noute
Sinto um coração pulsante em cada canto do corpo.
Hirto, fito o teto,
Enquanto boio na penumbra entre a consciência de que existo
E a inconsciência induzida pelo incômodo de existir.
Até que de repente, sinto a noite...
Sim, sinto a noite.
Sinto-a sem saber como sinto,
Sentindo-a com a nitidez com que a sente
A mais incônscia vivalma que acompanha a progressão do poente.
Sinto a noite, absolutamente...
Noite...
Noite que recebo, e que me recebe, noite órfã de um dia
Para o qual não nasci...
Noite, que de não ter mãos
Dedos
E cólera,
Dilui-se em minhas próprias mãos
Dedos
E cólera,
E torna-me parte de si...
Noite que, quando penso que me vai sufocar,
Acaricia-me a face,
Acalma-me os corações,
E enlaça-me num sono além do mar morto
Onde ficou a minha alma à deriva...
Noite, novo fôlego calmo
Ao país dos sonhos,
À serenidade do alheamento dormente,
A um sonho lúdico para além do quarto escuro que me oprime...
Sim, sinto a noite.
E outra vez eu adormeço, sem que tenha despertado, primeiramente...
Ah, noite de minhas horas irremediavelmente destruídas...
acalanto partido
À sombra de risos idos,
Em um lugar de acalanto,
Despedimo-nos, vazios:
Dois corações fenecidos
Em um beijo untado em pranto
Vertente de secos rios.
Teus olhos, da cor da mágoa,
Meus olhos, da cor da dor,
Enlaçados numa dança
Ao som do rumor d'água
Deste amargo desamor
Que insiste em ter esperança.
Ah, memória que persiste!
Ah, interferência do afeto!
Trajando as nossas ruínas
Com a dália que resiste
A medrar dentre o completo
Limbo incerto das ravinas.
Como é cinza este poente...
E tão vagos os carinhos...
Os horizontes, feridos,
Escurecem de repente...
E ao pé um d’outro, sozinhos,
À sombra de risos idos,
Levantamo-nos, partidos,
Partindo cada um a um canto,
Pelas ermas avenidas,
Com nossos laços rompidos...
Mas, no lugar de acalanto,
Inda sinto as nossas vidas...
passagem
Incompetente no ofício
De guiar a minha vida,
Eu sigo pelo interstício,
Movido pelo cansaço,
Desta estrada esmorecida
Sobre a qual, vazio, eu passo.
Passo, humano, baço e errante
Pelas vãs reminiscências
De um coração já distante,
Maquinista de minha alma,
Que através das contingências
Dava-me um torpor de calma.
Passo assim, sem perceber,
Pelos céus estilhaçados.
Mas não posso conceber
O caminho a desbravar;
Meus sentidos, conspurcados,
Me impedem de imaginar...
Passo, sem, porém, passar,
Vivendo qual folha seca,
Exaurida, a despencar
Dos galhos lindos de outrora
Quando podia sonhar
Com o que mal lembro agora.
Entretanto, não lamento.
Eu simplesmente confesso
Minha angústia e alheamento
Ante o dever de viver
Este, do qual nunca esqueço,
Consciente do meu ser.
E passo, então, humildemente
Pela infinda estrada imposta,
Com meu coração doente
Depravado, marginal,
Tímido, a buscar resposta
Ao que sinto, afinal.
Passageiro de mim mesmo!
Pelos trilhos tão incertos,
Em meu comboio, sigo a esmo,
Vendo, com o olhar tristonho,
Esta vida e seus desertos;
Mas tudo parece um sonho...
vestígio
Deixo um pouco de mim por estas ruas
Ao raspar as palmas pelos muros,
Talhando-os com os tatos das mãos nuas
Como fossem cartas aos futuros
Eus, que revisitarão estes caminhos.
Serão pedaços de minha alma feitos,
Pela vida, saudosos peregrinos,
Viajantes de si, em rastos imperfeitos.
Será museu de acasos esta cidade
Onde hoje pouso as mãos, já com saudade
Do eco que serei ao longo da memória?
Deixo um pouco de mim... E sigo só,
No agridoce saber de que sou pó,
Vestígio humano no tempo e na história...
soneto tardio
Estás sob a terra... Mas, em mim fecundas
As flores que te não pude dar em vida.
E o perfume que neste jardim abunda,
Póstumo, toma a forma de uma ferida...
Não há consolo nesta hora moribunda
À minha alma que, de dor enriquecida,
Relembra as tuas mãos vazias e fundas,
E se vê, de pétalas, empobrecida.
Sinto estas flores com amarga ironia...
Medraram no espaço que deixaste ao ir,
Fixando as raízes na melancolia
Da impossibilidade de ver-te sorrir
Outro instante. Ah, mas, Deus! O que eu não daria
Pra com estas flores tuas mãos florir...
galhos
Minha alma está de tal modo perdida, hoje,
Enquanto fita as vinhas de jardins idos,
Que o crisântemo do presente me foge
Pelas mãos, entre meus dedos exauridos.
Ao pé do nada feito maravilha
Pelo estúpido grilhão de uma memória,
Faço da melancolia que fervilha
Uma lã, com qual teço e distorço a história.
Sim... E fico a esmo, sozinho, a imaginar,
Nas vinhas empedernidas, a brotar,
Os perfumes dos sorrisos e seus ecos...
Aqui, sob a árvore suspensa no abismo,
Choro sem chorar, e, sobretudo, eu cismo
Em sonhar flores onde há só galhos secos...
parafuso [prosa]
Fitei-o de soslaio dentre os demais que fixavam cantoneiras à parede. Ele, destoante, intrigou-me. Aproximei-me para examiná-lo.
