Coruja
De tanto olhar para trás,
Perdeu de vista o futuro
E só ganhou torcicolos.
As Mortes Que a Vida Tem
Em vida, mais se morre que se vive.
Um rol de morte pautado em vivência
Que cresce no decurso da existência
À luz de um finado ser que revive.
Morre-se a criança, ainda que a cultive.
Bem como morre a breve adolescência.
Morre-se o jovem à intransigência
Do tempo que corre e morre em declive.
Deixa no passado a vela apagada,
Criança adulta de pulso inconstante...
– Em cada morte, uma nova jornada.
Não é a última a mais importante,
Qual tudo finda e reduz a pó, nada...
Bem mais vale a morte de cada instante.
Última Valsa
Da televisão, fez-se candelabro.
Do assoalho, fez-se vasto salão.
E ao tomar tua tristeza pela mão,
Fez-se a última valsa de amor glabro.
Rodopios dentre véu de descalabro.
Beijos salgados por um pranto vão.
E ao tomar tua alma baça pela mão,
Faz-se dança a tudo. A ti desabro.
E a mim tu desabre. E ri. E chora.
Exaure nos passos atrapalhados
A essência ambivalente deste agora.
Segue a dança triste. Agridoces fados.
Valsamos decadentes até a aurora.
Eu e tu, dois amantes despedaçados.
Invernos
No inverno de há três anos,
Tive-a, sobre mim, a aquecer-me.
No inverno de há dois anos,
Pude, ao menos, dizer tê-la tido no inverno passado.
No inverno de há um ano,
Nem mesmo isto eu pude dizer, sem que fosse mentira.
No presente inverno,
Tê-la tido, há três anos, parece-me um mero sonho vago.
...E, conforme o tempo passa,
Tornando mais distante tal saudosa memória,
Mais intenso se torna o frio que sinto
A cada novo inverno que surge.
Bolha de Sabão
Descanso na humilde honestidade
Com que me sento à calçada,
Destituído, nesta tarde,
De qualquer outra pretensão
Que não seja a de folhear
As poesias que trago no regaço.
O céu está denso e cinza.
Poucos cães ululam em cio
Do outro lado da rua...
Inda menos crianças correm brincando,
Mais efusivas que os cães...
Não há vento que balance
As folhas das árvores cinzentas...
Nada de música. Nada de místico. Nada de nada.
Há somente a vida que corre
Como que com desdém aos ideais
Que nos fazem cultivar percepções,
Tal como a de que qualquer
Coisa de verde ou azul teria, supostamente,
Um significado transcendente,
E a capacidade de fecundar
Olhos ressequidos de avidez.
Não. Não há nada disso. Não há nada
Senão pouco mais do que é visto.
... E o tudo do pouco que há
É-me o bastante para descansar.
É-me o bastante para notar
A leveza que reside no reconhecimento
Da insignificância de um momento
Tão efêmero como é a vida:
– Folheando, à calçada, poesias
Antigas, que se renovam sobre o mofo
E se desdobram em novos significados à luz
Desta circunstância simplória.
E cada sonho meu, cada ideal, ilusão
Dá a mão a cada singular elemento
De realidade – e fazem ciranda
Diante dos meus olhos
Com a leveza da despretensão
E a pureza da desilusão.
A ciranda da sinceridade sublime
Não demanda mais que uma calçada qualquer.
E eu sorrio à calçada, vencido,
Tal como uma criança sorri
Em face à magia insignificante do estouro
De uma bolha de sabão.
Viagem
O fetiche do distante
Faz-nos cegos
Ao que há por perto
Em cada instante.
Tola inconformidade.
Há sempre amores perdidos
E países desconhecidos
Do outro lado da cidade.
Soneto do Colibri
De tudo, era o teu lábio o mais conspícuo
Estando ele enrubescido ou desnudo
Ou prosaico ardente, ou poeta mudo:
Distante farol de um sonho improfícuo...
Impossível flor de um jardim oblíquo
Que eu, pobre colibri, via, sobretudo,
Sedento pelo ósculo; e, contudo,
Não provei senão do nada perspícuo...
Sonhei, vindo de ti, o som do meu nome
Sussurrado por teu lábio ao meu ouvido
Seguido por um beijo, a findar a fome,
Que cultivei por não tê-la esquecido:
Esta imaginação que me consome,
Um náufrago sabor desconhecido...
O Poema na Gaveta
O amor é um poema adormecido
Na mais profunda gaveta do mundo,
À espera de ser alvorecido
Por alguém que o resgate do profundo.
Quem abre a gaveta e o encontra escondido,
Bem redescobre a si mesmo, e ao mundo,
E paga o preço por ser enxerido:
Vive-o e sofre-o a cada segundo.
Alterna, em seus versos, a dor e o sonho
Escritos com esmero contumaz
Que fazem do amante escravo risonho.
Arranca-lhe, bem como lhe dá, a paz.
E inda assim, que arda o bálsamo, eu suponho:
Não vale viver sem lê-lo jamais.
Caminhando em uma Noite Solitária
O preço que eu pago
Por ser quem eu sou
É viver confinado
Dentro da minha própria tristeza
Afinal, nada mais sou
Do que uma miscelânea de incertezas;
Reconheço-me responsável, assim,
Pela minha tragédia presente,
De caminhar abaixo de um céu escuro
Com frio
E falando sozinho...
Sem ninguém com quem dividir
Meus mais íntimos tormentos;
Somente eu
E os assovios do vento;
Dança
Não há castigo maior
A um pensamento sedento
Por movimento
Do que a estagnação vaga
Nas memórias
De uma dança já findada.