Lista de Poemas
Bala
Desfrutei do amor como se bala fosse:
Não o mastiguei, pois assim o teria ferido...
Não o apressei, pois assim o teria perdido...
Mas o deixei derreter, lento e doce...
Permiti que se dissipasse naturalmente:
Para que quando se cansasse das papilas
E se dessaborasse das rotinas
Desaparecesse sem deixar pedaços nos dentes...
Por ter desfrutado do amor, não me julgo mesquinho,
Afinal, ao menos amei... E foi-se,
Saboroso e breve como uma bala doce,
Da qual guardarei o embrulho com carinho...
Não o mastiguei, pois assim o teria ferido...
Não o apressei, pois assim o teria perdido...
Mas o deixei derreter, lento e doce...
Permiti que se dissipasse naturalmente:
Para que quando se cansasse das papilas
E se dessaborasse das rotinas
Desaparecesse sem deixar pedaços nos dentes...
Por ter desfrutado do amor, não me julgo mesquinho,
Afinal, ao menos amei... E foi-se,
Saboroso e breve como uma bala doce,
Da qual guardarei o embrulho com carinho...
128
Praça
Findava-se outra tarde no horizonte.
Como de praxe, sentei-me no banco da praça
E, aflito, aguardei pela tua chegada.
Meus olhos ansiosos,
Transbordantes de expectativa,
Se inebriavam
E se viciavam
Na visão da esquina da rua
De onde era esperada a vinda tua.
A este sonhador cansado, nada mais havia.
Toda a praça enturvecia.
Ao espreitar os arredores, nada via:
Mesmo quando suspendia o olhar daquela rua
O fazia apenas na esperança de me surpreender
Por, ao retomar o olhar, encontrar tua figura.
O único odor que eu sentia
Era a imaginação do teu perfume...
A rosa ao lado, no canteiro,
De nada me valia. Se é que existia.
Nem mesmo as borboletas, mariposas, aves
Eram mais notáveis
Que as invisíveis joaninhas na relva.
Pois só o que via, ainda que sem ver,
Era tua face ausente.
Estava entorpecido, de peito incontinente.
Nada fazia eu, na praça, senão aguardar.
Esperei, esperei e esperei...
Ricocheteei em meu coração
Inúmeras vezes
A expectativa
De te ver virando aquela angustiante
Esquina.
Nem vi o Sol partir.
Nem vi a primeira estrela surgir.
Nada vi. Nem a mim mesmo.
Nem sequer a ti.
Então, pensei: “Não vem”.
Contentei-me de exausto.
Recolhi meu lamento em silêncio
Levantei-me
E fui-me embora
Incônscio
De toda a praça
– Joaninha, ave, borboleta,
Poente, estrela...
– Quais por cego estar
De tanto aguardar
Desperdicei.
Deixei passar.
Como de praxe, sentei-me no banco da praça
E, aflito, aguardei pela tua chegada.
Meus olhos ansiosos,
Transbordantes de expectativa,
Se inebriavam
E se viciavam
Na visão da esquina da rua
De onde era esperada a vinda tua.
A este sonhador cansado, nada mais havia.
Toda a praça enturvecia.
Ao espreitar os arredores, nada via:
Mesmo quando suspendia o olhar daquela rua
O fazia apenas na esperança de me surpreender
Por, ao retomar o olhar, encontrar tua figura.
O único odor que eu sentia
Era a imaginação do teu perfume...
A rosa ao lado, no canteiro,
De nada me valia. Se é que existia.
Nem mesmo as borboletas, mariposas, aves
Eram mais notáveis
Que as invisíveis joaninhas na relva.
Pois só o que via, ainda que sem ver,
Era tua face ausente.
Estava entorpecido, de peito incontinente.
Nada fazia eu, na praça, senão aguardar.
Esperei, esperei e esperei...
Ricocheteei em meu coração
Inúmeras vezes
A expectativa
De te ver virando aquela angustiante
Esquina.
Nem vi o Sol partir.
Nem vi a primeira estrela surgir.
Nada vi. Nem a mim mesmo.
Nem sequer a ti.
Então, pensei: “Não vem”.
Contentei-me de exausto.
Recolhi meu lamento em silêncio
Levantei-me
E fui-me embora
Incônscio
De toda a praça
– Joaninha, ave, borboleta,
Poente, estrela...
– Quais por cego estar
De tanto aguardar
Desperdicei.
Deixei passar.
