RicardoC

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n. 1976 BR BR

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

n. 1976-05-01, Caratinga

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UM DESALMADO

A vida é movimento continuado
Do ser entre se almar e desalmar.
Por pena ou humanidade, há-que encontrar
Algum discernimento mais confiado.

O mundo fez de mim um desalmado
No dia em que cessei de me importar
E a esperança deixou de ter lugar
Dentro do coração amargurado.

Com efeito, parece que minh'alma
Perdera-se-me e bem com ela a calma
Que tinha no semblante quando moço.

E o pouco ou quase nada que hoje sinto
Só lembra do que tanto me ressinto,
E tem me feito mais e mais insosso...

Betim - 19 12 2017
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Biografia
Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

Poemas

184

DILACERADO

Hoje, o meu coração está ferido
Como se cortes fundos pelos pulsos
Perdessem-me os sentidos já convulsos
Face à completa falta de sentido.

Torturadores, ou algo parecido,
Declaram, desde já, presos ou expulsos
Oponentes, descrentes e uns avulsos
Que marginalizados tenham sido:

-- "Não lutem mais por terra e moradia,
Tampouco liberdade d'expressão,
Visto que terrorismos hoje em dia!"...

A ordem é o progresso da ilusão
Que busca corromper a fantasia
De Justiça Social e Comunhão.

Betim - 22 10 2018
598

MAGNO - A história de Alexandre

MAGNO - A história de Alexandre

CANTO PRIMEIRO

I
Canto, ó musa, dos grandes o maior!
Aquele cujos feitos nunca mais
Haverão pelos tempos de igualar.
Canto o senhor dos helenos e dos persas,
E explorador das Arábias e das Índias!

D'entre todos os homens em seu Fado,
Eu canto quem de Vênus tão dilecto
Quanto de Marte mais favorecido,
Como se não de reis, mas sim de deuses
O houvessem concebido para a glória!

II
Mas não, musa, não cabe ao menor poeta
Cantar, por fim, dos grandes a grandeza...
Tampouco lhe compete se arvorar
Um cronista de cortes tão distantes
No espaço e tempo às suas tortas letras!

Oh sim, como ousa o obscuro lançar luzes
Sobre este cujo nome imenso brilha?
Como, musa, algum poeta 'inda pretenda
D'outro século os transes da Fortuna
Que marcaram os dias de Alexandre?

III
Ou mesmo, como da Hélade traduzir
N'um tardio e vulgar falar latino
Que por terras austrais americanas
Calhou de florescer exuberante?
E como -- para além das conjecturas --

Ter versos onde o velho se renove
A iluminar as mentes d'este tempo
Que pouco ou nada escutam d'outras eras?
Mas haverá ainda d'entre nós
Quem aprecie d'épicos o engenho?

IV
Deveras... Não sabendo responder
Tu silencias, musa, qual dissesses
Dever também o poeta se calar...
Afinal, que aproveita o homem em ter
Vencido todo o mundo se se perde?

Que poderá o poeta contra o Fado
Enquanto o próprio herói, em sua história,
Sem conhecer derrota é esquecido?
Talvez não reste um canto a se cantar
Tampouco história alguma a ser contada...

V
Se canto, ó musa, é antes teimosia
Que talento ou verdade iluminados.
Eu canto porque os homens e mulheres
Coetâneos de Alexandre n'ele vivem!
Eu canto porque os deuses o escolheram

Para levar o saber do Estagirita
Às três partes do mundo conhecido:
Por África, Ásia e Europa, desde Pela,
Avançou até ser tido por Magno
Mesmo onde seu domínio não chegou.

VI
Mas canto, sobretudo, porque falham
Todos os que o tentaram superar...
Mesmo quem o epiteto após houvera:
Pompeu, Gregório, Leão, Carlos, Alberto...
Antes foram desejos d'outras glórias

Do que lumes capazes de ofuscá-lo!
À semelhança de astros que pelo Orbe,
Transitando em concerto gravemente,
Luzem sem contrastar co'a luz mais alta
Vista no céu nocturno entre as estrelas.

