ponto de referência em si mesmo indefinido de um tempo de espanto e incerteza: poderia mesmo ter explodido?
poderia mesmo ter colorido as paredes com seu pigmento, e abraçado a casa toda no rubor de um só momento?
ou – menos que isso – poderia, ainda, ter permanecido, simplesmente, em sua jarra triste, sem mais que um vento , a que se desse, nem mais que um olhar, a que iludisse?
explosão, ilusão? desdobra-se, rosa, ao sabor sempre vário da minha incongruência, que em mim se reparte e ressuscita, ao que reinvento a tua essência
do xilema ao floema do poema, as pétalas se desprendem dos segundos, desintegrando-se diante dos meus olhos, reconstruindo-se em meus abismos mais profundos
disforme, conforme, pluriforme rosa, perpétua na dor que carrego sempre comigo; é e não é, e o que será, já não sei: a dúvida em meu peito é o seu jardim ambíguo
273
continuidade
a palavra escrita nada eterniza
só fotografa a eternidade da palavra nunca dita
o que se escreve é uma fração que cada letra delimita
a eternidade é como fonte fluindo as coisas nunca ditas
não dirás em teu tempo tudo o que tens a dizer
mas dirás algo de flor e tocados da flor outros dirão por você
não cantarás todo o amor inteiramente profundo
mas o lerão e farão do amor que não foi teu de todo o mundo
e quanto mais a palavra resgata do nunca dito
maiores nos tornamos em nossos corpos finitos
578
diante de um texto póstumo
prazer de encontrar-te outra vez onde eu não te esperava
pudor de pousar o olhar numa só palavra
primor de escutar outra vez a tua canção
pavor de matar a esperança de ter sido a morte somente ilusão
243
arte
carregar aquilo que morre ao infinito chama-se eternidade
devolver a eternidade àquilo que morre chama-se arte
605
a casa
dentro da casa cabem muitas casas. as paredes empurram contra as formas todos os tempos nelas sublimados, e em cada gesto a casa se transforma.
a cada porta que se abre ou fecha, a cada coisa que se sente ou solta, de dentro da caixa ou do álbum de fotos, desdobra-se, como uma matriosca.
num canto da sala, a casa da infância se abre, por exemplo, num tropeço, ali, com suas presenças ausentes, com seus brinquedos e rostos que esqueço,
e que esquecidos crio e tento achar, rostos líquidos de voz e de sombra, vívidos, sensíveis, invisíveis: sem querer me ferem – e eu desvio o olhar.
dentro da casa cabem muitas casas. logo no canto oposto à pueril casa da infância, fechada na pálpebra, reside a casa que ninguém mais viu,
desmoronando, roída de traças, sobre seu alicerce imaginário, cercada de acontecimentos ternos que não puderam nunca entrar ali.
e na cozinha, no banheiro e quartos diversas casas se mantêm à espreita surgem, como na sala, de qualquer canto, bem como da cama, quando se deita.
também é outra a casa no sofá, se o corpo se reúne a outro instante que tenha por acaso ali vivido em uma casa – a mesma – já distante.
e o mesmo se aplica a cada objeto, e a casa comporta em seus corredores viagens maiores que as de avião: em qualquer cômodo, a um toque da mão,
a casa de quando ela ainda vinha, aberta pela chave do perfume, e a casa de logo depois da morte, trazida pela roupa no cabide.
e o que dizer dos que a casa habitam? em cada vida, quantas casas cabem? a casa se reparte em cada peito, e se projeta, múltipla, tal como
a luz num prisma, em dispersão, e torna impossível determinar onde vivemos – e eu quase sufoco entre estruturas de concreto e sonho
se paro e olho em seus olhos cansados, que pousam, bem como os meus também pousam, sobre a matéria que, em silêncio, guarda inglórias histórias – e quase morro
sob o peso de tanta casa, nômade, andarilho de passo dividido, retendo em mim esta dor singular de não reter, de tanta casa, um lar.
dentro da casa cabem muitas casas. o tempo as adormece e não corrói. nenhuma das casas desaparece, e mesmo quando alegre a casa dói.
dentro da casa cabem muitas casas. é claro à vista por trás das janelas. dentro da casa cabem muitas casas, porém já não caibo em nenhuma delas.
