Aforismos

Karl Kraus

Karl Kraus

Karl Kraus foi um escritor, jornalista e poeta austríaco, amplamente considerado uma das figuras literárias mais importantes do século XX em língua alemã. Fundou e editou a revista Der Fackel (O Tocha), que publicou por mais de trinta anos, onde escreveu a maioria dos seus escritos satíricos e críticos. Era conhecido pela sua feroz oposição ao nazismo, ao militarismo e à decadência da imprensa, utilizando a sátira e a ironia como suas principais armas.

1874-04-28 Jičín
1936-06-12 Viena
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É uma injustiça sempre criticar Viena pelos seus defeitos, visto que suas qualid…

É uma injustiça sempre criticar Viena pelos seus defeitos, visto que suas qualidades também merecem censura. No entanto, o livro de B. chega a criticar Viena por defeitos que são apenas qualidades que lhe faltam. Como esse autor eleva o nível cultural dos vienenses para atacá-lo! É lastimável essa falsa óptica de uma crítica que primeiro precisa inventar as qualidades de um povo para depois levá-las a mal. O autor descobriu no povo austríaco uma concepção ilusória da vida, e culpa uma dinastia, que sem dúvida é a mais fiel guardiã das realidades, pelo fato de o vienense viver num mundo irreal. A história “quis experimentar se o espírito podia governar sozinho”, e instituiu os Habsburgos. Eles criaram o mundo a partir de seu espírito. E semelhante panegírico ao mais sublime senso artístico foi considerado desleal! Eu, no entanto, não tolero a concepção errônea de uma essência popular que se esgota exclusivamente em pequenas autenticidades. Pois o mundo vienense não foi criado a partir do espírito, e sim a partir da carne de gado. Diante dessa solidez que se mede em quilos, toda imaginação capaz de criar um mundo qualquer é arruinada. O espírito criativo da irrealidade, descoberto pelo autor, interveio na história austríaca visivelmente apenas uma vez. Foi durante a construção da Linha Ferroviária Sul, entre Viena e Baden, quando se constatou que não havia montanha à disposição para construir o túnel que uma Alteza desejava — e o túnel foi construído.
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Observei que as borboletas estão em extinção. Ou será que elas são vistas apenas…

Observei que as borboletas estão em extinção. Ou será que elas são vistas apenas pelas crianças? Quando eu tinha dez anos, convivia nos prados de Weidlingau exclusivamente com almirantes-vermelhos. Posso dizer que foi o convívio mais soberbo de minha vida. Antíopas, pavões-reais-diurnos e borboletas-limão também coloriam a vida da infância. Vanessa io, Vanessa cardui — vanitas vanitatum! Quando voltei depois de alguns anos, todas tinham desaparecido. O sol do meio-dia vibrava como antes, mas não se via nenhum fulgor colorido; em compensação, havia pedaços de jornal pelo prado. Mais tarde, fiquei sabendo que a madeira dos bosques fora utilizada para produzir papel de impressão e que o excesso de informação não havia deixado muitas linhas para as borboletas. Um amigo de nosso jornal nos mandou a última borboleta e um de nossos colaboradores teve a oportunidade de espetá-la na pena e lhe perguntar pelas causas de sua solidão. O mundo foge das cores da personalidade, as pessoas se protegem ao se organizarem. Apenas as borboletas deixaram de se organizar. É por isso que agora vemos redatores e folhetinistas iridescentes bebericando nos cálices das flores. Mesmo as monótonas borboletas-da-couve, com as quais o jornalismo, graças a um certo parentesco, ainda poderia ter entrado num acordo, tiveram de fugir. A luta de extermínio contra as criaturas aladas significa o triunfo da cultura do jornal. As borboletas e as mulheres, a beleza e o espírito, a natureza e a arte passaram a sentir o fato de uma edição dominical ter cento e cinquenta páginas. A humanidade persegue as borboletas com mata-moscas. Ela esfrega a poeira colorida dos dedos. Eles precisam estar limpos para tocar na tinta de impressão.
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Não acredito que uma avalanche de atos infames alguma vez tenha causado no mundo…

