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Emoções e Sentimentos

Machado de Assis

Machado de Assis

O Almada: Poema Herói-Cômico em 8 Cantos (Fragmentos)

Canto VII

II

Eis que um sonho, agitando as asas brancas
Leve espalha no cérebro do Almada,
Como gotas de chuva rara e fina,
Um pó sutil de mágicas patranhas.
Sonha... Em que há de sonhar o grão prelado?
Vê no espaço um ginete alto e possante
À solta galopando, e logo nele,
Elmo de ouro, armadura de aço fino,
A briosa figura de um guerreiro.
Tenta irritado o indômito cavalo
O cavaleiro sacudir na terra,
Mastiga o freio, empina-se, escoiceia,
Voa de norte a sul, de leste a oeste,
Ora, a pata veloz roça nos mares,
Ora, igual ao tufão, descose as nuvens,
Mas o galhardo cavaleiro as rédeas
Coas fortes mãos encurta, e pouco a pouco
O ríspido quadrúpede sossega
E pára no ar. No rosto do guerreiro
Vê as próprias feições o grande Almada,
Olhos, cabelos, boca, faces, tudo,
Tudo é dele. Ó prodígio! Voz solene
Do ponto mais recôndito do espaço,
Onde estrela não há, não há planeta,
Estas palavras singulares solta:
"O bravo cavaleiro és tu, prelado,
E o domado corcel é o teu rebanho,
Que embalde morde o freio e se rebela
Contra ti que hás vencido el-rei e o povo,
Tornando em cinzas o atrevido Mustre."

III

Deste agradável sonho consolado,
Abre o pastor os olhos, vira o corpo,
E outra vez adormece. Novo quadro
E diverso lhe pinta a fantasia.
Vê-se diante de provida mesa,
À direita do papa, e come e bebe
De cem bispos servido. Entusiasmado
Com as finezas de Alexandre Sétimo,
O prelado um discurso principia
Depois de haver tossido quatro vezes.
Os olhos fita num painel que estava
Na fronteira parede; a mão do artista
O belo e forte arcanjo debuxara
Que a Satanás venceu; às plantas suas
Jaz o eterno rebelde. Entrava apenas
No magnífico exórdio do discurso
O valoroso Almada, quando a tela
A tremer começou; subitamente
O brilhante Miguel desaparece,
E o diabo que ali prostrado fora
Toma a figura do execrando Mustre,
Levanta-se do chão; e com desprezo,
E com gesto de escárnio e de ameaça,
Os turvos olhos no prelado fita
E a devassa fatal nas mãos sustenta.
Pasmam do caso os circunstantes todos,
Enquanto o forte Almada tropeçando
Nas cadeiras, nos vasos, nas cortinas,
Foge aterrado, uma janela busca,
Dela, sem ver a altura, se despenha,
E de abismo em abismo vai rolando
Até cair da própria cama abaixo.

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Publicado no livro Outras relíquias: prosa e verso (1910).

In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.269-270. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)

NOTA: Poema inacabado, composto de 8 cantos. O canto 7 é composto de 17 parte
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Machado de Assis

Machado de Assis

Os Arlequins, 1864

Que deviendra dans l'éternité l'âme d'un
homme qui a fait Polichinelle toute sa vie?
Mme. DE STAEL

Musa, depõe a lira!
Cantos de amor, cantos de glória esquece!
Novo assunto aparece
Que o gênio move e a indignação inspira.
Esta esfera é mais vasta,
E vence a letra nova a letra antiga!
Musa, toma a vergasta,
E os arlequins fustiga.

Como aos olhos de Roma,
— Cadáver do que foi, pávido império
De Caio e de Tibério, —
O filho de Agripina ousado assoma;
E a lira sobraçando,
Ante o povo idiota e amedrontado,
Pedia, ameaçando,
O aplauso acostumado;

E o povo que beijava
Outrora ao deus Calígula o vestido,
De novo submetido
Ao régio saltimbanco o aplauso dava.
E tu, tu não te abrias,
Ó céu de Roma, à cena degradante!
E tu, tu não caías,
Ó raio chamejante!

Tal na história que passa
Neste de luzes século famoso,
O engenho portentoso
Sabe iludir a néscia população;
Não busca o mal tecido
Canto de outrora; a moderna insolência
Não encanta o ouvido,
Fascina a consciência!

Vede; o aspecto vistoso,
O olhar, seguro, altivo e penetrante,
E certo ar arrogante
Que impõe com aparências de assombroso;
Não vacila, não tomba,
Caminha sobre a corda firme e alerta;
Tem consigo a maromba
E a ovação é certa.

Tamanha gentileza,
Tal segurança, ostentação tão grande,
A multidão expande
Com ares de legítima grandeza.
O gosto pervertido
Acha o sublime neste abatimento,
E dá-lhe agradecido
O louro e o monumento.

Do saber, da virtude,
Logra fazer, em prêmio dos trabalhos,
Um manto de retalhos
Que à consciência universal ilude.
Não cora, não se peja
Do papel, nem da máscara indecente,
E ainda inspira inveja
Esta glória insolente!

(...)

