O sol a mim é eclíptico e, as nuvens, carbonos flutuantes. Impetuosamente o passar dos dias foram como uma bomba relógio prestes a explodir; realmente explodiu. Não só de necroses, sangues e órgãos foram espalhados neste local, mas também a dor provocada por ideias malévolas. O mau tornou-se a essência do homem, junto com as correntes invisíveis que prende a sociedade aqui; a escravidão é a nova liberdade. Destrutíveis em grupo, sozinhos, imundos. A auréola da esperança foi pega e escondida, porém, o altar-mor da persistência ainda permanece comigo. Me resta ir na contra mão da complacência humana, eu necessito dilacerar os demônios do ódio e secar lago de tristeza.
Em virtude morrerei e meu túmulo será jazigo um homem de vidro que não quebrou a meio a milhares de espelhos falsos.
191

A perversão de Devorath

Crânio em mãos pesa meus ignóbeis dedos,
fatiga meus ossos e coagula meu podre sangue.
Seus obscuros olhos molestam meus medos;
abjeto sorriso a fagocitar minha boca infame.
Madrugada, ábdito ódio perece minha calma;
que vedes a putrefação de meu lindo rosto,
e de augúrio profetiza minha néscia alma.
Meu castelo inundado nas marés do poço.
Assombração malogra meu ouvido;
busca o sacrossanto em completude:
mal sabe que meu espírito é omisso.
Folhas do meu Éden secas em atitude.
Sou como os vermes da terra santa,
sangrado, angustiado e prostrado.
Neofilia no profano, silaba do mantra.
Extenuado em viver, a heresia alvitrado.
216

Jardim

Magnólia aroma a anima harmônica,
cravina adocica o animus racional.
Gardênia oleia o ar com seu perfume,
kalanchoe rega pestilência pulmonar;
desmazelo floral sangra as raízes da vida.

A púrpura, energia do absoluto:
sua nobreza transcendental na víscera do todo.
Duplo significante entre paradoxo e axioma,
como a perfeição da peônia que anula o brutal;
ao tempo que o afirma, o cíclame do bem e mal.
313

Estático

A minha mente é como a neblina estática e vazia. Ela permanece ali, com seu cheiro amadeirado e com seu toque adocicado de tenaz idealização; o contraste da incoerência foge de minhas mãos, assim como a clara luz desaparecida no breu que é o meu sentimento. A vontade de permanecer no ar transpassando noites, dias, verões, outonos, invernos e primaveras está esgotada por amargos pedaços de ambrosias angustiantes. Após mastigá-las, a explosão de sofrimento sai dos meus lábios e transpassa em estações obscuras para o meu próximo. O néctar do grotesco é como minha psique é demonstrada, ela é feia, mas é sincera. A sinceridade que forma minha moral é como o fruto proibido: todos desejam comer, mas não estão dispostos a pagar pelas consequências.
Todas palavras, verbos e sentenças foram lançadas em orquestras sinfônicas de mestres que um dia partilharam minha neblina. A nota em baixa escala é a música de minha existência, lenta, deprimente; melodramática em si mesma. A corda do violino é rasgada por persistência de crenças inferiores. Mas veja bem, não tenho culpa em enxergar o óbvio. O meu assento é impotência e falta de vontade. Mãe letargia me petrificou com seu olhar apático. Eu não me movo, não choro, não rio, não faço nada. O martelo da morte seria-me como a amálgama da filosofia: fundir a fraqueza com falta de fraqueza, o bem e o mal e a vida com a morte.
Agora eu me vejo estático nessa sala pela vida — mastigando minha dor, na escuridão do amor, sugando a brutalidade da honestidade, ouvindo a sinfonia da agonia e quebrado pela vontade.
343

Mal-estar

Degredo do meu ego superveniente a problemas,
prostrado, quase morto em meu solipsismo.
Vertigem mental confunde minhas crenças.
Ânsia filosófica é a náusea que enferme;
onde vômitos mancham meus lençóis em nojeiras
que prospectam o temor do porvir.
O não-ser é a tragédia que será, e quando ser,
meu imunológico se comprometerá com esse dever.
357

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