Poemas neste tema
Vida e Existência
Alphonsus de Guimaraens
IV - Ouvindo um Trio de Violino, Violeta e Violoncelo
Simbolicamente vestida de roxo
(Eram flores roxas num vestido preto)
Tão tentadora estava que um diabo coxo
Fez rugir a carne no meu esqueleto.
Toda a pureza do meu amor por ela
Se foi num sopro tombar no pó.
Os seus olhos intercederam por ela...
Mais uma vez eu vi que não me achava só.
Simbolicamente vestida de roxo
(Talvez saudade de vida mais calma)
Tão macerada estava que a asa de um mocho
Adejou agoureira pela minha Alma.
Todos os sonhos do meu amor por ela
Vieram atormentar-me sem dó.
Mas ninguém na terra intercedeu por ela...
Para divinizá-la era bastante eu só.
Publicado no livro Dona Mística, 1892/1894 (1899). Poema integrante da série V - Árias e Canções.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 108-109. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
(Eram flores roxas num vestido preto)
Tão tentadora estava que um diabo coxo
Fez rugir a carne no meu esqueleto.
Toda a pureza do meu amor por ela
Se foi num sopro tombar no pó.
Os seus olhos intercederam por ela...
Mais uma vez eu vi que não me achava só.
Simbolicamente vestida de roxo
(Talvez saudade de vida mais calma)
Tão macerada estava que a asa de um mocho
Adejou agoureira pela minha Alma.
Todos os sonhos do meu amor por ela
Vieram atormentar-me sem dó.
Mas ninguém na terra intercedeu por ela...
Para divinizá-la era bastante eu só.
Publicado no livro Dona Mística, 1892/1894 (1899). Poema integrante da série V - Árias e Canções.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 108-109. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
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1
Henriqueta Lisboa
Assombro
Século de assombro - este século.
De violência em progresso.
E os outros séculos?
Cada ser ao sentir o peso do mundo
não terá dito: século de assombro?
O assombro seca a própria sombra
de tanto secar existência:
Sequidão de corações e mentes
Secura de corpo nos ossos
Legião de cegos e de inaptos
Asfixia de túneis e masmorras
Mantos e esgares de hipocrisia
Sevícia para fins de anuência
Acúmulo de monstros e monturos
— Assombro à cunha.
Porém acima de qualquer assombro
aquele assombro vindo de antanho
para atravessar o século
de ponto a ponta — flecha escusa — e ser
perene assombro dos mortais
— a morte.
Publicado no livro Pousada do Ser (1982).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
De violência em progresso.
E os outros séculos?
Cada ser ao sentir o peso do mundo
não terá dito: século de assombro?
O assombro seca a própria sombra
de tanto secar existência:
Sequidão de corações e mentes
Secura de corpo nos ossos
Legião de cegos e de inaptos
Asfixia de túneis e masmorras
Mantos e esgares de hipocrisia
Sevícia para fins de anuência
Acúmulo de monstros e monturos
— Assombro à cunha.
Porém acima de qualquer assombro
aquele assombro vindo de antanho
para atravessar o século
de ponto a ponta — flecha escusa — e ser
perene assombro dos mortais
— a morte.
Publicado no livro Pousada do Ser (1982).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
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Henriqueta Lisboa
Assombro
Século de assombro - este século.
De violência em progresso.
E os outros séculos?
Cada ser ao sentir o peso do mundo
não terá dito: século de assombro?
O assombro seca a própria sombra
de tanto secar existência:
Sequidão de corações e mentes
Secura de corpo nos ossos
Legião de cegos e de inaptos
Asfixia de túneis e masmorras
Mantos e esgares de hipocrisia
Sevícia para fins de anuência
Acúmulo de monstros e monturos
— Assombro à cunha.
Porém acima de qualquer assombro
aquele assombro vindo de antanho
para atravessar o século
de ponto a ponta — flecha escusa — e ser
perene assombro dos mortais
— a morte.
Publicado no livro Pousada do Ser (1982).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
De violência em progresso.
E os outros séculos?
Cada ser ao sentir o peso do mundo
não terá dito: século de assombro?
O assombro seca a própria sombra
de tanto secar existência:
Sequidão de corações e mentes
Secura de corpo nos ossos
Legião de cegos e de inaptos
Asfixia de túneis e masmorras
Mantos e esgares de hipocrisia
Sevícia para fins de anuência
Acúmulo de monstros e monturos
— Assombro à cunha.
Porém acima de qualquer assombro
aquele assombro vindo de antanho
para atravessar o século
de ponto a ponta — flecha escusa — e ser
perene assombro dos mortais
— a morte.
Publicado no livro Pousada do Ser (1982).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
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Cora Coralina
Antiguidades
Quando eu era menina
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima.
Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)
Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.
A gente mandona lá de casa
cortava aquele bolo
com importância.
Com atenção. Seriamente.
Eu presente.
Com vontade de comer o bolo todo.
Era só olhos e boca e desejo
daquele bolo inteiro.
Minha irmã mais velha
governava. Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada...
E fatias iguais às outras manas.
E que ninguém pedisse mais!
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado,
num armário, alto, fechado,
impossível.
Era aquilo, uma coisa de respeito.
Não pra ser comido
assim, sem mais nem menos.
Destinava-se às visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas da meninada.
(...)
In: CORALINA, Cora. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. Prefácio de J. B. Martins Ramos. Apresentação de Oswaldino Marques, Lena Castello Branco Ferreira Costa e Silvia Alessandri Monteiro de Castro. 16. ed. São Paulo: Global, 199
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima.
Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)
Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.
A gente mandona lá de casa
cortava aquele bolo
com importância.
Com atenção. Seriamente.
Eu presente.
Com vontade de comer o bolo todo.
Era só olhos e boca e desejo
daquele bolo inteiro.
Minha irmã mais velha
governava. Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada...
E fatias iguais às outras manas.
E que ninguém pedisse mais!
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado,
num armário, alto, fechado,
impossível.
Era aquilo, uma coisa de respeito.
Não pra ser comido
assim, sem mais nem menos.
Destinava-se às visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas da meninada.
(...)
