assim amamos as flores: para compor jardins do que nos escapa
261
feliz aniversário
as velas se multiplicam sobre o silêncio da distância
eu te conhecerei por quem você não é e você me conhecerá por quem eu não sou
e assim vamos de mãos dadas através do fogo
eternamente unidos e desconhecidos
281
lembra
poucos meses de isolamento comportam séculos de esquecimento
poucos meses de cinzas caídas sobre a mesa poucos meses de poeira cobrindo as prateleiras poucos meses de fome de penumbra de ausência de amor
subitamente toco as letras de um caderno: coisas vivas de há poucos meses acenam de algum lugar da eternidade – quem escreveu estas coisas? quem encarnou estas preocupações?
eu não lembrava
havia vida aqui: havia uma casa, um orquidário, havia planos traçados, o escarlate da vontade sangrava pelos poros do papel
havia qualquer coisa que não fosse cinzas, poeira, fome e penumbra, como agora as minhas mãos parecem implicar
havia uma carta a enviar, uma viagem a ser feita, uma canção sempre a descobrir; poemas embrionários, sincera comoção pelos vencidos. um cansaço distinto do exílio.
e para onde foi? (pode um lírio desfazer-se sem legar qualquer perfume?) quanto desta repentina piedade será só culpa, falta de cautela, miragem?
e, no entanto, eu sei: sou eu
tanta coisa minha que eu nem lembro de ter esquecido
eu não lembrava, céus, eu não lembrava
não é o esquecimento tão mais belo quanto mais terrível do que a morte?
573
a rosa mnemónica
– s.
ponto de referência em si mesmo indefinido de um tempo de espanto e incerteza: poderia mesmo ter explodido?
poderia mesmo ter colorido as paredes com seu pigmento, e abraçado a casa toda no rubor de um só momento?
ou – menos que isso – poderia, ainda, ter permanecido, simplesmente, em sua jarra triste, sem mais que um vento , a que se desse, nem mais que um olhar, a que iludisse?
explosão, ilusão? desdobra-se, rosa, ao sabor sempre vário da minha incongruência, que em mim se reparte e ressuscita, ao que reinvento a tua essência
do xilema ao floema do poema, as pétalas se desprendem dos segundos, desintegrando-se diante dos meus olhos, reconstruindo-se em meus abismos mais profundos
disforme, conforme, pluriforme rosa, perpétua na dor que carrego sempre comigo; é e não é, e o que será, já não sei: a dúvida em meu peito é o seu jardim ambíguo
278
fósforo
vida: em maior parte, reticências (mil contos nas distâncias de três pontos) estando nela, nunca estamos prontos o coração coleciona ausências
e cresce sem que cresça o seu tamanho (daí a sensação de decepado embora nada tenha se anulado) fendido entre o familiar e o estranho
e assim levamos este peso, sem saber bem a o que ou a quem tantas reminiscências entregar
de estarmos cheios do que não sabemos querendo nascer, de cada dispêndio a partir da parte que nunca lemos:
a parte que resta depois do incêndio em seu sonho perpétuo de queimar na chama extinta que não sobe achar
303
ophiuchus
eu vou estender até o infinito o breve conteúdo do recorte, e nele hei de criar o nunca dito, para além da ausência e para além da morte
eu vou colocar a todos, lado a lado, em uma prateleira bem polida, em que não pese a palavra passado, nem possa o tempo ditar a partida
eu vou organizar toda a mobília e esculpir cada ilusão à apoteose; diluviar o lar de maravilhas até esquecer seu semblante de hipótese
eu vou segurar com força o monstro que, entre velas, rasteja pra devorar tudo o que quero prender nos meus braços
e tudo estará bem. e eis que demonstro: cada coisa em seu lugar na casa caindo aos pedaços
574
fotocópia
mil poemas depois e ainda não encontrei conclusão aos teus olhos.
por mais que eu parta e desafie o tempo, por mais que eu me debruce longamente sobre as grandes questões e doenças, e percorra, nômade, os labirintos da palavra, é sempre à infinita banalidade dos teus olhos que regresso.
dois faróis doloridos resistindo sobre as sombras das ilhas naufragadas. mais esquecidos a cada lembrança. mais vivos a cada vez que os mato.
onde até mesmo o esquecimento se torna modalidade da memória.
558
episódio
tão breve dançou dentre as brasas e já se esvaiu
dessa cinza se faz tinta: eis a vida após a morte
dança de novo coração medroso na cor morta que imita a aurora
celebra em ti teu sonho distante que não se conclui jamais
273
canção para o teu silêncio
em teu primeiro silêncio, deixei todas as palavras, supondo que nunca mais delas eu precisaria.
em teu último silêncio, precisei de todas elas, e não pude nem morrer quando notei que as não tinha.
as letras são só relevo, agora, do teu semblante, onde a espera exasperada fez-se nula, mas completa.
fora da palavra morte, não morro. levo comigo. de teu último silêncio não regressarei poeta.
em teu primeiro silêncio, construí a minha casa; pus mais flores e mobília do que na casa cabia.
em teu último silêncio, desabaram as paredes ao redor da porta aberta, por qual jamais entrarias.
e fiquei de mãos vazias sem verdade ou movimento, vendo os símbolos quebrados nas marés entreabertas.
fora da palavra vida, só me resta carregá-la. de teu último silêncio não regressarei poeta.
523
fóssil
amor é espécie que somente em eventos de extinção em massa desaparece
extingue-se do que permanece, e o permanecido parece desaparecer: leva consigo lugares que não retornam nunca à matéria pré-amorosa,
leva consigo a neutralidade mesmo de certas sílabas, que não mais cortam o silêncio sem cortar a lembrança (nome, faca sutil amolada entre gestos e signos, desenhando no ar um par de olhos, uma boca, indicando, no mapa, um endereço para o qual não há caminhos)
consigo extingue da cidade geral a cidade específica, que humildemente se recolhe à poeira da caixa, e ali se exerce sem novas obras, sem aniversários, festas, pique niques, sem luzes de natal
cafés, cheiros, plantas, bancos, canções por toda a parte e em lugar nenhum, coisas consumidas em marcas antigas de garras ausentes e dentes ferozes outrora tão doces
cataclismo de sua própria fera único fóssil que ruge