Das Perdas
De todas as perdas,
A mais áspera
É a do tempo.
— É dentro dela
Que estão
Todas as outras.
O Espelho
Meus dedos tamborilavam
Os alvos ombros dela,
Enquanto meus olhos fitavam
O doiro de sua cabeça.
E a limpidez daqueles cabelos,
Ora tocando meus dedos,
Era como um espelho
Para a minha cobardia.
A angústia, esta boa peralta,
Espetava-me o peito
E incentivava-me, boba,
A abraçar, só abraçar...
De repente, cessou-se a hora.
Os dedos saíram dos ombros...
Os olhos ficaram no espelho...
Abraço não houve.
...Mas trago nos braços
O tato desse abraço.
O Lirismo do Perdido
Se lhe pudesse ter devorado,
No perdido instante,
O mais puro lirismo de teus
Olhos vertentes e amorosos,
Hoje meu coração
Não padeceria de fome...
Despejo
Os versos que fiz dela ainda estão em mim,
E são muito belos para que não os despeje,
Ainda que, para tal, tenha de fazê-lo
A outros ouvidos que não os dela.
É algo como se pôr num jarro torpe
O bom vinho pertencido a uma
Garrafa nobre, porém,
Irrecuperavelmente
Estilhaçada.
As Mortes Que a Vida Tem
Em vida, mais se morre que se vive.
Um rol de morte pautado em vivência
Que cresce no decurso da existência
À luz de um finado ser que revive.
Morre-se a criança, ainda que a cultive.
Bem como morre a breve adolescência.
Morre-se o jovem à intransigência
Do tempo que corre e morre em declive.
Deixa no passado a vela apagada,
Criança adulta de pulso inconstante...
– Em cada morte, uma nova jornada.
Não é a última a mais importante,
Qual tudo finda e reduz a pó, nada...
Bem mais vale a morte de cada instante.
Sussurro
Eram versos teus
Moldados
À tua imagem
E semelhança.
Concebidos
Numa inocência
Como que de criança.
Sussurrei-os ao teu ouvido
No mais íntimo
De todos os momentos.
Por intermédio dos versos,
Dei-te, inconsequente,
O coração
Que os forjou.
Possa o sussurro ter
Entrado por um ouvido
E por outro
Saído
Para que hoje os versos
Por ti tenham sido
Esquecidos.
Eram versos teus.
Já não são mais.
Tampouco versos meus,
Embora de mim escapem
(Pois não há porta de saída
No coração).
São tão somente versos.
E nada mais.
Ébrio
Sou um ébrio amante que mudou de foco:
Se era antes o teu corpo, é agora o copo.
Não mais há mel dos lábios, mãos, ou seios...
Há só o torpor de um desamor sem anseios.
Sou quem busca o incerto em devaneios
Diluído em cerveja, afogado em receios
Vendo a imagem reluzente de ti, no topo,
Florida na sujeira – ramo triste de hissopo.
Mas o solo que há em mim é alcoolizado
Pobre e mendigo, incapaz de abrigar flor,
E a visão que tenho de ti é um sonho malogrado,
Emoldurado, na lembrança, como um amor,
Sendo o âmbar defronte a este ébrio desatinado
De tais distorções sentimentais, o catalisador.
Óbice
O beijo é um tropeço
Na trilha da amizade.
Poço
Tentar extrair deste poço de angústia que sou
Uma mísera redondilha de amor, que seja,
É tal qual personificar a figura do tolo
Que busca fisgar espadartes no rio.
...É possível.
Desde que seja história de pescador.
Hidra
A solidão é um bicho
De uma única cabeça
Que inventa outras seis
Para culpar.