o tempo reúne a obra à natureza do obreiro. naquilo que afinal sobra reside o que é verdadeiro.
a vida em si o desdobra até que se mostre inteiro, na inteira volta da cobra aonde estava primeiro.
assim se vê claramente no olhar dos restos do lar: silente, longínquo, velho...
onde vagarosamente começa a se humanizar a infinda face do espelho.
565
lembrar é criar
nada se perde: o que era azul ficou em algum lugar entre o amarelo e o verde
o busco – com sangue o busco – na paleta, e quando enfim o acho o acho violeta
nada se perde, mas nada se acessa, jamais o azul que ali viaja só se revê violeta, roxo, talvez lilás
571
poema de hades à espera do inverno
mediu-se à maneira de anúbis e viu voar a pluma
não por seu ódio, mas por seu amor, tão impiedoso quanto
292
diante de um texto póstumo
prazer de encontrar-te outra vez onde eu não te esperava
pudor de pousar o olhar numa só palavra
primor de escutar outra vez a tua canção
pavor de matar a esperança de ter sido a morte somente ilusão
244
o símbolo
onde o poeta acaba a poesia nasce
assim amamos as flores: para compor jardins do que nos escapa
258
canto
em meio ao que permanece, porque não permaneço, posso sofrer e cantar
fosse eu infinito para além da infinidade com que sinto, a cidade e a canção não eram tão grandes
303
ophiuchus
eu vou estender até o infinito o breve conteúdo do recorte, e nele hei de criar o nunca dito, para além da ausência e para além da morte
eu vou colocar a todos, lado a lado, em uma prateleira bem polida, em que não pese a palavra passado, nem possa o tempo ditar a partida
eu vou organizar toda a mobília e esculpir cada ilusão à apoteose; diluviar o lar de maravilhas até esquecer seu semblante de hipótese
eu vou segurar com força o monstro que, entre velas, rasteja pra devorar tudo o que quero prender nos meus braços
e tudo estará bem. e eis que demonstro: cada coisa em seu lugar na casa caindo aos pedaços
572
episódio
tão breve dançou dentre as brasas e já se esvaiu
dessa cinza se faz tinta: eis a vida após a morte
dança de novo coração medroso na cor morta que imita a aurora
celebra em ti teu sonho distante que não se conclui jamais
270
lírio
despertei do sonho em que te abraçava e me vi diante das folhas queimadas do lírio sem flor
como se ali renascida você morresse pela segunda vez
537
fóssil
amor é espécie que somente em eventos de extinção em massa desaparece
extingue-se do que permanece, e o permanecido parece desaparecer: leva consigo lugares que não retornam nunca à matéria pré-amorosa,
leva consigo a neutralidade mesmo de certas sílabas, que não mais cortam o silêncio sem cortar a lembrança (nome, faca sutil amolada entre gestos e signos, desenhando no ar um par de olhos, uma boca, indicando, no mapa, um endereço para o qual não há caminhos)
consigo extingue da cidade geral a cidade específica, que humildemente se recolhe à poeira da caixa, e ali se exerce sem novas obras, sem aniversários, festas, pique niques, sem luzes de natal
cafés, cheiros, plantas, bancos, canções por toda a parte e em lugar nenhum, coisas consumidas em marcas antigas de garras ausentes e dentes ferozes outrora tão doces
cataclismo de sua própria fera único fóssil que ruge