o que ficou ali? a vida que em mim fervia interditou-se na tradução e agora habita o esquecimento
inacessível porém jamais inexistente
uma viva parte de mim morrendo perpetuamente
569
pandora
da caixa ainda escorrem as quebradas notas de uma canção quase esquecida
o que dói não é não poder recompô-la, tampouco a impossibilidade de sintonizar-se ao seu tempo
o que dói, – o que de fato dói – é a mutilada esperança que se agarra ao fundo enquanto a música se perde sem que ninguém a ouça
592
decurso
o que em minhas mãos se aflora e no corpo experimento dura não mais que um agora e então se desfaz no vento
mas não sem que antes traduza de seu ínfimo momento o infinito que o conduza ao verso, seu monumento
para que de cada corte reste a beleza incontida e quando enfim me transporte
o tempo ao cais da partida, eu leve só minha morte e deixe aqui minha vida
550
a um nome
I
um som rompe o silêncio. teu nome. num ato reflexo adquirido, lubrifico os lábios. percebo-o somente no instante seguinte.
a poesia infiltra-se na carne, meu bem.
o corpo não esquece.
II
porque a memória do corpo não acompanha o compasso do tempo.
dentro da urna corpórea a cinza não se sabe cinza. arde, perpétua, na chama imóvel do instante original.
o amor que te tenho, honestamente, é muito pouco. meu corpo, porém, não sabe disso.
ainda dançamos entre as sapucaias. mortos e quentes.
o corpo não esquece.
564
a casa
dentro da casa cabem muitas casas. as paredes empurram contra as formas todos os tempos nelas sublimados, e em cada gesto a casa se transforma.
a cada porta que se abre ou fecha, a cada coisa que se sente ou solta, de dentro da caixa ou do álbum de fotos, desdobra-se, como uma matriosca.
num canto da sala, a casa da infância se abre, por exemplo, num tropeço, ali, com suas presenças ausentes, com seus brinquedos e rostos que esqueço,
e que esquecidos crio e tento achar, rostos líquidos de voz e de sombra, vívidos, sensíveis, invisíveis: sem querer me ferem – e eu desvio o olhar.
dentro da casa cabem muitas casas. logo no canto oposto à pueril casa da infância, fechada na pálpebra, reside a casa que ninguém mais viu,
desmoronando, roída de traças, sobre seu alicerce imaginário, cercada de acontecimentos ternos que não puderam nunca entrar ali.
e na cozinha, no banheiro e quartos diversas casas se mantêm à espreita surgem, como na sala, de qualquer canto, bem como da cama, quando se deita.
também é outra a casa no sofá, se o corpo se reúne a outro instante que tenha por acaso ali vivido em uma casa – a mesma – já distante.
e o mesmo se aplica a cada objeto, e a casa comporta em seus corredores viagens maiores que as de avião: em qualquer cômodo, a um toque da mão,
a casa de quando ela ainda vinha, aberta pela chave do perfume, e a casa de logo depois da morte, trazida pela roupa no cabide.
e o que dizer dos que a casa habitam? em cada vida, quantas casas cabem? a casa se reparte em cada peito, e se projeta, múltipla, tal como
a luz num prisma, em dispersão, e torna impossível determinar onde vivemos – e eu quase sufoco entre estruturas de concreto e sonho
se paro e olho em seus olhos cansados, que pousam, bem como os meus também pousam, sobre a matéria que, em silêncio, guarda inglórias histórias – e quase morro
sob o peso de tanta casa, nômade, andarilho de passo dividido, retendo em mim esta dor singular de não reter, de tanta casa, um lar.
dentro da casa cabem muitas casas. o tempo as adormece e não corrói. nenhuma das casas desaparece, e mesmo quando alegre a casa dói.
dentro da casa cabem muitas casas. é claro à vista por trás das janelas. dentro da casa cabem muitas casas, porém já não caibo em nenhuma delas.
586
lírio
despertei do sonho em que te abraçava e me vi diante das folhas queimadas do lírio sem flor
como se ali renascida você morresse pela segunda vez
537
continuidade
a palavra escrita nada eterniza
só fotografa a eternidade da palavra nunca dita
o que se escreve é uma fração que cada letra delimita
a eternidade é como fonte fluindo as coisas nunca ditas
não dirás em teu tempo tudo o que tens a dizer
mas dirás algo de flor e tocados da flor outros dirão por você
não cantarás todo o amor inteiramente profundo
mas o lerão e farão do amor que não foi teu de todo o mundo
e quanto mais a palavra resgata do nunca dito
maiores nos tornamos em nossos corpos finitos
580
lembrar é criar
nada se perde: o que era azul ficou em algum lugar entre o amarelo e o verde
o busco – com sangue o busco – na paleta, e quando enfim o acho o acho violeta
nada se perde, mas nada se acessa, jamais o azul que ali viaja só se revê violeta, roxo, talvez lilás
573
ouroboros
o tempo reúne a obra à natureza do obreiro. naquilo que afinal sobra reside o que é verdadeiro.
a vida em si o desdobra até que se mostre inteiro, na inteira volta da cobra aonde estava primeiro.
assim se vê claramente no olhar dos restos do lar: silente, longínquo, velho...
onde vagarosamente começa a se humanizar a infinda face do espelho.
568
das partes que não partiram
das partes que não partiram é que somos compostos. somente através de regressos amamos e vivemos.
o tempo nos fere e divide. despedimo-nos de nós mesmos e das coisas a cada mínimo instante, e, no entanto, não abandonamos nada.
parte a estação, resta-nos a pétala. apertando-a contra o peito, sangramos. e mal percebemos que é por meio dela mesma que chegamos a novas primaveras.
parte o beijo para o impossível, mas a reminiscência do beijo, nos lábios, permanece – e assim, em nós, o anseio de revivê-lo, de acalorar o corpo morno, de vencer a morte.
para cada história em nós decepada uma busca incessante em nós se elabora. traços vagos no meio da noite nos guiam a sonhos incríveis.
e mal percebemos que amamos. e mal percebemos que vivemos. o coração se consome em música e a poeira, à luz de um novo dia, cintila como estrelas.