Poemas neste tema
Relações e Família
Matilde Campilho
Dia de São Tomé
Poderia escrever o teu nome
70 vezes seguidas
Mas isso não espantaria
a saudade que sinto
de dizer o teu nome
entre sal e dentes
Isso em nada iria melhorar
a falta que faz o teu corpo
dentro da sombra invisível
que diariamente se senta
a meu lado no restaurante
às 11 da manhã
Ou no lugar direito do automóvel
quando dirijo até a repartição
política das finanças do estado
O tal Estado escavacado
e tão sobrevalorizado
Escrever o teu nome
repetidamente
primeiro em linhas verticais
depois horizontais
e mais tarde transversais
Como quem espera algum dia ser o vencedor
do Four in a Row
de forma alguma substitui
o ruído aquático que sucedia
no interior de minha boca
quando a palavra Tu
reverberava entre palato
e água do mar
Batia em meus dentes
e ia parar no furo de alguma rocha
Sim o teu nome
entre um mergulho e outro
O teu nome engasgado
de pirolitos e gargalhadas
O teu nome
batendo em tua cara
exatamente ao mesmo tempo
que o feixe de sol
das 5:28 da tarde
O teu nome
roubado uma vez e outra
por nosso fiel pelicano
O nome do ministro
demissionário
é tão fácil de dizer
Desculpem se não digo
As linhas que cosem
partidos políticos
são tão fáceis de enfiar
no joguinho das crianças
E que simples é o resultado
Muito mais simples
que o resultado
de nosso velho marcador
Com partido político
dá sempre zero a zero
a vantagem do serviço
Com partido alto
dá sempre dez a dez
e vantagem do amor
Você levou meu samba
e meu mensageiro
Você deixou os sapatos
a sombra desalojada
e um dialeto muito novo
que devo utilizar agora
para não dizer teu nome
entre rajadas de revolução
e goles de cerveja junina
Um dialeto umas vezes digno
e outras vezes não
que entrego agora
ao bico do pelicano eterno:
Vai pássaro, leva meu grão
até as escadinhas do santo
que hoje celebra seu nome
entre os doze favoritos.
70 vezes seguidas
Mas isso não espantaria
a saudade que sinto
de dizer o teu nome
entre sal e dentes
Isso em nada iria melhorar
a falta que faz o teu corpo
dentro da sombra invisível
que diariamente se senta
a meu lado no restaurante
às 11 da manhã
Ou no lugar direito do automóvel
quando dirijo até a repartição
política das finanças do estado
O tal Estado escavacado
e tão sobrevalorizado
Escrever o teu nome
repetidamente
primeiro em linhas verticais
depois horizontais
e mais tarde transversais
Como quem espera algum dia ser o vencedor
do Four in a Row
de forma alguma substitui
o ruído aquático que sucedia
no interior de minha boca
quando a palavra Tu
reverberava entre palato
e água do mar
Batia em meus dentes
e ia parar no furo de alguma rocha
Sim o teu nome
entre um mergulho e outro
O teu nome engasgado
de pirolitos e gargalhadas
O teu nome
batendo em tua cara
exatamente ao mesmo tempo
que o feixe de sol
das 5:28 da tarde
O teu nome
roubado uma vez e outra
por nosso fiel pelicano
O nome do ministro
demissionário
é tão fácil de dizer
Desculpem se não digo
As linhas que cosem
partidos políticos
são tão fáceis de enfiar
no joguinho das crianças
E que simples é o resultado
Muito mais simples
que o resultado
de nosso velho marcador
Com partido político
dá sempre zero a zero
a vantagem do serviço
Com partido alto
dá sempre dez a dez
e vantagem do amor
Você levou meu samba
e meu mensageiro
Você deixou os sapatos
a sombra desalojada
e um dialeto muito novo
que devo utilizar agora
para não dizer teu nome
entre rajadas de revolução
e goles de cerveja junina
Um dialeto umas vezes digno
e outras vezes não
que entrego agora
ao bico do pelicano eterno:
Vai pássaro, leva meu grão
até as escadinhas do santo
que hoje celebra seu nome
entre os doze favoritos.
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2
D. Dinis
Nom Chegou, Madre, o Meu Amigo
Nom chegou, madre, o meu amigo,
e hoj'est o prazo saido;
ai madre, moiro d'amor!
Nom chegou, madr', o meu amado,
e hoj'est o prazo passado;
ai madre, moiro d'amor!
E hoj'est o prazo saido;
por que mentiu o desmentido?
ai madre, moiro d'amor!
E hoj'est o prazo passado;
por que mentiu o perjurado?
ai madre, moiro d'amor!
Por que mentiu o desmentido,
pesa-mi, pois per si é falido;
ai madre, moiro d'amor!
Por que mentiu o perjurado,
pesa-mi, pois mentiu per seu grado;
ai madre, moiro d'amor!
e hoj'est o prazo saido;
ai madre, moiro d'amor!
Nom chegou, madr', o meu amado,
e hoj'est o prazo passado;
ai madre, moiro d'amor!
E hoj'est o prazo saido;
por que mentiu o desmentido?
ai madre, moiro d'amor!
E hoj'est o prazo passado;
por que mentiu o perjurado?
ai madre, moiro d'amor!
Por que mentiu o desmentido,
pesa-mi, pois per si é falido;
ai madre, moiro d'amor!
Por que mentiu o perjurado,
pesa-mi, pois mentiu per seu grado;
ai madre, moiro d'amor!
2 241
2
D. Dinis
Nom Chegou, Madre, o Meu Amigo
Nom chegou, madre, o meu amigo,
e hoj'est o prazo saido;
ai madre, moiro d'amor!
Nom chegou, madr', o meu amado,
e hoj'est o prazo passado;
ai madre, moiro d'amor!
E hoj'est o prazo saido;
por que mentiu o desmentido?
ai madre, moiro d'amor!
E hoj'est o prazo passado;
por que mentiu o perjurado?
ai madre, moiro d'amor!
Por que mentiu o desmentido,
pesa-mi, pois per si é falido;
ai madre, moiro d'amor!
Por que mentiu o perjurado,
pesa-mi, pois mentiu per seu grado;
ai madre, moiro d'amor!
e hoj'est o prazo saido;
ai madre, moiro d'amor!
Nom chegou, madr', o meu amado,
e hoj'est o prazo passado;
ai madre, moiro d'amor!
E hoj'est o prazo saido;
por que mentiu o desmentido?
ai madre, moiro d'amor!
E hoj'est o prazo passado;
por que mentiu o perjurado?
ai madre, moiro d'amor!
Por que mentiu o desmentido,
pesa-mi, pois per si é falido;
ai madre, moiro d'amor!
Por que mentiu o perjurado,
pesa-mi, pois mentiu per seu grado;
ai madre, moiro d'amor!
2 241
2
Matilde Campilho
Conversa de Fim de Tarde Depois de Três Anos No Exílio
Os garçons empilhando as cadeiras
você me olhando e me pedindo que
fale Por Favor Fale Mas Não Escreva
eu evitando o toque ruim dos ponteiros
do relógio que anuncia a já famosa fuga
de nossos corpos cada um para sua
ponta da cidade — se nosso amor fosse
revólver eu seria o cabo e você a mira
tal como dizia a professora Sofia Jones
é terrível a existência de duas retas
paralelas porque elas nunca se cruzam
e elas apenas se encontram no infinito
a verdade é que nunca nos interessou
a questão do infinito mas o resto
das ideias matemáticas claro que sim
eu na verdade prefiro mais de mil vezes
sua chávena de chá ficando fria sobre a mesa
enquanto você fala sobre raízes quadradas
enquanto você fala sobre ladrões de figos
enquanto você fala sobre o tropeço da baleia
subitamente eu já nem sei sobre o que você fala
porque a forma como seu dente incisivo corta
e suspende toda a beleza da cafetaria
faz com que eu novamente entenda que
pelo sétimo dia é chegada a hora do cuco
e do canto do cuco
portanto eu pego minha bicicleta
e como de costume você faz meu retrato
de cabelo todo desenhado no vento
em jeito de menino que está sempre indo embora
à mesma hora e que amanhã se tudo der certo
voltará à mesma hora para o mesmo amor
a mesma mesa a mesma explosão
com toda a certeza a mesma fuga
porque você e eu a gente é feito de matéria
escorregadia, i.e., manteira, azeite, geleia
e espanto.
você me olhando e me pedindo que
fale Por Favor Fale Mas Não Escreva
eu evitando o toque ruim dos ponteiros
do relógio que anuncia a já famosa fuga
de nossos corpos cada um para sua
ponta da cidade — se nosso amor fosse
revólver eu seria o cabo e você a mira
tal como dizia a professora Sofia Jones
é terrível a existência de duas retas
paralelas porque elas nunca se cruzam
e elas apenas se encontram no infinito
a verdade é que nunca nos interessou
a questão do infinito mas o resto
das ideias matemáticas claro que sim
eu na verdade prefiro mais de mil vezes
sua chávena de chá ficando fria sobre a mesa
enquanto você fala sobre raízes quadradas
enquanto você fala sobre ladrões de figos
enquanto você fala sobre o tropeço da baleia
subitamente eu já nem sei sobre o que você fala
porque a forma como seu dente incisivo corta
e suspende toda a beleza da cafetaria
faz com que eu novamente entenda que
pelo sétimo dia é chegada a hora do cuco
e do canto do cuco
portanto eu pego minha bicicleta
e como de costume você faz meu retrato
de cabelo todo desenhado no vento
em jeito de menino que está sempre indo embora
à mesma hora e que amanhã se tudo der certo
voltará à mesma hora para o mesmo amor
a mesma mesa a mesma explosão
com toda a certeza a mesma fuga
porque você e eu a gente é feito de matéria
escorregadia, i.e., manteira, azeite, geleia
e espanto.
2 335
2
Matilde Campilho
Conversa de Fim de Tarde Depois de Três Anos No Exílio
Os garçons empilhando as cadeiras
você me olhando e me pedindo que
fale Por Favor Fale Mas Não Escreva
eu evitando o toque ruim dos ponteiros
do relógio que anuncia a já famosa fuga
de nossos corpos cada um para sua
ponta da cidade — se nosso amor fosse
revólver eu seria o cabo e você a mira
tal como dizia a professora Sofia Jones
é terrível a existência de duas retas
paralelas porque elas nunca se cruzam
e elas apenas se encontram no infinito
a verdade é que nunca nos interessou
a questão do infinito mas o resto
das ideias matemáticas claro que sim
eu na verdade prefiro mais de mil vezes
sua chávena de chá ficando fria sobre a mesa
enquanto você fala sobre raízes quadradas
enquanto você fala sobre ladrões de figos
enquanto você fala sobre o tropeço da baleia
subitamente eu já nem sei sobre o que você fala
porque a forma como seu dente incisivo corta
e suspende toda a beleza da cafetaria
faz com que eu novamente entenda que
pelo sétimo dia é chegada a hora do cuco
e do canto do cuco
portanto eu pego minha bicicleta
e como de costume você faz meu retrato
de cabelo todo desenhado no vento
em jeito de menino que está sempre indo embora
à mesma hora e que amanhã se tudo der certo
voltará à mesma hora para o mesmo amor
a mesma mesa a mesma explosão
com toda a certeza a mesma fuga
porque você e eu a gente é feito de matéria
escorregadia, i.e., manteira, azeite, geleia
e espanto.
você me olhando e me pedindo que
fale Por Favor Fale Mas Não Escreva
eu evitando o toque ruim dos ponteiros
do relógio que anuncia a já famosa fuga
de nossos corpos cada um para sua
ponta da cidade — se nosso amor fosse
revólver eu seria o cabo e você a mira
tal como dizia a professora Sofia Jones
é terrível a existência de duas retas
paralelas porque elas nunca se cruzam
e elas apenas se encontram no infinito
a verdade é que nunca nos interessou
a questão do infinito mas o resto
das ideias matemáticas claro que sim
eu na verdade prefiro mais de mil vezes
sua chávena de chá ficando fria sobre a mesa
enquanto você fala sobre raízes quadradas
enquanto você fala sobre ladrões de figos
enquanto você fala sobre o tropeço da baleia
subitamente eu já nem sei sobre o que você fala
porque a forma como seu dente incisivo corta
e suspende toda a beleza da cafetaria
faz com que eu novamente entenda que
pelo sétimo dia é chegada a hora do cuco
e do canto do cuco
portanto eu pego minha bicicleta
e como de costume você faz meu retrato
de cabelo todo desenhado no vento
em jeito de menino que está sempre indo embora
à mesma hora e que amanhã se tudo der certo
voltará à mesma hora para o mesmo amor
a mesma mesa a mesma explosão
com toda a certeza a mesma fuga
porque você e eu a gente é feito de matéria
escorregadia, i.e., manteira, azeite, geleia
e espanto.
2 335
2
Airas Nunes
Que Muito M'eu Pago Deste Verão
Que muito m'eu pago deste verão,
por estes ramos e por estas flores
e polas aves que cantam d'amores,
por que ando i led'e sem cuidado;
e assi faz tod'homem namorado:
sempre i anda led'e mui loução.
Cand'eu passo per algũas ribeiras,
sô bõas árvores, per bõos prados,
se cantam i pássaros namorados,
log'eu com amores i vou cantando,
e log'ali d'amores vou trobando
e faço cantares em mil maneiras.
Hei eu gram viç[o] e grand'alegria
quando mi as aves cantam no estio.
por estes ramos e por estas flores
e polas aves que cantam d'amores,
por que ando i led'e sem cuidado;
e assi faz tod'homem namorado:
sempre i anda led'e mui loução.
Cand'eu passo per algũas ribeiras,
sô bõas árvores, per bõos prados,
se cantam i pássaros namorados,
log'eu com amores i vou cantando,
e log'ali d'amores vou trobando
e faço cantares em mil maneiras.
Hei eu gram viç[o] e grand'alegria
quando mi as aves cantam no estio.
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2
Joaquim Paço d'arcos
Medo
Medo não o temor dos piratas no Rio do Oeste,
Nem dos tufões no mar.
Não é o receio dos tiros, pela noite,
No rio povoado de lorchas e traições;
Nem o susto dos enforcados,
Ao luar branco,
No mangal da Areia Preta.
Medo não é o temor da guerra,
nem da for, nem do cólera,
Nem das chagas dos leprosos
na Ilha de S. João;
Não é suspeita
De que a morte espreita,
Continuadamente,
E nos levará.
Medo não é contágio da tristeza
Quando a tarde tomba
E o ocaso ensanguenta
O mar de água barrenta,
As terras e o céu,
Até as ilhas serem tragadas pelo negrume
E as montanhas pelo escuro,
E nada restar senão a treva
E os gritos que atravessam a noites,
Vindos não sei donde,
Para não sei onde.
Medo não é o temor das ciladas,
Nem dos punhais,
Nem dos beijos vermelhos que enganam
E sorvem lentamente as vidas...
Medo é est pavor de que tu partas|
E me deixes só.
Nem dos tufões no mar.
Não é o receio dos tiros, pela noite,
No rio povoado de lorchas e traições;
Nem o susto dos enforcados,
Ao luar branco,
No mangal da Areia Preta.
Medo não é o temor da guerra,
nem da for, nem do cólera,
Nem das chagas dos leprosos
na Ilha de S. João;
Não é suspeita
De que a morte espreita,
Continuadamente,
E nos levará.
Medo não é contágio da tristeza
Quando a tarde tomba
E o ocaso ensanguenta
O mar de água barrenta,
As terras e o céu,
Até as ilhas serem tragadas pelo negrume
E as montanhas pelo escuro,
E nada restar senão a treva
E os gritos que atravessam a noites,
Vindos não sei donde,
Para não sei onde.
Medo não é o temor das ciladas,
Nem dos punhais,
Nem dos beijos vermelhos que enganam
E sorvem lentamente as vidas...
Medo é est pavor de que tu partas|
E me deixes só.
1 043
2
Manuel Bandeira
O Martelo
As rodas rangem na curva dos trilhos
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de pomba.
Sei que amanhã quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cântico de certezas.
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de pomba.
Sei que amanhã quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cântico de certezas.
2 478
2
Manuel Bandeira
Balada do Rei das Sereias
O rei atirou
Seu anel ao mar
E disse às sereias:
— Ide-o lá buscar,
Que se o não trouxerdes,
Virareis espuma
Das ondas do mar!
Foram as sereias,
Não tardou, voltaram
Com o perdido anel.
Maldito o capricho
De rei tão cruel!
