O Poema na Gaveta
O amor é um poema adormecido
Na mais profunda gaveta do mundo,
À espera de ser alvorecido
Por alguém que o resgate do profundo.
Quem abre a gaveta e o encontra escondido,
Bem redescobre a si mesmo, e ao mundo,
E paga o preço por ser enxerido:
Vive-o e sofre-o a cada segundo.
Alterna, em seus versos, a dor e o sonho
Escritos com esmero contumaz
Que fazem do amante escravo risonho.
Arranca-lhe, bem como lhe dá, a paz.
E inda assim, que arda o bálsamo, eu suponho:
Não vale viver sem lê-lo jamais.
Mar Castanho
Ondas de mar dos teus caracóis:
Tenros perfumes, formosos escóis
Vastidão lídima, de brava maré
Paraíso achado onde perdi a fé...
Mar de naufrágio, mar de girassóis
Mechas castanhas, tão gentis anzóis
Meu rosto sem fé, no mar afundado
Tal qual navio a esmo, devastado...
Só o que tenho a ofertar-te é choro...
Que flui até a ti com vão desvelo
E se dissipa em ingênuo abandono...
Ó, misto de beleza e desmazelo...
Inda afogo no teu mar, sem ter mar...
Inda morro ao relembrar teu cabelo...
Lugar de Memória
É fevereiro. Trago livros. Chuvisca. Estou só.
Cruzo, outra vez, a mesma calçada da mesma praça.
Tanto já a cruzei, de lá pra cá, que já me acostumei,
De modo que, por vezes, visita-la é algo como
Visitar um parente morto.
Na praça, tem uma árvore pálida e descascada.
E ao pé da árvore paira uma memória antropomórfica
Que me sorri tristemente – e eu sinto seu sorriso
Mais nitidamente do que jamais senti sua pele ao tatear
Seus ombros com os dedos.
Sorrio de volta, como se isso importasse.
Peço perdão à forma ferida, como se fizesse sentido.
Vejo-me defronte a um lugar que não mais existe,
Senão sob a égide de dois olhos cansados que sonham.
Chove. Chovo. E vou-me embora com frio.
O Clipe
Não era mais que um miúdo
Quando, numa tarde qualquer,
Vi ao chão um objeto estranho
Aos meus olhos inocentes:
Um clipe de papel, reluzindo
Ao frágil facho de luz
Que descia ao quintal.
Tomei-o à mão...
Examinei-o...
Não o reconheci.
Curioso como eu era,
Levei-o a ti.
Lembro-me de teu riso
Ao tomá-lo à mão
E pô-lo ao bolso da blusa,
Afagando meus cabelos em seguida.
O resto daquela tarde perdeu-se.
Hoje, não há clipe que eu veja
Que não me remeta ao teu riso...
Saudosa avó de minha infância.
Humano Amor
Não a amarei perfeitamente
Mas a amarei com humanidade
Na mais pura sinceridade
De quem ama humanamente;
A ti serei perfeito somente
Dentro da honestidade
Com a qual, em verdade
Amarei-te imperfeitamente;
E se nesta imperfeita condição
Ainda almejares meu candor
A ti consagrarei meu coração;
Amemo-nos livres da dor
Que seria buscar perfeição
No imperfeito mistério do amor;
Soneto do Colibri
De tudo, era o teu lábio o mais conspícuo
Estando ele enrubescido ou desnudo
Ou prosaico ardente, ou poeta mudo:
Distante farol de um sonho improfícuo...
Impossível flor de um jardim oblíquo
Que eu, pobre colibri, via, sobretudo,
Sedento pelo ósculo; e, contudo,
Não provei senão do nada perspícuo...
Sonhei, vindo de ti, o som do meu nome
Sussurrado por teu lábio ao meu ouvido
Seguido por um beijo, a findar a fome,
Que cultivei por não tê-la esquecido:
Esta imaginação que me consome,
Um náufrago sabor desconhecido...
Bolha de Sabão
Descanso na humilde honestidade
Com que me sento à calçada,
Destituído, nesta tarde,
De qualquer outra pretensão
Que não seja a de folhear
As poesias que trago no regaço.
O céu está denso e cinza.
Poucos cães ululam em cio
Do outro lado da rua...
Inda menos crianças correm brincando,
Mais efusivas que os cães...
Não há vento que balance
As folhas das árvores cinzentas...
Nada de música. Nada de místico. Nada de nada.
Há somente a vida que corre
Como que com desdém aos ideais
Que nos fazem cultivar percepções,
Tal como a de que qualquer
Coisa de verde ou azul teria, supostamente,
Um significado transcendente,
E a capacidade de fecundar
Olhos ressequidos de avidez.
Não. Não há nada disso. Não há nada
Senão pouco mais do que é visto.
... E o tudo do pouco que há
É-me o bastante para descansar.
É-me o bastante para notar
A leveza que reside no reconhecimento
Da insignificância de um momento
Tão efêmero como é a vida:
– Folheando, à calçada, poesias
Antigas, que se renovam sobre o mofo
E se desdobram em novos significados à luz
Desta circunstância simplória.
E cada sonho meu, cada ideal, ilusão
Dá a mão a cada singular elemento
De realidade – e fazem ciranda
Diante dos meus olhos
Com a leveza da despretensão
E a pureza da desilusão.
A ciranda da sinceridade sublime
Não demanda mais que uma calçada qualquer.
E eu sorrio à calçada, vencido,
Tal como uma criança sorri
Em face à magia insignificante do estouro
De uma bolha de sabão.
Última Valsa
Da televisão, fez-se candelabro.
Do assoalho, fez-se vasto salão.
E ao tomar tua tristeza pela mão,
Fez-se a última valsa de amor glabro.
Rodopios dentre véu de descalabro.
Beijos salgados por um pranto vão.
E ao tomar tua alma baça pela mão,
Faz-se dança a tudo. A ti desabro.
E a mim tu desabre. E ri. E chora.
Exaure nos passos atrapalhados
A essência ambivalente deste agora.
Segue a dança triste. Agridoces fados.
Valsamos decadentes até a aurora.
Eu e tu, dois amantes despedaçados.
Caminhando em uma Noite Solitária
O preço que eu pago
Por ser quem eu sou
É viver confinado
Dentro da minha própria tristeza
Afinal, nada mais sou
Do que uma miscelânea de incertezas;
Reconheço-me responsável, assim,
Pela minha tragédia presente,
De caminhar abaixo de um céu escuro
Com frio
E falando sozinho...
Sem ninguém com quem dividir
Meus mais íntimos tormentos;
Somente eu
E os assovios do vento;