VII
Alexandre, após guerras e poderes,
A sua história aos códices da História
Tivera assim, por mérito, elevada.
Deve o poeta, contudo, não o douto
Cantar o homem a além de suas obras.

Certo de que, ao exaltar sua existência,
Celebre antes vivências que conquistas
E entenda, humanamente, o que é ter
Grandeza quando o mundo mais parece
Carecer simplesmente de limites.

Betim - 18 10 2018
111

DESAVERGONHADOS

Se entre quatro paredes, nós dois nus
Surpreendermos insones a manhã...
Eu te olho espreguiçando no divã
Reclinada de costas contra a luz.

Tanto teu peito arfante me seduz
Que nem cuido se já perco a hora vã
Em admirar-te a pele mais louçã
Onde os seios a meus beijos fazem jus.

Quando pleno teu corpo se oferece,
Logo a Beleza em ti se reconhece
Como se Vênus vendo-se no espelho.

Tu me encaras, por fim, em desafio.
E eu me entrego a adorar-te horas a fio,
Pois diante d'uma deusa me ajoelho.

Betim - 16 10 2018

104

À MANEIRA POÉTICA

À MANEIRA POÉTICA

Não. Nada nunca é errado em poesia…
Rimar ou não não garante o poético, ou melhor,
nada garante.

Quando o poeta rima
é porque exige dos sons das palavras a magia.

Quando ritma, é que ordena
as tônicas segundo a respiração.

Quando metrifica apenas
põe limite à frase para que não seja
nem curta nem longa demais.

Quando não rima, ritma e metrifica,
ele deixa as frases buscarem sua própria música.

D'um modo ou de outro,
corre o risco de não fazer mais
que preencher folhas em branco…

O poeta não escreve como escrevem;
não fala como falam, nem poderia!
Se o que ele busca é o extraordinário,
exigindo das palavras mais que comunicação.

Se isso o faz maldito, que seja:
Sim, mil vezes maldito por exigir a leitura atenta!
Dez mil vezes por não facilitar a compreensão.

Maldito! Maldito seja!

Por colocar-se como resistência teimosa: Alguém que não vai silenciar enquanto não for silenciado. 

Por escrever sem patrão o que lhe vem à cabeça
ou que lhe angustia o peito…

(Jamais concordarei serem necessários genocídios para vivermos em paz).

Por que exigir do poeta, portanto,
a bênção luminosa da superfície
se ele desce às profundezas de si mesmo?

Betim - 15 10 2018
125

MALDITOS! N°2

Facto: Malditos porque mal falados.
Porque muito mal lidos; mal descritos...
Os bons? Somente os mortos! No passado.

Tantos a maldizer-nos os escritos:
-- "Antiquados! Herméticos!! Absurdos!!!"
Ou sem nem ler (assim assim): -- "Bonitos..."

Se declamamos, fingem estar surdos;
Se publicamos, fingem que são cegos;
Um povo sem país igual os curdos:

Poetas... Filhos de sós desassossegos
Sempre a vagar sem pátria e sem dinheiro,
Indo sobreviver de subempregos;

Ou distante vagando, aventureiro,
Que por entre as palavras em vão erra
Sem nunca encontrar-se paradeiro.

Hoje, até Ahasverus possui terra!
No mesmo confim onde Israel governa
E o ismaelita de novo se desterra...

Não os malditos... D'esses é eterna
A caminhada errante vida afora
Atravessando as noites na taverna.

Ali, já sem saber se ri ou chora,
Senta-se e escreve em plena solidão,
Alheio mesmo da hora de ir embora.

Eis dos poetas a glória e a maldição:
Por fim, indiferentes se são lidos,
S'entregarem à própria escuridão.

Pará de Minas - 14 10 2018
104

CÓLICAS

No hotel d'uma cidade bem distante
Eu tento parir pedras e opiniões...
Em vão rolo de dor sobre os colchões,
Enquanto a noite cai extenuante.

Eu saio pelas ruas claudicante,
Buscando analgesias pr'os culhões!
Ainda que tomado de tensões
Nas rugas que carrego no semblante:

A cada rosto estranho que me estranha
Percebo minha angústia ser tamanha,
Que sequer dignidade tenho mais.