O rei atirou
Grãos de arroz ao mar
E disse às sereias:
— Ide-os lá buscar,
Que se os não trouxerdes,
Virareis espuma
Das ondas do mar!
Foram as sereias,
Não tardou, voltaram,
Não faltava um grão.
Maldito o capricho
Do mau coração!
O rei atirou
Sua filha ao mar
E disse às sereias:
— Ide-a lá buscar,
Que se a não trouxerdes,
Virareis espuma
Das ondas do mar!
Foram as sereias...
Quem as viu voltar?...
Não voltaram nunca!
Viraram espuma
Das ondas do mar.
Petrópolis, 25.3.1943
Seu anel ao mar
E disse às sereias:
— Ide-o lá buscar,
Que se o não trouxerdes,
Virareis espuma
Das ondas do mar!
Foram as sereias,
Não tardou, voltaram
Com o perdido anel.
Maldito o capricho
De rei tão cruel!
O rei atirou
Grãos de arroz ao mar
E disse às sereias:
— Ide-os lá buscar,
Que se os não trouxerdes,
Virareis espuma
Das ondas do mar!
Foram as sereias,
Não tardou, voltaram,
Não faltava um grão.
Maldito o capricho
Do mau coração!
O rei atirou
Sua filha ao mar
E disse às sereias:
— Ide-a lá buscar,
Que se a não trouxerdes,
Virareis espuma
Das ondas do mar!
Foram as sereias...
Quem as viu voltar?...
Não voltaram nunca!
Viraram espuma
Das ondas do mar.
Petrópolis, 25.3.1943
2 135
2
Charles Bukowski
Melancolia
a história da melancolia
inclui a todos nós.
eu, eu escrevo em folhas sujas
enquanto encaro fixamente as paredes azuis
e o nada.
estou tão acostumado à melancolia
que
a cumprimento como a uma velha
amiga.
farei agora 15 minutos de sofrimento
pela ruiva perdida,
digo aos deuses.
faço isso e me sinto um tanto mal
bastante triste,
então me levanto
REVIGORADO
mesmo sabendo que nada está
resolvido.
isto é o que eu ganho por chutar
a religião no rabo.
deveria ter chutado o rabo
da ruiva
onde estão seu cérebro e seu pão com
manteiga
na...
mas não, eu estava me sentindo triste
com tudo:
a ruiva perdida foi apenas outro
golpe numa longa vida
de perdas...
escuto uns tambores no rádio agora
e dou uma risada.
há alguma coisa errada comigo
além da
melancolia.
inclui a todos nós.
eu, eu escrevo em folhas sujas
enquanto encaro fixamente as paredes azuis
e o nada.
estou tão acostumado à melancolia
que
a cumprimento como a uma velha
amiga.
farei agora 15 minutos de sofrimento
pela ruiva perdida,
digo aos deuses.
faço isso e me sinto um tanto mal
bastante triste,
então me levanto
REVIGORADO
mesmo sabendo que nada está
resolvido.
isto é o que eu ganho por chutar
a religião no rabo.
deveria ter chutado o rabo
da ruiva
onde estão seu cérebro e seu pão com
manteiga
na...
mas não, eu estava me sentindo triste
com tudo:
a ruiva perdida foi apenas outro
golpe numa longa vida
de perdas...
escuto uns tambores no rádio agora
e dou uma risada.
há alguma coisa errada comigo
além da
melancolia.
2 080
2
Pablo Neruda
A Noite Na Ilha
Toda a noite dormi contigo
junto ao mar, na ilha.
Eras selvagem e doce entre o prazer e o sonho,
entre o fogo e a água.
Talvez fosse já muito tarde
quando os nossos sonhos se uniram
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.
Talvez o teu sonho
se tivesse separado do meu
e pelo mar obscuro
me procurasse
como antes,
quando ainda não existias,
quando sem dar por ti
naveguei por onde andavas,
e os teus olhos procuravam
o que agora
– pão, vinho, amor e cólera –
te dou às mãos cheias
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.
Toda a noite dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra obscura roda
com vivos e com mortos,
e ao acordar subitamente
no meio da sombra
o meu braço enlaçava-te a cintura.
Nem a noite, nem o sonho
nos puderam separar.
Dormi contigo
e ao acordar, a tua boca,
saída do teu sonho,
deu-me o sabor de terra,
de água marinha, de algas,
do fundo da tua vida,
e recebi o teu beijo
húmido com a madrugada
como se me tivesse chegado
do mar que nos rodeia.
junto ao mar, na ilha.
Eras selvagem e doce entre o prazer e o sonho,
entre o fogo e a água.
Talvez fosse já muito tarde
quando os nossos sonhos se uniram
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.
Talvez o teu sonho
se tivesse separado do meu
e pelo mar obscuro
me procurasse
como antes,
quando ainda não existias,
quando sem dar por ti
naveguei por onde andavas,
e os teus olhos procuravam
o que agora
– pão, vinho, amor e cólera –
te dou às mãos cheias
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.
Toda a noite dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra obscura roda
com vivos e com mortos,
e ao acordar subitamente
no meio da sombra
o meu braço enlaçava-te a cintura.
Nem a noite, nem o sonho
nos puderam separar.
Dormi contigo
e ao acordar, a tua boca,
saída do teu sonho,
deu-me o sabor de terra,
de água marinha, de algas,
do fundo da tua vida,
e recebi o teu beijo
húmido com a madrugada
como se me tivesse chegado
do mar que nos rodeia.
2 662
2
Manuel Bandeira
Na Solidão das Noites Úmidas
Como tenho pensado em ti na solidão das noites úmidas,
De névoa úmida,
Na areia úmida!
Eu te sabia assim também, assim olhando a mesma cousa
No ermo da noite que repousa.
E era como se a vida,
Mansa, pousasse as mãos sobre a minha ferida...
Mas, ah! como eu sentia
A falta de teu ser de volúpia e tristeza!
O mar... Onde se via o movimento da água,
Era como se a água estremecesse em mil sorrisos.
Como uma carne de mulher sob a carícia.
O luar era um afago tão suave,
— Tão imaterial —
E ao mesmo tempo tão voluptuoso e tão grave!
O luar era a minha inefável carícia:
A água era teu corpo a estremecer-se com delícia.
Ah, em música pôr o que eu então sentia!
Unir no espasmo da harmonia
Esses dois ritmos contrastantes:
O frêmito tão perdidamente alegre de amor sob a carícia
E essa grave volúpia da luz branca.
Oh, viver contigo!
Viver contigo todos os instantes...
Vivermos juntos, como seria viver a verdadeira vida,
Harmoniosa e pura,
Sem lastimar a fuga irreparável dos anos,
Dos anos lentos e monótonos que passam,
Esperando sempre que maior ventura
Viesse um dia no beijo infinito da mesma morte...
De névoa úmida,
Na areia úmida!
Eu te sabia assim também, assim olhando a mesma cousa
No ermo da noite que repousa.
E era como se a vida,
Mansa, pousasse as mãos sobre a minha ferida...
Mas, ah! como eu sentia
A falta de teu ser de volúpia e tristeza!
O mar... Onde se via o movimento da água,
Era como se a água estremecesse em mil sorrisos.
Como uma carne de mulher sob a carícia.
O luar era um afago tão suave,
— Tão imaterial —
E ao mesmo tempo tão voluptuoso e tão grave!
O luar era a minha inefável carícia:
A água era teu corpo a estremecer-se com delícia.
Ah, em música pôr o que eu então sentia!
Unir no espasmo da harmonia
Esses dois ritmos contrastantes:
O frêmito tão perdidamente alegre de amor sob a carícia
E essa grave volúpia da luz branca.
Oh, viver contigo!
Viver contigo todos os instantes...
Vivermos juntos, como seria viver a verdadeira vida,
Harmoniosa e pura,
Sem lastimar a fuga irreparável dos anos,
Dos anos lentos e monótonos que passam,
Esperando sempre que maior ventura
Viesse um dia no beijo infinito da mesma morte...
1 703
2
Manuel Bandeira
Marisa
Muitas vezes a beira-mar
Sopra um fresco alento de brisa
Que vem do largo a suspirar...
Assim é o teu nome, Marisa,
Que principia igual ao mar
E acaba mais suave que a brisa.
Sopra um fresco alento de brisa
Que vem do largo a suspirar...
Assim é o teu nome, Marisa,
Que principia igual ao mar
E acaba mais suave que a brisa.
2 300
2
Pablo Neruda
Se Me Esqueceres
Quero que saibas
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
1 314
2
Charles Bukowski
Um Poema Para a Velha Dente-Podre
conheço uma mulher
que segue comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que finalmente se encaixam
numa espécie de ordem.
ela se dedica à questão
de modo matemático
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive perto do mar
põe açúcar para as formigas lá fora
e acredita
definitivamente
num mundo melhor.
seu cabelo é branco
raramente o penteia
seus dentes são podres
e ela veste macacões frouxos
e amorfos sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
ao longo de muitos anos ela me irritou
com o que eu considerava suas
excentricidades:
como mergulhar conchas na água
(para que ao regar as plantas elas
recebessem cálcio).
mas finalmente quando penso na sua
vida
e a comparo a outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer outra pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela enfrentou alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
porque era a mãe da minha única
filha
e uma vez fôramos grandes amantes,
mas ela havia superado essas dificuldades
como eu disse
das pessoas que conheço ela foi a que machucou
menos gente,
e se você olhar para isso pelo que isso significa,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
Frances, este poema é pra
você.
Encontrava Sara a cada três ou quatro dias, na casa dela ou na minha. Dormíamos juntos, mas não transávamos. Chegávamos perto, mas nunca às vias de fato. Os preceitos de Drayer Baba eram inabaláveis.
Decidimos passar os feriados de final de ano juntos aqui em casa, o Natal e o Ano-Novo.
Sara chegou por volta do meio-dia, no dia 24, em sua Kombi. Fiquei olhando-a estacionar, depois saí em seu encontro. Trazia várias ripas de madeira amarradas sobre o teto da Kombi. Era meu presente de Natal: ela faria uma cama para mim. Minha cama era uma piada: um simples box de mola com o interior saltando para fora do colchão. Sara também trouxe um peru orgânico, mais os acompanhamentos. Eu tinha ficado de pagar essas compras mais o vinho branco. Além disso, havia umas lembrancinhas que iríamos trocar.
Carregamos as ripas de madeira e o peru e as outras coisas. Coloquei o box, o colchão e a guarda da cama do lado de fora e coloquei um cartaz: “Grátis”. A guarda foi primeiro, o box em seguida, e finalmente alguém levou o colchão. Era uma vizinhança pobre.
Eu tinha visto a cama de Sara na casa dela, dormira nela, e tinha gostado. Nunca tinha gostado dos colchões comuns, ao menos dos que eu podia comprar. Eu havia passado mais da metade da minha vida em camas que serviriam melhor a alguém que tivesse o corpo na forma de uma minhoca.
Sara havia construído a própria cama e ela iria construir outra igual para mim. Uma plataforma sólida de madeira, suportada por sete pés quádruplos (o sétimo colocado diretamente no meio), coberta por uma camada de espuma firme de dez centímetros. Sara tinha umas boas ideias. Eu segurava as tábuas, e Sara assentava os pregos. Era boa com o martelo. Pesava apenas 52 quilos, mas mandava ver nos pregos. A cama ficaria ótima.
Não levou muito para que Sara terminasse.
Então testamos a cama – não sexualmente – sob o sorriso auspicioso de Drayer Baba.
Saímos de carro em busca de uma árvore de Natal. Não estava muito a fim de encontrá-la (o Natal sempre havia sido uma época infeliz na minha infância), e, quando vimos todos os canteiros vazios, não ter uma árvore não foi algo que me incomodou. Enquanto voltávamos, Sara ficou triste. Mas depois de entrarmos e de alguns copos de vinho ela recuperou a alegria e começou a pendurar os arranjos de natal, lampadinhas, purpurina, por toda parte, inclusive nos meus cabelos.
Tinha lido em algum lugar que mais pessoas cometiam suicídio no Natal e na noite do Ano-Novo do que em qualquer outra época. Aparentemente, este feriado nada tinha a ver com o Nascimento de Cristo.
As músicas no rádio eram de dar engulhos no estomago e na tevê a coisa era ainda pior, então desligamos tudo e ela ligou para a mãe no Maine. Falei com a mamãe também, e ela não era das piores.
– No começo – disse Sara –, pensei em ajeitar as coisas entre você e mamãe, mas ela é mais velha do que você.
– Esqueça.
– Ela tem ótimas pernas.
– Esqueça.
– Você tem preconceito contra pessoas mais velhas?
– Sim, contra todos os velhos exceto eu.
– Você age como se fosse uma estrela de cinema. Você sempre teve mulheres 20 ou 30 anos mais novas que você?
– Não quando estava na casa dos vinte.
– Tudo bem. Você já teve alguma mulher que fosse mais velha que você, quero dizer, chegou a viver com ela?
– Claro, quando eu tinha 25 vivi com uma mulher de 35.
– E como foi?
– Uma desgraça. Eu me apaixonei por ela.
– E isso é uma desgraça?
– Ela me fez ir pra faculdade.
– E isso é uma desgraça?
– Não era o tipo de faculdade que você está pensando. Ela era a faculdade, e eu o jovem estudante.
– O que aconteceu com ela?
– Acabei tendo que enterrá-la.
– Com as devidas honras? Você a matou?
– O trago a matou.
– Feliz Natal.
– Claro. Me fale de você.
– Passo.
– Muitas histórias?
– Muitas, e ao mesmo tempo tão poucas.
Trinta ou quarenta minutos depois alguém bateu à porta. Sara se levantou e foi abrir. Um símbolo sexual entrou. Na véspera de Natal. Não sabia quem ela era. Usava uma roupa preta e seus peitos enormes pareciam prestes a saltar para fora do vestido. Aquilo era magnífico. Nunca tinha visto peitos como aqueles, expostos dessa maneira, a não ser em filmes.
– Oi, Hank!
Ela me conhecia.
– Sou Edie. Você me conheceu na casa do Bobby numa noite dessas.
– Sério?
– Estava bêbado demais pra lembrar?
– Olá, Edie. Esta é Sara.
– Estou atrás do Bobby. Pensei que ele pudesse estar por aqui.
– Sente-se e beba alguma coisa.
Edie se sentou numa cadeira à minha direita, bem próxima a mim. Devia ter uns 25. Acendeu um cigarro e tomou um gole de sua bebida. Cada vez que ela se inclinava para frente sobre a mesinha de centro eu tinha certeza de que aconteceria, que os peitos saltariam para fora. E eu tinha medo do que faria caso isso acontecesse. Simplesmente não conseguia entender nada. Nunca tinha sido um homem ligado em peitos, sempre fui chegado em pernas. Mas Edie sabia mesmo explorar o que possuía. Eu estava com medo e olhava de canto para seus peitos sem saber se queria que eles saltassem para fora ou que ficassem onde estavam.
– Você conheceu o Manny – ela me disse – lá na casa do Bobby?
– Claro.
– Tive que lhe dar um pé na bunda. O cara era muito ciumento. Chegou a contratar um detetive particular pra me seguir! Imagine só! O cara é um retardado de merda!
– Claro.
– Odeio homens que ficam mendigando atenção. Odeio gente mesquinha!
– É difícil encontrar um homem bom nos dias de hoje – eu disse. – É uma canção. Dos tempos da Segunda Guerra. Também tinha uma outra: “Não sente debaixo de uma macieira com outra pessoa que não seja eu”.
– Hank, você está gaguejando... – disse Sara.
– Tome outro drinque, Edie – eu disse, servindo-lhe mais uma dose.
– Os homens não passam de uns merdas! – continuou. – Entrei num bar dia desses. Estava com quatro caras, amigos do peito. Sentamos por ali, virando umas canecas de chope, estávamos rindo, sabe, curtindo o momento, não estávamos incomodando ninguém. Então me veio a ideia de jogar uma partidinha de bilhar. Gosto de jogar bilhar. Acho que quando uma mulher joga bilhar ela mostra se tem classe ou não.
– Não sei jogar bilhar – eu disse. – Sempre rasgo o feltro, e nem preciso ter classe.
– Seja o que for, fui até a mesa e lá estava um cara jogando bilhar sozinho. Cheguei nele e disse: “Escute, você já está nessa mesa há um tempão. Eu e meus amigos queremos jogar um pouquinho. Você se importa de liberar a mesa por um momento?” Ele se virou e olhou pra mim. Ficou ali parado. Por fim, fez uma cara enjoada e disse: “Tudo bem”.
