um som rompe o silêncio. teu nome. num ato reflexo adquirido, lubrifico os lábios. percebo-o somente no instante seguinte.
a poesia infiltra-se na carne, meu bem.
o corpo não esquece.
II
porque a memória do corpo não acompanha o compasso do tempo.
dentro da urna corpórea a cinza não se sabe cinza. arde, perpétua, na chama imóvel do instante original.
o amor que te tenho, honestamente, é muito pouco. meu corpo, porém, não sabe disso.
ainda dançamos entre as sapucaias. mortos e quentes.
o corpo não esquece.
564
lembra
poucos meses de isolamento comportam séculos de esquecimento
poucos meses de cinzas caídas sobre a mesa poucos meses de poeira cobrindo as prateleiras poucos meses de fome de penumbra de ausência de amor
subitamente toco as letras de um caderno: coisas vivas de há poucos meses acenam de algum lugar da eternidade – quem escreveu estas coisas? quem encarnou estas preocupações?
eu não lembrava
havia vida aqui: havia uma casa, um orquidário, havia planos traçados, o escarlate da vontade sangrava pelos poros do papel
havia qualquer coisa que não fosse cinzas, poeira, fome e penumbra, como agora as minhas mãos parecem implicar
havia uma carta a enviar, uma viagem a ser feita, uma canção sempre a descobrir; poemas embrionários, sincera comoção pelos vencidos. um cansaço distinto do exílio.
e para onde foi? (pode um lírio desfazer-se sem legar qualquer perfume?) quanto desta repentina piedade será só culpa, falta de cautela, miragem?
e, no entanto, eu sei: sou eu
tanta coisa minha que eu nem lembro de ter esquecido
eu não lembrava, céus, eu não lembrava
não é o esquecimento tão mais belo quanto mais terrível do que a morte?
571
arte
carregar aquilo que morre ao infinito chama-se eternidade
devolver a eternidade àquilo que morre chama-se arte
605
pandora
da caixa ainda escorrem as quebradas notas de uma canção quase esquecida
o que dói não é não poder recompô-la, tampouco a impossibilidade de sintonizar-se ao seu tempo
o que dói, – o que de fato dói – é a mutilada esperança que se agarra ao fundo enquanto a música se perde sem que ninguém a ouça
591
fotocópia
mil poemas depois e ainda não encontrei conclusão aos teus olhos.
por mais que eu parta e desafie o tempo, por mais que eu me debruce longamente sobre as grandes questões e doenças, e percorra, nômade, os labirintos da palavra, é sempre à infinita banalidade dos teus olhos que regresso.
dois faróis doloridos resistindo sobre as sombras das ilhas naufragadas. mais esquecidos a cada lembrança. mais vivos a cada vez que os mato.
onde até mesmo o esquecimento se torna modalidade da memória.
557
lembrar é criar
nada se perde: o que era azul ficou em algum lugar entre o amarelo e o verde
o busco – com sangue o busco – na paleta, e quando enfim o acho o acho violeta
nada se perde, mas nada se acessa, jamais o azul que ali viaja só se revê violeta, roxo, talvez lilás
572
continuidade
a palavra escrita nada eterniza
só fotografa a eternidade da palavra nunca dita
o que se escreve é uma fração que cada letra delimita
a eternidade é como fonte fluindo as coisas nunca ditas
não dirás em teu tempo tudo o que tens a dizer
mas dirás algo de flor e tocados da flor outros dirão por você
não cantarás todo o amor inteiramente profundo
mas o lerão e farão do amor que não foi teu de todo o mundo
e quanto mais a palavra resgata do nunca dito
maiores nos tornamos em nossos corpos finitos
580
ouroboros
o tempo reúne a obra à natureza do obreiro. naquilo que afinal sobra reside o que é verdadeiro.
a vida em si o desdobra até que se mostre inteiro, na inteira volta da cobra aonde estava primeiro.
assim se vê claramente no olhar dos restos do lar: silente, longínquo, velho...
onde vagarosamente começa a se humanizar a infinda face do espelho.
567
semente
– j.
há uma semente aqui, ela me disse,
e o tempo agora revela um campo estéril de tulipas mortas...
com as mãos vazias e sujas, penso: não se pode semear a névoa de medo e sonho que precede o solo real, por mais sedutora que seja. é necessário transpô-la, e isso demanda coragem.
também não basta semear o solo perfeitamente tangível e manter a armadura que limita o alcance das mãos que cuidam, é preciso deixá-la de lado, e isso demanda coragem. fazer valer a semente demanda sempre muito amor, e o amor demanda coragem, muita, muita coragem nesta terra de desterros.
porque o amor é sempre o primeiro gesto de vulnerabilidade diante da face da morte: somente assim pode-se não morrer;
é o coração exposto que não sente medo de buscar, é o olhar calmo à espera da verdade, é a força que nos põe à margem da fenda abissal e nos faz apreciar os infinitos tons de azul.
não subsiste onde suas raízes ficam soltas ou feridas, em reinos de resistência e podridão onde imperam as distâncias, preferindo ceder à ruína. em campos assim restam somente pétalas imaginárias.
e eu ouço, sob o peso de minha exaustiva armadura, os sussurros das pétalas: através de poemas, através de memórias já gastas. numa voz disforme e ausente, elas me dizem:
havia uma semente aqui.
574
diante de um texto póstumo
prazer de encontrar-te outra vez onde eu não te esperava
pudor de pousar o olhar numa só palavra
primor de escutar outra vez a tua canção
pavor de matar a esperança de ter sido a morte somente ilusão