Não acredito que uma avalanche de atos infames alguma vez tenha causado no mundo tanta indignação moral quanto a insubornabilidade de meu pensamento causou na cidade em que moro. Vi pessoas às quais nunca fiz mal algum explodirem ao me ver e se desintegrarem nos átomos da banalidade universal. Numa estação ferroviária, a mulher de um redator embarcou num compartimento particular de primeira classe, me viu e morreu com uma maldição nos lábios. E isso porque não faço uso de passagens gratuitas nos trens, o que provavelmente é o menor de meus defeitos. Pessoas cujo sangue é mais lerdo cospem quando me enxergam e seguem seu caminho. Todas são mártires; defendem a causa comum, sabem que meu ataque não se dirige a suas pessoas, mas à coletividade de que fazem parte. É o primeiro caso em que essa sociedade aleijada, que leva as lascas de seus ossos envoltas em ataduras, cobra ânimo para fazer um gesto. Há séculos não se cospe mais quando passa um escritor. A humanidade acorre a Messina, e a estupidez se sente solidária diante de Die Fackel . Não há antagonismos de classe, a questão nacional se cala e a Associação de Defesa do Antissemitismo pode descansar as mãos no colo ao falar. Estou sentado no restaurante: à direita, uma mesa de gente mal vestida que mete os dedos no nariz, ou seja, evidentemente deputados alemães; à esquerda, selvagens com barbas pretas que dão a impressão de que a crença na morte ritual, no fim das contas, tem algum traço de legitimidade, mas que certamente são apenas adeptos da política social que passam a faca pela boca à maneira dos carniceiros judaicos. Dois mundos, entre os quais aparentemente não há nenhuma conciliação. Wotan e Jeová dirigem olhares hostis um ao outro — mas os raios do ódio se unem sobre minha humilde pessoa. O fato de ainda não ter ocorrido a um governo austríaco a ideia de me reclamar para seu programa somente pode ser explicado pela desorientação fundamental dos governos deste país.
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O que faz de mim a maldição da sociedade a cuja margem vivo é o modo súbito como…

