Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Bocage
Se é doce
Se é doce no recente, ameno Estio
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias, e os verdores,
Mole, e queixoso, deslizar-se o rio:
Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os voláteis Amadores,
Seus versos modulando, e seus ardores
De entre os aromas de pomar sombrio:
Se é doce mares, céus ver anilados
Pela Quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os corações, floreia os prados:
Mais doce é ver-te, de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amor, melhor que a vida.
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias, e os verdores,
Mole, e queixoso, deslizar-se o rio:
Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os voláteis Amadores,
Seus versos modulando, e seus ardores
De entre os aromas de pomar sombrio:
Se é doce mares, céus ver anilados
Pela Quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os corações, floreia os prados:
Mais doce é ver-te, de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amor, melhor que a vida.
4 334
1
Bocage
Se é doce
Se é doce no recente, ameno Estio
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias, e os verdores,
Mole, e queixoso, deslizar-se o rio:
Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os voláteis Amadores,
Seus versos modulando, e seus ardores
De entre os aromas de pomar sombrio:
Se é doce mares, céus ver anilados
Pela Quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os corações, floreia os prados:
Mais doce é ver-te, de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amor, melhor que a vida.
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias, e os verdores,
Mole, e queixoso, deslizar-se o rio:
Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os voláteis Amadores,
Seus versos modulando, e seus ardores
De entre os aromas de pomar sombrio:
Se é doce mares, céus ver anilados
Pela Quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os corações, floreia os prados:
Mais doce é ver-te, de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amor, melhor que a vida.
4 334
1
Bocage
Se é doce
Se é doce no recente, ameno Estio
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias, e os verdores,
Mole, e queixoso, deslizar-se o rio:
Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os voláteis Amadores,
Seus versos modulando, e seus ardores
De entre os aromas de pomar sombrio:
Se é doce mares, céus ver anilados
Pela Quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os corações, floreia os prados:
Mais doce é ver-te, de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amor, melhor que a vida.
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias, e os verdores,
Mole, e queixoso, deslizar-se o rio:
Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os voláteis Amadores,
Seus versos modulando, e seus ardores
De entre os aromas de pomar sombrio:
Se é doce mares, céus ver anilados
Pela Quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os corações, floreia os prados:
Mais doce é ver-te, de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amor, melhor que a vida.
4 334
1
Fernando Pessoa
Se eu me sentir sono,
Se eu sentir sono,
E quiser dormir,
Naquele abandono
Que é o não sentir,
Quero que aconteça
Quando eu estiver
Pousando a cabeça,
Não num chão qualquer,
Mas onde sob ramos
Uma árvore faz
A sombra em que bebamos,
A sombra da paz.
20/04/1934
E quiser dormir,
Naquele abandono
Que é o não sentir,
Quero que aconteça
Quando eu estiver
Pousando a cabeça,
Não num chão qualquer,
Mas onde sob ramos
Uma árvore faz
A sombra em que bebamos,
A sombra da paz.
20/04/1934
4 156
1
Fernando Pessoa
4 - SPELL
SPELL
From the moonlit brink of dreams
I stretch foiled hands to thee,
O borne down other streams
Than eye can think to see!
O crowned with spirit beams!
O veiled spirituality!
My dreams and thoughts abate
Their pennons at thy feet.
O angel born too late
For fallen man to meet!
In what new sensual state
Could our twined lives feel sweet?
What new emotion must
I dream to think thee mine?
What purity of lust?
O tendrilled as a vine
Around my caressed trust!
O dream-pressed spirit-wine!
From the moonlit brink of dreams
I stretch foiled hands to thee,
O borne down other streams
Than eye can think to see!
O crowned with spirit beams!
O veiled spirituality!
My dreams and thoughts abate
Their pennons at thy feet.
O angel born too late
For fallen man to meet!
In what new sensual state
Could our twined lives feel sweet?
What new emotion must
I dream to think thee mine?
What purity of lust?
O tendrilled as a vine
Around my caressed trust!
O dream-pressed spirit-wine!
4 621
1
Gil Vicente
Fidalgo que chega com um Paje
O primeiro interlocutor é um Fidalgo que chega com um Paje, que lhe leva um rabo mui comprido e üa cadeira de espaldas. E começa o Arrais do Inferno ante que o Fidalgo venha.
DIABO À barca, à barca, houlá!
que temos gentil maré!
- Ora venha o carro a ré!
COMPANHEIRO Feito, feito!
Bem está!
Vai tu muitieramá,
e atesa aquele palanco
e despeja aquele banco,
pera a gente que virá.
À barca, à barca, hu-u!
Asinha, que se quer ir!
Oh, que tempo de partir,
louvores a Berzebu!
- Ora, sus! que fazes tu?
Despeja todo esse leito!
COMPANHEIRO Em boa hora! Feito, feito!
DIABO Abaixa aramá esse cu!
Faze aquela poja lesta
e alija aquela driça.
COMPANHEIRO Oh-oh, caça! Oh-oh, iça, iça!
DIABO Oh, que caravela esta!
Põe bandeiras, que é festa.
Verga alta! Âncora a pique!
- Ó poderoso dom Anrique,
cá vindes vós?... Que cousa é esta?...