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Publicado no livro Crisálida: poesias (1864).

In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.196-197. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
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Machado de Assis

Machado de Assis

Os Arlequins, 1864

Que deviendra dans l'éternité l'âme d'un
homme qui a fait Polichinelle toute sa vie?
Mme. DE STAEL

Musa, depõe a lira!
Cantos de amor, cantos de glória esquece!
Novo assunto aparece
Que o gênio move e a indignação inspira.
Esta esfera é mais vasta,
E vence a letra nova a letra antiga!
Musa, toma a vergasta,
E os arlequins fustiga.

Como aos olhos de Roma,
— Cadáver do que foi, pávido império
De Caio e de Tibério, —
O filho de Agripina ousado assoma;
E a lira sobraçando,
Ante o povo idiota e amedrontado,
Pedia, ameaçando,
O aplauso acostumado;

E o povo que beijava
Outrora ao deus Calígula o vestido,
De novo submetido
Ao régio saltimbanco o aplauso dava.
E tu, tu não te abrias,
Ó céu de Roma, à cena degradante!
E tu, tu não caías,
Ó raio chamejante!

Tal na história que passa
Neste de luzes século famoso,
O engenho portentoso
Sabe iludir a néscia população;
Não busca o mal tecido
Canto de outrora; a moderna insolência
Não encanta o ouvido,
Fascina a consciência!

Vede; o aspecto vistoso,
O olhar, seguro, altivo e penetrante,
E certo ar arrogante
Que impõe com aparências de assombroso;
Não vacila, não tomba,
Caminha sobre a corda firme e alerta;
Tem consigo a maromba
E a ovação é certa.

Tamanha gentileza,
Tal segurança, ostentação tão grande,
A multidão expande
Com ares de legítima grandeza.
O gosto pervertido
Acha o sublime neste abatimento,
E dá-lhe agradecido
O louro e o monumento.

Do saber, da virtude,
Logra fazer, em prêmio dos trabalhos,
Um manto de retalhos
Que à consciência universal ilude.
Não cora, não se peja
Do papel, nem da máscara indecente,
E ainda inspira inveja
Esta glória insolente!

(...)

Imagem - 00010001


Publicado no livro Crisálida: poesias (1864).

In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.196-197. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
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Sousa Caldas

Sousa Caldas

Carta Dirigida a Meu Amigo João de Deus Pires Ferreira [2

(...)

Muito tinha a dizer sobre esta obra admirável,
se não fosse a vozeria da equipagem, que me obriga
a largar mão da pena para atender a um
indivíduo, que nos põe a todos de mau humor,
e a mim em susto.

Um Tritão todo coberto
De marisco e verde limo,
Traz somente descoberto
O nariz agudo, e frio.

Pelas ventas vem soprando
Vento Leste enregelado,
E dobra, de instante a instante
Seu furor endiabrado.

Treme o mar encapelado,
O baixel torcido geme,
Mal segura o indócil leme
O mancebo debruçado.

Que há de ser de mim, meu Pires? em que língua
hei de falar a este Tritão para abrandar a sua cólera?
Português, Italiano, Latim, Francês, Inglês,
é de que eu sei alguma coisa: mas quem pode
adivinhar a língua dos Tritões? Experimentemos;
vou falar-lhe em todas elas, talvez que entenda
alguma:

Basta já, Senhor Tritão,
(Não entende.)

Per pietá, Tritone amato,
(Menos.)

Triton, I can no more,
(Tempo perdido.)

Prudence, Seigneur Triton
(Pior.)

Ó Triton, esto pacato
Corde, animo, naso e ore.

Com efeito a esta última língua fez um leve aceno;
e é indubitável que até os Tritões veneram a
antiguidade; mas ou seja perrice, ou tenção ante-
cipada, cada vez se acende mais em ira:

Eis que as bochechas engrossa;
Ai de mim, onde esconder-me!
Parece querer no abismo,
De um só sopro, soverter-me.

Boa vontade tinha de lhe pintar aqui uma tem-
pestade, não faltará ocasião: entretanto imagine
serras, montanhas, ondas, mares, Céus, abismos,
Bóreas, Austro, Leste, Oeste, e toda a caterva dos
ventos; ajunte-lhes quatro adjetivos, e três verbos
para os unir, e terá uma tempestade completa.
O pior é que não se aplaca a que me persegue:
vou de novo suplicar o Tritão na língua que pa-
rece entender... Bravo! começa a adoçar-se: aplacou-se
de todo; vai-se embora,

Depois de roncar seis vezes
Com medonho horrendo ronco,
E de sorver outras tantas,
Por ser um Tritão mui porco,
O limoso verde monco;
Escorregando,
Contradançando
Ligeiramente,
No fundo do mar
Em lisa gruta,
Foi-se abrigar.

(...)


Publicado no livro Obras Poéticas: Poesias Sacras e Profanas (1821).

In: CANDIDO, Antonio; CASTELLO, J. Aderaldo. Presença da literatura brasileira: história e antologia: I. das origens ao realismo. 3.ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988. p.145-147

NOTA: Texto corrigido conforme a 1.ed. das OBRAS POÉTICAS, 182
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