In: CORALINA, Cora. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. Prefácio de J. B. Martins Ramos. Apresentação de Oswaldino Marques, Lena Castello Branco Ferreira Costa e Silvia Alessandri Monteiro de Castro. 16. ed. São Paulo: Global, 199
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Cora Coralina
Antiguidades
Quando eu era menina
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima.
Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)
Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.
A gente mandona lá de casa
cortava aquele bolo
com importância.
Com atenção. Seriamente.
Eu presente.
Com vontade de comer o bolo todo.
Era só olhos e boca e desejo
daquele bolo inteiro.
Minha irmã mais velha
governava. Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada...
E fatias iguais às outras manas.
E que ninguém pedisse mais!
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado,
num armário, alto, fechado,
impossível.
Era aquilo, uma coisa de respeito.
Não pra ser comido
assim, sem mais nem menos.
Destinava-se às visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas da meninada.
(...)
In: CORALINA, Cora. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. Prefácio de J. B. Martins Ramos. Apresentação de Oswaldino Marques, Lena Castello Branco Ferreira Costa e Silvia Alessandri Monteiro de Castro. 16. ed. São Paulo: Global, 199
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima.
Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)
Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.
A gente mandona lá de casa
cortava aquele bolo
com importância.
Com atenção. Seriamente.
Eu presente.
Com vontade de comer o bolo todo.
Era só olhos e boca e desejo
daquele bolo inteiro.
Minha irmã mais velha
governava. Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada...
E fatias iguais às outras manas.
E que ninguém pedisse mais!
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado,
num armário, alto, fechado,
impossível.
Era aquilo, uma coisa de respeito.
Não pra ser comido
assim, sem mais nem menos.
Destinava-se às visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas da meninada.
(...)
In: CORALINA, Cora. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. Prefácio de J. B. Martins Ramos. Apresentação de Oswaldino Marques, Lena Castello Branco Ferreira Costa e Silvia Alessandri Monteiro de Castro. 16. ed. São Paulo: Global, 199
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Alphonsus de Guimaraens
XIV - Salmos da Noite
A ALVES DE FARIAS
Proserpina do mal, dá-me o veneno, dá-me
A delícia que escorre em teu seio de neve...
Para que ainda eu te ame,
Abre o rio do beijo ensanguentado e leve,
O Létis que me faz esquecer que és infame.
Eu sonho que o teu leito é a barca de Caronte,
Que desce pelo mar brumoso das orgias;
E fronte unida à fronte
Vamos nós, eu e tu, tu e eu, noites e dias,
Sem ar no peito sem clarões pelo horizonte.
Abre o seio infernal, abre o olhar negro e terno,
Onde geme o calor, onde soluça o frio.
Tu que és filha do inferno,
Podes abrir no peito um sepulcro sombrio,
Onde a minh'alma durma um sono mau e eterno.
Filha ideal de Satã, que o meu olhar absorto
Pouse nos olhos teus, pego medonho e atro
Onde paira o conforto,
E a dor, como as visões de um tenebroso teatro,
Onde uma palhaço canta, onde repousa um morto.
Beijo talhada em carne, abismo eternamente
Sombrio e mau, por onde espio e me debruço,
Abre o seio dormente,
Chora o teu pranto falso, e que em cada soluço
Do teu peito, eu escute a voz de uma serpente.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 548-549. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20). Poema integrante da série Salmos da Noite
Proserpina do mal, dá-me o veneno, dá-me
A delícia que escorre em teu seio de neve...
Para que ainda eu te ame,
Abre o rio do beijo ensanguentado e leve,
O Létis que me faz esquecer que és infame.
Eu sonho que o teu leito é a barca de Caronte,
Que desce pelo mar brumoso das orgias;
E fronte unida à fronte
Vamos nós, eu e tu, tu e eu, noites e dias,
Sem ar no peito sem clarões pelo horizonte.
Abre o seio infernal, abre o olhar negro e terno,
Onde geme o calor, onde soluça o frio.
Tu que és filha do inferno,
Podes abrir no peito um sepulcro sombrio,
Onde a minh'alma durma um sono mau e eterno.
Filha ideal de Satã, que o meu olhar absorto
Pouse nos olhos teus, pego medonho e atro
Onde paira o conforto,
E a dor, como as visões de um tenebroso teatro,
Onde uma palhaço canta, onde repousa um morto.
Beijo talhada em carne, abismo eternamente
Sombrio e mau, por onde espio e me debruço,
Abre o seio dormente,
Chora o teu pranto falso, e que em cada soluço
Do teu peito, eu escute a voz de uma serpente.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 548-549. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20). Poema integrante da série Salmos da Noite
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Alphonsus de Guimaraens
XIV - Salmos da Noite
A ALVES DE FARIAS
Proserpina do mal, dá-me o veneno, dá-me
A delícia que escorre em teu seio de neve...
Para que ainda eu te ame,
Abre o rio do beijo ensanguentado e leve,
O Létis que me faz esquecer que és infame.
Eu sonho que o teu leito é a barca de Caronte,
Que desce pelo mar brumoso das orgias;
E fronte unida à fronte
Vamos nós, eu e tu, tu e eu, noites e dias,
Sem ar no peito sem clarões pelo horizonte.
Abre o seio infernal, abre o olhar negro e terno,
Onde geme o calor, onde soluça o frio.
Tu que és filha do inferno,
Podes abrir no peito um sepulcro sombrio,
Onde a minh'alma durma um sono mau e eterno.
Filha ideal de Satã, que o meu olhar absorto
Pouse nos olhos teus, pego medonho e atro
Onde paira o conforto,
E a dor, como as visões de um tenebroso teatro,
Onde uma palhaço canta, onde repousa um morto.
Beijo talhada em carne, abismo eternamente
Sombrio e mau, por onde espio e me debruço,
Abre o seio dormente,
Chora o teu pranto falso, e que em cada soluço
Do teu peito, eu escute a voz de uma serpente.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 548-549. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20). Poema integrante da série Salmos da Noite
Proserpina do mal, dá-me o veneno, dá-me
A delícia que escorre em teu seio de neve...
