Lista de Poemas
fóssil
amor é espécie
que somente em eventos
de extinção em massa
desaparece
extingue-se do que permanece,
e o permanecido parece
desaparecer:
leva consigo lugares
que não retornam nunca
à matéria pré-amorosa,
leva consigo a neutralidade
mesmo de certas sílabas,
que não mais cortam o silêncio
sem cortar a lembrança
(nome, faca sutil
amolada entre gestos
e signos,
desenhando no ar
um par de olhos, uma boca,
indicando, no mapa,
um endereço
para o qual não há caminhos)
consigo extingue da cidade geral
a cidade específica,
que humildemente se recolhe
à poeira da caixa,
e ali se exerce
sem novas obras,
sem
aniversários, festas,
pique
niques,
sem
luzes
de natal
cafés, cheiros, plantas, bancos,
canções
por toda a parte
e em lugar nenhum,
coisas consumidas em marcas antigas
de garras ausentes
e dentes ferozes
outrora tão doces
cataclismo de sua própria fera
único fóssil
que ruge
que somente em eventos
de extinção em massa
desaparece
extingue-se do que permanece,
e o permanecido parece
desaparecer:
leva consigo lugares
que não retornam nunca
à matéria pré-amorosa,
leva consigo a neutralidade
mesmo de certas sílabas,
que não mais cortam o silêncio
sem cortar a lembrança
(nome, faca sutil
amolada entre gestos
e signos,
desenhando no ar
um par de olhos, uma boca,
indicando, no mapa,
um endereço
para o qual não há caminhos)
consigo extingue da cidade geral
a cidade específica,
que humildemente se recolhe
à poeira da caixa,
e ali se exerce
sem novas obras,
sem
aniversários, festas,
pique
niques,
sem
luzes
de natal
cafés, cheiros, plantas, bancos,
canções
por toda a parte
e em lugar nenhum,
coisas consumidas em marcas antigas
de garras ausentes
e dentes ferozes
outrora tão doces
cataclismo de sua própria fera
único fóssil
que ruge
552
poema de hades à espera do inverno
mediu-se à maneira de anúbis
e viu voar a pluma
não por seu ódio,
mas por seu amor,
tão impiedoso quanto
e viu voar a pluma
não por seu ódio,
mas por seu amor,
tão impiedoso quanto
282
lembrar é criar
nada se perde:
o que era azul
ficou em algum lugar
entre o amarelo
e o verde
o busco
– com sangue o busco –
na paleta,
e quando enfim o acho
o acho violeta
nada se perde, mas
nada se acessa, jamais
o azul que ali viaja
só se revê violeta,
roxo, talvez lilás
o que era azul
ficou em algum lugar
entre o amarelo
e o verde
o busco
– com sangue o busco –
na paleta,
e quando enfim o acho
o acho violeta
nada se perde, mas
nada se acessa, jamais
o azul que ali viaja
só se revê violeta,
roxo, talvez lilás
558
rascunho
risco a palavra
no caderno de rascunhos
uma cerca de arame farpado
me separa do poema
o que ficou ali?
a vida que em mim fervia
interditou-se na tradução
e agora habita
o esquecimento
inacessível
porém jamais
inexistente
uma viva parte de mim
morrendo perpetuamente
no caderno de rascunhos
uma cerca de arame farpado
me separa do poema
o que ficou ali?
a vida que em mim fervia
interditou-se na tradução
e agora habita
o esquecimento
inacessível
porém jamais
inexistente
uma viva parte de mim
morrendo perpetuamente
555
continuidade
a palavra escrita
nada eterniza
só fotografa
a eternidade
da palavra nunca dita
o que se escreve
é uma fração
que cada letra
delimita
a eternidade
é como fonte
fluindo as coisas
nunca ditas
não dirás
em teu tempo
tudo o que tens
a dizer
mas dirás
algo de flor
e tocados da flor
outros dirão por você
não cantarás
todo o amor
inteiramente
profundo
mas o lerão
e farão do amor
que não foi teu
de todo o mundo
e quanto mais a palavra
resgata do nunca dito
maiores
nos tornamos
em nossos corpos finitos
nada eterniza
só fotografa
a eternidade
da palavra nunca dita
o que se escreve
é uma fração
que cada letra
delimita
a eternidade
é como fonte
fluindo as coisas
nunca ditas
não dirás
em teu tempo
tudo o que tens
a dizer
mas dirás
algo de flor
e tocados da flor
outros dirão por você
não cantarás
todo o amor
inteiramente
profundo
mas o lerão
e farão do amor
que não foi teu
de todo o mundo
e quanto mais a palavra
resgata do nunca dito
maiores
nos tornamos
em nossos corpos finitos
566
fotocópia
mil poemas depois
e ainda não encontrei
conclusão
aos teus olhos.