O que faz de mim a maldição da sociedade a cuja margem vivo é o modo súbito como renomes, caracteres e cérebros se revelam diante de mim sem que eu precise desmascará-los. Alguém carrega a sua importância por anos a fio até que eu o alivie desse peso num momento imprevisto. Deixo-me enganar pelo tempo que quiser. Não é assunto meu “penetrar as intenções” das pessoas, e de modo algum me preparo para isso. Mas certo dia meu vizinho coloca a mão na testa, sabe quem é e me odeia. A fraqueza foge de mim e diz que sou inconstante. Tolero o comodismo porque não pode me fazer mal; certo dia, quando se tratar de um sim ou de um não, ele morrerá espontaneamente. Basta que alguma vez eu esteja certo em fazer algo que tenha cheiro de caráter ou de algum modo me torne suspeito: a mentalidade se revela automaticamente. Se for verdadeiro que maus exemplos arruínam bons costumes, isso é válido em medida ainda maior para os bons exemplos. Qualquer um que tenha a força de ser um exemplo deforma seu ambiente, e os bons costumes, que são o conteúdo da vida da má sociedade, sempre correm o risco de serem corrompidos. A insipidez tolera meu comportamento enquanto ele se mantém em limites acadêmicos; se o demonstro numa ação, porém, ela se assusta e foge. Aguento o tédio por muito mais tempo do que ele a mim. Dizem que sou intolerante. O contrário é verdadeiro. Posso me relacionar com as pessoas mais tediosas sem notá-lo. Estou tão ocupado comigo mesmo a cada momento que nenhuma conversa pode me fazer mal. Para a maioria, a vida social é um banho de imersão em que se submerge a cabeça; a mim, ela mal umedece os pés. Nenhuma anedota, nenhuma recordação de viagem, nenhuma dádiva do cofrezinho do conhecimento, numa palavra, aquilo que as pessoas consideram ser o suprassumo da conversação, é capaz de deter minha atividade interior. Em todas as épocas, a força criadora causou maior mal-estar à impotência do que esta a ela. A partir disso se explica porque minha companhia se torna insuportável a tanta gente e que perseverem ao meu lado apenas em razão de uma cortesia despropositada. Seria coisa fácil para mim ir ao encontro daqueles que sempre precisam ser estimulados durante uma conversa. Por mais inculto que eu seja e por mais que eu entenda menos de astronomia, contraponto e budismo do que um recém-nascido, eu por certo seria capaz, mediante a habilidosa intercalação de perguntas, de simular um interesse e de demonstrar um conhecimento superficial que daria mais alegrias a um sabe-tudo do que um conhecimento especializado que poderia envergonhá-lo. Mas eu, que em toda minha vida ainda não dei um passo ao encontro de necessidades que não reconheci como estimuladoras do espírito, mostro ser um completo malcriado nessas situações. E não, talvez, um malcriado que boceja — isso seria humano —, não, mas um malcriado que pensa! Ao mesmo tempo, desdenho comunicar meus próprios dons ao indigente que padece suplícios de Tântalo diante de seus conhecimentos adquiridos pela leitura e que precisa passar fome nos celeiros egípcios do conhecimento. Com um coração endurecido ao ponto da petrificação, chego a fazer chistes piores do que aqueles que me ocorrem, e não revelo nada daquilo que escrevo no meu bloco de notas entre dois goles de café. No dia em que, num momento de descuido, não me ocorrer nenhuma ideia e existir o risco de que a vida social penetre no meu cérebro, dou-me um tiro.
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Agora os artistas escrevem contra a arte e defendem o contato com a vida. Goethe…

Agora os artistas escrevem contra a arte e defendem o contato com a vida. Goethe, desprovido de humanidade, “olha da altura fantasmagórica em que os gênios alemães talvez se entendam, impassível, para a sua pátria impassível. Com seu nome, folgazões indolentes defendem suas existências vazias”. Mas não há cultura sem humanidade... Quem assim se exalta é alguém respeitado pela sua prosa. Ele quer uma Marselhesa para que ela não seja mais ouvida. Goethe guia a mão de Börne, e ele a levanta contra Goethe. Eu, porém, acredito que na obra de arte fica guardado aquilo que o imediatismo das energias intelectuais desperdiça. Humanidade não é o primeiro, mas o último efeito da arte. A humanidade de Goethe é um efeito a longa distância. Há estrelas que não são vistas enquanto existem. Sua luz tem um longo caminho, e iluminam a Terra quando há muito já se apagaram. Elas são familiares aos flanadores noturnos: o que Goethe pode fazer pelos estetas? Para eles é um preconceito o fato de não poderem chegar a suas casas sem a sua luz. Pois eles não estão em casa em parte alguma, e a arte tem tão pouco a ver com eles quanto a luta com os fanfarrões. Também o esteta é covarde demais para a vida; mas o artista sai vencedor ao fugir da vida. O esteta é um fanfarrão das derrotas; o artista permanece na luta sem tomar parte nela. Ele não é alguém que acompanha. Não é questão sua acompanhar o presente, visto que é questão do futuro acompanhá-lo.
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O desenvolvimento das máquinas beneficia apenas a personalidade que, passando pe…