Edie se animou e se mexia toda ao falar. Eu só espiando aquelas maravilhas.
– Voltei atrás dos meus amigos. “Conseguimos a mesa.” Finalmente o cara estava apenas com uma bola na mesa. Foi quando chegou um amigo dele e disse: “Ei, Ernie, soube que você vai sair da mesa”. E vocês sabem o que ele disse para o outro? Disse: “Sim, vou deixar a mesa nas mãos daquela piranha!” Escutei aquilo e vi tudo ficar VERMELHO! O cara já se inclinava sobre a mesa pra bater na última bola. Apanhei um taco e enquanto ele estava naquela posição acertei sua cabeça com toda a força que pude. O cara caiu sobre a mesa como se estivesse morto. Era conhecido no bar, e então os seus amigos, em grupo, correram na minha direção, mas, ao mesmo tempo, os meus parceiros também se aproximaram. Rapaz, que quebra-pau! Garrafas espatifando, espelhos quebrados... Não sei como saímos de lá, mas saímos. Ei, você tem erva aí?
– Sim, mas não sei fechar muito bem.
– Deixa que eu cuido disso.
Edie fechou um baseado fininho, obra de mestre. Deu um pega, tragando-o com um chiado, e então passou para mim.
– Então, na noite seguinte, eu voltei lá sozinha. O dono, que atendia no bar, me reconheceu. Seu nome é Claude. “Claude”, eu lhe disse, “sinto muito por ontem à noite, mas o cara na mesa era um otário de merda. Ele me chamou de piranha.”
Servi mais uma rodada. Mais alguns minutos e seus seios estariam à mostra.
– O dono disse: “Tudo bem, esqueça”. Ele parecia um cara legal. “O que você gosta de beber?”, ele me perguntou. Fiquei ali pelo bar, tomei duas ou três bebidas de graça, e então ele disse: “Sabe, estou pensando em trocar de garçonete”.
Edie deu um pega no baseado e continuou.
– Ele me falou dos problemas com a outra garçonete. “Ela atrai os homens até, mas causa muita confusão. Joga um cara contra o outro. Está sempre debaixo dos holofotes. Então descobri que ela estava fazendo uma graninha por fora. Usava o MEU bar pra faturar com sua buceta!”
– Sério? – perguntou Sara.
– Foi o que ele disse. De todo modo, me ofereceu a vaga de garçonete. E ele disse: “Nada de querer faturar um extra!” Disse pra ele parar com essa bobagem, eu não era dessa laia. Pensei, então, que talvez pudesse guardar algum dinheiro e ir pra UCLA, para me formar em química e estudar francês, que foi o que sempre planejei. Então ele disse: “Venha até aqui, quero lhe mostrar onde estocamos as mercadorias e tenho inclusive um uniforme que quero que você experimente. Nunca foi usado e acho que é do seu tamanho.” Então fui com ele até esse quartinho escuro e ele tentou me agarrar. Dei um empurrão nele. Então ele disse: “Me dá só um beijinho”. “Vai se foder!”, eu disse. Ele era gordo e careca e baixinho e usava dentadura e tinha verrugas pretas nas bochechas, com pelos saindo delas. Ele me prensou e agarrou a minha bunda com uma das mãos e com a outra um dos meus peitos, tentando me dar um beijo. Empurrei ele outra vez. “Eu sou casado”, ele disse, “amo a minha mulher, não se preocupe!” Voltou a me prensar e eu lhe dei um joelhaço você-sabe-onde. Acho que ele não tinha nada por ali, não chegou nem a se encolher. “Eu lhe dou dinheiro”, ele disse, “vou ser legal com você!” Disse pra ele enfiar o dinheiro no cu. E assim perdi mais um emprego.
– É uma história triste – eu disse.
– Escute – disse Edie –, tenho que ir. Feliz Natal. Obrigada pelas bebidas.
Ela se levantou e a acompanhei até a porta, abrindo-a. Ela saiu e atravessou o pátio. Voltei e me sentei.
– Seu filho da puta – disse Sara.
– O que foi?
– Se eu não estivesse aqui você teria trepado com ela.
– Eu mal conheço essa mulher.
– Aqueles peitos! Você estava petrificado! Você não tinha coragem nem de olhar pra ela!
– O que será que ela fazia por aí, vagando na véspera de Natal?
– Por que você não vai lá e pergunta pra ela?
– Ela disse que estava atrás do Bobby.
– Se eu não estivesse aqui você teria trepado com ela.
– Não sei. Não tenho como saber...
Então Sara se levantou e começou a gritar. E começou a soluçar e foi para o quarto. Me servi mais um drinque. As lampadinhas nas paredes não paravam de piscar.
Sara preparava o recheio do peru, e eu fiquei na cozinha com ela, conversando. Tomávamos um vinho branco.
O telefone tocou. Fui atender. Era Debra.
– Queria apenas desejar pra você um feliz Natal, seu macarrão molhado.
– Obrigado, Debra. E um bom Papai Noel pra você
Conversamos um pouco, depois voltei e me sentei.
– Quem era?
– Debra.
– Como ela está?
– Bem, eu acho.
– O que ela queria?
– Desejar feliz Natal.
– Você vai gostar desse peru orgânico, e o recheio também é bom. As pessoas comem veneno, veneno puro. A América é um dos poucos países onde o câncer de colón é predominante.
– Pois é, meu cu coça um monte, mas são só as minhas hemorroidas. Operei uma vez. Antes de operar eles enfiam essa cobra no seu intestino, com uma luzinha na ponta e eles olham dentro de você, pra ver se encontram algum câncer. Essa cobra é muito cumprida. Eles apenas pegam e enfiam a coisa dentro de você!
O telefone voltou a tocar. Fui lá atender. Era Cassie.
– Como vai você?
– Sara e eu estamos preparando um peru.
– Sinto sua falta.
– Feliz Natal pra você também. Como vai o trabalho?
– Tudo bem. Estou de folga até o dia 2 de janeiro.
– Feliz Ano-Novo, Cassie!
– Que diabos há com você?
– Estou um pouco aéreo. Não estou acostumado a beber vinho branco a essa hora.
– Me liga qualquer hora dessas.
– Claro.
Retornei à cozinha.
– Era a Cassie. As pessoas ligam no Natal. Talvez Drayer Baba ligue.
– Não vai ligar.
– Por quê?
– Nunca falou em voz alta. Nunca falou e também nunca tocou em dinheiro.
– Mas que beleza. Deixa eu provar um pouco desse recheio.
– Ok.
– Vamos ver... Nada mal!
O telefone tocou mais uma vez. Era assim que o negócio funcionava. Uma vez que começasse a tocar, não parava mais. Fui até o quarto e atendi.
– Alô – eu disse. – Quem está falando?
– Seu filho da puta. Não sabe quem é?
– Não, não sei mesmo.
Era uma mulher bêbada.
– Adivinha.
– Espera. Já sei! É Iris!
– Sim, Iris. E estou grávida!
– Sabe quem é o pai?
– Que diferença isso faz?
– É, acho que você está certa. Como estão as coisas em Vancouver?
– Tudo bem. Tchau.
– Tchau.
Voltei mais uma vez para a cozinha.
– Era aquela canadense, dançarina do ventre – eu disse a Sara.
– Como ela está?
– Empanturrada pela alegria natalina.
Sara colocou o peru no forno e fomos para a sala. Ficamos falando bobagem por algum tempo. O telefone tocou outra vez.
– Alô – eu disse.
– Você é Henry Chinaski? – A voz era de um jovem.
– Sim.
– Você é mesmo Henry Chinaski, o escritor?
– Sim.
– De verdade?
– Claro.
– Bem, nós somos uma galera de Bel Air e nós realmente achamos do caralho o que você escreve, cara! Gostamos tanto da porra dos seus textos que queremos recompensá-lo, cara!
– É mesmo?
– Sim, vamos pintar aí com umas cevas e tal.
– Enfie a cerveja no cu.
– O quê?
– Eu disse: “Enfie a cerveja no cu!”
Desliguei.
– Quem era? – perguntou Sara.
– Acabo de perder três ou quatro leitores em Bel Air. Mas valeu a pena.
O peru ficou pronto e eu o tirei do forno, coloquei-o numa travessa, tirei a máquina de escrever e todos os meus papéis de cima da mesa da cozinha, e ajeitei o peru ali. Comecei a destrinchá-lo enquanto Sara trazia os vegetais. Sentamos. Enchi meu prato, Sara, o dela. Era uma visão bonita.
– Espero que aquela peituda não resolva voltar – disse Sara. Parecia bastante incomodada diante da possibilidade.
– Se ela aparecer, ofereço um pedaço.
– O quê?
Apontei para o peru.
– Eu disse que “se ela aparecer, ofereço um pedaço”. Espere pra ver se não faço isso.
Sara gritou. Ficou de pé. Tremia. Correu até o quarto. Olhei para meu peru. Não conseguiria comê-lo. Mais uma vez, apertara o botão errado. Fui até a sala com meu drinque e me sentei. Esperei 15 minutos e então coloquei o peru e os vegetais na geladeira.
Sara voltou para a sua casa no dia seguinte, e eu fiz um sanduíche de peru frio por volta das três. Por volta das cinco, houve uma pancada terrível na porta. Abri. Eram Tammie e Arlene. Estavam totalmente emboletadas. Entraram e começaram a aloprar, as duas falando ao mesmo tempo.
– Tem alguma coisa pra beber?
– Caralho, Hank, tem alguma porra pra beber?
– Como foi a merda do seu Natal?
– É. Como foi a merda do seu Natal, cara?
– Tem cerveja e vinho na frigidaire – eu lhes disse.
(É fácil reconhecer um coroa: ele chama geladeira de frigidaire.)
Entraram dançando na cozinha e abriram a frigidaire.
– Ei, tem um peru aqui!
– Estamos com fome, Hank! Podemos comer um pouco de peru?
– Claro.
Tammie voltou com uma coxa e deu uma mordida.
– Ei, que peru horrível! Precisa temperar!
Arlene voltou com fatias de carne nas mãos.
– É, precisa pôr tempero. Está totalmente insosso! Você tem temperos?
– No armário – eu disse.
Voltaram aos pulos para a cozinha e começaram a pôr os temperos.
– Aí! Bem melhor!
– É, agora tem gosto de alguma coisa!
– Peru orgânico, que bela merda!
– Merda pura!
– Quero mais um pedaço!
– Eu também. Mas tem que temperar.
Tammie voltou e se sentou. Ela recém terminara a coxa. Então pegou o osso, partiu-o ao meio, e começou a mastigá-lo. Fiquei pasmo. Ela estava comendo o osso da coxa, cuspindo umas lasquinhas no tapete.
– Ei, você está comendo o osso!
– Sim, é uma delícia!
Tammie voltou correndo à cozinha para pegar mais.
Logo as duas apareceram, cada uma com uma garrafa de cerveja.
– Obrigada, Hank.
– É, obrigada, cara.
Elas sentaram, mamando as cervejas.
– Bem – disse Tammie –, está na nossa hora.
– É, vamos estuprar alguns garotinhos do ensino médio!
– É isso aí!
As duas se levantaram num salto e saíram porta afora. Fui até a cozinha e olhei dentro da geladeira. O peru parecia ter sido atacado por um tigre – a carcaça havia sido simplesmente dilacerada. Chegava a ser obsceno.
Sara apareceu na noite seguinte.
– Que tal o peru? – ela perguntou.
– Bom.
Ela foi até a cozinha e abriu a porta da geladeira. Gritou. Então voltou correndo.
– Meu deus, o que aconteceu?
– Tammie e Arlene deram uma passada aqui. Acho que não comiam há uma semana.
– Ai, que nojo. É de partir o coração!
– Me desculpe. Eu devia ter impedido as duas. Estavam emboletadas.
– Bem, só resta uma coisa a fazer.
– O quê?
– Posso fazer um ensopado de peru. Vou comprar alguns vegetais.
– Tudo bem.
Dei-lhe uma nota de vinte.
Sara preparou a sopa naquela noite. Estava deliciosa. Ao ir embora pela manhã, deixou-me as instruções sobre como aquecê-la.
Tammie bateu à porta por volta das quatro horas. Deixei-a entrar e ela foi direto até a cozinha. A porta da geladeira se abriu.
– Olha só, sopa, então?
– Sim.
– Está boa?
– Sim.
– Você se importa se eu tomar um pouquinho?
– Não.
Pude ouvi-la levar a sopa ao fogão. Depois o som de uma colherada.
– Deus! Esse negócio não tem gosto de nada! Precisa de tempero!
Escutei-a mexer nos temperos. Então ela voltou a experimentar.
– Ah, outra coisa! Mas ainda é pouco! Sou de origem italiana, você sabe. Agora... Sim... Está bem melhor! Agora é só deixar esquentar. Posso tomar uma cerveja?
– Tudo bem.
Voltou com uma garrafa e se sentou.
– Sentiu minha falta? – perguntou.
– Você nunca saberá.
– Acho que vou recuperar meu emprego no Play Pen.
– Ótimo.
– Lá rola umas boas gorjetas. Um cara aí me dava cinco dólares de gorjeta por noite. Estava apaixonado por mim. Mas nunca me convidou pra sair. Ficava apenas me olhando com uns olhos cheios de ternura. Era um tipo estranho. Era cirurgião retal e às vezes se masturbava me vendo caminhar de um lado pro outro. Dava pra sentir o cheiro de porra, sabe.
– Bem, você deixou o cara nesse estado...
– Acho que a sopa está pronta. Quer um pouco?
– Não, obrigado.
Tammie entrou na cozinha e dava para ouvi-la servindo a sopa no prato. Ficou lá por um longo tempo. Então retornou.
– Tem como me emprestar cinco paus até sexta-feira?
– Não.
– Então dois paus.
– Não.
– Então me descola um dólar mesmo.
Dei a Tammie um punhado de moedas. Totalizavam um dólar e 37 centavos.
– Obrigada – ela disse.
– Tudo bem.
Depois disso, ela se foi.
Sara apareceu na noite seguinte. Raramente vinha assim tão seguido, devia ter algo a ver com o feriado de final de ano, todo mundo se sente perdido, meio louco, assustado. O vinho branco estava preparado e servi dois copos.
– Como vão as coisas na Pousada? – perguntei.
– Ter um negócio é uma merda. Mal dá pra pagar as despesas.
– Onde estão os hóspedes?
– Estão todos fora da cidade; foram todos pra algum lugar.
– Todos os nossos esquemas têm seus furos.
– Nem todos. Algumas pessoas simplesmente não erram nunca, seguem sempre em frente.
– Verdade.
– E a sopa?
– Quase no fim.
– Gostou?
– Não cheguei a tomar muito.
Sara foi até a cozinha e abriu a porta da geladeira.
– O que aconteceu com a sopa? Está com uma cara estranha.
Escutei o som que ela fez ao prová-la. E então como correu até a pia e cuspiu o que estava na boca.
–Jesus, a sopa está envenenada! O que aconteceu? Tammie e Arlene voltaram para tomar a sopa também?
– Só a Tammie.
Sara não gritou. Apenas virou o que sobrara da sopa na pia e acionou o triturador de lixo. Podia escutar seus soluços mal disfarçados. Aquele pobre peru orgânico tinha passado um Natal dos diabos.
– Mulheres
que segue comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que finalmente se encaixam
numa espécie de ordem.
ela se dedica à questão
de modo matemático
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive perto do mar
põe açúcar para as formigas lá fora
e acredita
definitivamente
num mundo melhor.
seu cabelo é branco
raramente o penteia
seus dentes são podres
e ela veste macacões frouxos
e amorfos sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
ao longo de muitos anos ela me irritou
com o que eu considerava suas
excentricidades:
como mergulhar conchas na água
(para que ao regar as plantas elas
recebessem cálcio).
mas finalmente quando penso na sua
vida
e a comparo a outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer outra pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela enfrentou alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
porque era a mãe da minha única
filha
e uma vez fôramos grandes amantes,
mas ela havia superado essas dificuldades
como eu disse
das pessoas que conheço ela foi a que machucou
menos gente,
e se você olhar para isso pelo que isso significa,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
Frances, este poema é pra
você.
Encontrava Sara a cada três ou quatro dias, na casa dela ou na minha. Dormíamos juntos, mas não transávamos. Chegávamos perto, mas nunca às vias de fato. Os preceitos de Drayer Baba eram inabaláveis.
Decidimos passar os feriados de final de ano juntos aqui em casa, o Natal e o Ano-Novo.
