A Lua Ao Longo do Dia
I
Fazia tempo que eu não via a aurora
Pintar o céu com sua cor de sangue,
Tendo ao centro a Lua, e seu riso exangue,
Como o coração minguante do agora.
Raia o Sol... Mas a Lua não vai embora...
Como se teimasse em permanecer,
Renegando a ideia de adormecer,
E preferindo sorrir fora de hora.
Mas, afinal, da lua, qual o tempo?
Não sei... E de súbito, ponho-me a cismar
Por algum motivo que não sei bem.
Talvez seja por me fazer lembrar
Que já sorri fora de hora, também,
E fiquei só, por agir em contratempo.
II
Pairo distraído em meio à paisagem,
A bruta paisagem de minha rua.
Distraído, olho o céu... E sem miragem,
Em pleno meio-dia, vejo a lua!
E dessa vez, ela é mais que um sorriso:
É uma face pálida e completa
Um vestígio da noite sem aviso,
Um espelho à condição de poeta.
De um lado, a Lua, de outro lado, o Sol.
Mui distantes e desmitificados,
Partilhando do céu por um acaso...
É desde a aurora que formulo um rol
De tantos pensamentos dedicados
Aos espólios de meu próprio caso.
III
Eu vejo a noite escurecer a terra,
E descansa, de repente, a emoção...
Emerge a lua, por detrás da serra,
Absoluta, sem nenhuma comoção.
Não me entristeço e tampouco me alegro,
Há só cansaço no meu coração...
E no silêncio deste manto negro
Reluz a estrela da muda canção.
Mas há algo de belo neste momento
Em que reluz mais forte em meu relento
A Lua que me cede companhia...
Entendo o seu sorriso de mais cedo:
Brilho melancólico e sem segredo
Que se manifesta na poesia.
IV
Afinal, sou eu que anoiteço.
Devagar, se apaga tudo.
Resto, entanto, em sono mudo,
E de nada mais careço.
Tenho da aurora a candura,
Do crepúsculo o fulgor
Da noite o brilho, o frescor...
Num só sonho de brandura.
Sempre presente, está a Lua,
Lua da noite, e do dia...
Dentre as luzes, a mais nua...
Lua triste e fugidia,
Traz a mim a vida crua...
Boa noite, poesia.
Poema Para As Cores
Sei que de nada se pode conhecer a cor essencial,
Pois o que chega aos olhos é sempre um reflexo impreciso.
Por isso, quando me perguntam
Qual é a minha cor preferida,
Gosto não de responder vermelho, verde, roxo, amarelo, ou azul,
Que são todas convenções inexatas,
Mas sim de responder com o que aufiro de belo
Dessa inexatidão: sensações.
Essas sim, muito mais verdadeiras e inteligíveis,
Profundamente entranhadas em sangue e vida,
Às quais o errante olhar não é senão intermédio.
Assim, digo que a minha cor preferida
É a cor que tem o riso frouxo de minha mãe,
Mas que também tenho sentimentos muitos
Pelas cores da memória, das chuvas, das canções,
Das poesias, ou mesmo pelas cores dos descansos,
(Gosto até das cores que têm a melancolia, a tristeza e a saudade),
Que são todas sensações.
Prefiro-as, pois as conheço enquanto essências,
E é com elas que gosto de colorir
As minhas nulas telas quotidianas.
Ruína
Desejou perder a infância
E poder deixar a casa.
Desejou ficar sozinho
E engolir muito veneno.
Desejou ter liberdade
Da presença da família.
Não fez senão desejar
Sedutoras abstrações.
A vida toda esfaimado,
A vida toda a pensar:
“Serei então feliz! Serei
Completo e encontrarei a paz!”
...E assim foi sua tragédia.
– Seus desejos se cumpriram.
A Porta Entreaberta
No escuro intermédio
Entre a certeza
Do que foi,
E a incerteza
Do que seria,
Houve uma porta
Entreaberta.
Os sussurros
De duas intenções
Conflitantes
Faziam-na ranger
Em uma sinfonia
De desassossegos
Lancinantes.
Rangia... Rangia...
Balouçava... Balouçava...
E náusea e pavor volviam
Ante o dever de lidar
Com o ranger e com o balouçar.
...Quando das culminações
Nasceu, em mim,
Uma terceira intenção,
Ríspida por excelência,
E à sua luz decidi definir
O destino de tal porta,
Senti o coração esmigalhar-se...
Mas a luz de um novo dia
Nasceu no horizonte.