Vem o Fidalgo e, chegando ao batel infernal, diz:
FIDALGO Esta barca onde vai ora,
que assi está apercebida?
DIABO Vai pera a ilha perdida,
e há-de partir logo ess'ora.
FIDALGO Pera lá vai a senhora?
DIABO Senhor, a vosso serviço.
FIDALGO Parece-me isso cortiço...
DIABO Porque a vedes lá de fora.
FIDALGO Porém, a que terra passais?
DIABO Pera o inferno, senhor.
FIDALGO Terra é bem sem-sabor.
DIABO Quê?... E também cá zombais?
FIDALGO E passageiros achais
pera tal habitação?
DIABO Vejo-vos eu em feição
pera ir ao nosso cais...
FIDALGO Parece-te a ti assi!...
DIABO Em que esperas ter guarida?
FIDALGO Que leixo na outra vida
quem reze sempre por mi.
DIABO Quem reze sempre por ti?! ..
Hi, hi, hi, hi, hi, hi, hi!...
E tu viveste a teu prazer,
cuidando cá guarecer
por que rezam lá por ti?!...
Embarca - ou embarcai...
que haveis de ir à derradeira!
Mandai meter a cadeira,
que assi passou vosso pai.
FIDALGO Quê? Quê? Quê? Assi lhe vai?!
DIABO Vai ou vem! Embarcai prestes!
Segundo lá escolhestes,
assi cá vos contentai.
Pois que já a morte passastes,
haveis de passar o rio.
FIDALGO Não há aqui outro navio?
DIABO Não, senhor, que este fretastes,
e primeiro que expirastes
me destes logo sinal.
FIDALGO Que sinal foi esse tal?
DIABO Do que vós vos contentastes.
FIDALGO A estoutra barca me vou.
Hou da barca! Para onde is?
Ah, barqueiros! Não me ouvis?
Respondei-me! Houlá! Hou!...
(Pardeus, aviado estou!
Cant'a isto é já pior...)
Oue jericocins, salvanor!
Cuidam cá que são#eu#grou?
ANJO Que quereis?
FIDALGO Que me digais,
pois parti tão sem aviso,
se a barca do Paraíso
é esta em que navegais.
ANJO Esta é; que demandais?
FIDALGO Que me leixeis embarcar.
Sou fidalgo#de#solar,
é bem que me recolhais.
ANJO Não se embarca tirania
neste batel divinal.
FIDALGO Não sei porque haveis por mal
que entre a minha senhoria...
ANJO Pera vossa fantesia
mui estreita é esta barca.
FIDALGO Pera senhor de tal marca
nom há aqui mais cortesia?
Venha a prancha e atavio!
Levai-me desta ribeira!
ANJO Não vindes vós de maneira
pera entrar neste navio.
Essoutro vai mais vazio:
a cadeira entrará
e o rabo caberá
e todo vosso senhorio.
Ireis lá mais espaçoso,
vós e vossa senhoria,
cuidando na tirania
do pobre povo queixoso.
E porque, de generoso,
desprezastes os pequenos,
achar-vos-eis tanto menos
quanto mais fostes fumoso.
DIABO À barca, à barca, senhores!
Oh! que maré tão de prata!
Um ventozinho que mata
e valentes remadores!
Diz, cantando:
Vós me veniredes a la mano,
a la mano me veniredes.
FIDALGO Ao Inferno, todavia!
Inferno há i pera mi?
Oh triste! Enquanto vivi
não cuidei que o i havia:
Tive que era fantesia!
Folgava ser adorado,
confiei em meu estado
e não vi que me perdia.
Venha essa prancha! Veremos
esta barca de tristura.
DIABO Embarque vossa doçura,
que cá nos entenderemos...
Tomarês um par de remos,
veremos como remais,
e, chegando ao nosso cais,
todos bem vos serviremos.
FIDALGO Esperar-me-ês vós aqui,
tornarei à outra vida
ver minha dama querida
que se quer matar por mi.
Dia, Que se quer matar por ti?!...
FIDALGO Isto bem certo o sei eu.
DIABO Ó namorado sandeu,
o maior que nunca vi!...
FIDALGO Como pod'rá isso ser,
que m'escrevia mil dias?
DIABO Quantas mentiras que lias,
e tu... morto de prazer!...
FIDALGO Pera que é escarnecer,
quem nom havia mais no bem?
DIABO Assi vivas tu, amém,
como te tinha querer!
FIDALGO Isto quanto ao que eu conheço...
DIABO Pois estando tu expirando,
se estava ela requebrando
com outro de menos preço.
FIDALGO Dá-me licença, te peço,
que vá ver minha mulher.
DIABO E ela, por não te ver,
despenhar-se-á dum cabeço!
Quanto ela hoje rezou,
antre seus gritos e gritas,
foi dar graças infinitas
a quem a desassombrou.
FIDALGO Cant'a ela, bem chorou!
DIABO Nom há i choro de alegria?..
FIDALGO E as lástimas que dezia?
DIABO Sua mãe lhas ensinou...
Entrai, meu senhor, entrai:
Ei la prancha! Ponde o pé...