Sara chegou por volta do meio-dia, no dia 24, em sua Kombi. Fiquei olhando-a estacionar, depois saí em seu encontro. Trazia várias ripas de madeira amarradas sobre o teto da Kombi. Era meu presente de Natal: ela faria uma cama para mim. Minha cama era uma piada: um simples box de mola com o interior saltando para fora do colchão. Sara também trouxe um peru orgânico, mais os acompanhamentos. Eu tinha ficado de pagar essas compras mais o vinho branco. Além disso, havia umas lembrancinhas que iríamos trocar.
Carregamos as ripas de madeira e o peru e as outras coisas. Coloquei o box, o colchão e a guarda da cama do lado de fora e coloquei um cartaz: “Grátis”. A guarda foi primeiro, o box em seguida, e finalmente alguém levou o colchão. Era uma vizinhança pobre.
Eu tinha visto a cama de Sara na casa dela, dormira nela, e tinha gostado. Nunca tinha gostado dos colchões comuns, ao menos dos que eu podia comprar. Eu havia passado mais da metade da minha vida em camas que serviriam melhor a alguém que tivesse o corpo na forma de uma minhoca.
Sara havia construído a própria cama e ela iria construir outra igual para mim. Uma plataforma sólida de madeira, suportada por sete pés quádruplos (o sétimo colocado diretamente no meio), coberta por uma camada de espuma firme de dez centímetros. Sara tinha umas boas ideias. Eu segurava as tábuas, e Sara assentava os pregos. Era boa com o martelo. Pesava apenas 52 quilos, mas mandava ver nos pregos. A cama ficaria ótima.
Não levou muito para que Sara terminasse.
Então testamos a cama – não sexualmente – sob o sorriso auspicioso de Drayer Baba.
Saímos de carro em busca de uma árvore de Natal. Não estava muito a fim de encontrá-la (o Natal sempre havia sido uma época infeliz na minha infância), e, quando vimos todos os canteiros vazios, não ter uma árvore não foi algo que me incomodou. Enquanto voltávamos, Sara ficou triste. Mas depois de entrarmos e de alguns copos de vinho ela recuperou a alegria e começou a pendurar os arranjos de natal, lampadinhas, purpurina, por toda parte, inclusive nos meus cabelos.
Tinha lido em algum lugar que mais pessoas cometiam suicídio no Natal e na noite do Ano-Novo do que em qualquer outra época. Aparentemente, este feriado nada tinha a ver com o Nascimento de Cristo.
As músicas no rádio eram de dar engulhos no estomago e na tevê a coisa era ainda pior, então desligamos tudo e ela ligou para a mãe no Maine. Falei com a mamãe também, e ela não era das piores.
– No começo – disse Sara –, pensei em ajeitar as coisas entre você e mamãe, mas ela é mais velha do que você.
– Esqueça.
– Ela tem ótimas pernas.
– Esqueça.
– Você tem preconceito contra pessoas mais velhas?
– Sim, contra todos os velhos exceto eu.
– Você age como se fosse uma estrela de cinema. Você sempre teve mulheres 20 ou 30 anos mais novas que você?
– Não quando estava na casa dos vinte.
– Tudo bem. Você já teve alguma mulher que fosse mais velha que você, quero dizer, chegou a viver com ela?
– Claro, quando eu tinha 25 vivi com uma mulher de 35.
– E como foi?
– Uma desgraça. Eu me apaixonei por ela.
– E isso é uma desgraça?
– Ela me fez ir pra faculdade.
– E isso é uma desgraça?
– Não era o tipo de faculdade que você está pensando. Ela era a faculdade, e eu o jovem estudante.
– O que aconteceu com ela?
– Acabei tendo que enterrá-la.
– Com as devidas honras? Você a matou?
– O trago a matou.
– Feliz Natal.
– Claro. Me fale de você.
– Passo.
– Muitas histórias?
– Muitas, e ao mesmo tempo tão poucas.
Trinta ou quarenta minutos depois alguém bateu à porta. Sara se levantou e foi abrir. Um símbolo sexual entrou. Na véspera de Natal. Não sabia quem ela era. Usava uma roupa preta e seus peitos enormes pareciam prestes a saltar para fora do vestido. Aquilo era magnífico. Nunca tinha visto peitos como aqueles, expostos dessa maneira, a não ser em filmes.
– Oi, Hank!
Ela me conhecia.
– Sou Edie. Você me conheceu na casa do Bobby numa noite dessas.
– Sério?
– Estava bêbado demais pra lembrar?
– Olá, Edie. Esta é Sara.
– Estou atrás do Bobby. Pensei que ele pudesse estar por aqui.
– Sente-se e beba alguma coisa.
Edie se sentou numa cadeira à minha direita, bem próxima a mim. Devia ter uns 25. Acendeu um cigarro e tomou um gole de sua bebida. Cada vez que ela se inclinava para frente sobre a mesinha de centro eu tinha certeza de que aconteceria, que os peitos saltariam para fora. E eu tinha medo do que faria caso isso acontecesse. Simplesmente não conseguia entender nada. Nunca tinha sido um homem ligado em peitos, sempre fui chegado em pernas. Mas Edie sabia mesmo explorar o que possuía. Eu estava com medo e olhava de canto para seus peitos sem saber se queria que eles saltassem para fora ou que ficassem onde estavam.
– Você conheceu o Manny – ela me disse – lá na casa do Bobby?
– Claro.
– Tive que lhe dar um pé na bunda. O cara era muito ciumento. Chegou a contratar um detetive particular pra me seguir! Imagine só! O cara é um retardado de merda!
– Claro.
– Odeio homens que ficam mendigando atenção. Odeio gente mesquinha!
– É difícil encontrar um homem bom nos dias de hoje – eu disse. – É uma canção. Dos tempos da Segunda Guerra. Também tinha uma outra: “Não sente debaixo de uma macieira com outra pessoa que não seja eu”.
– Hank, você está gaguejando... – disse Sara.
– Tome outro drinque, Edie – eu disse, servindo-lhe mais uma dose.
– Os homens não passam de uns merdas! – continuou. – Entrei num bar dia desses. Estava com quatro caras, amigos do peito. Sentamos por ali, virando umas canecas de chope, estávamos rindo, sabe, curtindo o momento, não estávamos incomodando ninguém. Então me veio a ideia de jogar uma partidinha de bilhar. Gosto de jogar bilhar. Acho que quando uma mulher joga bilhar ela mostra se tem classe ou não.
– Não sei jogar bilhar – eu disse. – Sempre rasgo o feltro, e nem preciso ter classe.
– Seja o que for, fui até a mesa e lá estava um cara jogando bilhar sozinho. Cheguei nele e disse: “Escute, você já está nessa mesa há um tempão. Eu e meus amigos queremos jogar um pouquinho. Você se importa de liberar a mesa por um momento?” Ele se virou e olhou pra mim. Ficou ali parado. Por fim, fez uma cara enjoada e disse: “Tudo bem”.
Edie se animou e se mexia toda ao falar. Eu só espiando aquelas maravilhas.
– Voltei atrás dos meus amigos. “Conseguimos a mesa.” Finalmente o cara estava apenas com uma bola na mesa. Foi quando chegou um amigo dele e disse: “Ei, Ernie, soube que você vai sair da mesa”. E vocês sabem o que ele disse para o outro? Disse: “Sim, vou deixar a mesa nas mãos daquela piranha!” Escutei aquilo e vi tudo ficar VERMELHO! O cara já se inclinava sobre a mesa pra bater na última bola. Apanhei um taco e enquanto ele estava naquela posição acertei sua cabeça com toda a força que pude. O cara caiu sobre a mesa como se estivesse morto. Era conhecido no bar, e então os seus amigos, em grupo, correram na minha direção, mas, ao mesmo tempo, os meus parceiros também se aproximaram. Rapaz, que quebra-pau! Garrafas espatifando, espelhos quebrados... Não sei como saímos de lá, mas saímos. Ei, você tem erva aí?
– Sim, mas não sei fechar muito bem.
– Deixa que eu cuido disso.
Edie fechou um baseado fininho, obra de mestre. Deu um pega, tragando-o com um chiado, e então passou para mim.
– Então, na noite seguinte, eu voltei lá sozinha. O dono, que atendia no bar, me reconheceu. Seu nome é Claude. “Claude”, eu lhe disse, “sinto muito por ontem à noite, mas o cara na mesa era um otário de merda. Ele me chamou de piranha.”
Servi mais uma rodada. Mais alguns minutos e seus seios estariam à mostra.
– O dono disse: “Tudo bem, esqueça”. Ele parecia um cara legal. “O que você gosta de beber?”, ele me perguntou. Fiquei ali pelo bar, tomei duas ou três bebidas de graça, e então ele disse: “Sabe, estou pensando em trocar de garçonete”.
Edie deu um pega no baseado e continuou.
– Ele me falou dos problemas com a outra garçonete. “Ela atrai os homens até, mas causa muita confusão. Joga um cara contra o outro. Está sempre debaixo dos holofotes. Então descobri que ela estava fazendo uma graninha por fora. Usava o MEU bar pra faturar com sua buceta!”
– Sério? – perguntou Sara.
– Foi o que ele disse. De todo modo, me ofereceu a vaga de garçonete. E ele disse: “Nada de querer faturar um extra!” Disse pra ele parar com essa bobagem, eu não era dessa laia. Pensei, então, que talvez pudesse guardar algum dinheiro e ir pra UCLA, para me formar em química e estudar francês, que foi o que sempre planejei. Então ele disse: “Venha até aqui, quero lhe mostrar onde estocamos as mercadorias e tenho inclusive um uniforme que quero que você experimente. Nunca foi usado e acho que é do seu tamanho.” Então fui com ele até esse quartinho escuro e ele tentou me agarrar. Dei um empurrão nele. Então ele disse: “Me dá só um beijinho”. “Vai se foder!”, eu disse. Ele era gordo e careca e baixinho e usava dentadura e tinha verrugas pretas nas bochechas, com pelos saindo delas. Ele me prensou e agarrou a minha bunda com uma das mãos e com a outra um dos meus peitos, tentando me dar um beijo. Empurrei ele outra vez. “Eu sou casado”, ele disse, “amo a minha mulher, não se preocupe!” Voltou a me prensar e eu lhe dei um joelhaço você-sabe-onde. Acho que ele não tinha nada por ali, não chegou nem a se encolher. “Eu lhe dou dinheiro”, ele disse, “vou ser legal com você!” Disse pra ele enfiar o dinheiro no cu. E assim perdi mais um emprego.
– É uma história triste – eu disse.
– Escute – disse Edie –, tenho que ir. Feliz Natal. Obrigada pelas bebidas.
Ela se levantou e a acompanhei até a porta, abrindo-a. Ela saiu e atravessou o pátio. Voltei e me sentei.
– Seu filho da puta – disse Sara.
– O que foi?
– Se eu não estivesse aqui você teria trepado com ela.
– Eu mal conheço essa mulher.
– Aqueles peitos! Você estava petrificado! Você não tinha coragem nem de olhar pra ela!
– O que será que ela fazia por aí, vagando na véspera de Natal?
– Por que você não vai lá e pergunta pra ela?
– Ela disse que estava atrás do Bobby.
– Se eu não estivesse aqui você teria trepado com ela.
– Não sei. Não tenho como saber...
Então Sara se levantou e começou a gritar. E começou a soluçar e foi para o quarto. Me servi mais um drinque. As lampadinhas nas paredes não paravam de piscar.
Sara preparava o recheio do peru, e eu fiquei na cozinha com ela, conversando. Tomávamos um vinho branco.
O telefone tocou. Fui atender. Era Debra.
– Queria apenas desejar pra você um feliz Natal, seu macarrão molhado.
– Obrigado, Debra. E um bom Papai Noel pra você
Conversamos um pouco, depois voltei e me sentei.
– Quem era?
– Debra.
– Como ela está?
– Bem, eu acho.
– O que ela queria?
– Desejar feliz Natal.
– Você vai gostar desse peru orgânico, e o recheio também é bom. As pessoas comem veneno, veneno puro. A América é um dos poucos países onde o câncer de colón é predominante.
– Pois é, meu cu coça um monte, mas são só as minhas hemorroidas. Operei uma vez. Antes de operar eles enfiam essa cobra no seu intestino, com uma luzinha na ponta e eles olham dentro de você, pra ver se encontram algum câncer. Essa cobra é muito cumprida. Eles apenas pegam e enfiam a coisa dentro de você!
O telefone voltou a tocar. Fui lá atender. Era Cassie.
– Como vai você?
– Sara e eu estamos preparando um peru.
– Sinto sua falta.
– Feliz Natal pra você também. Como vai o trabalho?
– Tudo bem. Estou de folga até o dia 2 de janeiro.
– Feliz Ano-Novo, Cassie!
– Que diabos há com você?
– Estou um pouco aéreo. Não estou acostumado a beber vinho branco a essa hora.
– Me liga qualquer hora dessas.
– Claro.
Retornei à cozinha.
– Era a Cassie. As pessoas ligam no Natal. Talvez Drayer Baba ligue.
– Não vai ligar.
– Por quê?
– Nunca falou em voz alta. Nunca falou e também nunca tocou em dinheiro.
– Mas que beleza. Deixa eu provar um pouco desse recheio.
– Ok.
– Vamos ver... Nada mal!
O telefone tocou mais uma vez. Era assim que o negócio funcionava. Uma vez que começasse a tocar, não parava mais. Fui até o quarto e atendi.
– Alô – eu disse. – Quem está falando?
– Seu filho da puta. Não sabe quem é?
– Não, não sei mesmo.
Era uma mulher bêbada.
– Adivinha.
– Espera. Já sei! É Iris!
– Sim, Iris. E estou grávida!
– Sabe quem é o pai?
– Que diferença isso faz?
– É, acho que você está certa. Como estão as coisas em Vancouver?
– Tudo bem. Tchau.
– Tchau.
Voltei mais uma vez para a cozinha.
– Era aquela canadense, dançarina do ventre – eu disse a Sara.
– Como ela está?
– Empanturrada pela alegria natalina.
Sara colocou o peru no forno e fomos para a sala. Ficamos falando bobagem por algum tempo. O telefone tocou outra vez.
– Alô – eu disse.
– Você é Henry Chinaski? – A voz era de um jovem.
– Sim.
– Você é mesmo Henry Chinaski, o escritor?
– Sim.
– De verdade?
– Claro.
– Bem, nós somos uma galera de Bel Air e nós realmente achamos do caralho o que você escreve, cara! Gostamos tanto da porra dos seus textos que queremos recompensá-lo, cara!
– É mesmo?
– Sim, vamos pintar aí com umas cevas e tal.
– Enfie a cerveja no cu.
– O quê?
– Eu disse: “Enfie a cerveja no cu!”
Desliguei.
– Quem era? – perguntou Sara.
– Acabo de perder três ou quatro leitores em Bel Air. Mas valeu a pena.
O peru ficou pronto e eu o tirei do forno, coloquei-o numa travessa, tirei a máquina de escrever e todos os meus papéis de cima da mesa da cozinha, e ajeitei o peru ali. Comecei a destrinchá-lo enquanto Sara trazia os vegetais. Sentamos. Enchi meu prato, Sara, o dela. Era uma visão bonita.
– Espero que aquela peituda não resolva voltar – disse Sara. Parecia bastante incomodada diante da possibilidade.
– Se ela aparecer, ofereço um pedaço.
– O quê?
Apontei para o peru.
– Eu disse que “se ela aparecer, ofereço um pedaço”. Espere pra ver se não faço isso.
Sara gritou. Ficou de pé. Tremia. Correu até o quarto. Olhei para meu peru. Não conseguiria comê-lo. Mais uma vez, apertara o botão errado. Fui até a sala com meu drinque e me sentei. Esperei 15 minutos e então coloquei o peru e os vegetais na geladeira.
Sara voltou para a sua casa no dia seguinte, e eu fiz um sanduíche de peru frio por volta das três. Por volta das cinco, houve uma pancada terrível na porta. Abri. Eram Tammie e Arlene. Estavam totalmente emboletadas. Entraram e começaram a aloprar, as duas falando ao mesmo tempo.
– Tem alguma coisa pra beber?
– Caralho, Hank, tem alguma porra pra beber?
– Como foi a merda do seu Natal?
– É. Como foi a merda do seu Natal, cara?
– Tem cerveja e vinho na frigidaire – eu lhes disse.
(É fácil reconhecer um coroa: ele chama geladeira de frigidaire.)
Entraram dançando na cozinha e abriram a frigidaire.