55
O Poema na Gaveta
O amor é um poema adormecido
Na mais profunda gaveta do mundo,
À espera de ser alvorecido
Por alguém que o resgate do profundo.
Quem abre a gaveta e o encontra escondido,
Bem redescobre a si mesmo, e ao mundo,
E paga o preço por ser enxerido:
Vive-o e sofre-o a cada segundo.
Alterna, em seus versos, a dor e o sonho
Escritos com esmero contumaz
Que fazem do amante escravo risonho.
Arranca-lhe, bem como lhe dá, a paz.
E inda assim, que arda o bálsamo, eu suponho:
Não vale viver sem lê-lo jamais.
Na mais profunda gaveta do mundo,
À espera de ser alvorecido
Por alguém que o resgate do profundo.
Quem abre a gaveta e o encontra escondido,
Bem redescobre a si mesmo, e ao mundo,
E paga o preço por ser enxerido:
Vive-o e sofre-o a cada segundo.
Alterna, em seus versos, a dor e o sonho
Escritos com esmero contumaz
Que fazem do amante escravo risonho.
Arranca-lhe, bem como lhe dá, a paz.
E inda assim, que arda o bálsamo, eu suponho:
Não vale viver sem lê-lo jamais.
97
Viagem
O fetiche do distante
Faz-nos cegos
Ao que há por perto
Em cada instante.
Tola inconformidade.
Há sempre amores perdidos
E países desconhecidos
Do outro lado da cidade.
Faz-nos cegos
Ao que há por perto
Em cada instante.
Tola inconformidade.
Há sempre amores perdidos
E países desconhecidos
Do outro lado da cidade.
98
Perfume de Saudade
Uma velha ferida que arde
É tal qual uma pobre rosa
Que desabrocha quando morta
E tem perfume de saudade
E em cada agudo espinho
Desta flor desfalecida
Esvai-se um pouco minha vida
Numa sangria sem caminho
É tal qual uma pobre rosa
Que desabrocha quando morta
E tem perfume de saudade
E em cada agudo espinho
Desta flor desfalecida
Esvai-se um pouco minha vida
Numa sangria sem caminho
68
Nó
Recolho do nó da garganta
A entrelinha de cada escrito
De modo que a dor garanta
Fidelidade ao poema que sinto.
É a verdade que se alevanta
Dos confins de meu gesto sucinto
Mesmo calada, não se aquebranta
E, em cada poema, exaure seu grito.
Meu coração se desata em versos.
A entrelinha de cada escrito
De modo que a dor garanta
Fidelidade ao poema que sinto.
É a verdade que se alevanta
Dos confins de meu gesto sucinto
Mesmo calada, não se aquebranta
E, em cada poema, exaure seu grito.
Meu coração se desata em versos.
155
Soneto do Colibri
De tudo, era o teu lábio o mais conspícuo
Estando ele enrubescido ou desnudo
Ou prosaico ardente, ou poeta mudo:
Distante farol de um sonho improfícuo...
Impossível flor de um jardim oblíquo
Que eu, pobre colibri, via, sobretudo,
Sedento pelo ósculo; e, contudo,
Não provei senão do nada perspícuo...
Sonhei, vindo de ti, o som do meu nome
Sussurrado por teu lábio ao meu ouvido
Seguido por um beijo, a findar a fome,
Que cultivei por não tê-la esquecido:
Esta imaginação que me consome,
Um náufrago sabor desconhecido...
Estando ele enrubescido ou desnudo
Ou prosaico ardente, ou poeta mudo:
Distante farol de um sonho improfícuo...
Impossível flor de um jardim oblíquo
Que eu, pobre colibri, via, sobretudo,
Sedento pelo ósculo; e, contudo,
Não provei senão do nada perspícuo...
Sonhei, vindo de ti, o som do meu nome
Sussurrado por teu lábio ao meu ouvido
Seguido por um beijo, a findar a fome,
Que cultivei por não tê-la esquecido:
Esta imaginação que me consome,
Um náufrago sabor desconhecido...
88
Bolha de Sabão
Descanso na humilde honestidade
Com que me sento à calçada,
Destituído, nesta tarde,
De qualquer outra pretensão
Que não seja a de folhear
As poesias que trago no regaço.
O céu está denso e cinza.
Poucos cães ululam em cio
Do outro lado da rua...
Inda menos crianças correm brincando,
Mais efusivas que os cães...
Não há vento que balance
As folhas das árvores cinzentas...