FIDALGO Entremos, pois que assi é.
DIABO Ora, senhor, descansai,
passeai e suspirai.
Em tanto virá mais gente.
FIDALGO Ó barca, como és ardente!
Maldito quem em ti vai!
Diz o Diabo ao Moço da cadeira:
DIABO Nom entras cá! Vai-te d'i!
A cadeira é cá sobeja;
cousa que esteve na igreja
nom se há-de embarcar aqui.
Cá lha darão de marfi,
marchetada de dolores,
com tais modos de lavores,
que estará fora de si...
À barca, à barca, boa gente,
que queremos dar à vela!
Chegar ela! Chegar ela!
Muitos e de boamente!
Oh! que barca tão valente!
Vem um Onzeneiro, e pergunta ao Arrais do Inferno, dizendo:
ONZENEIRO Pera onde caminhais?
DIABO Oh! que má-hora venhais,
onzeneiro, meu parente!
Como tardastes vós tanto?
ONZENEIRO Mais quisera eu lá tardar...
Na safra do apanhar
me deu Saturno quebranto.
DIABO Ora mui muito m'espanto
nom vos livrar o dinheiro!...
ONZENEIRO Solamente para o barqueiro
nom me leixaram nem tanto...
DIABO Ora entrai, entrai aqui!
ONZENEIRO Não hei eu i d'embarcar!
DIABO Oh! que gentil recear,
e que cousas pera mi!...
ONZENEIRO Ainda agora faleci,
leixa-me buscar batel!
DIABO Pesar de Jam#Pimentel!
Porque não irás aqui?..
DIABO À barca, à barca, houlá!
que temos gentil maré!
- Ora venha o carro a ré!
COMPANHEIRO Feito, feito!
Bem está!
Vai tu muitieramá,
e atesa aquele palanco
e despeja aquele banco,
pera a gente que virá.
À barca, à barca, hu-u!
Asinha, que se quer ir!
Oh, que tempo de partir,
louvores a Berzebu!
- Ora, sus! que fazes tu?
Despeja todo esse leito!
COMPANHEIRO Em boa hora! Feito, feito!
DIABO Abaixa aramá esse cu!
Faze aquela poja lesta
e alija aquela driça.
COMPANHEIRO Oh-oh, caça! Oh-oh, iça, iça!
DIABO Oh, que caravela esta!
Põe bandeiras, que é festa.
Verga alta! Âncora a pique!
- Ó poderoso dom Anrique,
cá vindes vós?... Que cousa é esta?...
Vem o Fidalgo e, chegando ao batel infernal, diz:
FIDALGO Esta barca onde vai ora,
que assi está apercebida?
DIABO Vai pera a ilha perdida,
e há-de partir logo ess'ora.
FIDALGO Pera lá vai a senhora?
DIABO Senhor, a vosso serviço.
FIDALGO Parece-me isso cortiço...
DIABO Porque a vedes lá de fora.
FIDALGO Porém, a que terra passais?
DIABO Pera o inferno, senhor.
FIDALGO Terra é bem sem-sabor.
DIABO Quê?... E também cá zombais?
FIDALGO E passageiros achais
pera tal habitação?
DIABO Vejo-vos eu em feição
pera ir ao nosso cais...
FIDALGO Parece-te a ti assi!...
DIABO Em que esperas ter guarida?
FIDALGO Que leixo na outra vida
quem reze sempre por mi.
DIABO Quem reze sempre por ti?! ..
Hi, hi, hi, hi, hi, hi, hi!...
E tu viveste a teu prazer,
cuidando cá guarecer
por que rezam lá por ti?!...
Embarca - ou embarcai...
que haveis de ir à derradeira!
Mandai meter a cadeira,
que assi passou vosso pai.
FIDALGO Quê? Quê? Quê? Assi lhe vai?!
DIABO Vai ou vem! Embarcai prestes!
Segundo lá escolhestes,
assi cá vos contentai.
Pois que já a morte passastes,
haveis de passar o rio.
FIDALGO Não há aqui outro navio?
DIABO Não, senhor, que este fretastes,
e primeiro que expirastes
me destes logo sinal.
FIDALGO Que sinal foi esse tal?
DIABO Do que vós vos contentastes.
FIDALGO A estoutra barca me vou.
Hou da barca! Para onde is?
Ah, barqueiros! Não me ouvis?
Respondei-me! Houlá! Hou!...
(Pardeus, aviado estou!
Cant'a isto é já pior...)
Oue jericocins, salvanor!
Cuidam cá que são#eu#grou?
ANJO Que quereis?
FIDALGO Que me digais,
pois parti tão sem aviso,
se a barca do Paraíso
é esta em que navegais.
ANJO Esta é; que demandais?
FIDALGO Que me leixeis embarcar.
Sou fidalgo#de#solar,
é bem que me recolhais.
ANJO Não se embarca tirania
neste batel divinal.
FIDALGO Não sei porque haveis por mal
que entre a minha senhoria...
ANJO Pera vossa fantesia
mui estreita é esta barca.
FIDALGO Pera senhor de tal marca
nom há aqui mais cortesia?
Venha a prancha e atavio!
Levai-me desta ribeira!
