Lista de Poemas

Hidra

A solidão é um bicho
De uma única cabeça
Que inventa outras seis
Para culpar.
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As Mortes Que a Vida Tem

Em vida, mais se morre que se vive.
Um rol de morte pautado em vivência
Que cresce no decurso da existência
À luz de um finado ser que revive.

Morre-se a criança, ainda que a cultive.
Bem como morre a breve adolescência.
Morre-se o jovem à intransigência
Do tempo que corre e morre em declive.

Deixa no passado a vela apagada,
Criança adulta de pulso inconstante...
– Em cada morte, uma nova jornada.

Não é a última a mais importante,
Qual tudo finda e reduz a pó, nada...
Bem mais vale a morte de cada instante.
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Poço

Tentar extrair deste poço de angústia que sou
Uma mísera redondilha de amor, que seja,
É tal qual personificar a figura do tolo
Que busca fisgar espadartes no rio.

...É possível.

Desde que seja história de pescador.
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Óbice

O beijo é um tropeço
Na trilha da amizade.
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Manias Birutas

O amor é um rei louco
Que dita regras ao coração,
Desejando sempre de tudo um pouco,
Sem saber acatar um “não”;

Nessa loucura do tal amor,
É o coração quem sofre o estorvo...
Mal se cura da última dor,
E já é obrigado a amar de novo;

Amando assim, tão loucamente,
Fere-se na busca por candor...
Mas, afinal, quem é que entende
As manias birutas do amor?
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Retrospecto Porvir

Se ontem me vi na esquina,
Como criança jocosa que fui,
Hoje me vejo no ontem mais próximo
– Jovem a matar a juventude.

Assim há também de ser o amanhã,
Quando vier a me ver no banco de hoje:
Humano incerto a pintar páginas
De versos brancos e angustiados.

E o que então sentirei, por pensar,
De alívio ou de eventual saudade,
É uma verdade que não me compete
– Pertence tão somente ao futuro.

Serei, contudo, um sempre vital projeto
A atravessar poentes, matinas,
Calçadas, praças, e avenidas;
Caminhos distintos que convergem.
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Combustível

Não há poesia que surja do acaso.
Por trás de cada verso há um caso.
Nas estrofes há sangue. Nas letras, há dor.
Há as culminações dos instantes
Há desventuras de amor.
Há a felicidade, e há o desejo de ser feliz!
Há o choro, o sorriso – há aquilo que não se diz.
Há a culpa. Há a coragem.
Há a imaginação. Há a miragem.
Há guerras, há paz,
Há um misto de insumo
De humano, de tolo, e de sagaz.
Há, ainda que se possa desaperceber,
Fragmentos do que somos
– E do que pensamos (e desejamos) ser.
Há sempre algo mais
Que reside por trás
Da arte que se faz.
Mesmo o verso espontâneo
Não é um surgimento sem explicação:
É o estouro da barragem
Do denso rio do coração
Que faz com que todos os seus percursos
Convirjam em uma direção.

...É a vida o combustível
Que torna a poesia possível.
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Lembranças Feitas de Chuva

Tenho lembranças feitas de chuva:
Aguaçais, relâmpagos e trovões!
Desaguam suas tempestades imprevistas
Em pancadas fortes de emoções.

Como se exaure a chuva, senão com chuva?
...E muito chovo, assim, a relembrar...
De pingo em pingo, de gota em gota
Poder-se-ia encher todo um mar.

O mar que encho se chama página,
Em versos nublados de chuva caída.
Tenho lembranças feitas de chuva...
E nuvens feitas de águas da vida.
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Soneto do Ósculo

E quantos beijos ficaram perdidos
Nas vãs molduras da imaginação?
Condenados a serem esquecidos
Pelos lábios findados de paixão.

E ardem, ainda que jamais concebidos,
E, desse ardor, se aquece o coração.
Impossibilidade dos sentidos
Tornar em ósculo tanta ilusão!

Beijos não dados são mais saborosos.
A paixão inventada é mais bonita.
E quadros alheios são mais vistosos.

E de toda história de amor, contrita,
Com elementos bem mais que ditosos
A mais bela é a jamais escrita.
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Aliança

Formas partidas de cores queridas                                          
Na carne de dois dançantes errantes
Que sucumbem aos grilhões dos instantes
Até que os instantes calem suas vidas

E embora calem as vidas, jazidas,
À sepultura do amor dos amantes,
Inda giram na memória, cantantes,
No carrossel das emoções perdidas...

Tão sutil lembrança, sem esperança...
Tal qual treco quebrado, sem conserto.
Esquecida, numa caixa, a aliança...

Moldada com esmero, por decerto,
Dada, inda, à insignificância
De remeter corações ao deserto.
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Comentários (4)

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sthefany

seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!

rosalinapoetisa

Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços

rosalinapoetisa

Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.

biancardi

Belos textos.