Para que ainda eu te ame,
Abre o rio do beijo ensanguentado e leve,
O Létis que me faz esquecer que és infame.
Eu sonho que o teu leito é a barca de Caronte,
Que desce pelo mar brumoso das orgias;
E fronte unida à fronte
Vamos nós, eu e tu, tu e eu, noites e dias,
Sem ar no peito sem clarões pelo horizonte.
Abre o seio infernal, abre o olhar negro e terno,
Onde geme o calor, onde soluça o frio.
Tu que és filha do inferno,
Podes abrir no peito um sepulcro sombrio,
Onde a minh'alma durma um sono mau e eterno.
Filha ideal de Satã, que o meu olhar absorto
Pouse nos olhos teus, pego medonho e atro
Onde paira o conforto,
E a dor, como as visões de um tenebroso teatro,
Onde uma palhaço canta, onde repousa um morto.
Beijo talhada em carne, abismo eternamente
Sombrio e mau, por onde espio e me debruço,
Abre o seio dormente,
Chora o teu pranto falso, e que em cada soluço
Do teu peito, eu escute a voz de uma serpente.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 548-549. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20). Poema integrante da série Salmos da Noite
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Renata Pallottini
O Carro
O carro corre ao longe numa boa
feito a nuvem que passa,
feito o vento que voa.
A máquina do carro é o fino;
o ruído ardido
é o defeito que tem tudo que é feito.
Senão, tudo era chato
e perfeito.
In: PALLOTTINI, Renata. Café com leite. São Paulo: Quinteto, 1988. p.1
feito a nuvem que passa,
feito o vento que voa.
A máquina do carro é o fino;
o ruído ardido
é o defeito que tem tudo que é feito.
Senão, tudo era chato
e perfeito.
In: PALLOTTINI, Renata. Café com leite. São Paulo: Quinteto, 1988. p.1
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Paulo Setúbal
Certa Vez
Certa vez... Vá, não cores desse jeito!
Eu era um estudante de direito,
Tu eras uma simples normalista:
Podíamos, portanto, meu tesouro,
Fazer, como fizemos, sem desdouro,
Essa loucura que hoje te contrista.
Com que emoção — recordas? — com que gozo,
Eu vinha te esperar, vibrante e ansioso,
Nessas novenas de plangências cavas.
E como um cavalheiro que se preza,
Timbrava em te levar, depois da reza,
Até ao portão da chácara em que estavas.
Certa vez... Vá, não cores desse jeito!
Era de noite. Arfava-nos o peito.
Ardia em nós um lânguido desejo,
Tomei-te as mãos... Sorriste... E aí, num assomo,
As nossas bocas, sem sabermos como,
Famintamente uniram-se num beijo!
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
Eu era um estudante de direito,
Tu eras uma simples normalista:
Podíamos, portanto, meu tesouro,
Fazer, como fizemos, sem desdouro,
Essa loucura que hoje te contrista.
Com que emoção — recordas? — com que gozo,
Eu vinha te esperar, vibrante e ansioso,
Nessas novenas de plangências cavas.
E como um cavalheiro que se preza,
Timbrava em te levar, depois da reza,
Até ao portão da chácara em que estavas.
Certa vez... Vá, não cores desse jeito!
Era de noite. Arfava-nos o peito.
Ardia em nós um lânguido desejo,
Tomei-te as mãos... Sorriste... E aí, num assomo,
As nossas bocas, sem sabermos como,
Famintamente uniram-se num beijo!
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
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1
Alice Ruiz
enchemos a vida
enchemos a vida
de filhos
que nos enchem a vida
um me enche de lembranças
que me enchem
de lágrimas
uma me enche de alegrias
que enchem minhas noites
de dias
outro me enche de esperanças
e receios
enquanto me incham
os seios
Publicado no livro Paixão xama paixão (1983).
In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24
de filhos
que nos enchem a vida
um me enche de lembranças
que me enchem
de lágrimas
uma me enche de alegrias
que enchem minhas noites
de dias
outro me enche de esperanças
e receios
enquanto me incham
os seios
Publicado no livro Paixão xama paixão (1983).
In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24
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1
Rubem Braga
Retrato do Time
No primeiro plano vê-se a linha intrépida
Em posição de repouso vigilante
Ajoelhada sobre o joelho esquerdo,
Prestes a erguer-se
Uma vez batida a chapa
E atacar com ímpeto.
A defesa está atrás, de pé pelo Brasil.
Esse de gorro era nosso melhor elemento
Lembro que nesse jogo Nico foi expulso de campo.
Injustamente pelo juiz.
Porém não antes de marcar seu "goal".
Esse mais gordo chamava Roberto Vaca-Brava.
Nosso "center-half", homem aliás capaz
De jogar em qualquer posição... Quer ver? Me lembro:
Joca, Liberato e Zico,
Tião, Roberto e Sossego,
Baiano, eu, Coriolano, Antonico e Fuad.
Era um onze imortal
Como aliás se nota nessa fotografia
Nessa chuvosa tarde antigamente heróica eternamente
Em que empatamos porém foi nossa a vitória moral.
E olhando o retrato
Olho especialmente o meu:
Um rapazinho feio, de ar doce e violento
Sobre o qual disse o jornal:
"O valoroso meia-direita."
E com toda razão, modéstia à parte.
Esse alto, nosso "keeper" Joca Desidério
Quando a linha fechava ele gritava para os "backs" —
Sai tudo, sai da frente — e avançava na linha.
E chorava de raiva quando a bola entrava.
Mais tarde, por causa de um italiano, ele se fez assassino
Mas com toda razão, segundo me contaram.
Alviverde camisa do Esperança
do Sul Foot-Ball Club, conhecido
Como os capetas verdes — somos nós!
Nós todos envergando essas cores sagradas
E no coração dentro do peito cada um tem uma
[namorada na bancada,
Cada um menos um.
Era Fuad, que não interessava a ninguém,
E morreu tuberculoso sacrificado de tanto correr na
[extrema
É esse aqui, de nariz grande, esse turquinho feio.
