Bala
Desfrutei do amor como se bala fosse:
Não o mastiguei, pois assim o teria ferido...
Não o apressei, pois assim o teria perdido...
Mas o deixei derreter, lento e doce...
Permiti que se dissipasse naturalmente:
Para que quando se cansasse das papilas
E se dessaborasse das rotinas
Desaparecesse sem deixar pedaços nos dentes...
Por ter desfrutado do amor, não me julgo mesquinho,
Afinal, ao menos amei... E foi-se,
Saboroso e breve como uma bala doce,
Da qual guardarei o embrulho com carinho...
Retratos
Ver-se crescido é angustiar-se
Ao revisitar velhos retratos
E não mais reconhecer-se.
Ah! Saudosos tempos abstratos...
Criança efêmera a rir-se...
O Poema na Gaveta
O amor é um poema adormecido
Na mais profunda gaveta do mundo,
À espera de ser alvorecido
Por alguém que o resgate do profundo.
Quem abre a gaveta e o encontra escondido,
Bem redescobre a si mesmo, e ao mundo,
E paga o preço por ser enxerido:
Vive-o e sofre-o a cada segundo.
Alterna, em seus versos, a dor e o sonho
Escritos com esmero contumaz
Que fazem do amante escravo risonho.
Arranca-lhe, bem como lhe dá, a paz.
E inda assim, que arda o bálsamo, eu suponho:
Não vale viver sem lê-lo jamais.
Invernos
No inverno de há três anos,
Tive-a, sobre mim, a aquecer-me.
No inverno de há dois anos,
Pude, ao menos, dizer tê-la tido no inverno passado.
No inverno de há um ano,
Nem mesmo isto eu pude dizer, sem que fosse mentira.
No presente inverno,
Tê-la tido, há três anos, parece-me um mero sonho vago.
...E, conforme o tempo passa,
Tornando mais distante tal saudosa memória,
Mais intenso se torna o frio que sinto
A cada novo inverno que surge.
Humano Amor
Não a amarei perfeitamente
Mas a amarei com humanidade
Na mais pura sinceridade
De quem ama humanamente;
A ti serei perfeito somente
Dentro da honestidade
Com a qual, em verdade
Amarei-te imperfeitamente;
E se nesta imperfeita condição
Ainda almejares meu candor
A ti consagrarei meu coração;
Amemo-nos livres da dor
Que seria buscar perfeição
No imperfeito mistério do amor;
Flor
Tinha uma única flor na praça.
Era, justamente, uma rosa solitária.
Pensei em fazer um poema
Para exprimir os possíveis
Sentimentos daquela flor amena.
A olhei. Olhei mais. Segui olhando.
Ponderei mil metáforas para
Atribuir àquela desgraçada rosa.
Imaginei prosopopeias malucas...
A olhei sob quase todas as lentes da mente.
Fi-la dama, ou princesa isolada,
Ou rainha exilada, poesia, canto...
E tanto, que quase deixei de perceber
Que estava eu também sozinho
Pairado num banco.
Quando o percebi, percebi algo mais.
Havia feito da rosa espelho de minha condição.
Fiz da rosa, eu, e de mim, rosa sozinha.
Vi-a conforme pensei...
Fi-la qualquer coisa senão rosa, sem fazê-la, portanto.
E quando agucei meu ser, no entanto,
Vi-a vermelha. Sim! Vermelha! E ri!
Sequer era ela o que o próprio nome sugeria!
E como sorri feito uma criança que aprende algo novo!
Como poderia eu chegar à essência da flor
Através de metáforas e insensíveis poesias?
Ah!... E descansei diante da rosa vermelha. Flor.
Caule. Raízes. Folhas. Pétalas. Espinhos...
Soube de súbito que nunca antes amara uma rosa.
E a solitária e silenciosa poesia honesta
Preencheu-me de um sentimento inexprimível,
Qual não ouso sequer descrever por verso.
E bastou-me de poesia por aquele dia.
A flor em si findou qualquer poema possível.
E desabrochei, como ela,
Para a realidade sublime
Do doce desconhecimento.
Bolha de Sabão
Descanso na humilde honestidade
Com que me sento à calçada,
Destituído, nesta tarde,
De qualquer outra pretensão
Que não seja a de folhear
As poesias que trago no regaço.
O céu está denso e cinza.
Poucos cães ululam em cio
Do outro lado da rua...
Inda menos crianças correm brincando,
Mais efusivas que os cães...
Não há vento que balance
As folhas das árvores cinzentas...
Nada de música. Nada de místico. Nada de nada.
Há somente a vida que corre
Como que com desdém aos ideais
Que nos fazem cultivar percepções,
Tal como a de que qualquer
Coisa de verde ou azul teria, supostamente,
Um significado transcendente,
E a capacidade de fecundar
Olhos ressequidos de avidez.
Não. Não há nada disso. Não há nada
Senão pouco mais do que é visto.
... E o tudo do pouco que há
É-me o bastante para descansar.
É-me o bastante para notar
A leveza que reside no reconhecimento
Da insignificância de um momento
Tão efêmero como é a vida:
– Folheando, à calçada, poesias
Antigas, que se renovam sobre o mofo
E se desdobram em novos significados à luz
Desta circunstância simplória.
E cada sonho meu, cada ideal, ilusão
Dá a mão a cada singular elemento
De realidade – e fazem ciranda
Diante dos meus olhos
Com a leveza da despretensão
E a pureza da desilusão.
A ciranda da sinceridade sublime
Não demanda mais que uma calçada qualquer.
E eu sorrio à calçada, vencido,
Tal como uma criança sorri
Em face à magia insignificante do estouro
De uma bolha de sabão.
Frio
Lembro-me bem
Era um dia escuro, estava frio
Só o que havia de luz naquele quarto era a televisão
E você, que emanava radiante;
Sentei-me ao teu lado em silêncio
Observei-te, você notou, sorriu
E então, aproximou-se lentamente de mim
Fechei meus olhos,
E senti toda a minha angústia esvair-se num beijo teu;
Por um breve momento, assim, me senti aquecido
E pude finalmente sorrir;
Então, abri os olhos.
Ainda estava escuro.
E frio.
Mas você não estava lá.
Você nunca esteve.
Caminhando em uma Noite Solitária
O preço que eu pago
Por ser quem eu sou
É viver confinado
Dentro da minha própria tristeza
Afinal, nada mais sou
Do que uma miscelânea de incertezas;
Reconheço-me responsável, assim,
Pela minha tragédia presente,
De caminhar abaixo de um céu escuro
Com frio
E falando sozinho...
Sem ninguém com quem dividir
Meus mais íntimos tormentos;
Somente eu
E os assovios do vento;
Dança
Não há castigo maior
A um pensamento sedento
Por movimento
Do que a estagnação vaga
Nas memórias
De uma dança já findada.