O desenvolvimento das máquinas beneficia apenas a personalidade que, passando pelos obstáculos da vida exterior, chega mais rapidamente a si mesma. No entanto, as cabeças medianas não estão à altura da hipertrofia desse desenvolvimento. Hoje ainda não podemos fazer a menor ideia da devastação promovida pela máquina de impressão. O dirigível foi inventado, e a imaginação se arrasta como uma diligência. O automóvel, o telefone e as gigantescas edições da estupidez — quem poderá dizer como serão os cérebros daqui a duas gerações? O afastamento em relação à fonte natural promovido pela máquina, a suplantação da vida pela leitura e a absorção de todas as possibilidades artísticas pelo espírito factual terão completado sua obra com rapidez surpreendente. Apenas nesse sentido se deveria compreender o despontar de uma era glacial. Nesse meio-tempo, não nos intrometamos na política social, mas deixemos que se ocupe de suas pequenas tarefas; deixemos que lide com a educação popular e com outros sucedâneos e opiáceos. Passatempos até a dissolução. As coisas estão se desenvolvendo de uma maneira para a qual não há exemplo nos períodos historicamente verificáveis. Quem não sente isso em cada nervo pode prosseguir sem receio a cômoda divisão em Antiguidade, Idade Média e Idade Moderna. De súbito se perceberá que as coisas não avançam. Pois a época moderna começou com a produção de novas máquinas para o funcionamento de uma ética antiga. Nos últimos trinta anos aconteceram mais coisas do que nos trezentos anos anteriores. E um dia, a humanidade terá se sacrificado pelas grandes obras que criou para seu alívio.
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Uma das mais surpreendentes descobertas que o novo século nos trouxe é sem dúvid…

Uma das mais surpreendentes descobertas que o novo século nos trouxe é sem dúvida o fato de que em Die Fackel falo muitas vezes de mim mesmo, e ela é esfregada em meu nariz com um dos conhecimentos mais profundos que a sabedoria das almas contemplativas alguma vez alcançou, a saber, que o homem deve ser modesto. Alguns afirmam inclusive ter descoberto que publiquei o ensaio de S. sobre os dez anos de Die Fackel “em meu próprio jornal”. Tendo sido chamada minha atenção, preciso confessar que é verdade. Não há dúvida de que jamais um escritor tornou a descoberta da vaidade mais fácil ao seu leitor. Pois se ele não percebeu por conta própria que sou vaidoso, ficou sabendo disso pelas minhas repetidas confissões de vaidade e pelas glorificações que fiz desse vício. O ridículo estar-por-dentro que descobre um calcanhar de aquiles é, portanto, frustrado por uma intencionalidade que ele desnudou voluntariamente antes. Mas eu capitulo. Se a mais estéril objeção contra mim é levantada mesmo durante o décimo ano de minha incorrigibilidade, então réplicas não adiantam. Não posso infundir em corações de pergaminho a sensibilidade para a situação de legítima defesa em que vivo, para o privilégio de uma nova forma jornalística e para a coincidência desse aparente interesse próprio com os fins universais de minha atuação. Eles não são capazes de compreender que se alguém se confunde com uma causa sempre falará dela, sobretudo quando falar de si. Eles não são capazes de compreender que aquilo que chamam de vaidade é aquela modéstia que nunca se tranquiliza, que se mede segundo sua própria medida e a possui em si, aquela vontade humilde de ascensão que se submete ao julgamento mais implacável, que é sempre o seu próprio. Vaidoso é o contentamento que jamais retorna à obra. Vaidosa é a mulher que nunca se olha no espelho. Ver-se no espelho é imprescindível à beleza e ao espírito. O mundo, porém, possui uma só norma psicológica para os dois sexos e confunde a vaidade de uma cabeça que se excita e se satisfaz na criação artística com o cuidado presunçoso que trabalha num penteado. Mas esse penteado não é mudo no convívio social? Ele é incapaz de enervar o próximo da maneira como faz a modéstia dos espíritos reprodutores.
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Não se deveria abolir a vara, e sim o professor que a emprega mal. A reforma gin…