1946
In: BRAGA, Rubem. Livro de versos. Il. Jaguar e Scliar. Pref. Affonso Romano de Sant'Anna. Posfácio Lygia Marina Moraes. Rio de Janeiro: Record, 1993
Em posição de repouso vigilante
Ajoelhada sobre o joelho esquerdo,
Prestes a erguer-se
Uma vez batida a chapa
E atacar com ímpeto.
A defesa está atrás, de pé pelo Brasil.
Esse de gorro era nosso melhor elemento
Lembro que nesse jogo Nico foi expulso de campo.
Injustamente pelo juiz.
Porém não antes de marcar seu "goal".
Esse mais gordo chamava Roberto Vaca-Brava.
Nosso "center-half", homem aliás capaz
De jogar em qualquer posição... Quer ver? Me lembro:
Joca, Liberato e Zico,
Tião, Roberto e Sossego,
Baiano, eu, Coriolano, Antonico e Fuad.
Era um onze imortal
Como aliás se nota nessa fotografia
Nessa chuvosa tarde antigamente heróica eternamente
Em que empatamos porém foi nossa a vitória moral.
E olhando o retrato
Olho especialmente o meu:
Um rapazinho feio, de ar doce e violento
Sobre o qual disse o jornal:
"O valoroso meia-direita."
E com toda razão, modéstia à parte.
Esse alto, nosso "keeper" Joca Desidério
Quando a linha fechava ele gritava para os "backs" —
Sai tudo, sai da frente — e avançava na linha.
E chorava de raiva quando a bola entrava.
Mais tarde, por causa de um italiano, ele se fez assassino
Mas com toda razão, segundo me contaram.
Alviverde camisa do Esperança
do Sul Foot-Ball Club, conhecido
Como os capetas verdes — somos nós!
Nós todos envergando essas cores sagradas
E no coração dentro do peito cada um tem uma
[namorada na bancada,
Cada um menos um.
Era Fuad, que não interessava a ninguém,
E morreu tuberculoso sacrificado de tanto correr na
[extrema
É esse aqui, de nariz grande, esse turquinho feio.
1946
In: BRAGA, Rubem. Livro de versos. Il. Jaguar e Scliar. Pref. Affonso Romano de Sant'Anna. Posfácio Lygia Marina Moraes. Rio de Janeiro: Record, 1993
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Rubem Braga
Retrato do Time
No primeiro plano vê-se a linha intrépida
Em posição de repouso vigilante
Ajoelhada sobre o joelho esquerdo,
Prestes a erguer-se
Uma vez batida a chapa
E atacar com ímpeto.
A defesa está atrás, de pé pelo Brasil.
Esse de gorro era nosso melhor elemento
Lembro que nesse jogo Nico foi expulso de campo.
Injustamente pelo juiz.
Porém não antes de marcar seu "goal".
Esse mais gordo chamava Roberto Vaca-Brava.
Nosso "center-half", homem aliás capaz
De jogar em qualquer posição... Quer ver? Me lembro:
Joca, Liberato e Zico,
Tião, Roberto e Sossego,
Baiano, eu, Coriolano, Antonico e Fuad.
Era um onze imortal
Como aliás se nota nessa fotografia
Nessa chuvosa tarde antigamente heróica eternamente
Em que empatamos porém foi nossa a vitória moral.
E olhando o retrato
Olho especialmente o meu:
Um rapazinho feio, de ar doce e violento
Sobre o qual disse o jornal:
"O valoroso meia-direita."
E com toda razão, modéstia à parte.
Esse alto, nosso "keeper" Joca Desidério
Quando a linha fechava ele gritava para os "backs" —
Sai tudo, sai da frente — e avançava na linha.
E chorava de raiva quando a bola entrava.
Mais tarde, por causa de um italiano, ele se fez assassino
Mas com toda razão, segundo me contaram.
Alviverde camisa do Esperança
do Sul Foot-Ball Club, conhecido
Como os capetas verdes — somos nós!
Nós todos envergando essas cores sagradas
E no coração dentro do peito cada um tem uma
[namorada na bancada,
Cada um menos um.
Era Fuad, que não interessava a ninguém,
E morreu tuberculoso sacrificado de tanto correr na
[extrema
É esse aqui, de nariz grande, esse turquinho feio.
1946
In: BRAGA, Rubem. Livro de versos. Il. Jaguar e Scliar. Pref. Affonso Romano de Sant'Anna. Posfácio Lygia Marina Moraes. Rio de Janeiro: Record, 1993
Em posição de repouso vigilante
Ajoelhada sobre o joelho esquerdo,
Prestes a erguer-se
Uma vez batida a chapa
E atacar com ímpeto.
A defesa está atrás, de pé pelo Brasil.
Esse de gorro era nosso melhor elemento
Lembro que nesse jogo Nico foi expulso de campo.
Injustamente pelo juiz.
Porém não antes de marcar seu "goal".
Esse mais gordo chamava Roberto Vaca-Brava.
Nosso "center-half", homem aliás capaz
De jogar em qualquer posição... Quer ver? Me lembro:
Joca, Liberato e Zico,
Tião, Roberto e Sossego,
Baiano, eu, Coriolano, Antonico e Fuad.
Era um onze imortal
Como aliás se nota nessa fotografia
Nessa chuvosa tarde antigamente heróica eternamente
Em que empatamos porém foi nossa a vitória moral.
E olhando o retrato
Olho especialmente o meu:
Um rapazinho feio, de ar doce e violento
Sobre o qual disse o jornal:
"O valoroso meia-direita."
E com toda razão, modéstia à parte.
Esse alto, nosso "keeper" Joca Desidério
Quando a linha fechava ele gritava para os "backs" —
Sai tudo, sai da frente — e avançava na linha.
E chorava de raiva quando a bola entrava.
Mais tarde, por causa de um italiano, ele se fez assassino
Mas com toda razão, segundo me contaram.
Alviverde camisa do Esperança
do Sul Foot-Ball Club, conhecido
Como os capetas verdes — somos nós!
Nós todos envergando essas cores sagradas
E no coração dentro do peito cada um tem uma
[namorada na bancada,
Cada um menos um.