ANJO Não vindes vós de maneira
pera entrar neste navio.
Essoutro vai mais vazio:
a cadeira entrará
e o rabo caberá
e todo vosso senhorio.
Ireis lá mais espaçoso,
vós e vossa senhoria,
cuidando na tirania
do pobre povo queixoso.
E porque, de generoso,
desprezastes os pequenos,
achar-vos-eis tanto menos
quanto mais fostes fumoso.
DIABO À barca, à barca, senhores!
Oh! que maré tão de prata!
Um ventozinho que mata
e valentes remadores!
Diz, cantando:
Vós me veniredes a la mano,
a la mano me veniredes.
FIDALGO Ao Inferno, todavia!
Inferno há i pera mi?
Oh triste! Enquanto vivi
não cuidei que o i havia:
Tive que era fantesia!
Folgava ser adorado,
confiei em meu estado
e não vi que me perdia.
Venha essa prancha! Veremos
esta barca de tristura.
DIABO Embarque vossa doçura,
que cá nos entenderemos...
Tomarês um par de remos,
veremos como remais,
e, chegando ao nosso cais,
todos bem vos serviremos.
FIDALGO Esperar-me-ês vós aqui,
tornarei à outra vida
ver minha dama querida
que se quer matar por mi.
Dia, Que se quer matar por ti?!...
FIDALGO Isto bem certo o sei eu.
DIABO Ó namorado sandeu,
o maior que nunca vi!...
FIDALGO Como pod'rá isso ser,
que m'escrevia mil dias?
DIABO Quantas mentiras que lias,
e tu... morto de prazer!...
FIDALGO Pera que é escarnecer,
quem nom havia mais no bem?
DIABO Assi vivas tu, amém,
como te tinha querer!
FIDALGO Isto quanto ao que eu conheço...
DIABO Pois estando tu expirando,
se estava ela requebrando
com outro de menos preço.
FIDALGO Dá-me licença, te peço,
que vá ver minha mulher.
DIABO E ela, por não te ver,
despenhar-se-á dum cabeço!
Quanto ela hoje rezou,
antre seus gritos e gritas,
foi dar graças infinitas
a quem a desassombrou.
FIDALGO Cant'a ela, bem chorou!
DIABO Nom há i choro de alegria?..
FIDALGO E as lástimas que dezia?
DIABO Sua mãe lhas ensinou...
Entrai, meu senhor, entrai:
Ei la prancha! Ponde o pé...
FIDALGO Entremos, pois que assi é.
DIABO Ora, senhor, descansai,
passeai e suspirai.
Em tanto virá mais gente.
FIDALGO Ó barca, como és ardente!
Maldito quem em ti vai!
Diz o Diabo ao Moço da cadeira:
DIABO Nom entras cá! Vai-te d'i!
A cadeira é cá sobeja;
cousa que esteve na igreja
nom se há-de embarcar aqui.
Cá lha darão de marfi,
marchetada de dolores,
com tais modos de lavores,
que estará fora de si...
À barca, à barca, boa gente,
que queremos dar à vela!
Chegar ela! Chegar ela!
Muitos e de boamente!
Oh! que barca tão valente!
Vem um Onzeneiro, e pergunta ao Arrais do Inferno, dizendo:
ONZENEIRO Pera onde caminhais?
DIABO Oh! que má-hora venhais,
onzeneiro, meu parente!
Como tardastes vós tanto?
ONZENEIRO Mais quisera eu lá tardar...
Na safra do apanhar
me deu Saturno quebranto.
DIABO Ora mui muito m'espanto
nom vos livrar o dinheiro!...
ONZENEIRO Solamente para o barqueiro
nom me leixaram nem tanto...
DIABO Ora entrai, entrai aqui!
ONZENEIRO Não hei eu i d'embarcar!
DIABO Oh! que gentil recear,
e que cousas pera mi!...
ONZENEIRO Ainda agora faleci,
leixa-me buscar batel!
DIABO Pesar de Jam#Pimentel!
Porque não irás aqui?..
3 957
1
Fernando Pessoa
Já não me importo
Já não me importo
Até com o que amo ou creio amar.
Sou um navio que chegou a um porto
E cujo movimento é ali estar.
Nada me resta
Do que quis ou achei.
Cheguei da festa
Como fui para lá ou ainda irei
Indiferente
A quem sou ou suponho que mal sou,
Fito a gente
Que me rodeia e sempre rodeou,
Com um olhar
Que, sem o poder ver,
Sei que é sem ar
De olhar a valer.
E só me não cansa
O que a brisa me traz
De súbita mudança
No que nada me faz.
02/09/1935
Até com o que amo ou creio amar.
Sou um navio que chegou a um porto
E cujo movimento é ali estar.
Nada me resta
Do que quis ou achei.
Cheguei da festa
Como fui para lá ou ainda irei
Indiferente
A quem sou ou suponho que mal sou,
Fito a gente
Que me rodeia e sempre rodeou,
Com um olhar
Que, sem o poder ver,
Sei que é sem ar
De olhar a valer.
E só me não cansa
O que a brisa me traz
De súbita mudança
No que nada me faz.