por mais que eu parta
e desafie o tempo,
por mais que eu me debruce
longamente
sobre as grandes questões e doenças,
e percorra, nômade,
os labirintos da palavra,
é sempre à infinita banalidade
dos teus olhos
que regresso.
dois faróis doloridos
resistindo sobre as sombras
das ilhas naufragadas.
mais esquecidos a cada lembrança.
mais vivos a cada vez que os mato.
onde até mesmo o esquecimento
se torna modalidade
da memória.
e ainda não encontrei
conclusão
aos teus olhos.
por mais que eu parta
e desafie o tempo,
por mais que eu me debruce
longamente
sobre as grandes questões e doenças,
e percorra, nômade,
os labirintos da palavra,
é sempre à infinita banalidade
dos teus olhos
que regresso.
dois faróis doloridos
resistindo sobre as sombras
das ilhas naufragadas.
mais esquecidos a cada lembrança.
mais vivos a cada vez que os mato.
onde até mesmo o esquecimento
se torna modalidade
da memória.
547
arte
carregar aquilo que morre
ao infinito
chama-se eternidade
devolver a eternidade
àquilo que morre
chama-se arte
ao infinito
chama-se eternidade
devolver a eternidade
àquilo que morre
chama-se arte
593
lembra
poucos meses de isolamento
comportam séculos de esquecimento
poucos meses de cinzas
caídas sobre a mesa
poucos meses de poeira cobrindo as prateleiras
poucos meses de fome
de penumbra
de ausência
de amor
subitamente toco as letras de um caderno:
coisas vivas de há poucos meses
acenam de algum lugar da eternidade
– quem escreveu estas coisas?
quem encarnou estas preocupações?
eu
não lembrava
havia vida aqui:
havia uma casa, um orquidário,
havia planos traçados,
o escarlate da vontade
sangrava pelos poros do papel
havia qualquer coisa que não fosse cinzas,
poeira, fome e penumbra,
como agora as minhas mãos parecem
implicar
havia uma carta a enviar, uma viagem a ser feita,
uma canção sempre a descobrir;
poemas embrionários,
sincera comoção pelos vencidos.
um cansaço distinto do exílio.
e para onde foi?
(pode um lírio desfazer-se
sem legar qualquer perfume?)
quanto desta repentina piedade será só culpa,
falta de cautela,
miragem?
e, no entanto, eu sei:
sou eu
tanta coisa minha
que eu nem lembro
de ter esquecido
eu não lembrava, céus,
eu não
lembrava
não é o esquecimento tão mais belo
quanto mais terrível
do que a morte?
comportam séculos de esquecimento
poucos meses de cinzas
caídas sobre a mesa
poucos meses de poeira cobrindo as prateleiras
poucos meses de fome
de penumbra
de ausência
de amor
subitamente toco as letras de um caderno:
coisas vivas de há poucos meses
acenam de algum lugar da eternidade
– quem escreveu estas coisas?
quem encarnou estas preocupações?
eu
não lembrava
havia vida aqui:
havia uma casa, um orquidário,
havia planos traçados,
o escarlate da vontade
sangrava pelos poros do papel
havia qualquer coisa que não fosse cinzas,
poeira, fome e penumbra,
como agora as minhas mãos parecem
implicar
havia uma carta a enviar, uma viagem a ser feita,
uma canção sempre a descobrir;
poemas embrionários,
sincera comoção pelos vencidos.
um cansaço distinto do exílio.
e para onde foi?
(pode um lírio desfazer-se
sem legar qualquer perfume?)
quanto desta repentina piedade será só culpa,
falta de cautela,
miragem?
e, no entanto, eu sei:
sou eu
tanta coisa minha
que eu nem lembro
de ter esquecido
eu não lembrava, céus,
eu não
lembrava
não é o esquecimento tão mais belo
quanto mais terrível
do que a morte?
