o que em minhas mãos se aflora e no corpo experimento dura não mais que um agora e então se desfaz no vento
mas não sem que antes traduza de seu ínfimo momento o infinito que o conduza ao verso, seu monumento
para que de cada corte reste a beleza incontida e quando enfim me transporte
o tempo ao cais da partida, eu leve só minha morte e deixe aqui minha vida
548
canção para o teu silêncio
em teu primeiro silêncio, deixei todas as palavras, supondo que nunca mais delas eu precisaria.
em teu último silêncio, precisei de todas elas, e não pude nem morrer quando notei que as não tinha.
as letras são só relevo, agora, do teu semblante, onde a espera exasperada fez-se nula, mas completa.
fora da palavra morte, não morro. levo comigo. de teu último silêncio não regressarei poeta.
em teu primeiro silêncio, construí a minha casa; pus mais flores e mobília do que na casa cabia.
em teu último silêncio, desabaram as paredes ao redor da porta aberta, por qual jamais entrarias.
e fiquei de mãos vazias sem verdade ou movimento, vendo os símbolos quebrados nas marés entreabertas.
fora da palavra vida, só me resta carregá-la. de teu último silêncio não regressarei poeta.
522
rascunho
risco a palavra no caderno de rascunhos
uma cerca de arame farpado me separa do poema
o que ficou ali? a vida que em mim fervia interditou-se na tradução e agora habita o esquecimento
inacessível porém jamais inexistente
uma viva parte de mim morrendo perpetuamente
568
lembra
poucos meses de isolamento comportam séculos de esquecimento
poucos meses de cinzas caídas sobre a mesa poucos meses de poeira cobrindo as prateleiras poucos meses de fome de penumbra de ausência de amor
subitamente toco as letras de um caderno: coisas vivas de há poucos meses acenam de algum lugar da eternidade – quem escreveu estas coisas? quem encarnou estas preocupações?
eu não lembrava
havia vida aqui: havia uma casa, um orquidário, havia planos traçados, o escarlate da vontade sangrava pelos poros do papel
havia qualquer coisa que não fosse cinzas, poeira, fome e penumbra, como agora as minhas mãos parecem implicar
havia uma carta a enviar, uma viagem a ser feita, uma canção sempre a descobrir; poemas embrionários, sincera comoção pelos vencidos. um cansaço distinto do exílio.
e para onde foi? (pode um lírio desfazer-se sem legar qualquer perfume?) quanto desta repentina piedade será só culpa, falta de cautela, miragem?
e, no entanto, eu sei: sou eu
tanta coisa minha que eu nem lembro de ter esquecido
eu não lembrava, céus, eu não lembrava
não é o esquecimento tão mais belo quanto mais terrível do que a morte?
570
das partes que não partiram
das partes que não partiram é que somos compostos. somente através de regressos amamos e vivemos.
o tempo nos fere e divide. despedimo-nos de nós mesmos e das coisas a cada mínimo instante, e, no entanto, não abandonamos nada.
parte a estação, resta-nos a pétala. apertando-a contra o peito, sangramos. e mal percebemos que é por meio dela mesma que chegamos a novas primaveras.
parte o beijo para o impossível, mas a reminiscência do beijo, nos lábios, permanece – e assim, em nós, o anseio de revivê-lo, de acalorar o corpo morno, de vencer a morte.
para cada história em nós decepada uma busca incessante em nós se elabora. traços vagos no meio da noite nos guiam a sonhos incríveis.
e mal percebemos que amamos. e mal percebemos que vivemos. o coração se consome em música e a poeira, à luz de um novo dia, cintila como estrelas.
562
fotocópia
mil poemas depois e ainda não encontrei conclusão aos teus olhos.
por mais que eu parta e desafie o tempo, por mais que eu me debruce longamente sobre as grandes questões e doenças, e percorra, nômade, os labirintos da palavra, é sempre à infinita banalidade dos teus olhos que regresso.
dois faróis doloridos resistindo sobre as sombras das ilhas naufragadas. mais esquecidos a cada lembrança. mais vivos a cada vez que os mato.
onde até mesmo o esquecimento se torna modalidade da memória.