Na farmácia, opioides pela veia
Me dobram com seu canto de sereia
Certo de que a paz vem tarde demais.

Ibiá - 12 10 2018
596

MALDITOS!

Quem são estes cuja luz fora apagada
E, insones, têm nas noites seu refúgio,
Atravessando em vão a madrugada?

Só querem ao poetar vago transfúgio
Da vida d'esperanças comezinhas,
Bem como contra o tédio subterfúgio?

Estes -- que vêm deixar nas entrelinhas
Toda sorte de angústias autorais --
O que buscam por horas tão sozinhas?

Por que se fazem poetas? Por que mais
Buscam tirar das letras o sublime,
Senão por se sentirem sós demais?

Que furtaram aos deuses? Qual o crime
Cometido na aurora dos milênios,
Cuja pena a escrever nunca os redime?

Sem diferir se néscios ou se gênios,
D'onde foi que obtiveram tal saber
Que os obriga a versar entre proscênios?

Como estes que escrevem ousam ler
Nas linhas d'horizonte um sol errático
Por entre arranha-céus ao amanhecer?

Como alguém -- entre excêntrico e lunático --
Gastando a vida inteira com escritos
Despidos de qualquer sentido prático?

Malditos! Sete mil vezes malditos!
Estes que têm os versos por oráculo
Havendo além dos céus mais infinitos...

Malditos os que têm pelo vernáculo
Um carinho de artista incompreendido
Que se imola no altar do tabernáculo!...

Dom às avessas!... Bênção ao inavido!...
À margem das promessas e das glórias,
Poetar é desdenhar o conhecido...

É saber inventadas as memórias
E de belas mentiras a verdade
Pretendida em suas vãs histórias.

Desastrólogos do alto, sejam poetas
Malditos pelos séculos dos séculos,
No augúrio de catástrofes completas!...

Belo Horizonte - 11 10 2018
102

HOMENS DE COR

Preto, branco, amarelo, pardo, mel...
Diversos mas iguais por sob a pele.
Inteira a humanidade se revele
No seu existir entre a terra e o céu!

A História há-de correr com seu tropel,
Arrastando as paixões aonde impele.
O indivíduo, contudo, se rebele
Em face dos tiranos quando réu.

Os homens são os mesmos, lá e aqui.
Sua grandeza está no que constroem,
E não nas amarguras que os corroem.

Libertos da opressão, mais lhes sorri
A verdade através dos tempos idos
Que a glória relativa dos temidos.

Betim - 10 10 2018
586

O LIVRO DE JÓ

Quando senti as dores dos meus rins,
Eu me lembrei de Jó e seus amigos.
Deveras, o que é o homem nos perigos
Em seu tergiversar por nãos e sins?

Os meios não justificam mais os fins,
Nem viver qual viviam os antigos...
E de reis, parecemos mais mendigos
Em sobressalto quando dos clarins:

Javé e Satanás fazem apostas,
Ao provar em desgraças e sem dó
O jugo que mantêm em nossas costas.

Ao fim, farto de dias como Jó,
Talvez ouça de Deus vagas respostas,
Sabendo eu já ser pó de volta ao pó.

Betim - 09 10 2018
565

N'UMA NOITE D'ESSAS

Entre doses de vodca e solidão,
O poeta olha a puta o provocando
Até se perguntar, de quando em quando,
Se estava lá por tédio ou por tesão.

A puta está ali por profissão
E lhe vem, rebolativa, ao seu comando.
Sorri e bebe o qu'ele está tomando
Sabendo causar tórrida impressão.

Ela derrete o gelo nos seus lábios
E com voz maliciosa ela lhe diz,
Fazer o poeta um pouco mais feliz.

Mas ele, mesmo d'olhos menos sábios,
Declina de usufruir d'essa beleza,
Temendo ter a dar tão-só tristeza...

Belo Horizonte - 08 10 2018
531

Comentários (5)

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Luciana

Lindos poemas ,meu caro!

Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns

EDUARDO POETA

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

bom vê-lo por aqui

natalia nuno

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!