Canção Azul
Quando a vi última vez,
Foi em silêncio
Mútuo e absoluto,
À imensa distância de um palmo,
Em uma fila de adeus
Inadvertido.
A gravura infinitamente
Nítida e emudecida
Dos cabelos louros,
Escorridos sobre as costas,
Reacendeu
No meu coração,
A melancolia daquela velha canção...
E permiti-me, quieto,
Saudar, novamente, a bela procissão de ilusões
Excessivamente azuis...
– Azuis como a capa de chuva de ombro rasgado,
A qual dependurei
Em um lar hipotético.
(Pensei, também,
Em um jardim, ao fundo do lar...
Onde todas as flores
Tinham fragrâncias
De cabelos louros
E saudades).
E quando ela foi deixando a fila
Muito devagar
Sem sequer olhar para trás,
E o palmo de distância
Tornou-se dois, três, quatro,
– Uma dízima de palmos –
Aquele lar ruiu
Absolutamente
E foram-se os últimos acordes.
Sorri conformado.
E fui embora.
Alberguei, no entanto,
A rasgada capa de chuva no peito,
Ao lado do que restou do jardim.
...Sempre amarei esta canção
Excessivamente azul.
Xadrez
Vão-se os meus peões,
Cavalos, bispos, torres,
E, eventualmente,
A dama e o rei.
Xeque-mate!
O tabuleiro está perdido.
E entanto,
Sinto-me o grande vencedor,
Por não ter perdido
Um instante sequer
Do doce brilho
Do teu olhar concentrado.
O Parquinho Revisitado
Salta o garotinho do balanço.
Ele vem até mim,
Me apanha pelo braço,
E me leva a passear ao redor
Dos brinquedos do parquinho.
Vejo as velhas gangorras,
Balanços, gira-giras que rangem,
Escorregadores, casinhas...
E ouço as velhas risadas.
O garotinho também me mostra
A sua nova bola de capotão,
Sua camisa amarela, e suas chuteiras...
Depois ri do próprio sonho futebolístico.
O garotinho
Revive
Diante os meus olhos.
E eu, ao fitar, de súbito, seus cabelos louros,
Seu sorriso banguela,
E suas roupas encardidas,
Entristeço-me
Ao atestar que
Um dia
Já fui feliz.
Galeria
Registros amarelecidos e amontoados,
Emoldurados em saudades e cismas.
Longínquas e sorridentes silhuetas,
Enlaçadas, e incônscias do porvir,
Hoje, esvaídas pelos vãos das ampulhetas,
Cujos grãos esparramados de seus fados cá estão,
Em registros mutilados e completamente inúteis,
Emoldurados em cismas e saudades.
Sinto falta de quando éramos mais
Que meras fotografias.
O Sutil Convite da Angústia
Quando caiu a noite,
Os girassóis repousaram cabisbaixos sobre os campos,
A cadela se calou, enrodilhada em seu cubículo sujo,
Pai, mãe, e irmãos adormeceram pacificamente,
As paixões hipotéticas fecharam-se como ostras,
Os raios de sol desmaiaram por detrás do horizonte,
E toda a vida acalmou-se em seu escuro e em seu silêncio.
E, como a noite fosse uma lâmina de incompreensível ternura,
A rasgar feridas profundas em seu coração e consciência,
Ele diluiu-se à noite, desesperado.
Desejou encher os olhos do vívido amarelo dos girassóis,
Desejou, em uma piedade repentina, acariciar a cadela,
Desejou, inefavelmente, os amores de seu pai, mãe e irmãos,
Desejou aventurar-se e desventurar-se em ébrias paixões,
Desejou, melancolicamente, estirar-se ao Sol, na relva,
E, apaixonadamente, adormeceu com a vida a fazer peso na garganta.
E entanto, quando ascendeu o dia,
E a vida reergueu-se junto ao cântico dos pássaros,
E o Sol reabriu seu amplo leque de possibilidades,
Ele não avistou nenhum girassol.
Não acariciou a cadela.
Não amou seu pai, mãe, ou irmãos.
Não se rasgou de paixões.
Tampouco esteve ao Sol.
Sobretudo,
Ele não viveu.
E todos os seres e coisas, mesmo as mais inanimadas e poucas,
Seguiram a dançar, absolutamente irreverentes,
Conforme as guiava o tempo.
O Lirismo do Perdido
Se lhe pudesse ter devorado,
No perdido instante,
O mais puro lirismo de teus
Olhos vertentes e amorosos,
Hoje meu coração
Não padeceria de fome...