um som rompe o silêncio. teu nome. num ato reflexo adquirido, lubrifico os lábios. percebo-o somente no instante seguinte.
a poesia infiltra-se na carne, meu bem.
o corpo não esquece.
II
porque a memória do corpo não acompanha o compasso do tempo.
dentro da urna corpórea a cinza não se sabe cinza. arde, perpétua, na chama imóvel do instante original.
o amor que te tenho, honestamente, é muito pouco. meu corpo, porém, não sabe disso.
ainda dançamos entre as sapucaias. mortos e quentes.
o corpo não esquece.
560
das partes que não partiram
das partes que não partiram é que somos compostos. somente através de regressos amamos e vivemos.
o tempo nos fere e divide. despedimo-nos de nós mesmos e das coisas a cada mínimo instante, e, no entanto, não abandonamos nada.
parte a estação, resta-nos a pétala. apertando-a contra o peito, sangramos. e mal percebemos que é por meio dela mesma que chegamos a novas primaveras.
parte o beijo para o impossível, mas a reminiscência do beijo, nos lábios, permanece – e assim, em nós, o anseio de revivê-lo, de acalorar o corpo morno, de vencer a morte.
para cada história em nós decepada uma busca incessante em nós se elabora. traços vagos no meio da noite nos guiam a sonhos incríveis.
e mal percebemos que amamos. e mal percebemos que vivemos. o coração se consome em música e a poeira, à luz de um novo dia, cintila como estrelas.
561
o homem
o homem constrói faróis no próprio umbigo, faróis que sugerem lares incertos e disparam escuridão nas ilhas que se movem sobre os oceanos.
o homem inventa paisagens verbais com formas e belezas literárias, as prende eternamente nas palavras e sofre pelo mundo não ser página.
o homem morde o relógio como ao pão sozinho no escuro, à espera, talvez, de um amigo – embora não saiba amar.
o homem regressa a si mesmo, infinito, vencido. o homem se come pelas pernas. seu tempo é sua própria indigestão.
600
poética
quando a lua abocanha o sono e a sensação noturna paralisa as mãos, percebe-se que entre escrever sobre o peso do mundo e escrever sob o peso do mundo, existe um precipício de bem mais que só preposição.
798
desassossego
em memória de fernando pessoa
Debruçado no dia para o qual desperto, Fito o vazio com o olhar entreaberto, Trajando-o de enleios da subjetividade Que medra no solo da sensibilidade Da minha alma pequena que visa ser grande, Que em si mesma não cabe e em outras se expande.
Debruçado na tarde que em mim se entreabriu, Sinto-me tal qual Soares, quando este viu, Por detrás dos olhos de Fernando Pessoa, A casaria ensolarada de Lisboa Resplandecer seus sonhos na manhã nascente, Com a vaga nitidez de um aceno ardente.
Debruçado na noite que logo em mim chega, O cansaço dos olhos tristes versos lega. Sinto-me, como do quadro da vida, o pó, Com meus sonhos todos consumados num só: O sonho de morrer para não mais sonhar, Retribuir o aceno ao dia, e cessar.
E na carne do meu coração sinto a dor Que um dia pousou no poeta fingidor, No desassossego de Bernardo Soares, Uma de suas almas, um de seus pesares, Um sonho desdobrado à janela da vida Que ora sinto através da palavra incontida.
605
cosmologia
ver-te nua a compor constelações:
a água percorre teu cosmos febril, a lâmpada te cede a estrela infante
se sobre a pele não se guarda o instante, sob a pele se guarda o arrepio
576
poema
beija-me, que há tantas noites durmo com este beijo preso na garganta.
despeja teus olhos nos meus sedentos olhos, que há tantos anos espero te ver chegar.
lê-me, que sou todos os poemas que um dia te compus sem que você soubesse.
ou nada. tanto me basta que sejas.
pois as palavras estão já distantes, e tudo o que resta agora é este instante em que as batalhas se sublimam. memórias são pequenas pétalas que caem sobre o mesmo chão que um dia nos viu passar.
mas que não seja falso este horizonte a que me lanço, nem seja sonho este instante;
este tão real instante em que outra vez, ao longe, vejo, e me vês, e, perto, me sussurras que, talvez, nem tudo seja sem sentido.
771
ambíguo
não tens resposta e não teces proposta em poema. lamentas, mas lamentos são cansativos e cansar desgosta. já não te alevantas contra os momentos.
a poesia esvaziou-se toda. a poesia não tem mais poesia. na superfície pensas: "que se foda, é isto", mas, de fato, sob a névoa fria
e espessa que paira sobre teus olhos (e que te impele a escrever de tal modo, alheio e amargurado, como agora)
cativas a luminescência entre espólios. és vela opaca sobre um mundo todo. e és o próprio pavio que te devora.
587
[prosa] fragmento diurno-noturno
Segunda-feira fria, quatorze horas e quaisquer minutos que são sempre outros. É noite. Vagarosamente permito que meus olhos se percam nas ondas dos lençóis que me cobrem as pernas cruzadas, concebendo, com a desatenção de meu olhar cansado, faces e gestos que nascem e morrem nos desenhos formados pelos vincos e sulcos dos tecidos velhos. Nascem, porque me tocam a alma sensível que transita contente pelas choupanas cômodas da imaginação. Morrem, porque os intervalos sonoros das gotas que pingam nas calhas os desmancham com a realidade da chuva. Segunda-feira fria, quaisquer horas e minutos que são os mesmos no pleno feriado que trespasso, sábado de agosto. O sangue corre quente nas veias impossíveis dos sonhos que derrubo nestes panos que observo. Quanta amizade pelas criaturas que penso plausíveis! Quanta ternura me causa o pássaro de renda alimentando o filho de asa rasgada! Quanta humanidade no sorriso irônico do finado ente que fui outrora, e quanta possibilidade!... Quanto esquecimento. E quanta chuva. Angústia. Pássaros e demais criaturas assassinas e assassinadas. A monotonia do embarque à consciência dolorosa, e o desembarque de seguida, e de novo, e de novo, através do calendário absurdo. Angústia e chuva. E a chuva chora fria na acuidade com que sinto a realidade desamparada de tudo. Chove, e desperto. E então encontro a realidade quebrada. E enfim sempre torno a sonhar. Mas é noite. É sempre noite.
616
quimera
Toda a memória é uma quimera vaga: A cauda, incerta, ora alegre ora triste; O corpo, saudade; e a cabeça inexiste, E então, é a nossa a que emprestamos à praga.
E a quimera de incerteza, saudade, E nós mesmos, a tudo observa e pasma, Distorcendo o tempo como um fantasma, E roendo a si mesma com ferocidade.
Mas como amansar tal monstro distinto, Se a ela damos a cabeça – a razão –, E ela, impiedosa e ingênua, persiste?
Ora! Basta não alimentar-lhe o instinto, E a ela dar não a mente – mas emoção, No mais cauteloso afeto que existe...