553
a casa
dentro da casa cabem muitas casas.
as paredes empurram contra as formas
todos os tempos nelas sublimados,
e em cada gesto a casa se transforma.
a cada porta que se abre ou fecha,
a cada coisa que se sente ou solta,
de dentro da caixa ou do álbum de fotos,
desdobra-se, como uma matriosca.
num canto da sala, a casa da infância
se abre, por exemplo, num tropeço,
ali, com suas presenças ausentes,
com seus brinquedos e rostos que esqueço,
e que esquecidos crio e tento achar,
rostos líquidos de voz e de sombra,
vívidos, sensíveis, invisíveis:
sem querer me ferem – e eu desvio o olhar.
dentro da casa cabem muitas casas.
logo no canto oposto à pueril
casa da infância, fechada na pálpebra,
reside a casa que ninguém mais viu,
desmoronando, roída de traças,
sobre seu alicerce imaginário,
cercada de acontecimentos ternos
que não puderam nunca entrar ali.
e na cozinha, no banheiro e quartos
diversas casas se mantêm à espreita
surgem, como na sala, de qualquer canto,
bem como da cama, quando se deita.
também é outra a casa no sofá,
se o corpo se reúne a outro instante
que tenha por acaso ali vivido
em uma casa – a mesma – já distante.
e o mesmo se aplica a cada objeto,
e a casa comporta em seus corredores
viagens maiores que as de avião:
em qualquer cômodo, a um toque da mão,
a casa de quando ela ainda vinha,
aberta pela chave do perfume,
e a casa de logo depois da morte,
trazida pela roupa no cabide.
e o que dizer dos que a casa habitam?
em cada vida, quantas casas cabem?
a casa se reparte em cada peito,
e se projeta, múltipla, tal como
a luz num prisma, em dispersão,
e torna impossível determinar
onde vivemos – e eu quase sufoco
entre estruturas de concreto e sonho
se paro e olho em seus olhos cansados,
que pousam, bem como os meus também pousam,
sobre a matéria que, em silêncio, guarda
inglórias histórias – e quase morro
sob o peso de tanta casa, nômade,
andarilho de passo dividido,
retendo em mim esta dor singular
de não reter, de tanta casa, um lar.
dentro da casa cabem muitas casas.
o tempo as adormece e não corrói.
nenhuma das casas desaparece,
e mesmo quando alegre a casa dói.
dentro da casa cabem muitas casas.
é claro à vista por trás das janelas.
dentro da casa cabem muitas casas,
porém já não caibo em nenhuma delas.
as paredes empurram contra as formas
todos os tempos nelas sublimados,
e em cada gesto a casa se transforma.
a cada porta que se abre ou fecha,
a cada coisa que se sente ou solta,
de dentro da caixa ou do álbum de fotos,
desdobra-se, como uma matriosca.
num canto da sala, a casa da infância
se abre, por exemplo, num tropeço,
ali, com suas presenças ausentes,
com seus brinquedos e rostos que esqueço,
e que esquecidos crio e tento achar,
rostos líquidos de voz e de sombra,
vívidos, sensíveis, invisíveis:
sem querer me ferem – e eu desvio o olhar.
dentro da casa cabem muitas casas.
logo no canto oposto à pueril
casa da infância, fechada na pálpebra,
reside a casa que ninguém mais viu,
desmoronando, roída de traças,
sobre seu alicerce imaginário,
cercada de acontecimentos ternos
que não puderam nunca entrar ali.
e na cozinha, no banheiro e quartos
diversas casas se mantêm à espreita
surgem, como na sala, de qualquer canto,
bem como da cama, quando se deita.
também é outra a casa no sofá,
se o corpo se reúne a outro instante
que tenha por acaso ali vivido
em uma casa – a mesma – já distante.
e o mesmo se aplica a cada objeto,
e a casa comporta em seus corredores
viagens maiores que as de avião:
em qualquer cômodo, a um toque da mão,
a casa de quando ela ainda vinha,
aberta pela chave do perfume,
e a casa de logo depois da morte,
trazida pela roupa no cabide.
e o que dizer dos que a casa habitam?
em cada vida, quantas casas cabem?
a casa se reparte em cada peito,
e se projeta, múltipla, tal como
a luz num prisma, em dispersão,
e torna impossível determinar
onde vivemos – e eu quase sufoco
entre estruturas de concreto e sonho
se paro e olho em seus olhos cansados,
que pousam, bem como os meus também pousam,
sobre a matéria que, em silêncio, guarda
inglórias histórias – e quase morro
sob o peso de tanta casa, nômade,
andarilho de passo dividido,
retendo em mim esta dor singular
de não reter, de tanta casa, um lar.
dentro da casa cabem muitas casas.
o tempo as adormece e não corrói.
nenhuma das casas desaparece,
e mesmo quando alegre a casa dói.
dentro da casa cabem muitas casas.
é claro à vista por trás das janelas.
dentro da casa cabem muitas casas,
porém já não caibo em nenhuma delas.
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Comentários (4)
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seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!
Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços
Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.
Belos textos.