Era Fuad, que não interessava a ninguém,
E morreu tuberculoso sacrificado de tanto correr na
[extrema
É esse aqui, de nariz grande, esse turquinho feio.
1946
In: BRAGA, Rubem. Livro de versos. Il. Jaguar e Scliar. Pref. Affonso Romano de Sant'Anna. Posfácio Lygia Marina Moraes. Rio de Janeiro: Record, 1993
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1
Cora Coralina
Meu Melhor Livro de Leitura
(...)
Minhas estórias de Carochinha, meu melhor livro de leitura,
capa escura, parda, dura, desenhos preto e branco.
Eu me identificava com as estórias.
Fui Maria e Joãozinho perdidos na floresta.
Fui a Bela Adormecida no Bosque.
Fui Pele de Burro. Fui companheira de Pequeno Polegar
e viajei com o Gato de Sete Botas. Morei com os anõezinhos.
Fui a Gata Borralheira que perdeu o sapatinho de cristal
na correria de volta, sempre à espera do príncipe encantado,
desencantada de tantos sonhos
nos reinos da minha cidade.
Mãe Didi... Por onde vão os rumos de meus pensamentos,
sempre presente minha madrinha fada.
Eu a vejo em Mãe Didi.
Tia Nhorita, Didinha, seus farnéis inesgotáveis de bondade,
de biscoito e brevidades,
sustentando Aninha, desamada, abobada e feia
caso perdido, pensavam todos.
O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada.
Caminhando e semeando, no fim, terás o que colher.
In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 198
Minhas estórias de Carochinha, meu melhor livro de leitura,
capa escura, parda, dura, desenhos preto e branco.
Eu me identificava com as estórias.
Fui Maria e Joãozinho perdidos na floresta.
Fui a Bela Adormecida no Bosque.
Fui Pele de Burro. Fui companheira de Pequeno Polegar
e viajei com o Gato de Sete Botas. Morei com os anõezinhos.
Fui a Gata Borralheira que perdeu o sapatinho de cristal
na correria de volta, sempre à espera do príncipe encantado,
desencantada de tantos sonhos
nos reinos da minha cidade.
Mãe Didi... Por onde vão os rumos de meus pensamentos,
sempre presente minha madrinha fada.
Eu a vejo em Mãe Didi.
Tia Nhorita, Didinha, seus farnéis inesgotáveis de bondade,
de biscoito e brevidades,
sustentando Aninha, desamada, abobada e feia
caso perdido, pensavam todos.
O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada.
Caminhando e semeando, no fim, terás o que colher.
In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 198
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Cora Coralina
Meu Melhor Livro de Leitura
(...)
Minhas estórias de Carochinha, meu melhor livro de leitura,
capa escura, parda, dura, desenhos preto e branco.
Eu me identificava com as estórias.
Fui Maria e Joãozinho perdidos na floresta.
Fui a Bela Adormecida no Bosque.
Fui Pele de Burro. Fui companheira de Pequeno Polegar
e viajei com o Gato de Sete Botas. Morei com os anõezinhos.
Fui a Gata Borralheira que perdeu o sapatinho de cristal
na correria de volta, sempre à espera do príncipe encantado,
desencantada de tantos sonhos
nos reinos da minha cidade.
Mãe Didi... Por onde vão os rumos de meus pensamentos,
sempre presente minha madrinha fada.
Eu a vejo em Mãe Didi.
Tia Nhorita, Didinha, seus farnéis inesgotáveis de bondade,
de biscoito e brevidades,
sustentando Aninha, desamada, abobada e feia
caso perdido, pensavam todos.
O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada.
Caminhando e semeando, no fim, terás o que colher.
In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 198
Minhas estórias de Carochinha, meu melhor livro de leitura,
capa escura, parda, dura, desenhos preto e branco.
Eu me identificava com as estórias.
Fui Maria e Joãozinho perdidos na floresta.
Fui a Bela Adormecida no Bosque.
Fui Pele de Burro. Fui companheira de Pequeno Polegar
e viajei com o Gato de Sete Botas. Morei com os anõezinhos.
Fui a Gata Borralheira que perdeu o sapatinho de cristal
na correria de volta, sempre à espera do príncipe encantado,
desencantada de tantos sonhos
nos reinos da minha cidade.
Mãe Didi... Por onde vão os rumos de meus pensamentos,
sempre presente minha madrinha fada.
Eu a vejo em Mãe Didi.
Tia Nhorita, Didinha, seus farnéis inesgotáveis de bondade,
de biscoito e brevidades,
sustentando Aninha, desamada, abobada e feia
caso perdido, pensavam todos.
O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada.
Caminhando e semeando, no fim, terás o que colher.
In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 198
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Silva Alvarenga
Madrigal LVII [Ó águas dos meus olhos desgraçados
Ó águas dos meus olhos desgraçados,
Parai que não se abranda o meu tormento:
De que serve o lamento
Se Glaura já não vive? Ai, duros Fados!
Ai, míseros cuidados!
Que vos prometem minhas mágoas? águas,
Águas!... — responde a gruta,
E a Ninfa, que me escuta nestes prados!
Ó águas de meus olhos desgraçados,
Correi, correi; que na saudosa lida
Bem pouco há de durar tão triste vida.
Publicado no livro Glaura: poemas eróticos de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, bacharel pela Universidade de Coimbra e professor de retórica no Rio de Janeiro. Na Arcádia, Alcindo Palmireno (1799).
In: ALVARENGA, Silva. Glaura: poemas eróticos. Pref. Afonso Arinos de Melo Franco. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1943. (Biblioteca popular brasileira, 16
Parai que não se abranda o meu tormento:
De que serve o lamento
Se Glaura já não vive? Ai, duros Fados!
Ai, míseros cuidados!
Que vos prometem minhas mágoas? águas,
Águas!... — responde a gruta,
E a Ninfa, que me escuta nestes prados!
Ó águas de meus olhos desgraçados,
Correi, correi; que na saudosa lida
Bem pouco há de durar tão triste vida.
Publicado no livro Glaura: poemas eróticos de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, bacharel pela Universidade de Coimbra e professor de retórica no Rio de Janeiro. Na Arcádia, Alcindo Palmireno (1799).