Nada de música. Nada de místico. Nada de nada.
Há somente a vida que corre
Como que com desdém aos ideais
Que nos fazem cultivar percepções,
Tal como a de que qualquer
Coisa de verde ou azul teria, supostamente,
Um significado transcendente,
E a capacidade de fecundar
Olhos ressequidos de avidez.
Não. Não há nada disso. Não há nada
Senão pouco mais do que é visto.
... E o tudo do pouco que há
É-me o bastante para descansar.
É-me o bastante para notar
A leveza que reside no reconhecimento
Da insignificância de um momento
Tão efêmero como é a vida:
– Folheando, à calçada, poesias
Antigas, que se renovam sobre o mofo
E se desdobram em novos significados à luz
Desta circunstância simplória.
E cada sonho meu, cada ideal, ilusão
Dá a mão a cada singular elemento
De realidade – e fazem ciranda
Diante dos meus olhos
Com a leveza da despretensão
E a pureza da desilusão.
A ciranda da sinceridade sublime
Não demanda mais que uma calçada qualquer.
E eu sorrio à calçada, vencido,
Tal como uma criança sorri
Em face à magia insignificante do estouro
De uma bolha de sabão.
Com que me sento à calçada,
Destituído, nesta tarde,
De qualquer outra pretensão
Que não seja a de folhear
As poesias que trago no regaço.
O céu está denso e cinza.
Poucos cães ululam em cio
Do outro lado da rua...
Inda menos crianças correm brincando,
Mais efusivas que os cães...
Não há vento que balance
As folhas das árvores cinzentas...
Nada de música. Nada de místico. Nada de nada.
Há somente a vida que corre
Como que com desdém aos ideais
Que nos fazem cultivar percepções,
Tal como a de que qualquer
Coisa de verde ou azul teria, supostamente,
Um significado transcendente,
E a capacidade de fecundar
Olhos ressequidos de avidez.
Não. Não há nada disso. Não há nada
Senão pouco mais do que é visto.
... E o tudo do pouco que há
É-me o bastante para descansar.
É-me o bastante para notar
A leveza que reside no reconhecimento
Da insignificância de um momento
Tão efêmero como é a vida:
– Folheando, à calçada, poesias
Antigas, que se renovam sobre o mofo
E se desdobram em novos significados à luz
Desta circunstância simplória.
E cada sonho meu, cada ideal, ilusão
Dá a mão a cada singular elemento
De realidade – e fazem ciranda
Diante dos meus olhos
Com a leveza da despretensão
E a pureza da desilusão.
A ciranda da sinceridade sublime
Não demanda mais que uma calçada qualquer.
E eu sorrio à calçada, vencido,
Tal como uma criança sorri
Em face à magia insignificante do estouro
De uma bolha de sabão.
168
Lugar de Memória
É fevereiro. Trago livros. Chuvisca. Estou só.
Cruzo, outra vez, a mesma calçada da mesma praça.
Tanto já a cruzei, de lá pra cá, que já me acostumei,
De modo que, por vezes, visita-la é algo como
Visitar um parente morto.
Na praça, tem uma árvore pálida e descascada.
E ao pé da árvore paira uma memória antropomórfica
Que me sorri tristemente – e eu sinto seu sorriso
Mais nitidamente do que jamais senti sua pele ao tatear
Seus ombros com os dedos.
Sorrio de volta, como se isso importasse.
Peço perdão à forma ferida, como se fizesse sentido.
Vejo-me defronte a um lugar que não mais existe,
Senão sob a égide de dois olhos cansados que sonham.
Chove. Chovo. E vou-me embora com frio.
Cruzo, outra vez, a mesma calçada da mesma praça.
Tanto já a cruzei, de lá pra cá, que já me acostumei,
De modo que, por vezes, visita-la é algo como
Visitar um parente morto.
Na praça, tem uma árvore pálida e descascada.
E ao pé da árvore paira uma memória antropomórfica
Que me sorri tristemente – e eu sinto seu sorriso
Mais nitidamente do que jamais senti sua pele ao tatear
Seus ombros com os dedos.
Sorrio de volta, como se isso importasse.
Peço perdão à forma ferida, como se fizesse sentido.
Vejo-me defronte a um lugar que não mais existe,
Senão sob a égide de dois olhos cansados que sonham.
Chove. Chovo. E vou-me embora com frio.
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Comentários (4)
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seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!
Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços
Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.
Belos textos.