582
semente
– j.
há uma semente aqui, ela me disse,
e o tempo agora revela um campo estéril de tulipas mortas...
com as mãos vazias e sujas, penso: não se pode semear a névoa de medo e sonho que precede o solo real, por mais sedutora que seja. é necessário transpô-la, e isso demanda coragem.
também não basta semear o solo perfeitamente tangível e manter a armadura que limita o alcance das mãos que cuidam, é preciso deixá-la de lado, e isso demanda coragem. fazer valer a semente demanda sempre muito amor, e o amor demanda coragem, muita, muita coragem nesta terra de desterros.
porque o amor é sempre o primeiro gesto de vulnerabilidade diante da face da morte: somente assim pode-se não morrer;
é o coração exposto que não sente medo de buscar, é o olhar calmo à espera da verdade, é a força que nos põe à margem da fenda abissal e nos faz apreciar os infinitos tons de azul.
não subsiste onde suas raízes ficam soltas ou feridas, em reinos de resistência e podridão onde imperam as distâncias, preferindo ceder à ruína. em campos assim restam somente pétalas imaginárias.
e eu ouço, sob o peso de minha exaustiva armadura, os sussurros das pétalas: através de poemas, através de memórias já gastas. numa voz disforme e ausente, elas me dizem:
havia uma semente aqui.
573
fóssil
amor é espécie que somente em eventos de extinção em massa desaparece
extingue-se do que permanece, e o permanecido parece desaparecer: leva consigo lugares que não retornam nunca à matéria pré-amorosa,
leva consigo a neutralidade mesmo de certas sílabas, que não mais cortam o silêncio sem cortar a lembrança (nome, faca sutil amolada entre gestos e signos, desenhando no ar um par de olhos, uma boca, indicando, no mapa, um endereço para o qual não há caminhos)
consigo extingue da cidade geral a cidade específica, que humildemente se recolhe à poeira da caixa, e ali se exerce sem novas obras, sem aniversários, festas, pique niques, sem luzes de natal
cafés, cheiros, plantas, bancos, canções por toda a parte e em lugar nenhum, coisas consumidas em marcas antigas de garras ausentes e dentes ferozes outrora tão doces
cataclismo de sua própria fera único fóssil que ruge
562
canto
em meio ao que permanece, porque não permaneço, posso sofrer e cantar
fosse eu infinito para além da infinidade com que sinto, a cidade e a canção não eram tão grandes
302
canção para o teu silêncio
em teu primeiro silêncio, deixei todas as palavras, supondo que nunca mais delas eu precisaria.
em teu último silêncio, precisei de todas elas, e não pude nem morrer quando notei que as não tinha.
as letras são só relevo, agora, do teu semblante, onde a espera exasperada fez-se nula, mas completa.
fora da palavra morte, não morro. levo comigo. de teu último silêncio não regressarei poeta.
em teu primeiro silêncio, construí a minha casa; pus mais flores e mobília do que na casa cabia.
em teu último silêncio, desabaram as paredes ao redor da porta aberta, por qual jamais entrarias.
e fiquei de mãos vazias sem verdade ou movimento, vendo os símbolos quebrados nas marés entreabertas.
fora da palavra vida, só me resta carregá-la. de teu último silêncio não regressarei poeta.
520
aquiles vê pentesileia
diante agora do teu rosto colho o fruto de quando não te via: em como vens, te despedes em como te aproximas, te apartas
morte e vida consubstanciadas em contraditórias flores, crescendo, enroscadas, dentro de mim