In: ALVARENGA, Silva. Glaura: poemas eróticos. Pref. Afonso Arinos de Melo Franco. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1943. (Biblioteca popular brasileira, 16
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Sebastião Uchoa Leite
Take Off
1. há quem faça obras
eu apenas
solto as minhas cobras
2. o futuro? já sei de cor:
só me interessa a metamemória
perdido no cosmos
a minha pátria é o jardim das delícias
3. que esperam de mim?
não sou ninguém
não me puxem pelo braço
sou revel
a minha consciência é o verme
e eu sou o cria corvos
4. já vivi duas vezes
e sonho com a terceira vida
visível só como sombra
5. façam de conta
que fui apenas um sonho
neste pesadelo da história
nem consegui gritar
fui enforcado com baader-meinhoff
ou pendurei-me em praça pública
com gérard de nerval?
6. quem não se contradiz
não diz
radicalmente sério
só o cemitério
Publicado no livro Antilogia (1979).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
eu apenas
solto as minhas cobras
2. o futuro? já sei de cor:
só me interessa a metamemória
perdido no cosmos
a minha pátria é o jardim das delícias
3. que esperam de mim?
não sou ninguém
não me puxem pelo braço
sou revel
a minha consciência é o verme
e eu sou o cria corvos
4. já vivi duas vezes
e sonho com a terceira vida
visível só como sombra
5. façam de conta
que fui apenas um sonho
neste pesadelo da história
nem consegui gritar
fui enforcado com baader-meinhoff
ou pendurei-me em praça pública
com gérard de nerval?
6. quem não se contradiz
não diz
radicalmente sério
só o cemitério
Publicado no livro Antilogia (1979).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
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Sebastião Uchoa Leite
Take Off
1. há quem faça obras
eu apenas
solto as minhas cobras
2. o futuro? já sei de cor:
só me interessa a metamemória
perdido no cosmos
a minha pátria é o jardim das delícias
3. que esperam de mim?
não sou ninguém
não me puxem pelo braço
sou revel
a minha consciência é o verme
e eu sou o cria corvos
4. já vivi duas vezes
e sonho com a terceira vida
visível só como sombra
5. façam de conta
que fui apenas um sonho
neste pesadelo da história
nem consegui gritar
fui enforcado com baader-meinhoff
ou pendurei-me em praça pública
com gérard de nerval?
6. quem não se contradiz
não diz
radicalmente sério
só o cemitério
Publicado no livro Antilogia (1979).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
eu apenas
solto as minhas cobras
2. o futuro? já sei de cor:
só me interessa a metamemória
perdido no cosmos
a minha pátria é o jardim das delícias
3. que esperam de mim?
não sou ninguém
não me puxem pelo braço
sou revel
a minha consciência é o verme
e eu sou o cria corvos
4. já vivi duas vezes
e sonho com a terceira vida
visível só como sombra
5. façam de conta
que fui apenas um sonho
neste pesadelo da história
nem consegui gritar
fui enforcado com baader-meinhoff
ou pendurei-me em praça pública
com gérard de nerval?
6. quem não se contradiz
não diz
radicalmente sério
só o cemitério
Publicado no livro Antilogia (1979).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
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1
Pedro Kilkerry
Sob os Ramos, 1907
É no Estio. A alma, aqui, vai-me sonora,
No meu cavalo — sob a loira poeira
Que chove o sol — e vai-me a vida inteira
No meu cavalo, pela estrada afora.
Ai! desta em que te escrevo alta mangueira
Sob a copada verde a gente mora.
E em vindo a noite, acende-se a fogueira
Que se fez cinza de fogueira agora.
Passa-me a vida pelo campo... E a vida
Levo-a cantando, pássaros no seio,
Qual se os levasse a minha mocidade...
Cada ilusão floresce renascida;
Flora, renasces ao primeiro anseio
Do teu amor... nas asas da Saudade!
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
No meu cavalo — sob a loira poeira
Que chove o sol — e vai-me a vida inteira
No meu cavalo, pela estrada afora.
Ai! desta em que te escrevo alta mangueira
Sob a copada verde a gente mora.
E em vindo a noite, acende-se a fogueira
Que se fez cinza de fogueira agora.
Passa-me a vida pelo campo... E a vida
Levo-a cantando, pássaros no seio,
Qual se os levasse a minha mocidade...
Cada ilusão floresce renascida;
Flora, renasces ao primeiro anseio
Do teu amor... nas asas da Saudade!
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
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Pedro Kilkerry
Sob os Ramos, 1907
É no Estio. A alma, aqui, vai-me sonora,
No meu cavalo — sob a loira poeira
Que chove o sol — e vai-me a vida inteira
No meu cavalo, pela estrada afora.
Ai! desta em que te escrevo alta mangueira
Sob a copada verde a gente mora.
E em vindo a noite, acende-se a fogueira
Que se fez cinza de fogueira agora.
Passa-me a vida pelo campo... E a vida
Levo-a cantando, pássaros no seio,
Qual se os levasse a minha mocidade...
Cada ilusão floresce renascida;
Flora, renasces ao primeiro anseio
Do teu amor... nas asas da Saudade!
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
No meu cavalo — sob a loira poeira
Que chove o sol — e vai-me a vida inteira
No meu cavalo, pela estrada afora.
Ai! desta em que te escrevo alta mangueira
Sob a copada verde a gente mora.
E em vindo a noite, acende-se a fogueira
Que se fez cinza de fogueira agora.
Passa-me a vida pelo campo... E a vida
Levo-a cantando, pássaros no seio,
Qual se os levasse a minha mocidade...
Cada ilusão floresce renascida;
Flora, renasces ao primeiro anseio
Do teu amor... nas asas da Saudade!
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
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Paulo Setúbal
Sinh'Ana
Sinh'Ana é uma velhota quitandeira,
Comadre e amiga desta vila inteira,
Rica nos anos, rija na saúde
Que vive toscamente ao pé da estrada,
Numa casinha, simples e barreada,
Dum pitoresco delicioso e rude.
