este infinito instante em que vives agora basta apenas que pisques e pronto: é memória
inda não dás por isto à sombra das batalhas mas o tempo que torna as crianças grisalhas
é este mesmo que colhe teus momentos dispersos e te confunde os olhos
para te dar, enfim, da vida, alguns versos, dos sonhos, seus espólios.
II
abre os olhos e vê: o tempo já passou. apenas em você o instante não murchou.
este lugar não é o de quando eras outro. se aqui ainda vives, talvez estejas morto.
nem houve no intervalo de tempo dos teus olhos qualquer sonho ou excesso...
mas se passaram anos. e é como se tivesses vivido em retrospecto.
III
como aceitar que a mão que a minha mão enlaça é só minha outra mão que o coração disfarça?
a memória é um tecido assim dissimulado que tanto nos engana mesmo estando rasgado
ah, que doce a mentira que em mim se acalora quase fisicamente...
mas o tecido é falho. e as minhas mãos se esfriam melancolicamente...
839
as nossas canções
não. as nossas canções não tocam nos bares nem nas ruas nem nas festas nem nos carnavais.
e entanto nas ruas nos carnavais nos bares e nas festas as nossas canções tocam em mim.
e eu nunca estou nos carnavais nem nas festas nem nas ruas nem nos bares. não.
estou sempre nos lugares imateriais aos quais me remetem as nossas canções.
1 492
o que fica
o que pretendi deixar para deixar-me consigo, não poupa-me de levar a mim pra morrer comigo.
posto no que agora sou, não posso estar no que fiz. só sombra se enraizou da árvore sem raiz.
se mudo de opinião à margem do tempo ido, as letras não sabem: são.
mas, meu nome as tendo ungido, resto, pra sempre, em meu não. lembrado, e entanto, esquecido.
269
sibilo
em meu mosaico de escamas guardo as partidas estrelas; vê-as passar, se as amas, que é inútil buscar retê-las.
aquele que me segura ilude-se com um fantasma; e o perfume que procura reduz-se a mero miasma.
por isso, inda que eu te fira o céu vazio, possessivo, e teu sonho até prefira
um morto sol a um sol vivo, não fujas à minha lira, pois tanto eu dou quanto privo:
do rastro da luz que arquivo, já um novo astro respira – e outra vez tua vida gira.
280
poesia
a poesia é uma coroa de flores sobre a miséria do amor
310
traço
depois, sem saber se era ele o esboço de seus sonhos ou se seus sonhos eram o esboço de si,
ficou só como um destes tantos desenhos que iniciara em cadernos esquecidos.
rabiscos ali perdidos, para sempre sem pernas, sem mãos, nem faces nem nomes.
antropomórficos sem dinâmica em páginas cruas.
desenhos até que bem legais
293
feliz aniversário
as velas se multiplicam sobre o silêncio da distância
eu te conhecerei por quem você não é e você me conhecerá por quem eu não sou
e assim vamos de mãos dadas através do fogo
eternamente unidos e desconhecidos
279
aquiles vê pentesileia
diante agora do teu rosto colho o fruto de quando não te via: em como vens, te despedes em como te aproximas, te apartas
morte e vida consubstanciadas em contraditórias flores, crescendo, enroscadas, dentro de mim
sem jardim que lhes dê repouso
263
a rosa mnemónica
– s.
ponto de referência em si mesmo indefinido de um tempo de espanto e incerteza: poderia mesmo ter explodido?
poderia mesmo ter colorido as paredes com seu pigmento, e abraçado a casa toda no rubor de um só momento?
ou – menos que isso – poderia, ainda, ter permanecido, simplesmente, em sua jarra triste, sem mais que um vento , a que se desse, nem mais que um olhar, a que iludisse?
explosão, ilusão? desdobra-se, rosa, ao sabor sempre vário da minha incongruência, que em mim se reparte e ressuscita, ao que reinvento a tua essência
do xilema ao floema do poema, as pétalas se desprendem dos segundos, desintegrando-se diante dos meus olhos, reconstruindo-se em meus abismos mais profundos
disforme, conforme, pluriforme rosa, perpétua na dor que carrego sempre comigo; é e não é, e o que será, já não sei: a dúvida em meu peito é o seu jardim ambíguo
276
a um nome
I
um som rompe o silêncio. teu nome. num ato reflexo adquirido, lubrifico os lábios. percebo-o somente no instante seguinte.
a poesia infiltra-se na carne, meu bem.
o corpo não esquece.
II
porque a memória do corpo não acompanha o compasso do tempo.
dentro da urna corpórea a cinza não se sabe cinza. arde, perpétua, na chama imóvel do instante original.
o amor que te tenho, honestamente, é muito pouco. meu corpo, porém, não sabe disso.
ainda dançamos entre as sapucaias. mortos e quentes.