Perfume de Saudade
Uma velha ferida que arde
É tal qual uma pobre rosa
Que desabrocha quando morta
E tem perfume de saudade
E em cada agudo espinho
Desta flor desfalecida
Esvai-se um pouco minha vida
Numa sangria sem caminho
Nó
Recolho do nó da garganta
A entrelinha de cada escrito
De modo que a dor garanta
Fidelidade ao poema que sinto.
É a verdade que se alevanta
Dos confins de meu gesto sucinto
Mesmo calada, não se aquebranta
E, em cada poema, exaure seu grito.
Meu coração se desata em versos.
Frio
Lembro-me bem
Era um dia escuro, estava frio
Só o que havia de luz naquele quarto era a televisão
E você, que emanava radiante;
Sentei-me ao teu lado em silêncio
Observei-te, você notou, sorriu
E então, aproximou-se lentamente de mim
Fechei meus olhos,
E senti toda a minha angústia esvair-se num beijo teu;
Por um breve momento, assim, me senti aquecido
E pude finalmente sorrir;
Então, abri os olhos.
Ainda estava escuro.
E frio.
Mas você não estava lá.
Você nunca esteve.
Partes
Em prol de tê-la
No meu coração
Renunciei de tê-la
À palma da mão.
E foi melhor assim.
Eu serei parte de ti
Tu serás parte de mim.
Parte aqui, parte ali.
Mar Castanho
Ondas de mar dos teus caracóis:
Tenros perfumes, formosos escóis
Vastidão lídima, de brava maré
Paraíso achado onde perdi a fé...
Mar de naufrágio, mar de girassóis
Mechas castanhas, tão gentis anzóis
Meu rosto sem fé, no mar afundado
Tal qual navio a esmo, devastado...
Só o que tenho a ofertar-te é choro...
Que flui até a ti com vão desvelo
E se dissipa em ingênuo abandono...
Ó, misto de beleza e desmazelo...
Inda afogo no teu mar, sem ter mar...
Inda morro ao relembrar teu cabelo...
Humano Amor
Não a amarei perfeitamente
Mas a amarei com humanidade
Na mais pura sinceridade
De quem ama humanamente;
A ti serei perfeito somente
Dentro da honestidade
Com a qual, em verdade
Amarei-te imperfeitamente;
E se nesta imperfeita condição
Ainda almejares meu candor
A ti consagrarei meu coração;
Amemo-nos livres da dor
Que seria buscar perfeição
No imperfeito mistério do amor;
Flor
Tinha uma única flor na praça.
Era, justamente, uma rosa solitária.
Pensei em fazer um poema
Para exprimir os possíveis
Sentimentos daquela flor amena.
A olhei. Olhei mais. Segui olhando.
Ponderei mil metáforas para
Atribuir àquela desgraçada rosa.
Imaginei prosopopeias malucas...
A olhei sob quase todas as lentes da mente.
Fi-la dama, ou princesa isolada,
Ou rainha exilada, poesia, canto...
E tanto, que quase deixei de perceber
Que estava eu também sozinho
Pairado num banco.
Quando o percebi, percebi algo mais.
Havia feito da rosa espelho de minha condição.
Fiz da rosa, eu, e de mim, rosa sozinha.
Vi-a conforme pensei...
Fi-la qualquer coisa senão rosa, sem fazê-la, portanto.
E quando agucei meu ser, no entanto,
Vi-a vermelha. Sim! Vermelha! E ri!
Sequer era ela o que o próprio nome sugeria!
E como sorri feito uma criança que aprende algo novo!
Como poderia eu chegar à essência da flor
Através de metáforas e insensíveis poesias?
Ah!... E descansei diante da rosa vermelha. Flor.
Caule. Raízes. Folhas. Pétalas. Espinhos...
Soube de súbito que nunca antes amara uma rosa.
E a solitária e silenciosa poesia honesta
Preencheu-me de um sentimento inexprimível,
Qual não ouso sequer descrever por verso.
E bastou-me de poesia por aquele dia.
A flor em si findou qualquer poema possível.
E desabrochei, como ela,
Para a realidade sublime
Do doce desconhecimento.
O Clipe
Não era mais que um miúdo
Quando, numa tarde qualquer,
Vi ao chão um objeto estranho
Aos meus olhos inocentes:
Um clipe de papel, reluzindo
Ao frágil facho de luz
Que descia ao quintal.
Tomei-o à mão...
Examinei-o...
Não o reconheci.
Curioso como eu era,
Levei-o a ti.
Lembro-me de teu riso
Ao tomá-lo à mão
E pô-lo ao bolso da blusa,
Afagando meus cabelos em seguida.
O resto daquela tarde perdeu-se.
Hoje, não há clipe que eu veja
Que não me remeta ao teu riso...
Saudosa avó de minha infância.
Lugar de Memória
É fevereiro. Trago livros. Chuvisca. Estou só.
Cruzo, outra vez, a mesma calçada da mesma praça.
Tanto já a cruzei, de lá pra cá, que já me acostumei,
De modo que, por vezes, visita-la é algo como
Visitar um parente morto.
Na praça, tem uma árvore pálida e descascada.
E ao pé da árvore paira uma memória antropomórfica
Que me sorri tristemente – e eu sinto seu sorriso
Mais nitidamente do que jamais senti sua pele ao tatear
Seus ombros com os dedos.
Sorrio de volta, como se isso importasse.
Peço perdão à forma ferida, como se fizesse sentido.
Vejo-me defronte a um lugar que não mais existe,
Senão sob a égide de dois olhos cansados que sonham.
Chove. Chovo. E vou-me embora com frio.