02/09/1935
4 733
1
Fernando Pessoa
18 - SUMMER MOMENTS
SUMMER MOMENTS
I
The sky is blue
The glad grass green.
My sad eyes woo
The alien scene.
O could my heart
Partake of it
And feel no smart
Feeling life flit!
I have no home,
No hours save pain.
Sweet breezes, come
Into my brain!
Great river so
Quiet and true,
Teach me to go
Through life like you!
I have no rest.
My flowers have faded.
What was that quest
My will evaded?
Even what I wish
I care not for.
My heart is rich
And my love poor.
O golden day,
Come into me
And my soul ray
With sunlit glee!
Let me be merely
A window-pane
You pass through, clearly
A warmed no-pain.
I faint and shiver
Hearing life come.
O passing river,
Where is my home?
O happy hours
That the fields wear,
Fresh summer showers!
O my despair!
O glad horizons!
O happy hills!
What pain imprisons
My struggling wills?
What is between
Myself and me?
What should have been
Lest this should be?
My life no more
Ever to be
Than a lone shore
Struck by the sea!
What fate, what power
Of dark despair
Makes each fair hour
Taste as not fair?
O for some rest!
Give me a home,
A hope, a nest
Not to stray from!
Somewhere in life
Sure there must be
Something not strife
Waiting for me.
Lead me to it,
O happy day!
Make my heart fit
Thy going away!
Wake me the hopes
At least, though false.
My spirit gropes
Round prison-walls.
Low voice of streams,
Sweet summer's wife –
Why made I dreams
My only life?
I
The sky is blue
The glad grass green.
My sad eyes woo
The alien scene.
O could my heart
Partake of it
And feel no smart
Feeling life flit!
I have no home,
No hours save pain.
Sweet breezes, come
Into my brain!
Great river so
Quiet and true,
Teach me to go
Through life like you!
I have no rest.
My flowers have faded.
What was that quest
My will evaded?
Even what I wish
I care not for.
My heart is rich
And my love poor.
O golden day,
Come into me
And my soul ray
With sunlit glee!
Let me be merely
A window-pane
You pass through, clearly
A warmed no-pain.
I faint and shiver
Hearing life come.
O passing river,
Where is my home?
O happy hours
That the fields wear,
Fresh summer showers!
O my despair!
O glad horizons!
O happy hills!
What pain imprisons
My struggling wills?
What is between
Myself and me?
What should have been
Lest this should be?
My life no more
Ever to be
Than a lone shore
Struck by the sea!
What fate, what power
Of dark despair
Makes each fair hour
Taste as not fair?
O for some rest!
Give me a home,
A hope, a nest
Not to stray from!
Somewhere in life
Sure there must be
Something not strife
Waiting for me.
Lead me to it,
O happy day!
Make my heart fit
Thy going away!
Wake me the hopes
At least, though false.
My spirit gropes
Round prison-walls.
Low voice of streams,
Sweet summer's wife –
Why made I dreams
My only life?
4 705
1
Fernando Pessoa
18 - SUMMER MOMENTS
SUMMER MOMENTS
I
The sky is blue
The glad grass green.
My sad eyes woo
The alien scene.
O could my heart
Partake of it
And feel no smart
Feeling life flit!
I have no home,
No hours save pain.
Sweet breezes, come
Into my brain!
Great river so
Quiet and true,
Teach me to go
Through life like you!
I have no rest.
My flowers have faded.
What was that quest
My will evaded?
Even what I wish
I care not for.
My heart is rich
And my love poor.
O golden day,
Come into me
And my soul ray
With sunlit glee!
Let me be merely
A window-pane
You pass through, clearly
A warmed no-pain.
I faint and shiver
Hearing life come.
O passing river,
Where is my home?
O happy hours
That the fields wear,
Fresh summer showers!
O my despair!
O glad horizons!
O happy hills!
What pain imprisons
My struggling wills?
What is between
Myself and me?
What should have been
Lest this should be?
My life no more
Ever to be
Than a lone shore
Struck by the sea!
What fate, what power
Of dark despair
Makes each fair hour
Taste as not fair?
O for some rest!
Give me a home,
A hope, a nest
Not to stray from!
Somewhere in life
Sure there must be
Something not strife
Waiting for me.
Lead me to it,
O happy day!
Make my heart fit
Thy going away!
Wake me the hopes
At least, though false.
My spirit gropes
Round prison-walls.
Low voice of streams,
Sweet summer's wife –
Why made I dreams
My only life?
I
The sky is blue
The glad grass green.
My sad eyes woo
The alien scene.
O could my heart
Partake of it
And feel no smart
Feeling life flit!
I have no home,
No hours save pain.
Sweet breezes, come
Into my brain!
Great river so
Quiet and true,
Teach me to go
Through life like you!
I have no rest.
My flowers have faded.
What was that quest
My will evaded?
Even what I wish
I care not for.
My heart is rich
And my love poor.
O golden day,
Come into me
And my soul ray
With sunlit glee!
Let me be merely
A window-pane
You pass through, clearly
A warmed no-pain.
I faint and shiver
Hearing life come.
O passing river,
Where is my home?
O happy hours
That the fields wear,
Fresh summer showers!
O my despair!
O glad horizons!