Ah! Quanta vez, nessas manhãs vermelhas,
Cheias de aromas, de canções, de abelhas,
Nós dois, numa travessa caminhada,
Não vínhamos ali — que bom passeio! —
Ver a frescura, a paz, o casto asseio,
Da humilde casinhola ao pé da estrada!
E quanta vez também (que ação profana!)
Doirávamos a toca de Sinh'Ana,
Com beijos e carícias romanescas,
Enquanto a velha, a cândida velhinha,
Voltando ingenuamente da cozinha,
Trazia um prato de broinhas frescas...
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
Comadre e amiga desta vila inteira,
Rica nos anos, rija na saúde
Que vive toscamente ao pé da estrada,
Numa casinha, simples e barreada,
Dum pitoresco delicioso e rude.
Ah! Quanta vez, nessas manhãs vermelhas,
Cheias de aromas, de canções, de abelhas,
Nós dois, numa travessa caminhada,
Não vínhamos ali — que bom passeio! —
Ver a frescura, a paz, o casto asseio,
Da humilde casinhola ao pé da estrada!
E quanta vez também (que ação profana!)
Doirávamos a toca de Sinh'Ana,
Com beijos e carícias romanescas,
Enquanto a velha, a cândida velhinha,
Voltando ingenuamente da cozinha,
Trazia um prato de broinhas frescas...
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
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Álvares de Azevedo
Spleen e Charutos - VI O Poeta Moribundo
Poetas! amanhã ao meu cadáver
Minha tripa cortai mais sonorosa!...
Façam dela uma corda, e cantem nela
Os amores da vida esperançosa!
Cantem esse verão que me alentava...
O aroma dos currais, o bezerrinho,
As aves que na sombra suspiravam,
E os sapos que cantavam no caminho!
Coração, porque tremes? Se esta lira
Nas minhas mãos sem força desafina;
Enquanto ao cemitério não te levam,
Casa no marimbau a alma divina!
Eu morro qual nas mãos da cozinheira
O marreco piando na agonia...
Como o cisne de outrora... que gemendo
Entre os hinos de amor se enternecia.
Coração, porque tremes? Vejo a morte,
Ali vem lazarenta e desdentada...
Que noiva!... E devo então dormir com ela?...
Se ela ao menos dormisse mascarada!
Que ruínas! que amor petrificado!
Tão antediluviano e gigantesco!
Ora, façam idéia que ternuras
Terá essa lagarta posta ao fresco!
Antes mil vezes que dormir com ela,
Que dessa fúria o gozo, amor eterno...
Se ali não há também amor de velha,
Dêem-me as caldeiras do terceiro Inferno!
No inferno estão suavíssimas belezas,
Cleópatras, Helenas, Eleonoras;
Lá se namora em boa companhia,
Não pode haver inferno com Senhoras!
Se é verdade que os homens gozadores,
Amigos de no vinho ter consolos,
Foram com Satanás fazer colônia,
Antes lá que do Céu sofrer os tolos! —
Ora! e forcem um'alma qual a minha
Que no altar sacrifica ao Deus-Preguiça
A cantar ladainha eternamente
E por mil anos ajudar a Missa!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
Minha tripa cortai mais sonorosa!...
Façam dela uma corda, e cantem nela
Os amores da vida esperançosa!
Cantem esse verão que me alentava...
O aroma dos currais, o bezerrinho,
As aves que na sombra suspiravam,
E os sapos que cantavam no caminho!
Coração, porque tremes? Se esta lira
Nas minhas mãos sem força desafina;
Enquanto ao cemitério não te levam,
Casa no marimbau a alma divina!
Eu morro qual nas mãos da cozinheira
O marreco piando na agonia...
Como o cisne de outrora... que gemendo
Entre os hinos de amor se enternecia.
Coração, porque tremes? Vejo a morte,
Ali vem lazarenta e desdentada...
Que noiva!... E devo então dormir com ela?...
Se ela ao menos dormisse mascarada!
Que ruínas! que amor petrificado!
Tão antediluviano e gigantesco!
Ora, façam idéia que ternuras
Terá essa lagarta posta ao fresco!
Antes mil vezes que dormir com ela,
Que dessa fúria o gozo, amor eterno...
Se ali não há também amor de velha,
Dêem-me as caldeiras do terceiro Inferno!
No inferno estão suavíssimas belezas,
Cleópatras, Helenas, Eleonoras;
Lá se namora em boa companhia,
Não pode haver inferno com Senhoras!
Se é verdade que os homens gozadores,
Amigos de no vinho ter consolos,
Foram com Satanás fazer colônia,
Antes lá que do Céu sofrer os tolos! —
Ora! e forcem um'alma qual a minha
Que no altar sacrifica ao Deus-Preguiça
A cantar ladainha eternamente
E por mil anos ajudar a Missa!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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Álvares de Azevedo
Spleen e Charutos - VI O Poeta Moribundo
Poetas! amanhã ao meu cadáver
Minha tripa cortai mais sonorosa!...
Façam dela uma corda, e cantem nela
Os amores da vida esperançosa!
Cantem esse verão que me alentava...
O aroma dos currais, o bezerrinho,
As aves que na sombra suspiravam,
E os sapos que cantavam no caminho!
Coração, porque tremes? Se esta lira
Nas minhas mãos sem força desafina;
Enquanto ao cemitério não te levam,
Casa no marimbau a alma divina!
Eu morro qual nas mãos da cozinheira
O marreco piando na agonia...
Como o cisne de outrora... que gemendo
Entre os hinos de amor se enternecia.
Coração, porque tremes? Vejo a morte,
Ali vem lazarenta e desdentada...
Que noiva!... E devo então dormir com ela?...
Se ela ao menos dormisse mascarada!
Que ruínas! que amor petrificado!
Tão antediluviano e gigantesco!
Ora, façam idéia que ternuras
Terá essa lagarta posta ao fresco!
Antes mil vezes que dormir com ela,
Que dessa fúria o gozo, amor eterno...
Se ali não há também amor de velha,
Dêem-me as caldeiras do terceiro Inferno!
No inferno estão suavíssimas belezas,
Cleópatras, Helenas, Eleonoras;
Lá se namora em boa companhia,
Não pode haver inferno com Senhoras!