Não se deveria abolir a vara, e sim o professor que a emprega mal. A reforma ginasial, como todo remendo humanitário, é uma vitória sobre a imaginação. Os mesmos professores que até então não eram capazes de chegar a um juízo com a ajuda do catálogo, agora terão de mergulhar carinhosamente na individualidade do estudante. O humanitarismo eliminou o pesadelo do medo de ser “chamado à frente”, mas a vida estudantil sem perigos será mais insuportável do que a perigosa. Entre “excelente” e “absolutamente insatisfatório” havia um espaço para experiências românticas. Eu não gostaria de secar de minha memória o suor pelos troféus da infância. Juntamente com o aguilhão, também desaparece o estímulo. O ginasiano vive sem ambição como um filósofo sorridente e entra despreparado no arrivismo da vida que no passado seu caráter antecipava inofensivamente como o corpo vacinado antecipava a varíola. Ele experimentava todos os perigos da vida, chegando à beira do suicídio. Em vez de banir os professores que fazem a brincadeira dos perigos se transformar em coisa séria, prescreve-se a seriedade da vida sossegada. Antes os alunos vivenciavam a escola, agora devem se deixar formar por ela. A beleza é banida juntamente com os calafrios, e o espírito jovem se encontra diante da parede caiada de um céu protestante. Os suicídios de estudantes motivados pela estupidez de pais e professores irão cessar, e como motivo legítimo restará o tédio.
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Teatro de variedades . O humor da comédia-pastelão é hoje em dia o único humor c…

Teatro de variedades . O humor da comédia-pastelão é hoje em dia o único humor com visão de mundo. Por ter um fundamento mais profundo, ele parece não ter fundamento, tal como a ação que oferece. Sem fundamento é o riso que ele provoca em nossa região. Quando uma pessoa acaba subitamente de quatro, trata-se de um efeito de contraste primitivo do qual corações simples não conseguem se esquivar. Uma compreensão mais refinada já pressupõe a representação de um mestre de cerimônias que se esborracha no parquê. Seria a demonstração do absurdo da dignidade, da pompa, da vida decorativa. A cultura da Europa Central oferece todos os pressupostos para a compreensão desse humor. O humor dos clowns não tem raízes aqui. Quando um deles salta sobre a barriga do outro, o que pode cativar é apenas a comicidade da mudança de posição, do acidente nunca visto. Mas o humor norte-americano é a demonstração do absurdo de uma vida em que o homem se tornou uma máquina. O trânsito flui sem obstáculos; por isso, é plausível que alguém entre voando pela janela e seja lançado pela porta, que leva com ele. A vida foi imensamente simplificada. Visto que o conforto é o princípio supremo, é algo óbvio que se pode obter cerveja fazendo um furo numa pessoa e segurando uma caneca debaixo da abertura. As pessoas dão golpes de picareta no crânio das outras e perguntam atenciosas: “O senhor notou isso?”. É uma interminável carnificina de máquinas, na qual não corre nenhum sangue. A vida tem um humor que caminha sobre cadáveres, sem machucar. Por que essa violência? Ela é apenas uma prova de força imposta à comodidade. Aperta-se um botão e um criado morre. O que for incômodo é tirado do caminho. Vigas se dobram à vontade, tudo anda com desembaraço, ninguém está à toa. Mas, de repente, um pedaço de papel não quer parar no lugar. Ele não fica onde foi jogado por uma questão de comodidade, mas sempre volta a subir. Isso é incômodo, e a pessoa se vê obrigada a convencê-lo com o martelo. Ele ainda estremece. A pessoa quer abatê-lo a tiros. Ele é explodido com dinamite. Uma aparelhagem nunca vista é empregada para aquietá-lo. A vida se tornou terrivelmente complicada. No fim, tudo vira uma grande confusão porque um objeto qualquer da natureza não quis se encaixar no sistema... Talvez um farrapo de sentimentalismo que um defraudador trouxe lá da Europa.
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Será a literatura nada mais do que a habilidade de apresentar ao público uma opi…