O happy hills!
What pain imprisons
My struggling wills?
What is between
Myself and me?
What should have been
Lest this should be?
My life no more
Ever to be
Than a lone shore
Struck by the sea!
What fate, what power
Of dark despair
Makes each fair hour
Taste as not fair?
O for some rest!
Give me a home,
A hope, a nest
Not to stray from!
Somewhere in life
Sure there must be
Something not strife
Waiting for me.
Lead me to it,
O happy day!
Make my heart fit
Thy going away!
Wake me the hopes
At least, though false.
My spirit gropes
Round prison-walls.
Low voice of streams,
Sweet summer's wife –
Why made I dreams
My only life?
4 705
1
Fernando Pessoa
O sol queima o que toca.
O sol queima o que toca.
O verde à luz desenverdece.
Seca-me a sensação da boca.
Nas minhas papilas esquece.
24/08/1930
O verde à luz desenverdece.
Seca-me a sensação da boca.
Nas minhas papilas esquece.
24/08/1930
4 618
1
Fernando Pessoa
O vento tem variedade
O vento tem variedade
Nas formas de parecer.
Se vens dizer-me a verdade,
Porque é que ma vens dizer?
Verdades, quem é que as quer?
Se a vida é o que é,
Então está bem o que está.
Para que ir pé ante pé
Até ontem e até já
E até onde nada há?
Enrola o cordão à roda
Do teu dedo sem razão.
Tudo é uma espécie de moda
E acaba na ocasião.
Quem te deu esse cordão?
08/03/1931
Nas formas de parecer.
Se vens dizer-me a verdade,
Porque é que ma vens dizer?
Verdades, quem é que as quer?
Se a vida é o que é,
Então está bem o que está.
Para que ir pé ante pé
Até ontem e até já
E até onde nada há?
Enrola o cordão à roda
Do teu dedo sem razão.
Tudo é uma espécie de moda
E acaba na ocasião.
Quem te deu esse cordão?
08/03/1931
4 387
1
Fernando Pessoa
Não quero mais que um som de água
Não quero mais que um som de água
Ao pé de um adormecer.
Trago sonho, trago mágoa,
Trago com que não querer.
Como nada amei nem fiz
Quero descansar de nada.
Amanhã serei feliz
Se para amanhã há estrada.
Por enquanto, na estalagem
De não ter cura de mim,
Gozarei só pela aragem
As flores do outro jardim.
Por enquanto, por enquanto,
Por enquanto não sei quê...
Pobre alma, choras sem pranto,
E ouves como quem vê.
19/08/1930
Ao pé de um adormecer.
Trago sonho, trago mágoa,
Trago com que não querer.
Como nada amei nem fiz
Quero descansar de nada.
Amanhã serei feliz
Se para amanhã há estrada.
Por enquanto, na estalagem
De não ter cura de mim,
Gozarei só pela aragem
As flores do outro jardim.
Por enquanto, por enquanto,
Por enquanto não sei quê...
Pobre alma, choras sem pranto,
E ouves como quem vê.
19/08/1930
4 464
1
Fernando Pessoa
Rala cai chuva. O ar não é escuro. A hora
Rala cai chuva. O ar não é escuro. A hora
Inclina-se na haste; e depois volta.
Que bem a fantasia se me solta!
Com que vestígios me descobre agora!
Tédio dos interstícios, onde mora
A fazer de lagarto. – O muro escolta
A minha eterna angústia de revolta
E esse muro sou eu e o que em mim chora.
Não digas mais, pois te ignorei cativo...
Teus olhos lembram o que querem ser,
Murmúrio de águas sobre a praia, e o esquivo
Langor do poente que me faz esquecer.
Que real que és! Mas eu, que vejo e vivo,
Perco-te, e o som do mar faz-te perder.
1932
Inclina-se na haste; e depois volta.
Que bem a fantasia se me solta!
Com que vestígios me descobre agora!
Tédio dos interstícios, onde mora
A fazer de lagarto. – O muro escolta
A minha eterna angústia de revolta
E esse muro sou eu e o que em mim chora.
Não digas mais, pois te ignorei cativo...
Teus olhos lembram o que querem ser,
Murmúrio de águas sobre a praia, e o esquivo
Langor do poente que me faz esquecer.
Que real que és! Mas eu, que vejo e vivo,
Perco-te, e o som do mar faz-te perder.
1932
4 357
1
Fernando Pessoa
Rala cai chuva. O ar não é escuro. A hora
Rala cai chuva. O ar não é escuro. A hora
Inclina-se na haste; e depois volta.
Que bem a fantasia se me solta!
Com que vestígios me descobre agora!
Tédio dos interstícios, onde mora
A fazer de lagarto. – O muro escolta
A minha eterna angústia de revolta
E esse muro sou eu e o que em mim chora.
Não digas mais, pois te ignorei cativo...
Teus olhos lembram o que querem ser,
Murmúrio de águas sobre a praia, e o esquivo
Langor do poente que me faz esquecer.
Que real que és! Mas eu, que vejo e vivo,
Perco-te, e o som do mar faz-te perder.
1932
Inclina-se na haste; e depois volta.
Que bem a fantasia se me solta!