– Ei, tem um peru aqui!
– Estamos com fome, Hank! Podemos comer um pouco de peru?
– Claro.
Tammie voltou com uma coxa e deu uma mordida.
– Ei, que peru horrível! Precisa temperar!
Arlene voltou com fatias de carne nas mãos.
– É, precisa pôr tempero. Está totalmente insosso! Você tem temperos?
– No armário – eu disse.
Voltaram aos pulos para a cozinha e começaram a pôr os temperos.
– Aí! Bem melhor!
– É, agora tem gosto de alguma coisa!
– Peru orgânico, que bela merda!
– Merda pura!
– Quero mais um pedaço!
– Eu também. Mas tem que temperar.
Tammie voltou e se sentou. Ela recém terminara a coxa. Então pegou o osso, partiu-o ao meio, e começou a mastigá-lo. Fiquei pasmo. Ela estava comendo o osso da coxa, cuspindo umas lasquinhas no tapete.
– Ei, você está comendo o osso!
– Sim, é uma delícia!
Tammie voltou correndo à cozinha para pegar mais.
Logo as duas apareceram, cada uma com uma garrafa de cerveja.
– Obrigada, Hank.
– É, obrigada, cara.
Elas sentaram, mamando as cervejas.
– Bem – disse Tammie –, está na nossa hora.
– É, vamos estuprar alguns garotinhos do ensino médio!
– É isso aí!
As duas se levantaram num salto e saíram porta afora. Fui até a cozinha e olhei dentro da geladeira. O peru parecia ter sido atacado por um tigre – a carcaça havia sido simplesmente dilacerada. Chegava a ser obsceno.
Sara apareceu na noite seguinte.
– Que tal o peru? – ela perguntou.
– Bom.
Ela foi até a cozinha e abriu a porta da geladeira. Gritou. Então voltou correndo.
– Meu deus, o que aconteceu?
– Tammie e Arlene deram uma passada aqui. Acho que não comiam há uma semana.
– Ai, que nojo. É de partir o coração!
– Me desculpe. Eu devia ter impedido as duas. Estavam emboletadas.
– Bem, só resta uma coisa a fazer.
– O quê?
– Posso fazer um ensopado de peru. Vou comprar alguns vegetais.
– Tudo bem.
Dei-lhe uma nota de vinte.
Sara preparou a sopa naquela noite. Estava deliciosa. Ao ir embora pela manhã, deixou-me as instruções sobre como aquecê-la.
Tammie bateu à porta por volta das quatro horas. Deixei-a entrar e ela foi direto até a cozinha. A porta da geladeira se abriu.
– Olha só, sopa, então?
– Sim.
– Está boa?
– Sim.
– Você se importa se eu tomar um pouquinho?
– Não.
Pude ouvi-la levar a sopa ao fogão. Depois o som de uma colherada.
– Deus! Esse negócio não tem gosto de nada! Precisa de tempero!
Escutei-a mexer nos temperos. Então ela voltou a experimentar.
– Ah, outra coisa! Mas ainda é pouco! Sou de origem italiana, você sabe. Agora... Sim... Está bem melhor! Agora é só deixar esquentar. Posso tomar uma cerveja?
– Tudo bem.
Voltou com uma garrafa e se sentou.
– Sentiu minha falta? – perguntou.
– Você nunca saberá.
– Acho que vou recuperar meu emprego no Play Pen.
– Ótimo.
– Lá rola umas boas gorjetas. Um cara aí me dava cinco dólares de gorjeta por noite. Estava apaixonado por mim. Mas nunca me convidou pra sair. Ficava apenas me olhando com uns olhos cheios de ternura. Era um tipo estranho. Era cirurgião retal e às vezes se masturbava me vendo caminhar de um lado pro outro. Dava pra sentir o cheiro de porra, sabe.
– Bem, você deixou o cara nesse estado...
– Acho que a sopa está pronta. Quer um pouco?
– Não, obrigado.
Tammie entrou na cozinha e dava para ouvi-la servindo a sopa no prato. Ficou lá por um longo tempo. Então retornou.
– Tem como me emprestar cinco paus até sexta-feira?
– Não.
– Então dois paus.
– Não.
– Então me descola um dólar mesmo.
Dei a Tammie um punhado de moedas. Totalizavam um dólar e 37 centavos.
– Obrigada – ela disse.
– Tudo bem.
Depois disso, ela se foi.
Sara apareceu na noite seguinte. Raramente vinha assim tão seguido, devia ter algo a ver com o feriado de final de ano, todo mundo se sente perdido, meio louco, assustado. O vinho branco estava preparado e servi dois copos.
– Como vão as coisas na Pousada? – perguntei.
– Ter um negócio é uma merda. Mal dá pra pagar as despesas.
– Onde estão os hóspedes?
– Estão todos fora da cidade; foram todos pra algum lugar.
– Todos os nossos esquemas têm seus furos.
– Nem todos. Algumas pessoas simplesmente não erram nunca, seguem sempre em frente.
– Verdade.
– E a sopa?
– Quase no fim.
– Gostou?
– Não cheguei a tomar muito.
Sara foi até a cozinha e abriu a porta da geladeira.
– O que aconteceu com a sopa? Está com uma cara estranha.
Escutei o som que ela fez ao prová-la. E então como correu até a pia e cuspiu o que estava na boca.
–Jesus, a sopa está envenenada! O que aconteceu? Tammie e Arlene voltaram para tomar a sopa também?
– Só a Tammie.
Sara não gritou. Apenas virou o que sobrara da sopa na pia e acionou o triturador de lixo. Podia escutar seus soluços mal disfarçados. Aquele pobre peru orgânico tinha passado um Natal dos diabos.
– Mulheres
2 525
2
Charles Bukowski
Um Poema Para a Velha Dente-Podre
conheço uma mulher
que segue comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que finalmente se encaixam
numa espécie de ordem.
ela se dedica à questão
de modo matemático
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive perto do mar
põe açúcar para as formigas lá fora
e acredita
definitivamente
num mundo melhor.
seu cabelo é branco
raramente o penteia
seus dentes são podres
e ela veste macacões frouxos
e amorfos sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
ao longo de muitos anos ela me irritou
com o que eu considerava suas
excentricidades:
como mergulhar conchas na água
(para que ao regar as plantas elas
recebessem cálcio).
mas finalmente quando penso na sua
vida
e a comparo a outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer outra pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela enfrentou alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
porque era a mãe da minha única
filha
e uma vez fôramos grandes amantes,
mas ela havia superado essas dificuldades
como eu disse
das pessoas que conheço ela foi a que machucou
menos gente,
e se você olhar para isso pelo que isso significa,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
Frances, este poema é pra
você.
Encontrava Sara a cada três ou quatro dias, na casa dela ou na minha. Dormíamos juntos, mas não transávamos. Chegávamos perto, mas nunca às vias de fato. Os preceitos de Drayer Baba eram inabaláveis.
Decidimos passar os feriados de final de ano juntos aqui em casa, o Natal e o Ano-Novo.
Sara chegou por volta do meio-dia, no dia 24, em sua Kombi. Fiquei olhando-a estacionar, depois saí em seu encontro. Trazia várias ripas de madeira amarradas sobre o teto da Kombi. Era meu presente de Natal: ela faria uma cama para mim. Minha cama era uma piada: um simples box de mola com o interior saltando para fora do colchão. Sara também trouxe um peru orgânico, mais os acompanhamentos. Eu tinha ficado de pagar essas compras mais o vinho branco. Além disso, havia umas lembrancinhas que iríamos trocar.
Carregamos as ripas de madeira e o peru e as outras coisas. Coloquei o box, o colchão e a guarda da cama do lado de fora e coloquei um cartaz: “Grátis”. A guarda foi primeiro, o box em seguida, e finalmente alguém levou o colchão. Era uma vizinhança pobre.
Eu tinha visto a cama de Sara na casa dela, dormira nela, e tinha gostado. Nunca tinha gostado dos colchões comuns, ao menos dos que eu podia comprar. Eu havia passado mais da metade da minha vida em camas que serviriam melhor a alguém que tivesse o corpo na forma de uma minhoca.
Sara havia construído a própria cama e ela iria construir outra igual para mim. Uma plataforma sólida de madeira, suportada por sete pés quádruplos (o sétimo colocado diretamente no meio), coberta por uma camada de espuma firme de dez centímetros. Sara tinha umas boas ideias. Eu segurava as tábuas, e Sara assentava os pregos. Era boa com o martelo. Pesava apenas 52 quilos, mas mandava ver nos pregos. A cama ficaria ótima.
Não levou muito para que Sara terminasse.
Então testamos a cama – não sexualmente – sob o sorriso auspicioso de Drayer Baba.
Saímos de carro em busca de uma árvore de Natal. Não estava muito a fim de encontrá-la (o Natal sempre havia sido uma época infeliz na minha infância), e, quando vimos todos os canteiros vazios, não ter uma árvore não foi algo que me incomodou. Enquanto voltávamos, Sara ficou triste. Mas depois de entrarmos e de alguns copos de vinho ela recuperou a alegria e começou a pendurar os arranjos de natal, lampadinhas, purpurina, por toda parte, inclusive nos meus cabelos.
Tinha lido em algum lugar que mais pessoas cometiam suicídio no Natal e na noite do Ano-Novo do que em qualquer outra época. Aparentemente, este feriado nada tinha a ver com o Nascimento de Cristo.
As músicas no rádio eram de dar engulhos no estomago e na tevê a coisa era ainda pior, então desligamos tudo e ela ligou para a mãe no Maine. Falei com a mamãe também, e ela não era das piores.
– No começo – disse Sara –, pensei em ajeitar as coisas entre você e mamãe, mas ela é mais velha do que você.
– Esqueça.
– Ela tem ótimas pernas.
– Esqueça.
– Você tem preconceito contra pessoas mais velhas?
– Sim, contra todos os velhos exceto eu.
– Você age como se fosse uma estrela de cinema. Você sempre teve mulheres 20 ou 30 anos mais novas que você?
– Não quando estava na casa dos vinte.
– Tudo bem. Você já teve alguma mulher que fosse mais velha que você, quero dizer, chegou a viver com ela?
– Claro, quando eu tinha 25 vivi com uma mulher de 35.
– E como foi?
– Uma desgraça. Eu me apaixonei por ela.
– E isso é uma desgraça?
– Ela me fez ir pra faculdade.
– E isso é uma desgraça?
– Não era o tipo de faculdade que você está pensando. Ela era a faculdade, e eu o jovem estudante.
– O que aconteceu com ela?
– Acabei tendo que enterrá-la.
– Com as devidas honras? Você a matou?
– O trago a matou.
– Feliz Natal.
– Claro. Me fale de você.
– Passo.
– Muitas histórias?
– Muitas, e ao mesmo tempo tão poucas.
Trinta ou quarenta minutos depois alguém bateu à porta. Sara se levantou e foi abrir. Um símbolo sexual entrou. Na véspera de Natal. Não sabia quem ela era. Usava uma roupa preta e seus peitos enormes pareciam prestes a saltar para fora do vestido. Aquilo era magnífico. Nunca tinha visto peitos como aqueles, expostos dessa maneira, a não ser em filmes.
– Oi, Hank!
Ela me conhecia.
– Sou Edie. Você me conheceu na casa do Bobby numa noite dessas.
– Sério?
– Estava bêbado demais pra lembrar?
– Olá, Edie. Esta é Sara.
– Estou atrás do Bobby. Pensei que ele pudesse estar por aqui.
– Sente-se e beba alguma coisa.
Edie se sentou numa cadeira à minha direita, bem próxima a mim. Devia ter uns 25. Acendeu um cigarro e tomou um gole de sua bebida. Cada vez que ela se inclinava para frente sobre a mesinha de centro eu tinha certeza de que aconteceria, que os peitos saltariam para fora. E eu tinha medo do que faria caso isso acontecesse. Simplesmente não conseguia entender nada. Nunca tinha sido um homem ligado em peitos, sempre fui chegado em pernas. Mas Edie sabia mesmo explorar o que possuía. Eu estava com medo e olhava de canto para seus peitos sem saber se queria que eles saltassem para fora ou que ficassem onde estavam.
– Você conheceu o Manny – ela me disse – lá na casa do Bobby?
– Claro.
– Tive que lhe dar um pé na bunda. O cara era muito ciumento. Chegou a contratar um detetive particular pra me seguir! Imagine só! O cara é um retardado de merda!
– Claro.
– Odeio homens que ficam mendigando atenção. Odeio gente mesquinha!
– É difícil encontrar um homem bom nos dias de hoje – eu disse. – É uma canção. Dos tempos da Segunda Guerra. Também tinha uma outra: “Não sente debaixo de uma macieira com outra pessoa que não seja eu”.
– Hank, você está gaguejando... – disse Sara.
– Tome outro drinque, Edie – eu disse, servindo-lhe mais uma dose.
– Os homens não passam de uns merdas! – continuou. – Entrei num bar dia desses. Estava com quatro caras, amigos do peito. Sentamos por ali, virando umas canecas de chope, estávamos rindo, sabe, curtindo o momento, não estávamos incomodando ninguém. Então me veio a ideia de jogar uma partidinha de bilhar. Gosto de jogar bilhar. Acho que quando uma mulher joga bilhar ela mostra se tem classe ou não.
– Não sei jogar bilhar – eu disse. – Sempre rasgo o feltro, e nem preciso ter classe.
– Seja o que for, fui até a mesa e lá estava um cara jogando bilhar sozinho. Cheguei nele e disse: “Escute, você já está nessa mesa há um tempão. Eu e meus amigos queremos jogar um pouquinho. Você se importa de liberar a mesa por um momento?” Ele se virou e olhou pra mim. Ficou ali parado. Por fim, fez uma cara enjoada e disse: “Tudo bem”.
Edie se animou e se mexia toda ao falar. Eu só espiando aquelas maravilhas.
– Voltei atrás dos meus amigos. “Conseguimos a mesa.” Finalmente o cara estava apenas com uma bola na mesa. Foi quando chegou um amigo dele e disse: “Ei, Ernie, soube que você vai sair da mesa”. E vocês sabem o que ele disse para o outro? Disse: “Sim, vou deixar a mesa nas mãos daquela piranha!” Escutei aquilo e vi tudo ficar VERMELHO! O cara já se inclinava sobre a mesa pra bater na última bola. Apanhei um taco e enquanto ele estava naquela posição acertei sua cabeça com toda a força que pude. O cara caiu sobre a mesa como se estivesse morto. Era conhecido no bar, e então os seus amigos, em grupo, correram na minha direção, mas, ao mesmo tempo, os meus parceiros também se aproximaram. Rapaz, que quebra-pau! Garrafas espatifando, espelhos quebrados... Não sei como saímos de lá, mas saímos. Ei, você tem erva aí?
– Sim, mas não sei fechar muito bem.
– Deixa que eu cuido disso.
Edie fechou um baseado fininho, obra de mestre. Deu um pega, tragando-o com um chiado, e então passou para mim.
– Então, na noite seguinte, eu voltei lá sozinha. O dono, que atendia no bar, me reconheceu. Seu nome é Claude. “Claude”, eu lhe disse, “sinto muito por ontem à noite, mas o cara na mesa era um otário de merda. Ele me chamou de piranha.”
Servi mais uma rodada. Mais alguns minutos e seus seios estariam à mostra.
– O dono disse: “Tudo bem, esqueça”. Ele parecia um cara legal. “O que você gosta de beber?”, ele me perguntou. Fiquei ali pelo bar, tomei duas ou três bebidas de graça, e então ele disse: “Sabe, estou pensando em trocar de garçonete”.
Edie deu um pega no baseado e continuou.
– Ele me falou dos problemas com a outra garçonete. “Ela atrai os homens até, mas causa muita confusão. Joga um cara contra o outro. Está sempre debaixo dos holofotes. Então descobri que ela estava fazendo uma graninha por fora. Usava o MEU bar pra faturar com sua buceta!”
– Sério? – perguntou Sara.