Será a literatura nada mais do que a habilidade de apresentar ao público uma opinião com palavras? Então a pintura seria a arte de expressar uma opinião em cores. No entanto, os jornalistas da pintura são os pintores de paredes. E eu acredito que um escritor é aquele que diz ao público uma obra de arte. A maior honra que já recebi me foi prestada quando um leitor me confessou embaraçado que só conseguia entender meus textos na segunda leitura. Ele hesitou em me dizer isso, teve dificuldades para falar minha língua. Esse era um entendido e não sabia. O elogio ao meu estilo me deixa indiferente, mas as críticas que lhe fazem logo me deixarão orgulhoso. Por muito tempo realmente tive receio de que as pessoas tivessem prazer com meus textos já na primeira leitura. Como? Uma frase deveria servir para o público enxaguar a boca com ela? Os folhetinistas que escrevem em alemão possuem uma considerável vantagem em relação aos escritores que escrevem a partir do alemão. Eles ganham à primeira vista e desiludem à segunda: é como se de repente estivéssemos nos bastidores e víssemos que tudo é de papelão. No caso dos outros, porém, é como se um véu cobrisse a cena. Quem já deveria aplaudir? Aqueles vaiam antes que a cena se torne visível. Assim se comporta a maioria; eles não têm tempo. E eles não têm tempo apenas para as obras da linguagem. No caso das pinturas, admitem que não devam representar apenas um processo apreendido pelo primeiro olhar: obrigam-se a dar um segundo olhar para chegar a perceber alguma coisa da arte das cores. Mas uma arte da construção de frases? Se lhes dissermos que isso existe, eles pensam na obediência às leis da gramática.
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Ficar triste da vida por haver encontrado em seu trabalho um erro que ninguém vê…

Ficar triste da vida por haver encontrado em seu trabalho um erro que ninguém vê; apenas se tranquilizar depois de encontrar um segundo, pois então a mancha na honra é coberta pelo conhecimento da imperfeição dos esforços humanos: parece-me que é esse talento para a tortura o que distingue a arte do artesanato. Cabeças rasas poderiam tomar esse traço por pedantismo, mas elas não suspeitam de que liberdade nasceu essa coerção e a que facilidade de produção conduzem semelhantes dificuldades infligidas a si próprio. Nada seria mais tolo do que falar de niquice formal onde a forma não é a roupagem do pensamento, mas sua carne. Essa caçada às últimas possibilidades de expressão conduz até as entranhas da linguagem. É aí que se cria esse entrelaçamento no qual os limites entre o que e como não são mais distinguíveis, e no qual, frequentemente, a expressão antecede o pensamento até o instante em que ele dá sua centelha sob a lima. Os diletantes trabalham seguros e vivem satisfeitos. Por causa de uma palavra recusada pela balança de precisão de minha sensibilidade estilística, muitas vezes já detive a máquina de impressão e mandei destruir o que tinha sido impresso. A máquina violenta o espírito em vez de servi-lo: assim ele pretende lhe mostrar quem manda. Quando é que acabo, visto que a publicação por fim não pode mais ser impedida e não traz a ansiada cesura da criação? Ah, eu só termino um trabalho quando começo outro; esse é o tempo que dura minha “correção de autor”. Esse também é o tempo que dura a louvável loucura de acreditar que o leitor notará a ausência de um pensamento que nasceu depois da hora. E comparada a uma escrita que se arrepende de maneira tão sanguinolenta de suas imperfeições, esse leitor considera que sua faculdade de ler, deturpada pelo jornalismo, é perfeita. Por alguns vinténs, ele comprou um direito à superficialidade: será que ficaria satisfeito se tivesse de se lançar ao trabalho? Talvez as coisas estivessem melhores se os escritores alemães aplicassem a seus manuscritos a décima parte do cuidado que dedico a meus textos depois de impressos. Um amigo que me socorre com frequência fazendo as vezes de parteira, ficou admirado com a facilidade de meus partos e a dificuldade de meu puerpério. Para os outros as coisas vão bem. Eles trabalham à escrivaninha e se divertem na sociedade. Eu me divirto à escrivaninha e trabalho na sociedade. Por isso evito a sociedade. No máximo, eu poderia perguntar às pessoas se essa ou aquela palavra lhes agrada mais. E isso elas não sabem.
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Uma velha crença de idiotas concede ao “satirista” o direito de fustigar as fraq…