Com que vestígios me descobre agora!
Tédio dos interstícios, onde mora
A fazer de lagarto. – O muro escolta
A minha eterna angústia de revolta
E esse muro sou eu e o que em mim chora.
Não digas mais, pois te ignorei cativo...
Teus olhos lembram o que querem ser,
Murmúrio de águas sobre a praia, e o esquivo
Langor do poente que me faz esquecer.
Que real que és! Mas eu, que vejo e vivo,
Perco-te, e o som do mar faz-te perder.
1932
4 357
1
Fernando Pessoa
Em torno a mim, em maré cheia,
Em torno a mim, em maré cheia,
Soam como ondas a brilhar,
O dia, o tempo, a obra alheia,
O mundo natural a estar.
Mas eu, fechado no meu sonho,
Parado enigma, e, sem querer,
Inutilmente recomponho
Visões do que não pude ser.
Cadáver da vontade feita,
Mito real, sonho a sentir,
Sequência interrompida, eleita
Para os destinos de partir.
Mas presa à inércia angustiada
De não saber a direcção,
E ficar morto na erma estrada
Que vai da alma ao coração.
Hora própria, nunca venhas,
Que olhar talvez fosse pior...
E tu, sol claro que me banhas,
Ah, banha sempre o meu torpor!
26/04/1926
Soam como ondas a brilhar,
O dia, o tempo, a obra alheia,
O mundo natural a estar.
Mas eu, fechado no meu sonho,
Parado enigma, e, sem querer,
Inutilmente recomponho
Visões do que não pude ser.
Cadáver da vontade feita,
Mito real, sonho a sentir,
Sequência interrompida, eleita
Para os destinos de partir.
Mas presa à inércia angustiada
De não saber a direcção,
E ficar morto na erma estrada
Que vai da alma ao coração.
Hora própria, nunca venhas,
Que olhar talvez fosse pior...
E tu, sol claro que me banhas,
Ah, banha sempre o meu torpor!
26/04/1926
4 365
1
Fernando Pessoa
Na orla do vento movem
Na orla do vento movem
Seus corpos mortos as folhas.
E ora das árvores chovem,
Ora onde inertes não movem
A chuva do Outono molha-as.
Não há no meu pensamento
Vontade com que o pensar
Não tenho neste momento
Nada no meu pensamento:
Sou como as folhas ao ar.
Mas elas certa não sentem
Esta mágoa inteira e funda
Que meus sentidos consentem.
Nada são e nada sentem
Da minha mágoa profunda.
19/01/1931
Seus corpos mortos as folhas.
E ora das árvores chovem,
Ora onde inertes não movem
A chuva do Outono molha-as.
Não há no meu pensamento
Vontade com que o pensar
Não tenho neste momento
Nada no meu pensamento:
Sou como as folhas ao ar.
Mas elas certa não sentem
Esta mágoa inteira e funda
Que meus sentidos consentem.
Nada são e nada sentem
Da minha mágoa profunda.
19/01/1931
4 629
1
Fernando Pessoa
Na orla do vento movem
Na orla do vento movem
Seus corpos mortos as folhas.
E ora das árvores chovem,
Ora onde inertes não movem
A chuva do Outono molha-as.
Não há no meu pensamento
Vontade com que o pensar
Não tenho neste momento
Nada no meu pensamento:
Sou como as folhas ao ar.
Mas elas certa não sentem
Esta mágoa inteira e funda
Que meus sentidos consentem.
Nada são e nada sentem
Da minha mágoa profunda.
19/01/1931
Seus corpos mortos as folhas.
E ora das árvores chovem,
Ora onde inertes não movem
A chuva do Outono molha-as.
Não há no meu pensamento
Vontade com que o pensar
Não tenho neste momento
Nada no meu pensamento:
Sou como as folhas ao ar.
Mas elas certa não sentem
Esta mágoa inteira e funda
Que meus sentidos consentem.
Nada são e nada sentem
Da minha mágoa profunda.
19/01/1931
4 629
1
Fernando Pessoa
VENDAVAL
O VENDAVAL
Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,
Não achas, soprando por tanta solidão,
Deserto, penhasco, coval mais vazio
Que o meu coração!
Indómita praia, que a raiva do oceano
Faz louco lugar, caverna sem fim,
Não são tão deixados do alegre e do humano
Como a alma que há em mim!
Mas dura planície, praia atra em fereza,
Só têm a tristeza que a gente lhes vê;
E nisto que em mim é vácuo e tristeza
É o visto o que vê.
Ah, mágoa de ter consciência da vida!
Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,
Que rasgas os robles – teu pulso divida
Minh'alma do mundo!
Ah, se, como levas as folhas e a areia,
A alma que tenho pudesses levar –
Fosse pr'onde fosse, pra longe da ideia
De eu ter que pensar!
Abismo da noite, da chuva, do vento,
Mar torvo do caos que parece volver –
Porque é que não entras no meu pensamento
Para ele morrer?
Horror de ser sempre com vida a consciência!
Horror de sentir a alma sempre a pensar!
Arranca-me, ó vento; do chão da existência,
De ser um lugar!
