Lista de Poemas

O Espelho

Meus dedos tamborilavam
Os alvos ombros dela,
Enquanto meus olhos fitavam
O doiro de sua cabeça.

E a limpidez daqueles cabelos,
Ora tocando meus dedos,
Era como um espelho
Para a minha cobardia.

A angústia, esta boa peralta,
Espetava-me o peito
E incentivava-me, boba,
A abraçar, só abraçar...

De repente, cessou-se a hora.
Os dedos saíram dos ombros...
Os olhos ficaram no espelho...
Abraço não houve.

...Mas trago nos braços
O tato desse abraço.
72

Entendimento

Nunca tive em minhas mãos
Um passarinho que não me bicasse,
Nem em meus olhos
Um sonho que não me doesse,
Nem em minha vida
Um amor que não fenecesse.

E entanto, o entendimento de que,
Um dia,

Um passarinho pousou em minhas mãos,
E um sonho viveu em meus olhos,
E um amor me aconteceu em vida,

Encerra todas as minhas mágoas.
253

O Lirismo do Perdido

Se lhe pudesse ter devorado,
No perdido instante,
O mais puro lirismo de teus
Olhos vertentes e amorosos,
Hoje meu coração
Não padeceria de fome...

67

Crepúsculo da Estrela

Meu corpo é uma casca que jaz alheada,
Neste crepúsculo de céu profundo,
Esquecida da vida, esquecida do mundo,
Vislumbrando uma rua repleta de nada;

Acima desta rua nula, triste e desatinada,
Reside, ao degredo, um lume jucundo
Observada por meu espírito moribundo,
No azul, reluz uma única estrela abandonada;

Perco um suspiro nesta acre contemplação:
Vejo-a, e penso que ela me vê, também...
Alva luz súbita – leito de meu ferido coração;

Só o que me liga a mim, é o brilho que ela tem...
Em seu exílio vão, encontro eu compreensão
E sigo em solidão; só eu, a estrela, e mais ninguém;
252

Despejo

Os versos que fiz dela ainda estão em mim,
E são muito belos para que não os despeje,
Ainda que, para tal, tenha de fazê-lo
A outros ouvidos que não os dela.
É algo como se pôr num jarro torpe
O bom vinho pertencido a uma
Garrafa nobre, porém,
Irrecuperavelmente
Estilhaçada.
120

Ébrio

Sou um ébrio amante que mudou de foco:
Se era antes o teu corpo, é agora o copo.
Não mais há mel dos lábios, mãos, ou seios...
Há só o torpor de um desamor sem anseios.

Sou quem busca o incerto em devaneios
Diluído em cerveja, afogado em receios
Vendo a imagem reluzente de ti, no topo,
Florida na sujeira – ramo triste de hissopo.

Mas o solo que há em mim é alcoolizado
Pobre e mendigo, incapaz de abrigar flor,
E a visão que tenho de ti é um sonho malogrado,

Emoldurado, na lembrança, como um amor,
Sendo o âmbar defronte a este ébrio desatinado
De tais distorções sentimentais, o catalisador.
163

Coruja

De tanto olhar para trás,
Perdeu de vista o futuro
E só ganhou torcicolos.
177

Retratos

Ver-se crescido é angustiar-se
Ao revisitar velhos retratos
E não mais reconhecer-se.
Ah! Saudosos tempos abstratos...
Criança efêmera a rir-se...
39

Sussurro

Eram versos teus
Moldados
À tua imagem
E semelhança.
Concebidos
Numa inocência
Como que de criança.
Sussurrei-os ao teu ouvido
No mais íntimo
De todos os momentos.
Por intermédio dos versos,
Dei-te, inconsequente,
O coração
Que os forjou.

Possa o sussurro ter
Entrado por um ouvido
E por outro
Saído
Para que hoje os versos
Por ti tenham sido
Esquecidos.
Eram versos teus.
Já não são mais.
Tampouco versos meus,
Embora de mim escapem
(Pois não há porta de saída
No coração).
São tão somente versos.
E nada mais.
87

Intermédio

Não vivo, nem morro.
Existo em intermédio
A vaguear no tédio
Sem saber pra onde corro.

O céu, o sonho...
Não me são tristes ou pesados.
São apenas dessaborados
Pelo ócio enfadonho.

Eu sigo.
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Comentários (4)

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sthefany

seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!

rosalinapoetisa

Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços

rosalinapoetisa

Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.

biancardi

Belos textos.