Manias Birutas
O amor é um rei louco
Que dita regras ao coração,
Desejando sempre de tudo um pouco,
Sem saber acatar um “não”;
Nessa loucura do tal amor,
É o coração quem sofre o estorvo...
Mal se cura da última dor,
E já é obrigado a amar de novo;
Amando assim, tão loucamente,
Fere-se na busca por candor...
Mas, afinal, quem é que entende
As manias birutas do amor?
Intermédio
Não vivo, nem morro.
Existo em intermédio
A vaguear no tédio
Sem saber pra onde corro.
O céu, o sonho...
Não me são tristes ou pesados.
São apenas dessaborados
Pelo ócio enfadonho.
Eu sigo.
Bala
Desfrutei do amor como se bala fosse:
Não o mastiguei, pois assim o teria ferido...
Não o apressei, pois assim o teria perdido...
Mas o deixei derreter, lento e doce...
Permiti que se dissipasse naturalmente:
Para que quando se cansasse das papilas
E se dessaborasse das rotinas
Desaparecesse sem deixar pedaços nos dentes...
Por ter desfrutado do amor, não me julgo mesquinho,
Afinal, ao menos amei... E foi-se,
Saboroso e breve como uma bala doce,
Da qual guardarei o embrulho com carinho...
Crepúsculo da Estrela
Meu corpo é uma casca que jaz alheada,
Neste crepúsculo de céu profundo,
Esquecida da vida, esquecida do mundo,
Vislumbrando uma rua repleta de nada;
Acima desta rua nula, triste e desatinada,
Reside, ao degredo, um lume jucundo
Observada por meu espírito moribundo,
No azul, reluz uma única estrela abandonada;
Perco um suspiro nesta acre contemplação:
Vejo-a, e penso que ela me vê, também...
Alva luz súbita – leito de meu ferido coração;
Só o que me liga a mim, é o brilho que ela tem...
Em seu exílio vão, encontro eu compreensão
E sigo em solidão; só eu, a estrela, e mais ninguém;
Poço
Tentar extrair deste poço de angústia que sou
Uma mísera redondilha de amor, que seja,
É tal qual personificar a figura do tolo
Que busca fisgar espadartes no rio.
...É possível.
Desde que seja história de pescador.
Lembranças Feitas de Chuva
Tenho lembranças feitas de chuva:
Aguaçais, relâmpagos e trovões!
Desaguam suas tempestades imprevistas
Em pancadas fortes de emoções.
Como se exaure a chuva, senão com chuva?
...E muito chovo, assim, a relembrar...
De pingo em pingo, de gota em gota
Poder-se-ia encher todo um mar.
O mar que encho se chama página,
Em versos nublados de chuva caída.
Tenho lembranças feitas de chuva...
E nuvens feitas de águas da vida.
Retratos
Ver-se crescido é angustiar-se
Ao revisitar velhos retratos
E não mais reconhecer-se.
Ah! Saudosos tempos abstratos...
Criança efêmera a rir-se...
Óbice
O beijo é um tropeço
Na trilha da amizade.
Despejo
Os versos que fiz dela ainda estão em mim,
E são muito belos para que não os despeje,
Ainda que, para tal, tenha de fazê-lo
A outros ouvidos que não os dela.
É algo como se pôr num jarro torpe
O bom vinho pertencido a uma
Garrafa nobre, porém,
Irrecuperavelmente
Estilhaçada.
Aliança
Formas partidas de cores queridas
Na carne de dois dançantes errantes
Que sucumbem aos grilhões dos instantes
Até que os instantes calem suas vidas
E embora calem as vidas, jazidas,
À sepultura do amor dos amantes,
Inda giram na memória, cantantes,
No carrossel das emoções perdidas...
Tão sutil lembrança, sem esperança...
Tal qual treco quebrado, sem conserto.
Esquecida, numa caixa, a aliança...
Moldada com esmero, por decerto,
Dada, inda, à insignificância
De remeter corações ao deserto.