– Foi o que ele disse. De todo modo, me ofereceu a vaga de garçonete. E ele disse: “Nada de querer faturar um extra!” Disse pra ele parar com essa bobagem, eu não era dessa laia. Pensei, então, que talvez pudesse guardar algum dinheiro e ir pra UCLA, para me formar em química e estudar francês, que foi o que sempre planejei. Então ele disse: “Venha até aqui, quero lhe mostrar onde estocamos as mercadorias e tenho inclusive um uniforme que quero que você experimente. Nunca foi usado e acho que é do seu tamanho.” Então fui com ele até esse quartinho escuro e ele tentou me agarrar. Dei um empurrão nele. Então ele disse: “Me dá só um beijinho”. “Vai se foder!”, eu disse. Ele era gordo e careca e baixinho e usava dentadura e tinha verrugas pretas nas bochechas, com pelos saindo delas. Ele me prensou e agarrou a minha bunda com uma das mãos e com a outra um dos meus peitos, tentando me dar um beijo. Empurrei ele outra vez. “Eu sou casado”, ele disse, “amo a minha mulher, não se preocupe!” Voltou a me prensar e eu lhe dei um joelhaço você-sabe-onde. Acho que ele não tinha nada por ali, não chegou nem a se encolher. “Eu lhe dou dinheiro”, ele disse, “vou ser legal com você!” Disse pra ele enfiar o dinheiro no cu. E assim perdi mais um emprego.
– É uma história triste – eu disse.
– Escute – disse Edie –, tenho que ir. Feliz Natal. Obrigada pelas bebidas.
Ela se levantou e a acompanhei até a porta, abrindo-a. Ela saiu e atravessou o pátio. Voltei e me sentei.
– Seu filho da puta – disse Sara.
– O que foi?
– Se eu não estivesse aqui você teria trepado com ela.
– Eu mal conheço essa mulher.
– Aqueles peitos! Você estava petrificado! Você não tinha coragem nem de olhar pra ela!
– O que será que ela fazia por aí, vagando na véspera de Natal?
– Por que você não vai lá e pergunta pra ela?
– Ela disse que estava atrás do Bobby.
– Se eu não estivesse aqui você teria trepado com ela.
– Não sei. Não tenho como saber...
Então Sara se levantou e começou a gritar. E começou a soluçar e foi para o quarto. Me servi mais um drinque. As lampadinhas nas paredes não paravam de piscar.
Sara preparava o recheio do peru, e eu fiquei na cozinha com ela, conversando. Tomávamos um vinho branco.
O telefone tocou. Fui atender. Era Debra.
– Queria apenas desejar pra você um feliz Natal, seu macarrão molhado.
– Obrigado, Debra. E um bom Papai Noel pra você
Conversamos um pouco, depois voltei e me sentei.
– Quem era?
– Debra.
– Como ela está?
– Bem, eu acho.
– O que ela queria?
– Desejar feliz Natal.
– Você vai gostar desse peru orgânico, e o recheio também é bom. As pessoas comem veneno, veneno puro. A América é um dos poucos países onde o câncer de colón é predominante.
– Pois é, meu cu coça um monte, mas são só as minhas hemorroidas. Operei uma vez. Antes de operar eles enfiam essa cobra no seu intestino, com uma luzinha na ponta e eles olham dentro de você, pra ver se encontram algum câncer. Essa cobra é muito cumprida. Eles apenas pegam e enfiam a coisa dentro de você!
O telefone voltou a tocar. Fui lá atender. Era Cassie.
– Como vai você?
– Sara e eu estamos preparando um peru.
– Sinto sua falta.
– Feliz Natal pra você também. Como vai o trabalho?
– Tudo bem. Estou de folga até o dia 2 de janeiro.
– Feliz Ano-Novo, Cassie!
– Que diabos há com você?
– Estou um pouco aéreo. Não estou acostumado a beber vinho branco a essa hora.
– Me liga qualquer hora dessas.
– Claro.
Retornei à cozinha.
– Era a Cassie. As pessoas ligam no Natal. Talvez Drayer Baba ligue.
– Não vai ligar.
– Por quê?
– Nunca falou em voz alta. Nunca falou e também nunca tocou em dinheiro.
– Mas que beleza. Deixa eu provar um pouco desse recheio.
– Ok.
– Vamos ver... Nada mal!
O telefone tocou mais uma vez. Era assim que o negócio funcionava. Uma vez que começasse a tocar, não parava mais. Fui até o quarto e atendi.
– Alô – eu disse. – Quem está falando?
– Seu filho da puta. Não sabe quem é?
– Não, não sei mesmo.
Era uma mulher bêbada.
– Adivinha.
– Espera. Já sei! É Iris!
– Sim, Iris. E estou grávida!
– Sabe quem é o pai?
– Que diferença isso faz?
– É, acho que você está certa. Como estão as coisas em Vancouver?
– Tudo bem. Tchau.
– Tchau.
Voltei mais uma vez para a cozinha.
– Era aquela canadense, dançarina do ventre – eu disse a Sara.
– Como ela está?
– Empanturrada pela alegria natalina.
Sara colocou o peru no forno e fomos para a sala. Ficamos falando bobagem por algum tempo. O telefone tocou outra vez.
– Alô – eu disse.
– Você é Henry Chinaski? – A voz era de um jovem.
– Sim.
– Você é mesmo Henry Chinaski, o escritor?
– Sim.
– De verdade?
– Claro.
– Bem, nós somos uma galera de Bel Air e nós realmente achamos do caralho o que você escreve, cara! Gostamos tanto da porra dos seus textos que queremos recompensá-lo, cara!
– É mesmo?
– Sim, vamos pintar aí com umas cevas e tal.
– Enfie a cerveja no cu.
– O quê?
– Eu disse: “Enfie a cerveja no cu!”
Desliguei.
– Quem era? – perguntou Sara.
– Acabo de perder três ou quatro leitores em Bel Air. Mas valeu a pena.
O peru ficou pronto e eu o tirei do forno, coloquei-o numa travessa, tirei a máquina de escrever e todos os meus papéis de cima da mesa da cozinha, e ajeitei o peru ali. Comecei a destrinchá-lo enquanto Sara trazia os vegetais. Sentamos. Enchi meu prato, Sara, o dela. Era uma visão bonita.
– Espero que aquela peituda não resolva voltar – disse Sara. Parecia bastante incomodada diante da possibilidade.
– Se ela aparecer, ofereço um pedaço.
– O quê?
Apontei para o peru.
– Eu disse que “se ela aparecer, ofereço um pedaço”. Espere pra ver se não faço isso.
Sara gritou. Ficou de pé. Tremia. Correu até o quarto. Olhei para meu peru. Não conseguiria comê-lo. Mais uma vez, apertara o botão errado. Fui até a sala com meu drinque e me sentei. Esperei 15 minutos e então coloquei o peru e os vegetais na geladeira.
Sara voltou para a sua casa no dia seguinte, e eu fiz um sanduíche de peru frio por volta das três. Por volta das cinco, houve uma pancada terrível na porta. Abri. Eram Tammie e Arlene. Estavam totalmente emboletadas. Entraram e começaram a aloprar, as duas falando ao mesmo tempo.
– Tem alguma coisa pra beber?
– Caralho, Hank, tem alguma porra pra beber?
– Como foi a merda do seu Natal?
– É. Como foi a merda do seu Natal, cara?
– Tem cerveja e vinho na frigidaire – eu lhes disse.
(É fácil reconhecer um coroa: ele chama geladeira de frigidaire.)
Entraram dançando na cozinha e abriram a frigidaire.
– Ei, tem um peru aqui!
– Estamos com fome, Hank! Podemos comer um pouco de peru?
– Claro.
Tammie voltou com uma coxa e deu uma mordida.
– Ei, que peru horrível! Precisa temperar!
Arlene voltou com fatias de carne nas mãos.
– É, precisa pôr tempero. Está totalmente insosso! Você tem temperos?
– No armário – eu disse.
Voltaram aos pulos para a cozinha e começaram a pôr os temperos.
– Aí! Bem melhor!
– É, agora tem gosto de alguma coisa!
– Peru orgânico, que bela merda!
– Merda pura!
– Quero mais um pedaço!
– Eu também. Mas tem que temperar.
Tammie voltou e se sentou. Ela recém terminara a coxa. Então pegou o osso, partiu-o ao meio, e começou a mastigá-lo. Fiquei pasmo. Ela estava comendo o osso da coxa, cuspindo umas lasquinhas no tapete.
– Ei, você está comendo o osso!
– Sim, é uma delícia!
Tammie voltou correndo à cozinha para pegar mais.
Logo as duas apareceram, cada uma com uma garrafa de cerveja.
– Obrigada, Hank.
– É, obrigada, cara.
Elas sentaram, mamando as cervejas.
– Bem – disse Tammie –, está na nossa hora.
– É, vamos estuprar alguns garotinhos do ensino médio!
– É isso aí!
As duas se levantaram num salto e saíram porta afora. Fui até a cozinha e olhei dentro da geladeira. O peru parecia ter sido atacado por um tigre – a carcaça havia sido simplesmente dilacerada. Chegava a ser obsceno.
Sara apareceu na noite seguinte.
– Que tal o peru? – ela perguntou.
– Bom.
Ela foi até a cozinha e abriu a porta da geladeira. Gritou. Então voltou correndo.
– Meu deus, o que aconteceu?
– Tammie e Arlene deram uma passada aqui. Acho que não comiam há uma semana.
– Ai, que nojo. É de partir o coração!
– Me desculpe. Eu devia ter impedido as duas. Estavam emboletadas.
– Bem, só resta uma coisa a fazer.
– O quê?
– Posso fazer um ensopado de peru. Vou comprar alguns vegetais.
– Tudo bem.
Dei-lhe uma nota de vinte.
Sara preparou a sopa naquela noite. Estava deliciosa. Ao ir embora pela manhã, deixou-me as instruções sobre como aquecê-la.
Tammie bateu à porta por volta das quatro horas. Deixei-a entrar e ela foi direto até a cozinha. A porta da geladeira se abriu.
– Olha só, sopa, então?
– Sim.
– Está boa?
– Sim.
– Você se importa se eu tomar um pouquinho?
– Não.
Pude ouvi-la levar a sopa ao fogão. Depois o som de uma colherada.
– Deus! Esse negócio não tem gosto de nada! Precisa de tempero!
Escutei-a mexer nos temperos. Então ela voltou a experimentar.
– Ah, outra coisa! Mas ainda é pouco! Sou de origem italiana, você sabe. Agora... Sim... Está bem melhor! Agora é só deixar esquentar. Posso tomar uma cerveja?
– Tudo bem.
Voltou com uma garrafa e se sentou.
– Sentiu minha falta? – perguntou.
– Você nunca saberá.
– Acho que vou recuperar meu emprego no Play Pen.
– Ótimo.
– Lá rola umas boas gorjetas. Um cara aí me dava cinco dólares de gorjeta por noite. Estava apaixonado por mim. Mas nunca me convidou pra sair. Ficava apenas me olhando com uns olhos cheios de ternura. Era um tipo estranho. Era cirurgião retal e às vezes se masturbava me vendo caminhar de um lado pro outro. Dava pra sentir o cheiro de porra, sabe.
– Bem, você deixou o cara nesse estado...
– Acho que a sopa está pronta. Quer um pouco?
– Não, obrigado.
Tammie entrou na cozinha e dava para ouvi-la servindo a sopa no prato. Ficou lá por um longo tempo. Então retornou.
– Tem como me emprestar cinco paus até sexta-feira?
– Não.
– Então dois paus.
– Não.
– Então me descola um dólar mesmo.
Dei a Tammie um punhado de moedas. Totalizavam um dólar e 37 centavos.
– Obrigada – ela disse.
– Tudo bem.
Depois disso, ela se foi.
Sara apareceu na noite seguinte. Raramente vinha assim tão seguido, devia ter algo a ver com o feriado de final de ano, todo mundo se sente perdido, meio louco, assustado. O vinho branco estava preparado e servi dois copos.
– Como vão as coisas na Pousada? – perguntei.
– Ter um negócio é uma merda. Mal dá pra pagar as despesas.
– Onde estão os hóspedes?
– Estão todos fora da cidade; foram todos pra algum lugar.
– Todos os nossos esquemas têm seus furos.
– Nem todos. Algumas pessoas simplesmente não erram nunca, seguem sempre em frente.
– Verdade.
– E a sopa?
– Quase no fim.
– Gostou?
– Não cheguei a tomar muito.
Sara foi até a cozinha e abriu a porta da geladeira.
– O que aconteceu com a sopa? Está com uma cara estranha.
Escutei o som que ela fez ao prová-la. E então como correu até a pia e cuspiu o que estava na boca.
–Jesus, a sopa está envenenada! O que aconteceu? Tammie e Arlene voltaram para tomar a sopa também?
– Só a Tammie.
Sara não gritou. Apenas virou o que sobrara da sopa na pia e acionou o triturador de lixo. Podia escutar seus soluços mal disfarçados. Aquele pobre peru orgânico tinha passado um Natal dos diabos.
– Mulheres
que segue comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que finalmente se encaixam
numa espécie de ordem.
ela se dedica à questão
de modo matemático
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive perto do mar
põe açúcar para as formigas lá fora
e acredita
definitivamente
num mundo melhor.
seu cabelo é branco
raramente o penteia
seus dentes são podres
e ela veste macacões frouxos
e amorfos sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
ao longo de muitos anos ela me irritou
com o que eu considerava suas
excentricidades:
como mergulhar conchas na água
(para que ao regar as plantas elas
recebessem cálcio).
mas finalmente quando penso na sua
vida
e a comparo a outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer outra pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela enfrentou alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
porque era a mãe da minha única
filha
e uma vez fôramos grandes amantes,
mas ela havia superado essas dificuldades
como eu disse
das pessoas que conheço ela foi a que machucou
menos gente,
e se você olhar para isso pelo que isso significa,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
Frances, este poema é pra
você.
Encontrava Sara a cada três ou quatro dias, na casa dela ou na minha. Dormíamos juntos, mas não transávamos. Chegávamos perto, mas nunca às vias de fato. Os preceitos de Drayer Baba eram inabaláveis.
Decidimos passar os feriados de final de ano juntos aqui em casa, o Natal e o Ano-Novo.
Sara chegou por volta do meio-dia, no dia 24, em sua Kombi. Fiquei olhando-a estacionar, depois saí em seu encontro. Trazia várias ripas de madeira amarradas sobre o teto da Kombi. Era meu presente de Natal: ela faria uma cama para mim. Minha cama era uma piada: um simples box de mola com o interior saltando para fora do colchão. Sara também trouxe um peru orgânico, mais os acompanhamentos. Eu tinha ficado de pagar essas compras mais o vinho branco. Além disso, havia umas lembrancinhas que iríamos trocar.
Carregamos as ripas de madeira e o peru e as outras coisas. Coloquei o box, o colchão e a guarda da cama do lado de fora e coloquei um cartaz: “Grátis”. A guarda foi primeiro, o box em seguida, e finalmente alguém levou o colchão. Era uma vizinhança pobre.
Eu tinha visto a cama de Sara na casa dela, dormira nela, e tinha gostado. Nunca tinha gostado dos colchões comuns, ao menos dos que eu podia comprar. Eu havia passado mais da metade da minha vida em camas que serviriam melhor a alguém que tivesse o corpo na forma de uma minhoca.
Sara havia construído a própria cama e ela iria construir outra igual para mim. Uma plataforma sólida de madeira, suportada por sete pés quádruplos (o sétimo colocado diretamente no meio), coberta por uma camada de espuma firme de dez centímetros. Sara tinha umas boas ideias. Eu segurava as tábuas, e Sara assentava os pregos. Era boa com o martelo. Pesava apenas 52 quilos, mas mandava ver nos pregos. A cama ficaria ótima.
Não levou muito para que Sara terminasse.
Então testamos a cama – não sexualmente – sob o sorriso auspicioso de Drayer Baba.
Saímos de carro em busca de uma árvore de Natal. Não estava muito a fim de encontrá-la (o Natal sempre havia sido uma época infeliz na minha infância), e, quando vimos todos os canteiros vazios, não ter uma árvore não foi algo que me incomodou. Enquanto voltávamos, Sara ficou triste. Mas depois de entrarmos e de alguns copos de vinho ela recuperou a alegria e começou a pendurar os arranjos de natal, lampadinhas, purpurina, por toda parte, inclusive nos meus cabelos.
Tinha lido em algum lugar que mais pessoas cometiam suicídio no Natal e na noite do Ano-Novo do que em qualquer outra época. Aparentemente, este feriado nada tinha a ver com o Nascimento de Cristo.
As músicas no rádio eram de dar engulhos no estomago e na tevê a coisa era ainda pior, então desligamos tudo e ela ligou para a mãe no Maine. Falei com a mamãe também, e ela não era das piores.
– No começo – disse Sara –, pensei em ajeitar as coisas entre você e mamãe, mas ela é mais velha do que você.
– Esqueça.
– Ela tem ótimas pernas.
– Esqueça.
