Lista de Poemas
episódio
dançou dentre
as brasas
e já se esvaiu
dessa cinza
se faz tinta:
eis a vida
após a morte
dança de novo
coração medroso
na cor morta
que imita a aurora
celebra em ti
teu sonho distante
que não se conclui
jamais
traço
sem saber se era ele o esboço de seus sonhos
ou se seus sonhos eram o esboço de si,
ficou só como um destes tantos
desenhos
que iniciara
em cadernos esquecidos.
rabiscos
ali perdidos, para sempre sem pernas,
sem mãos,
nem faces
nem nomes.
antropomórficos sem dinâmica
em páginas cruas.
desenhos
até que bem legais
o homem
faróis que sugerem lares incertos
e disparam escuridão nas ilhas
que se movem sobre os oceanos.
o homem inventa paisagens verbais
com formas e belezas literárias,
as prende eternamente nas palavras
e sofre pelo mundo não ser página.
o homem morde o relógio como ao pão
sozinho no escuro, à espera, talvez,
de um amigo – embora não saiba amar.
o homem regressa a si mesmo, infinito,
vencido. o homem se come pelas pernas.
seu tempo é sua própria indigestão.
desassossego
Debruçado no dia para o qual desperto,
Fito o vazio com o olhar entreaberto,
Trajando-o de enleios da subjetividade
Que medra no solo da sensibilidade
Da minha alma pequena que visa ser grande,
Que em si mesma não cabe e em outras se expande.
Debruçado na tarde que em mim se entreabriu,
Sinto-me tal qual Soares, quando este viu,
Por detrás dos olhos de Fernando Pessoa,
A casaria ensolarada de Lisboa
Resplandecer seus sonhos na manhã nascente,
Com a vaga nitidez de um aceno ardente.
Debruçado na noite que logo em mim chega,
O cansaço dos olhos tristes versos lega.
Sinto-me, como do quadro da vida, o pó,
Com meus sonhos todos consumados num só:
O sonho de morrer para não mais sonhar,
Retribuir o aceno ao dia, e cessar.
E na carne do meu coração sinto a dor
Que um dia pousou no poeta fingidor,
No desassossego de Bernardo Soares,
Uma de suas almas, um de seus pesares,
Um sonho desdobrado à janela da vida
Que ora sinto através da palavra incontida.
poética
abocanha o sono
e a sensação noturna
paralisa as mãos,
percebe-se
que entre
escrever
sobre o peso do mundo
e escrever
sob o peso do mundo,
existe um precipício
de bem mais
que só preposição.
poema
beija-me,
que há tantas noites durmo
com este beijo preso
na garganta.
despeja teus olhos
nos meus sedentos olhos,
que há tantos anos espero
te ver chegar.
lê-me,
que sou todos os poemas
que um dia te compus
sem que você soubesse.
ou nada.
tanto me basta que sejas.
pois as palavras estão já distantes,
e tudo o que resta agora é este instante
em que as batalhas se sublimam.
memórias são pequenas pétalas
que caem sobre o mesmo chão
que um dia nos viu passar.
mas que não seja falso
este horizonte a que me lanço,
nem seja sonho
este instante;
este tão real instante
em que outra vez,
ao longe, vejo, e me vês,
e, perto, me sussurras
que, talvez,
nem tudo seja
sem sentido.
cosmologia
a água percorre teu cosmos febril,
a lâmpada te cede a estrela infante
se sobre a pele não se guarda o instante,
sob a pele se guarda o arrepio
ambíguo
em poema. lamentas, mas lamentos
são cansativos e cansar desgosta.
já não te alevantas contra os momentos.
a poesia esvaziou-se toda.
a poesia não tem mais poesia.
na superfície pensas: "que se foda,
é isto", mas, de fato, sob a névoa fria
e espessa que paira sobre teus olhos
(e que te impele a escrever de tal modo,
alheio e amargurado, como agora)
cativas a luminescência entre espólios.
és vela opaca sobre um mundo todo.
e és o próprio pavio que te devora.
[prosa] fragmento diurno-noturno
Vagarosamente permito que meus olhos se percam nas ondas dos lençóis que me cobrem as pernas cruzadas, concebendo, com a desatenção de meu olhar cansado, faces e gestos que nascem e morrem nos desenhos formados pelos vincos e sulcos dos tecidos velhos.
Nascem, porque me tocam a alma sensível que transita contente pelas choupanas cômodas da imaginação. Morrem, porque os intervalos sonoros das gotas que pingam nas calhas os desmancham com a realidade da chuva.
Segunda-feira fria, quaisquer horas e minutos que são os mesmos no pleno feriado que trespasso, sábado de agosto. O sangue corre quente nas veias impossíveis dos sonhos que derrubo nestes panos que observo. Quanta amizade pelas criaturas que penso plausíveis! Quanta ternura me causa o pássaro de renda alimentando o filho de asa rasgada! Quanta humanidade no sorriso irônico do finado ente que fui outrora, e quanta possibilidade!... Quanto esquecimento.
E quanta chuva.
Angústia. Pássaros e demais criaturas assassinas e assassinadas. A monotonia do embarque à consciência dolorosa, e o desembarque de seguida, e de novo, e de novo, através do calendário absurdo. Angústia e chuva.
E a chuva chora fria na acuidade com que sinto a realidade desamparada de tudo.
Chove, e desperto. E então encontro a realidade quebrada. E enfim sempre torno a sonhar.
Mas é noite. É sempre noite.
quimera
A cauda, incerta, ora alegre ora triste;
O corpo, saudade; e a cabeça inexiste,
E então, é a nossa a que emprestamos à praga.
E a quimera de incerteza, saudade,
E nós mesmos, a tudo observa e pasma,
Distorcendo o tempo como um fantasma,
E roendo a si mesma com ferocidade.
Mas como amansar tal monstro distinto,
Se a ela damos a cabeça – a razão –,
E ela, impiedosa e ingênua, persiste?
Ora! Basta não alimentar-lhe o instinto,
E a ela dar não a mente – mas emoção,
No mais cauteloso afeto que existe...
Comentários (4)
seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!
Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços
Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.
Belos textos.