Uma velha crença de idiotas concede ao “satirista” o direito de fustigar as fraquezas do forte. Só que a fraqueza mais fraca do forte ainda é mais forte do que a força mais forte do fraco, e por isso o satirista que se encontra no topo dessa concepção é um sujeito sórdido, e o fato de ser tolerado, um verdadeiro estigma da sociedade. Foi da necessidade infame da sociedade de tratar as personalidades como seus iguais e, por meio da sua degradação ao próprio nível, se tranquilizar acerca de sua baixeza, que surgiram os jornais humorísticos. Todas as carecas brilham porque Bismarck não tinha mais do que três fios de cabelo. Essa maldade enfadonha, a partir da qual o jornal humorístico acode à necessidade de vingança da sociedade, é por ela chamada de “inofensiva”. Porém ela abomina o homem positivo que destroça um mundo sem deuses. Não suspeita que o satirista seja alguém que apenas fustiga as fraquezas dos fracos e não vê as dos fortes porque elas não existem, e se existissem, as cobriria respeitosamente. Para as pessoas, a sátira é algo que alguém pode exercer como um segundo emprego, por exemplo, quando é oficial publicamente e possui humor em segredo. Mais autêntico, por certo, é praticar a sátira publicamente e ser um guerreiro em segredo. Pois, na verdade, a sátira só é compatível com uma função, a do homem, e ela até parece realmente exigi-la. O fato de o satirista ser um homem já é provado tão-só pela impertinência satírica da qual ele próprio precisa se defender. Pois o satirista não tolera brincadeiras. Mas se ele matar o inseto que tem em mira suas “fraquezas”, todos se espantam e perguntam por que afinal, e dizem que alguém que é ele próprio satirista também deveria tolerar que um outro — e assim por diante in infinitum da banalidade humana.
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O chiste abraça a realidade e a loucura salta sobre o mundo. Como ainda podemos …

O chiste abraça a realidade e a loucura salta sobre o mundo. Como ainda podemos inventar se atrás de cada carantonha surge um rosto que lhe é igual inclusive na fala? Como podemos exagerar se os fatos se transformam em caricatura do exagero? A e B estão em conflito. Diz-se que A praticou um ato ilegal. Porém, visto que por alguma razão não se pode dizer isso em voz alta, o que se diz em voz alta é o seguinte: “O senhor já sabe do ato ilegal que B cometeu mais uma vez?”. Quando se diz isso, não se pensa no fato de B realmente poder tê-lo cometido. Também não se acredita que A, consciente de seu próprio delito, alguma vez pudesse censurá-lo a B, caso este também o tivesse cometido. Não se acredita nisso, pelo menos nesse caso especialmente crítico. Apenas a experiência geral de que algo semelhante por certo já aconteceu, de que se imputou a B aquilo que somente A cometeu, justifica a jocosa confusão: “Imagine só o senhor do que B não é capaz!”. No dia seguinte, publica-se um protesto de A contra o procedimento de B. Este teria cometido exatamente aquele ato ilegal, o pior numa série de crimes semelhantes. Desse modo, o próprio A assume o método parodístico com o qual se atribui a B os pecados de A porque não se tem outra saída. Resta assim apenas a explicação de que ele sentiu remorsos e, na esperança de ser corretamente compreendido, confessou sua falta sob a forma de uma imputação a B. Caso B realmente tivesse cometido essa falta, A pelo menos deveria perceber a justa compensação e silenciar. O que constitui a comicidade do caso não é a indignação contra aquilo que também se fez, ou que se fez apenas sozinho, mas a exatidão com que A aproveita a distorção intencional empregada pela pessoa cautelosa que precisa dizer B quando se refere à A. Por conseguinte, não se evita apenas dizer a verdade; também se é cauteloso com a mentira, pois ela também é vã e serve no máximo para motivo de farsa.
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