– Você tem preconceito contra pessoas mais velhas?
– Sim, contra todos os velhos exceto eu.
– Você age como se fosse uma estrela de cinema. Você sempre teve mulheres 20 ou 30 anos mais novas que você?
– Não quando estava na casa dos vinte.
– Tudo bem. Você já teve alguma mulher que fosse mais velha que você, quero dizer, chegou a viver com ela?
– Claro, quando eu tinha 25 vivi com uma mulher de 35.
– E como foi?
– Uma desgraça. Eu me apaixonei por ela.
– E isso é uma desgraça?
– Ela me fez ir pra faculdade.
– E isso é uma desgraça?
– Não era o tipo de faculdade que você está pensando. Ela era a faculdade, e eu o jovem estudante.
– O que aconteceu com ela?
– Acabei tendo que enterrá-la.
– Com as devidas honras? Você a matou?
– O trago a matou.
– Feliz Natal.
– Claro. Me fale de você.
– Passo.
– Muitas histórias?
– Muitas, e ao mesmo tempo tão poucas.
Trinta ou quarenta minutos depois alguém bateu à porta. Sara se levantou e foi abrir. Um símbolo sexual entrou. Na véspera de Natal. Não sabia quem ela era. Usava uma roupa preta e seus peitos enormes pareciam prestes a saltar para fora do vestido. Aquilo era magnífico. Nunca tinha visto peitos como aqueles, expostos dessa maneira, a não ser em filmes.
– Oi, Hank!
Ela me conhecia.
– Sou Edie. Você me conheceu na casa do Bobby numa noite dessas.
– Sério?
– Estava bêbado demais pra lembrar?
– Olá, Edie. Esta é Sara.
– Estou atrás do Bobby. Pensei que ele pudesse estar por aqui.
– Sente-se e beba alguma coisa.
Edie se sentou numa cadeira à minha direita, bem próxima a mim. Devia ter uns 25. Acendeu um cigarro e tomou um gole de sua bebida. Cada vez que ela se inclinava para frente sobre a mesinha de centro eu tinha certeza de que aconteceria, que os peitos saltariam para fora. E eu tinha medo do que faria caso isso acontecesse. Simplesmente não conseguia entender nada. Nunca tinha sido um homem ligado em peitos, sempre fui chegado em pernas. Mas Edie sabia mesmo explorar o que possuía. Eu estava com medo e olhava de canto para seus peitos sem saber se queria que eles saltassem para fora ou que ficassem onde estavam.
– Você conheceu o Manny – ela me disse – lá na casa do Bobby?
– Claro.
– Tive que lhe dar um pé na bunda. O cara era muito ciumento. Chegou a contratar um detetive particular pra me seguir! Imagine só! O cara é um retardado de merda!
– Claro.
– Odeio homens que ficam mendigando atenção. Odeio gente mesquinha!
– É difícil encontrar um homem bom nos dias de hoje – eu disse. – É uma canção. Dos tempos da Segunda Guerra. Também tinha uma outra: “Não sente debaixo de uma macieira com outra pessoa que não seja eu”.
– Hank, você está gaguejando... – disse Sara.
– Tome outro drinque, Edie – eu disse, servindo-lhe mais uma dose.
– Os homens não passam de uns merdas! – continuou. – Entrei num bar dia desses. Estava com quatro caras, amigos do peito. Sentamos por ali, virando umas canecas de chope, estávamos rindo, sabe, curtindo o momento, não estávamos incomodando ninguém. Então me veio a ideia de jogar uma partidinha de bilhar. Gosto de jogar bilhar. Acho que quando uma mulher joga bilhar ela mostra se tem classe ou não.
– Não sei jogar bilhar – eu disse. – Sempre rasgo o feltro, e nem preciso ter classe.
– Seja o que for, fui até a mesa e lá estava um cara jogando bilhar sozinho. Cheguei nele e disse: “Escute, você já está nessa mesa há um tempão. Eu e meus amigos queremos jogar um pouquinho. Você se importa de liberar a mesa por um momento?” Ele se virou e olhou pra mim. Ficou ali parado. Por fim, fez uma cara enjoada e disse: “Tudo bem”.
Edie se animou e se mexia toda ao falar. Eu só espiando aquelas maravilhas.
– Voltei atrás dos meus amigos. “Conseguimos a mesa.” Finalmente o cara estava apenas com uma bola na mesa. Foi quando chegou um amigo dele e disse: “Ei, Ernie, soube que você vai sair da mesa”. E vocês sabem o que ele disse para o outro? Disse: “Sim, vou deixar a mesa nas mãos daquela piranha!” Escutei aquilo e vi tudo ficar VERMELHO! O cara já se inclinava sobre a mesa pra bater na última bola. Apanhei um taco e enquanto ele estava naquela posição acertei sua cabeça com toda a força que pude. O cara caiu sobre a mesa como se estivesse morto. Era conhecido no bar, e então os seus amigos, em grupo, correram na minha direção, mas, ao mesmo tempo, os meus parceiros também se aproximaram. Rapaz, que quebra-pau! Garrafas espatifando, espelhos quebrados... Não sei como saímos de lá, mas saímos. Ei, você tem erva aí?
– Sim, mas não sei fechar muito bem.
– Deixa que eu cuido disso.
Edie fechou um baseado fininho, obra de mestre. Deu um pega, tragando-o com um chiado, e então passou para mim.
– Então, na noite seguinte, eu voltei lá sozinha. O dono, que atendia no bar, me reconheceu. Seu nome é Claude. “Claude”, eu lhe disse, “sinto muito por ontem à noite, mas o cara na mesa era um otário de merda. Ele me chamou de piranha.”
Servi mais uma rodada. Mais alguns minutos e seus seios estariam à mostra.
– O dono disse: “Tudo bem, esqueça”. Ele parecia um cara legal. “O que você gosta de beber?”, ele me perguntou. Fiquei ali pelo bar, tomei duas ou três bebidas de graça, e então ele disse: “Sabe, estou pensando em trocar de garçonete”.
Edie deu um pega no baseado e continuou.
– Ele me falou dos problemas com a outra garçonete. “Ela atrai os homens até, mas causa muita confusão. Joga um cara contra o outro. Está sempre debaixo dos holofotes. Então descobri que ela estava fazendo uma graninha por fora. Usava o MEU bar pra faturar com sua buceta!”
– Sério? – perguntou Sara.
– Foi o que ele disse. De todo modo, me ofereceu a vaga de garçonete. E ele disse: “Nada de querer faturar um extra!” Disse pra ele parar com essa bobagem, eu não era dessa laia. Pensei, então, que talvez pudesse guardar algum dinheiro e ir pra UCLA, para me formar em química e estudar francês, que foi o que sempre planejei. Então ele disse: “Venha até aqui, quero lhe mostrar onde estocamos as mercadorias e tenho inclusive um uniforme que quero que você experimente. Nunca foi usado e acho que é do seu tamanho.” Então fui com ele até esse quartinho escuro e ele tentou me agarrar. Dei um empurrão nele. Então ele disse: “Me dá só um beijinho”. “Vai se foder!”, eu disse. Ele era gordo e careca e baixinho e usava dentadura e tinha verrugas pretas nas bochechas, com pelos saindo delas. Ele me prensou e agarrou a minha bunda com uma das mãos e com a outra um dos meus peitos, tentando me dar um beijo. Empurrei ele outra vez. “Eu sou casado”, ele disse, “amo a minha mulher, não se preocupe!” Voltou a me prensar e eu lhe dei um joelhaço você-sabe-onde. Acho que ele não tinha nada por ali, não chegou nem a se encolher. “Eu lhe dou dinheiro”, ele disse, “vou ser legal com você!” Disse pra ele enfiar o dinheiro no cu. E assim perdi mais um emprego.
– É uma história triste – eu disse.
– Escute – disse Edie –, tenho que ir. Feliz Natal. Obrigada pelas bebidas.
Ela se levantou e a acompanhei até a porta, abrindo-a. Ela saiu e atravessou o pátio. Voltei e me sentei.
– Seu filho da puta – disse Sara.
– O que foi?
– Se eu não estivesse aqui você teria trepado com ela.
– Eu mal conheço essa mulher.
– Aqueles peitos! Você estava petrificado! Você não tinha coragem nem de olhar pra ela!
– O que será que ela fazia por aí, vagando na véspera de Natal?
– Por que você não vai lá e pergunta pra ela?
– Ela disse que estava atrás do Bobby.
– Se eu não estivesse aqui você teria trepado com ela.
– Não sei. Não tenho como saber...
Então Sara se levantou e começou a gritar. E começou a soluçar e foi para o quarto. Me servi mais um drinque. As lampadinhas nas paredes não paravam de piscar.
Sara preparava o recheio do peru, e eu fiquei na cozinha com ela, conversando. Tomávamos um vinho branco.
O telefone tocou. Fui atender. Era Debra.
– Queria apenas desejar pra você um feliz Natal, seu macarrão molhado.
– Obrigado, Debra. E um bom Papai Noel pra você
Conversamos um pouco, depois voltei e me sentei.
– Quem era?
– Debra.
– Como ela está?
– Bem, eu acho.
– O que ela queria?
– Desejar feliz Natal.
– Você vai gostar desse peru orgânico, e o recheio também é bom. As pessoas comem veneno, veneno puro. A América é um dos poucos países onde o câncer de colón é predominante.
– Pois é, meu cu coça um monte, mas são só as minhas hemorroidas. Operei uma vez. Antes de operar eles enfiam essa cobra no seu intestino, com uma luzinha na ponta e eles olham dentro de você, pra ver se encontram algum câncer. Essa cobra é muito cumprida. Eles apenas pegam e enfiam a coisa dentro de você!
O telefone voltou a tocar. Fui lá atender. Era Cassie.
– Como vai você?
– Sara e eu estamos preparando um peru.
– Sinto sua falta.
– Feliz Natal pra você também. Como vai o trabalho?
– Tudo bem. Estou de folga até o dia 2 de janeiro.
– Feliz Ano-Novo, Cassie!
– Que diabos há com você?
– Estou um pouco aéreo. Não estou acostumado a beber vinho branco a essa hora.
– Me liga qualquer hora dessas.
– Claro.
Retornei à cozinha.
– Era a Cassie. As pessoas ligam no Natal. Talvez Drayer Baba ligue.
– Não vai ligar.
– Por quê?
– Nunca falou em voz alta. Nunca falou e também nunca tocou em dinheiro.
– Mas que beleza. Deixa eu provar um pouco desse recheio.
– Ok.
– Vamos ver... Nada mal!
O telefone tocou mais uma vez. Era assim que o negócio funcionava. Uma vez que começasse a tocar, não parava mais. Fui até o quarto e atendi.
– Alô – eu disse. – Quem está falando?
– Seu filho da puta. Não sabe quem é?
– Não, não sei mesmo.
Era uma mulher bêbada.
– Adivinha.
– Espera. Já sei! É Iris!
– Sim, Iris. E estou grávida!
– Sabe quem é o pai?
– Que diferença isso faz?
– É, acho que você está certa. Como estão as coisas em Vancouver?
– Tudo bem. Tchau.
– Tchau.
Voltei mais uma vez para a cozinha.
– Era aquela canadense, dançarina do ventre – eu disse a Sara.
– Como ela está?
– Empanturrada pela alegria natalina.
Sara colocou o peru no forno e fomos para a sala. Ficamos falando bobagem por algum tempo. O telefone tocou outra vez.
– Alô – eu disse.
– Você é Henry Chinaski? – A voz era de um jovem.
– Sim.
– Você é mesmo Henry Chinaski, o escritor?
– Sim.
– De verdade?
– Claro.
– Bem, nós somos uma galera de Bel Air e nós realmente achamos do caralho o que você escreve, cara! Gostamos tanto da porra dos seus textos que queremos recompensá-lo, cara!
– É mesmo?
– Sim, vamos pintar aí com umas cevas e tal.
– Enfie a cerveja no cu.
– O quê?
– Eu disse: “Enfie a cerveja no cu!”
Desliguei.
– Quem era? – perguntou Sara.
– Acabo de perder três ou quatro leitores em Bel Air. Mas valeu a pena.
O peru ficou pronto e eu o tirei do forno, coloquei-o numa travessa, tirei a máquina de escrever e todos os meus papéis de cima da mesa da cozinha, e ajeitei o peru ali. Comecei a destrinchá-lo enquanto Sara trazia os vegetais. Sentamos. Enchi meu prato, Sara, o dela. Era uma visão bonita.
– Espero que aquela peituda não resolva voltar – disse Sara. Parecia bastante incomodada diante da possibilidade.
– Se ela aparecer, ofereço um pedaço.
– O quê?
Apontei para o peru.
– Eu disse que “se ela aparecer, ofereço um pedaço”. Espere pra ver se não faço isso.
Sara gritou. Ficou de pé. Tremia. Correu até o quarto. Olhei para meu peru. Não conseguiria comê-lo. Mais uma vez, apertara o botão errado. Fui até a sala com meu drinque e me sentei. Esperei 15 minutos e então coloquei o peru e os vegetais na geladeira.
Sara voltou para a sua casa no dia seguinte, e eu fiz um sanduíche de peru frio por volta das três. Por volta das cinco, houve uma pancada terrível na porta. Abri. Eram Tammie e Arlene. Estavam totalmente emboletadas. Entraram e começaram a aloprar, as duas falando ao mesmo tempo.
– Tem alguma coisa pra beber?
– Caralho, Hank, tem alguma porra pra beber?
– Como foi a merda do seu Natal?
– É. Como foi a merda do seu Natal, cara?
– Tem cerveja e vinho na frigidaire – eu lhes disse.
(É fácil reconhecer um coroa: ele chama geladeira de frigidaire.)
Entraram dançando na cozinha e abriram a frigidaire.
– Ei, tem um peru aqui!
– Estamos com fome, Hank! Podemos comer um pouco de peru?
– Claro.
Tammie voltou com uma coxa e deu uma mordida.
– Ei, que peru horrível! Precisa temperar!
Arlene voltou com fatias de carne nas mãos.
– É, precisa pôr tempero. Está totalmente insosso! Você tem temperos?
– No armário – eu disse.
Voltaram aos pulos para a cozinha e começaram a pôr os temperos.
– Aí! Bem melhor!
– É, agora tem gosto de alguma coisa!
– Peru orgânico, que bela merda!
– Merda pura!
– Quero mais um pedaço!
– Eu também. Mas tem que temperar.
Tammie voltou e se sentou. Ela recém terminara a coxa. Então pegou o osso, partiu-o ao meio, e começou a mastigá-lo. Fiquei pasmo. Ela estava comendo o osso da coxa, cuspindo umas lasquinhas no tapete.
– Ei, você está comendo o osso!
– Sim, é uma delícia!
Tammie voltou correndo à cozinha para pegar mais.
Logo as duas apareceram, cada uma com uma garrafa de cerveja.
– Obrigada, Hank.
– É, obrigada, cara.
Elas sentaram, mamando as cervejas.
– Bem – disse Tammie –, está na nossa hora.
– É, vamos estuprar alguns garotinhos do ensino médio!
– É isso aí!
As duas se levantaram num salto e saíram porta afora. Fui até a cozinha e olhei dentro da geladeira. O peru parecia ter sido atacado por um tigre – a carcaça havia sido simplesmente dilacerada. Chegava a ser obsceno.
Sara apareceu na noite seguinte.
– Que tal o peru? – ela perguntou.
– Bom.
Ela foi até a cozinha e abriu a porta da geladeira. Gritou. Então voltou correndo.
– Meu deus, o que aconteceu?
– Tammie e Arlene deram uma passada aqui. Acho que não comiam há uma semana.
– Ai, que nojo. É de partir o coração!
– Me desculpe. Eu devia ter impedido as duas. Estavam emboletadas.
– Bem, só resta uma coisa a fazer.
– O quê?
– Posso fazer um ensopado de peru. Vou comprar alguns vegetais.
– Tudo bem.
Dei-lhe uma nota de vinte.
Sara preparou a sopa naquela noite. Estava deliciosa. Ao ir embora pela manhã, deixou-me as instruções sobre como aquecê-la.
Tammie bateu à porta por volta das quatro horas. Deixei-a entrar e ela foi direto até a cozinha. A porta da geladeira se abriu.
– Olha só, sopa, então?
– Sim.
– Está boa?
– Sim.
– Você se importa se eu tomar um pouquinho?
– Não.
Pude ouvi-la levar a sopa ao fogão. Depois o som de uma colherada.
– Deus! Esse negócio não tem gosto de nada! Precisa de tempero!