555
fósforo
vida: em maior parte, reticências (mil contos nas distâncias de três pontos) estando nela, nunca estamos prontos o coração coleciona ausências
e cresce sem que cresça o seu tamanho (daí a sensação de decepado embora nada tenha se anulado) fendido entre o familiar e o estranho
e assim levamos este peso, sem saber bem a o que ou a quem tantas reminiscências entregar
de estarmos cheios do que não sabemos querendo nascer, de cada dispêndio a partir da parte que nunca lemos:
a parte que resta depois do incêndio em seu sonho perpétuo de queimar na chama extinta que não sobe achar
301
continuidade
a palavra escrita nada eterniza
só fotografa a eternidade da palavra nunca dita
o que se escreve é uma fração que cada letra delimita
a eternidade é como fonte fluindo as coisas nunca ditas
não dirás em teu tempo tudo o que tens a dizer
mas dirás algo de flor e tocados da flor outros dirão por você
não cantarás todo o amor inteiramente profundo
mas o lerão e farão do amor que não foi teu de todo o mundo
e quanto mais a palavra resgata do nunca dito
maiores nos tornamos em nossos corpos finitos
579
semente
– j.
há uma semente aqui, ela me disse,
e o tempo agora revela um campo estéril de tulipas mortas...
com as mãos vazias e sujas, penso: não se pode semear a névoa de medo e sonho que precede o solo real, por mais sedutora que seja. é necessário transpô-la, e isso demanda coragem.
também não basta semear o solo perfeitamente tangível e manter a armadura que limita o alcance das mãos que cuidam, é preciso deixá-la de lado, e isso demanda coragem. fazer valer a semente demanda sempre muito amor, e o amor demanda coragem, muita, muita coragem nesta terra de desterros.
porque o amor é sempre o primeiro gesto de vulnerabilidade diante da face da morte: somente assim pode-se não morrer;
é o coração exposto que não sente medo de buscar, é o olhar calmo à espera da verdade, é a força que nos põe à margem da fenda abissal e nos faz apreciar os infinitos tons de azul.
não subsiste onde suas raízes ficam soltas ou feridas, em reinos de resistência e podridão onde imperam as distâncias, preferindo ceder à ruína. em campos assim restam somente pétalas imaginárias.
e eu ouço, sob o peso de minha exaustiva armadura, os sussurros das pétalas: através de poemas, através de memórias já gastas. numa voz disforme e ausente, elas me dizem:
havia uma semente aqui.
574
a casa
dentro da casa cabem muitas casas. as paredes empurram contra as formas todos os tempos nelas sublimados, e em cada gesto a casa se transforma.
a cada porta que se abre ou fecha, a cada coisa que se sente ou solta, de dentro da caixa ou do álbum de fotos, desdobra-se, como uma matriosca.
num canto da sala, a casa da infância se abre, por exemplo, num tropeço, ali, com suas presenças ausentes, com seus brinquedos e rostos que esqueço,
e que esquecidos crio e tento achar, rostos líquidos de voz e de sombra, vívidos, sensíveis, invisíveis: sem querer me ferem – e eu desvio o olhar.
dentro da casa cabem muitas casas. logo no canto oposto à pueril casa da infância, fechada na pálpebra, reside a casa que ninguém mais viu,
desmoronando, roída de traças, sobre seu alicerce imaginário, cercada de acontecimentos ternos que não puderam nunca entrar ali.
e na cozinha, no banheiro e quartos diversas casas se mantêm à espreita surgem, como na sala, de qualquer canto, bem como da cama, quando se deita.
também é outra a casa no sofá, se o corpo se reúne a outro instante que tenha por acaso ali vivido em uma casa – a mesma – já distante.
e o mesmo se aplica a cada objeto, e a casa comporta em seus corredores viagens maiores que as de avião: em qualquer cômodo, a um toque da mão,
a casa de quando ela ainda vinha, aberta pela chave do perfume, e a casa de logo depois da morte, trazida pela roupa no cabide.
e o que dizer dos que a casa habitam? em cada vida, quantas casas cabem? a casa se reparte em cada peito, e se projeta, múltipla, tal como
a luz num prisma, em dispersão, e torna impossível determinar onde vivemos – e eu quase sufoco entre estruturas de concreto e sonho
se paro e olho em seus olhos cansados, que pousam, bem como os meus também pousam, sobre a matéria que, em silêncio, guarda inglórias histórias – e quase morro
sob o peso de tanta casa, nômade, andarilho de passo dividido, retendo em mim esta dor singular de não reter, de tanta casa, um lar.
dentro da casa cabem muitas casas. o tempo as adormece e não corrói. nenhuma das casas desaparece, e mesmo quando alegre a casa dói.
dentro da casa cabem muitas casas. é claro à vista por trás das janelas. dentro da casa cabem muitas casas, porém já não caibo em nenhuma delas.