Dava já indícios de ferrugem, que despontava em meio às pequenas sujidades que se acumulavam ao redor de sua cabeça. Cabeça que, por sinal, não ia bem, posto que a fenda encontrava-se espanada. Apesar disso, dava ainda bom aperto. Não seria ele o responsável pela hipotética queda de minha singela prateleira, e eu bem o sabia.
Ainda assim, impelido pelo tédio, propus-me a trocá-lo, simplesmente. Capricho estético de uma tarde vaga.
Então, num súbito ímpeto de boa vontade, fui-me à loja de ferragens mais próxima. Sabia bem o que eu queria. Conhecia a medida exata do que precisava: um parafuso de cinco milímetros de espessura, por trinta de comprimento, banhado a zinco e de cabeça fenda panela, de modo a combinar com os demais.
Paguei trinta e cinco centavos. Voltei para casa.
Removi, cautelosamente, de cima da prateleira, meus livros e demais bugigangas. Apanhei a chave de fenda e extraí o feioso e o colega que o auxiliava. No mesmíssimo buraco, pus o novo parafuso. Contemplei, depois, satisfeito, o novo aspecto da prateleira. Mas, tênue, senti o antigo parafuso espetar minha mão. Olhei-o.
O havia trocado sem qualquer pudor. Afinal, o parafuso novo fará a exata função deste velho que me não serve mais. Nada sinto por ele. Nada, pois todos os parafusos me são o mesmo. Uma única coisa, todos eles: a ideia de que servem para fixar. Assim, este pobre parafuso que arranquei de seu lugar pôde logo ser reposto por um mais novo e aprazível.
E por que haveria de ser diferente?
Nunca teve este mísero parafuso algo de idiossincrático. Nunca teve este parafuso um jeito característico com o qual ajeitava os cabelos por detrás das orelhas, casualmente. Nunca me desferiu este parafuso um sorriso com uma configuração única de dentes (tampouco me cravou a carne do pescoço com a mesma). Nunca sonhei deitado ao lado deste parafuso. Nunca ouvi seus segredos, ou segredei-lhe a minha própria intimidade. Nunca tive, em meus lábios tristes, o sabor de sua mágoa. Nunca o tive enquanto em pranto, nos meus braços, em uma tarde qualquer de maio (tampouco fui eu a causa deste pranto suposto). Nunca me foi ele senão uma utilidade sem alma, substituível, descartável, barata, esquecível. Nunca me poderia deixar um espaço vazio na parede, pois posso comprá-lo a qualquer momento na loja de ferragens, pela bagatela de trinta e cinco centavos.
Um parafusinho de merda. Sujo. Feio. Nada.
E numa comoção repentina e exagerada, envergonho-me e enraiveço-me ao divagar acerca das vezes que pensei, porcamente, que eram não mais que parafusos em minha vida as vivalmas com as quais partilhei de tudo quanto é ausente nas coisas substituíveis.
Vivalmas! Cabelos, dentes, sonhos, mágoas, amores... Vivalmas! Removi-as...
Mas a elas não há peça de reposição.
O vazio do espaço onde um dia se encaixaram me permanece vazio, a despeito de outras peças análogas com quais tentei compensá-las, sem nunca obter, porém, senão novos espaços cravados em lugares distintos.
O que restou: buracos impreenchíveis em minhas paredes internas.
E a ausência dói eternamente.
E os buraquinhos perenes me fazem frouxo.
E eu, ridículo, sujo, encrostado de ferrugem na alma, fico olhando para o velho parafuso, com o pranto constipado, enroscado na garganta.
memória
Estive hoje escutando, no rádio,
Uma canção que há muito não escutava.
E enquanto a melodia rolava pelos ares,
Eu a sentia
E assistia, quase sem perceber,
De dentro da minha cabeça,
Uma algazarra de crianças
Brincando de bola em um pedaço de asfalto
Estranhamente familiar.
Uma algazarra familiarmente estranha.
De repente, compreendi.
Dentre as crianças, estava eu.
Tratava-se não de uma sensação feita vivência na imaginação,
Estas, saudosas, que por vezes sentimos por intermédio do desejo;
Tratava-se, sim,
De uma vivência longínqua feita imaginação na sensação.
E estava de tal forma empoeirada
Que se perdeu no tempo enquanto realidade passada,
Integrando-se à memória
Como nunca houvesse sido qualquer outra coisa.
Depois disso, quis ficar ouvindo rádio o dia inteiro
No anseio de desenterrar outras.
Sempre pasmo com essas coisas
Dos confins de não sei onde em mim,
Que ocasionalmente são resgatadas por músicas
Dos confins de dez anos atrás.
Estas pequeninas manifestações da alma...
o parquinho revisitado
Salta o garotinho do balanço.
Ele vem até mim,
Me apanha pelo braço,
E me leva a passear ao redor
Dos brinquedos do parquinho.
Vejo as velhas gangorras,
Balanços, gira-giras que rangem,
Escorregadores, casinhas...
E ouço as velhas risadas.
O garotinho também me mostra
A sua nova bola de capotão,
Sua camisa amarela, e suas chuteiras...
Depois ri do próprio sonho futebolístico.
O garotinho
Revive
Diante
Dos meus olhos.
E eu, ao fitar, de súbito, seus cabelos louros,
Seu sorriso banguela,
E suas roupas encardidas,
Entristeço-me
Ao atestar que
Um dia
Já fui feliz.
despedida
Não digas nada. Contempla
O luzir dos olhos tristes
Em que outrora viste estrelas.
Aperta contra teu peito
A essência da despedida,
E aceita, também, o aperto.
Despede-te calmamente;
Desenlaça a sombra e a deixa
Partir pela madrugada.
E afaga teu coração,
Bem como um dia afagaste
O pranto de quem te amou.
Dorme, que a aurora não tarda.