Escutei-a mexer nos temperos. Então ela voltou a experimentar.
– Ah, outra coisa! Mas ainda é pouco! Sou de origem italiana, você sabe. Agora... Sim... Está bem melhor! Agora é só deixar esquentar. Posso tomar uma cerveja?
– Tudo bem.
Voltou com uma garrafa e se sentou.
– Sentiu minha falta? – perguntou.
– Você nunca saberá.
– Acho que vou recuperar meu emprego no Play Pen.
– Ótimo.
– Lá rola umas boas gorjetas. Um cara aí me dava cinco dólares de gorjeta por noite. Estava apaixonado por mim. Mas nunca me convidou pra sair. Ficava apenas me olhando com uns olhos cheios de ternura. Era um tipo estranho. Era cirurgião retal e às vezes se masturbava me vendo caminhar de um lado pro outro. Dava pra sentir o cheiro de porra, sabe.
– Bem, você deixou o cara nesse estado...
– Acho que a sopa está pronta. Quer um pouco?
– Não, obrigado.
Tammie entrou na cozinha e dava para ouvi-la servindo a sopa no prato. Ficou lá por um longo tempo. Então retornou.
– Tem como me emprestar cinco paus até sexta-feira?
– Não.
– Então dois paus.
– Não.
– Então me descola um dólar mesmo.
Dei a Tammie um punhado de moedas. Totalizavam um dólar e 37 centavos.
– Obrigada – ela disse.
– Tudo bem.
Depois disso, ela se foi.
Sara apareceu na noite seguinte. Raramente vinha assim tão seguido, devia ter algo a ver com o feriado de final de ano, todo mundo se sente perdido, meio louco, assustado. O vinho branco estava preparado e servi dois copos.
– Como vão as coisas na Pousada? – perguntei.
– Ter um negócio é uma merda. Mal dá pra pagar as despesas.
– Onde estão os hóspedes?
– Estão todos fora da cidade; foram todos pra algum lugar.
– Todos os nossos esquemas têm seus furos.
– Nem todos. Algumas pessoas simplesmente não erram nunca, seguem sempre em frente.
– Verdade.
– E a sopa?
– Quase no fim.
– Gostou?
– Não cheguei a tomar muito.
Sara foi até a cozinha e abriu a porta da geladeira.
– O que aconteceu com a sopa? Está com uma cara estranha.
Escutei o som que ela fez ao prová-la. E então como correu até a pia e cuspiu o que estava na boca.
–Jesus, a sopa está envenenada! O que aconteceu? Tammie e Arlene voltaram para tomar a sopa também?
– Só a Tammie.
Sara não gritou. Apenas virou o que sobrara da sopa na pia e acionou o triturador de lixo. Podia escutar seus soluços mal disfarçados. Aquele pobre peru orgânico tinha passado um Natal dos diabos.
– Mulheres
2 525
2
Marília Garcia
UMA EQUAÇÃO NO HYDE PARK
está chovendo no
hyde park hoje
e estou do outro
lado do hemisfério
sentada ao sol
com um gato
entre meus pés
que estão descalços
e levemente
avermelhados.
está chovendo no
hyde park hoje
e lembro de ter
andado num parque
de ângulos quadrados
com o menino da caixa
preta que tinha uma foto
de uma floresta nórdica
virada de ponta-cabeça na
parede do seu quarto
e que gostava de contar
até 24 depois de cruzar
o gradil.
a gente andava
no meio-fio e sentava
no parque e depois deitava e o
roupão preto felpudo
já na casa dele
e o roommate chamado
steve que amava
uma japonesa.
está chovendo no
hyde park hoje e não sei
o que dizer a ele
que agora está sentado
algumas mesas à frente
e que dentro de um filme
seria alguém que diz sim
mas não estou dentro de um
filme — ouço a voz em eco
no buraco do real —
e me refaço pensando
que podia contar
que o gps funcionou
e indicou o ponto de encontro
mas a mensagem
só chegou depois.
está chovendo no
hyde park hoje
e podia contar que meu
coração tinha sido arrancado
pela boca e que estava
esquecido sobre uma pedra
com o sangue
ainda quente.
sim, está chovendo
no hyde park
e ao inferno
já desceram
um ou dois
ou
três
mas ele
há de subir
atravessando as curvas,
o belvedere, os espaços dirigíveis
“ogni speranza lasciate
voi che entrate”
— há mundo por vir?
ele pergunta antes de passar
e leva na mão
um gravador
e nós cruzamos o olhar
— só por um segundo —
e não lembro mais
desse dia
mas depois o
mesmo olhar
volta à memória
como a interferência
de uma voz saindo
do carro em movimento
pela ladeira.
está chovendo no
hyde park e aquele par
de olhos encontra os meus,
e esse cruzamento
de olhares me distrai
por um momento
da equação.
hyde park hoje
e estou do outro
lado do hemisfério
sentada ao sol
com um gato
entre meus pés
que estão descalços
e levemente
avermelhados.
está chovendo no
hyde park hoje
e lembro de ter
andado num parque
de ângulos quadrados
com o menino da caixa
preta que tinha uma foto
de uma floresta nórdica
virada de ponta-cabeça na
parede do seu quarto
e que gostava de contar
até 24 depois de cruzar
o gradil.
a gente andava
no meio-fio e sentava
no parque e depois deitava e o
roupão preto felpudo
já na casa dele
e o roommate chamado
steve que amava
uma japonesa.
está chovendo no
hyde park hoje e não sei
o que dizer a ele
que agora está sentado
algumas mesas à frente
e que dentro de um filme
seria alguém que diz sim
mas não estou dentro de um
filme — ouço a voz em eco
no buraco do real —
e me refaço pensando
que podia contar
que o gps funcionou
e indicou o ponto de encontro
mas a mensagem
só chegou depois.
está chovendo no
hyde park hoje
e podia contar que meu
coração tinha sido arrancado
pela boca e que estava
esquecido sobre uma pedra
com o sangue
ainda quente.
sim, está chovendo
no hyde park
e ao inferno
já desceram
um ou dois
ou
três
mas ele
há de subir
atravessando as curvas,
o belvedere, os espaços dirigíveis
“ogni speranza lasciate
voi che entrate”
— há mundo por vir?
ele pergunta antes de passar
e leva na mão
um gravador
e nós cruzamos o olhar
— só por um segundo —
e não lembro mais
desse dia
mas depois o
mesmo olhar
volta à memória
como a interferência
de uma voz saindo
do carro em movimento
pela ladeira.
está chovendo no
hyde park e aquele par
de olhos encontra os meus,
e esse cruzamento
de olhares me distrai
por um momento
da equação.
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2
Marília Garcia
UMA EQUAÇÃO NO HYDE PARK
está chovendo no
hyde park hoje
e estou do outro
lado do hemisfério
sentada ao sol
com um gato
entre meus pés
que estão descalços
e levemente
avermelhados.
está chovendo no
hyde park hoje
e lembro de ter
andado num parque
de ângulos quadrados
com o menino da caixa
preta que tinha uma foto
de uma floresta nórdica
virada de ponta-cabeça na
parede do seu quarto
e que gostava de contar
até 24 depois de cruzar
o gradil.
a gente andava
no meio-fio e sentava
no parque e depois deitava e o
roupão preto felpudo
já na casa dele
e o roommate chamado
steve que amava
uma japonesa.
está chovendo no
hyde park hoje e não sei
o que dizer a ele
que agora está sentado
algumas mesas à frente
e que dentro de um filme
seria alguém que diz sim
mas não estou dentro de um
filme — ouço a voz em eco
no buraco do real —
e me refaço pensando
que podia contar
que o gps funcionou
e indicou o ponto de encontro
mas a mensagem
só chegou depois.
está chovendo no
hyde park hoje
e podia contar que meu
coração tinha sido arrancado
pela boca e que estava
esquecido sobre uma pedra
com o sangue
ainda quente.
sim, está chovendo
no hyde park
e ao inferno
já desceram
um ou dois
ou
três
mas ele
há de subir
atravessando as curvas,
o belvedere, os espaços dirigíveis
“ogni speranza lasciate
voi che entrate”
— há mundo por vir?
ele pergunta antes de passar
e leva na mão
um gravador
e nós cruzamos o olhar
— só por um segundo —
e não lembro mais
desse dia
mas depois o
mesmo olhar
volta à memória
como a interferência
de uma voz saindo
do carro em movimento
pela ladeira.
está chovendo no
hyde park e aquele par
de olhos encontra os meus,
e esse cruzamento
de olhares me distrai
por um momento
da equação.
hyde park hoje
e estou do outro
lado do hemisfério
sentada ao sol
com um gato
entre meus pés
que estão descalços
e levemente
avermelhados.
está chovendo no
hyde park hoje
e lembro de ter
andado num parque
de ângulos quadrados
com o menino da caixa
preta que tinha uma foto
de uma floresta nórdica
virada de ponta-cabeça na
parede do seu quarto
e que gostava de contar
até 24 depois de cruzar
o gradil.
a gente andava
no meio-fio e sentava
no parque e depois deitava e o
roupão preto felpudo
já na casa dele
e o roommate chamado
steve que amava
uma japonesa.
está chovendo no
hyde park hoje e não sei
o que dizer a ele
que agora está sentado
algumas mesas à frente
e que dentro de um filme
seria alguém que diz sim
mas não estou dentro de um
filme — ouço a voz em eco
no buraco do real —
e me refaço pensando
que podia contar
que o gps funcionou
e indicou o ponto de encontro
mas a mensagem
só chegou depois.
está chovendo no
hyde park hoje
e podia contar que meu
coração tinha sido arrancado
pela boca e que estava
esquecido sobre uma pedra
com o sangue
ainda quente.
sim, está chovendo
no hyde park
e ao inferno
já desceram
um ou dois
ou
três
mas ele
há de subir
atravessando as curvas,
o belvedere, os espaços dirigíveis
“ogni speranza lasciate
voi che entrate”
— há mundo por vir?
ele pergunta antes de passar
e leva na mão
um gravador
e nós cruzamos o olhar
— só por um segundo —
e não lembro mais
desse dia
mas depois o
mesmo olhar
volta à memória
como a interferência
de uma voz saindo
do carro em movimento
pela ladeira.
está chovendo no
hyde park e aquele par
de olhos encontra os meus,
e esse cruzamento
de olhares me distrai
por um momento
da equação.
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2
Manuel Bandeira
Balada para Isabel
Querem outros muito dinheiro;
Outros, muito amor; outros, mais
Precavidos, querem inteiro
Sossego, paz, dias iguais.
Mas eu, que sei que nesta vida
O que mais se mostra é ouropel,
Quero coisa muito escondida:
— O sorriso azul de Isabel.
Um mistério tão sorrateiro
Nunca o mundo não viu jamais.
Ah que sorriso! Verdadeiro
Céu na terra (o céu que sonhais...)
Por isso, em minha ingrata lida
De viver, é a sopa no mel
Se de súbito translucida
O sorriso azul de Isabel.
Quando rompe o sol, e fagueiro
O homem acorda, e em matinais
Hosanas louva o justiceiro
Deus de bondade — o que pensais
Que é a coisa mais apetecida
Do mau bardo de alma revel,
Envelhecida, envilecida?
— O sorriso azul de Isabel.
OFERTA
Não quero o sorriso de Armida:
O sorriso de Armida é fel
Junto ao desta Isabel querida.
— Quero é o teu sorriso, Isabel.
Outros, muito amor; outros, mais
Precavidos, querem inteiro
Sossego, paz, dias iguais.
Mas eu, que sei que nesta vida
O que mais se mostra é ouropel,
Quero coisa muito escondida:
— O sorriso azul de Isabel.
Um mistério tão sorrateiro
Nunca o mundo não viu jamais.
Ah que sorriso! Verdadeiro
Céu na terra (o céu que sonhais...)
Por isso, em minha ingrata lida
De viver, é a sopa no mel
Se de súbito translucida
O sorriso azul de Isabel.
Quando rompe o sol, e fagueiro
O homem acorda, e em matinais
Hosanas louva o justiceiro
Deus de bondade — o que pensais
Que é a coisa mais apetecida
Do mau bardo de alma revel,
Envelhecida, envilecida?
— O sorriso azul de Isabel.
OFERTA
Não quero o sorriso de Armida:
O sorriso de Armida é fel
Junto ao desta Isabel querida.
— Quero é o teu sorriso, Isabel.
2 020
2
Pablo Neruda
10
Perdemos também este crepúsculo.
Ninguém nos viu esta tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.
Tenho visto da minha janela
a festa do poente entre as serras distantes.
Às vezes como uma moeda
acendia um pedaço de sol em minhas mãos.
Eu te recordava com a alma apertada
dessa tristeza que me conheces.
Então, onde estavas?
Entre que gentes?
Dizendo que palavras?
Por que me chega todo o amor num golpe
quando me sinto triste, e te sinto longe?
Caiu o livro que sempre se toma ao crepúsculo,
e como um cão ferido rodou aos meus pés a capa.
Sempre, sempre te afastas às tardes
até onde o crepúsculo corre apagando estátuas.
Ninguém nos viu esta tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.
Tenho visto da minha janela
a festa do poente entre as serras distantes.
Às vezes como uma moeda
acendia um pedaço de sol em minhas mãos.
Eu te recordava com a alma apertada
dessa tristeza que me conheces.
Então, onde estavas?
Entre que gentes?
Dizendo que palavras?
Por que me chega todo o amor num golpe
quando me sinto triste, e te sinto longe?
Caiu o livro que sempre se toma ao crepúsculo,
e como um cão ferido rodou aos meus pés a capa.
Sempre, sempre te afastas às tardes
até onde o crepúsculo corre apagando estátuas.
1 205
2
João Filho
NAUFRÁGIOS
Podemos naufragar dentro de casa,
à mesa do café, num feriado;
num braço de sofá desconfortável,
enquanto o dia gira as suas facas;
icebergs nos esperam degelados
nos pratos de um banquete sem palavras;
é preciso afiar velhas verdades
fiapos que pros náufragos são tábuas,
tornar o desconforto navegável,
e surfar quando a brasa for inata,
fazer do fundo o impulso para o nado,
e afogar tubarões debaixo d’água.
à mesa do café, num feriado;
num braço de sofá desconfortável,
enquanto o dia gira as suas facas;
icebergs nos esperam degelados
nos pratos de um banquete sem palavras;
é preciso afiar velhas verdades
fiapos que pros náufragos são tábuas,
tornar o desconforto navegável,
e surfar quando a brasa for inata,
fazer do fundo o impulso para o nado,
e afogar tubarões debaixo d’água.
855
2
Charles Bukowski
Para Os 18 Meses de Marina Louise
sol sol
é minha pequena
menina
sol
no tapete –
sol sol
saindo pela
porta
colhendo uma
flor
esperando que eu
me levante
para
brincar.
um velho
emerge
de sua
cadeira,
castigado de batalha,
e ela olha
e só
vê
amor, no que eu
me transformo
por meio de sua
majestade
de seu infinito
e mágico
sol.
é minha pequena
menina
sol
no tapete –
sol sol
saindo pela
porta
colhendo uma
flor
esperando que eu
me levante
para
brincar.
um velho
emerge
de sua
cadeira,
castigado de batalha,
e ela olha
e só
vê
amor, no que eu
me transformo
por meio de sua
majestade
de seu infinito
e mágico
sol.
4 767
2
Charles Bukowski
Para Os 18 Meses de Marina Louise
sol sol
é minha pequena
menina
sol
no tapete –
sol sol
saindo pela
porta
colhendo uma
flor
esperando que eu
me levante
para
brincar.
um velho
emerge
de sua
cadeira,
castigado de batalha,
e ela olha
e só
vê
amor, no que eu
me transformo
por meio de sua
majestade
de seu infinito
e mágico
sol.
é minha pequena
menina
sol
no tapete –
sol sol
saindo pela
porta
colhendo uma
flor
esperando que eu
me levante
para
brincar.
um velho
emerge
de sua
cadeira,
castigado de batalha,
e ela olha
e só
vê
amor, no que eu
me transformo
por meio de sua
majestade
de seu infinito
e mágico
sol.
4 767
2
Charles Bukowski
Confissão
esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo e
talvez
sacudi-lo de novo:
"Henry!"
e Henry não vai
responder.
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir
todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora
ser ditas:
eu te
amo.
como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo e
talvez
sacudi-lo de novo:
"Henry!"
e Henry não vai
responder.
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir
todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora
ser ditas:
eu te
amo.
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