Se é verdade que os homens gozadores,
Amigos de no vinho ter consolos,
Foram com Satanás fazer colônia,
Antes lá que do Céu sofrer os tolos! —
Ora! e forcem um'alma qual a minha
Que no altar sacrifica ao Deus-Preguiça
A cantar ladainha eternamente
E por mil anos ajudar a Missa!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
Minha tripa cortai mais sonorosa!...
Façam dela uma corda, e cantem nela
Os amores da vida esperançosa!
Cantem esse verão que me alentava...
O aroma dos currais, o bezerrinho,
As aves que na sombra suspiravam,
E os sapos que cantavam no caminho!
Coração, porque tremes? Se esta lira
Nas minhas mãos sem força desafina;
Enquanto ao cemitério não te levam,
Casa no marimbau a alma divina!
Eu morro qual nas mãos da cozinheira
O marreco piando na agonia...
Como o cisne de outrora... que gemendo
Entre os hinos de amor se enternecia.
Coração, porque tremes? Vejo a morte,
Ali vem lazarenta e desdentada...
Que noiva!... E devo então dormir com ela?...
Se ela ao menos dormisse mascarada!
Que ruínas! que amor petrificado!
Tão antediluviano e gigantesco!
Ora, façam idéia que ternuras
Terá essa lagarta posta ao fresco!
Antes mil vezes que dormir com ela,
Que dessa fúria o gozo, amor eterno...
Se ali não há também amor de velha,
Dêem-me as caldeiras do terceiro Inferno!
No inferno estão suavíssimas belezas,
Cleópatras, Helenas, Eleonoras;
Lá se namora em boa companhia,
Não pode haver inferno com Senhoras!
Se é verdade que os homens gozadores,
Amigos de no vinho ter consolos,
Foram com Satanás fazer colônia,
Antes lá que do Céu sofrer os tolos! —
Ora! e forcem um'alma qual a minha
Que no altar sacrifica ao Deus-Preguiça
A cantar ladainha eternamente
E por mil anos ajudar a Missa!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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Alexandre de Gusmão
A Seus Dois Filhos Persuadindo-lhes o Conhecimento Próprio
Isto não é vaidade; é desengano
A elevação do vosso pensamento:
Dei-vos o ser, e dou-vos documento
Para fugirdes da soberba ao dano.
Esta grandeza, com que ao mundo engano,
Foi da fortuna errado movimento.
Subi; mas tive humilde nascimento:
Assim foi Viriato, assim Trajano.
Quando souberdes ler do mundo a história,
Nos dous heróis, que tomo por empresa,
Contemplareis a vossa e a minha glória.
Humildes quanto ao ser da natureza;
Ilustres nas ações; e esta memória
É só quem pode dar-vos a grandeza.
Publicado no livro Coleção de vários escritos inéditos, políticos e literários (1841)
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.122. (Textos, 2
A elevação do vosso pensamento:
Dei-vos o ser, e dou-vos documento
Para fugirdes da soberba ao dano.
Esta grandeza, com que ao mundo engano,
Foi da fortuna errado movimento.
Subi; mas tive humilde nascimento:
Assim foi Viriato, assim Trajano.
Quando souberdes ler do mundo a história,
Nos dous heróis, que tomo por empresa,
Contemplareis a vossa e a minha glória.
Humildes quanto ao ser da natureza;
Ilustres nas ações; e esta memória
É só quem pode dar-vos a grandeza.
Publicado no livro Coleção de vários escritos inéditos, políticos e literários (1841)
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.122. (Textos, 2
902
1
Juó Bananére
O Gorvo i o Raposo
Fabula di Lafontana
Traduçó futuriste
Mestre gorvo n'un gaglio sintadigno,
Tenha nu bico un furmaggio;
Mestre rapozo sintino u xirigno,
Aparlô nistu linguagio:
— Eh! dottore Corvo, bondí!
Come stá o signore, stá bózigno?
Come o signore é bunitigno!
Té parece uma giurití
Apariáno a virdade pura,
O xirósa griatura!
Si o vostro linguagio
E' uguali co vostro prumagio,
Giuro per Zan Biniditto
Che in tutto istu distritto
Non tê ôtro passarigno
Che segia maise bunitigno.
O gorvo ficô tô inxado
Con istas adulaçô,
Chi até paricia o Rodorfo
No tempo da intervençó.
I pr'a amustrá o linguagio
Abri os brutto bicô,
I dixó gaí o furmagio
Chi o Raposo logo pigô
I dissi:
Sô gorvo, o signore é un goió
Piore do Gapitó!
Ma aprenda bê ista liçó,
I non credite maise in dulaçó.
I assi dizéno fui s'imbora,
Se rino do gorvo gaipóra.
O Gorvo, danado da a vida,
I co logro cre illi livô,
Pigô um pidaço di górda
I s'inforcô.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 196
Traduçó futuriste
Mestre gorvo n'un gaglio sintadigno,
Tenha nu bico un furmaggio;
Mestre rapozo sintino u xirigno,
Aparlô nistu linguagio:
— Eh! dottore Corvo, bondí!
Come stá o signore, stá bózigno?
Come o signore é bunitigno!
Té parece uma giurití
Apariáno a virdade pura,
O xirósa griatura!
Si o vostro linguagio
E' uguali co vostro prumagio,
Giuro per Zan Biniditto
Che in tutto istu distritto
Non tê ôtro passarigno
Che segia maise bunitigno.
O gorvo ficô tô inxado
Con istas adulaçô,
Chi até paricia o Rodorfo
No tempo da intervençó.
I pr'a amustrá o linguagio
Abri os brutto bicô,
I dixó gaí o furmagio
Chi o Raposo logo pigô
I dissi:
Sô gorvo, o signore é un goió
Piore do Gapitó!
Ma aprenda bê ista liçó,
I non credite maise in dulaçó.
I assi dizéno fui s'imbora,
Se rino do gorvo gaipóra.
O Gorvo, danado da a vida,
I co logro cre illi livô,
Pigô um pidaço di górda
I s'inforcô.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 196
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