nada se perde: o que era azul ficou em algum lugar entre o amarelo e o verde
o busco – com sangue o busco – na paleta, e quando enfim o acho o acho violeta
nada se perde, mas nada se acessa, jamais o azul que ali viaja só se revê violeta, roxo, talvez lilás
568
pandora
da caixa ainda escorrem as quebradas notas de uma canção quase esquecida
o que dói não é não poder recompô-la, tampouco a impossibilidade de sintonizar-se ao seu tempo
o que dói, – o que de fato dói – é a mutilada esperança que se agarra ao fundo enquanto a música se perde sem que ninguém a ouça
589
ouroboros
o tempo reúne a obra à natureza do obreiro. naquilo que afinal sobra reside o que é verdadeiro.
a vida em si o desdobra até que se mostre inteiro, na inteira volta da cobra aonde estava primeiro.
assim se vê claramente no olhar dos restos do lar: silente, longínquo, velho...
onde vagarosamente começa a se humanizar a infinda face do espelho.
563
lembra
poucos meses de isolamento comportam séculos de esquecimento
poucos meses de cinzas caídas sobre a mesa poucos meses de poeira cobrindo as prateleiras poucos meses de fome de penumbra de ausência de amor
subitamente toco as letras de um caderno: coisas vivas de há poucos meses acenam de algum lugar da eternidade – quem escreveu estas coisas? quem encarnou estas preocupações?
eu não lembrava
havia vida aqui: havia uma casa, um orquidário, havia planos traçados, o escarlate da vontade sangrava pelos poros do papel
havia qualquer coisa que não fosse cinzas, poeira, fome e penumbra, como agora as minhas mãos parecem implicar
havia uma carta a enviar, uma viagem a ser feita, uma canção sempre a descobrir; poemas embrionários, sincera comoção pelos vencidos. um cansaço distinto do exílio.
e para onde foi? (pode um lírio desfazer-se sem legar qualquer perfume?) quanto desta repentina piedade será só culpa, falta de cautela, miragem?
e, no entanto, eu sei: sou eu
tanta coisa minha que eu nem lembro de ter esquecido
eu não lembrava, céus, eu não lembrava
não é o esquecimento tão mais belo quanto mais terrível do que a morte?
569
lírio
despertei do sonho em que te abraçava e me vi diante das folhas queimadas do lírio sem flor
como se ali renascida você morresse pela segunda vez
537
o símbolo
onde o poeta acaba a poesia nasce
assim amamos as flores: para compor jardins do que nos escapa
257
episódio
tão breve dançou dentre as brasas e já se esvaiu
dessa cinza se faz tinta: eis a vida após a morte
dança de novo coração medroso na cor morta que imita a aurora
celebra em ti teu sonho distante que não se conclui jamais
269
feliz aniversário
as velas se multiplicam sobre o silêncio da distância
eu te conhecerei por quem você não é e você me conhecerá por quem eu não sou
e assim vamos de mãos dadas através do fogo
eternamente unidos e desconhecidos
279
fotocópia
mil poemas depois e ainda não encontrei conclusão aos teus olhos.
por mais que eu parta e desafie o tempo, por mais que eu me debruce longamente sobre as grandes questões e doenças, e percorra, nômade, os labirintos da palavra, é sempre à infinita banalidade dos teus olhos que regresso.
dois faróis doloridos resistindo sobre as sombras das ilhas naufragadas. mais esquecidos a cada lembrança. mais vivos a cada vez que os mato.
onde até mesmo o esquecimento se torna modalidade da memória.
555
ophiuchus
eu vou estender até o infinito o breve conteúdo do recorte, e nele hei de criar o nunca dito, para além da ausência e para além da morte
eu vou colocar a todos, lado a lado, em uma prateleira bem polida, em que não pese a palavra passado, nem possa o tempo ditar a partida
eu vou organizar toda a mobília e esculpir cada ilusão à apoteose; diluviar o lar de maravilhas até esquecer seu semblante de hipótese
eu vou segurar com força o monstro que, entre velas, rasteja pra devorar tudo o que quero prender nos meus braços
e tudo estará bem. e eis que demonstro: cada coisa em seu lugar na casa caindo aos pedaços