E, pela alta noite que fazes mais escura,
Pelo caos furioso que crias no mundo,
Dissolve em areia esta minha amargura,
Meu tédio profundo.
E contra as vidraças dos que há que têm lares,
Telhados daqueles que têm razão,
Atira, já pária desfeito dos ares,
O meu coração!
Meu coração triste, meu coração ermo,
Tornado a substância dispersa e negada
Do vento sem forma, da noite sem termo,
Do abismo e do nada!
12/10/1919
Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,
Não achas, soprando por tanta solidão,
Deserto, penhasco, coval mais vazio
Que o meu coração!
Indómita praia, que a raiva do oceano
Faz louco lugar, caverna sem fim,
Não são tão deixados do alegre e do humano
Como a alma que há em mim!
Mas dura planície, praia atra em fereza,
Só têm a tristeza que a gente lhes vê;
E nisto que em mim é vácuo e tristeza
É o visto o que vê.
Ah, mágoa de ter consciência da vida!
Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,
Que rasgas os robles – teu pulso divida
Minh'alma do mundo!
Ah, se, como levas as folhas e a areia,
A alma que tenho pudesses levar –
Fosse pr'onde fosse, pra longe da ideia
De eu ter que pensar!
Abismo da noite, da chuva, do vento,
Mar torvo do caos que parece volver –
Porque é que não entras no meu pensamento
Para ele morrer?
Horror de ser sempre com vida a consciência!
Horror de sentir a alma sempre a pensar!
Arranca-me, ó vento; do chão da existência,
De ser um lugar!
E, pela alta noite que fazes mais escura,
Pelo caos furioso que crias no mundo,
Dissolve em areia esta minha amargura,
Meu tédio profundo.
E contra as vidraças dos que há que têm lares,
Telhados daqueles que têm razão,
Atira, já pária desfeito dos ares,
O meu coração!
Meu coração triste, meu coração ermo,
Tornado a substância dispersa e negada
Do vento sem forma, da noite sem termo,
Do abismo e do nada!
12/10/1919
5 023
1
Fernando Pessoa
Vou com um passo como de ir parar
Vou com um passo como de ir parar
Pela rua vazia
Nem sinto como um mal ou mal-estar
A vaga chuva fria...
Vou pela noite da indistinta rua
Alheio a andar e a ser
E a chuva leve em minha face nua
Orvalha de esquecer...
Sim, tudo esqueço. Pela noite sou
Noite também
E vagaroso eu (...) vou,
Fantasma de magia.
No vácuo que se forma de eu ser eu
E da noite ser triste
Meu ser existe sem que seja meu
E anónimo persiste...
Qual é o instinto que fica esquecido
Entre o passeio e a rua?
Vou sob a chuva, amargo e diluído
E tenho a face nua.
14/02/1929
Pela rua vazia
Nem sinto como um mal ou mal-estar
A vaga chuva fria...
Vou pela noite da indistinta rua
Alheio a andar e a ser
E a chuva leve em minha face nua
Orvalha de esquecer...
Sim, tudo esqueço. Pela noite sou
Noite também
E vagaroso eu (...) vou,
Fantasma de magia.
No vácuo que se forma de eu ser eu
E da noite ser triste
Meu ser existe sem que seja meu
E anónimo persiste...
Qual é o instinto que fica esquecido
Entre o passeio e a rua?
Vou sob a chuva, amargo e diluído
E tenho a face nua.
14/02/1929
4 532
1
Fernando Pessoa
Vejo passar os barcos pelo mar,
Vejo passar os barcos pelo mar,
As velas, como asas do que vejo
Trazem-me um vago e íntimo desejo
De ser quem fui, sem eu saber que foi.
Por isso tudo lembra o meu ser lar,
E, porque o lembra, quanto sou me dói.
1932
As velas, como asas do que vejo
Trazem-me um vago e íntimo desejo
De ser quem fui, sem eu saber que foi.
Por isso tudo lembra o meu ser lar,
E, porque o lembra, quanto sou me dói.
1932
5 327
1
Fernando Pessoa
Leves véus velam, nuvens vãs, a Lua.
Leves véus velam, nuvens vãs, a Lua.
Crepúsculo na noite..., e é triste ver,
Em vez da límpida amplitude nua
Do céu, a noite e o céu a escurecer.
A noite é húmida de conhecer,
Sem que humidade de água seja sua.
(...)
09/01/1933
Crepúsculo na noite..., e é triste ver,
Em vez da límpida amplitude nua
Do céu, a noite e o céu a escurecer.
A noite é húmida de conhecer,
Sem que humidade de água seja sua.
(...)
09/01/1933
4 666
1
Fernando Pessoa
De além das montanhas,
De além das montanhas,
De além do luar
Vêm formas estranhas.
São gémeas do vento,
São só pensamento.
Mudam as entranhas
De as ouvir passar.
Cavalgada rindo
Seu curso do além,
Vem vindo, vem vindo,
E tremem janelas,
Velam-se as estrelas,
Os ramos, rugindo,
Falam como alguém.
Mas, súbito, aragem
Que perdeu o som,
Cessou a passagem
Do que tirou calma
Aos ramos e à alma.
Só se ouve a folhagem
Num sussurro bom.
E, abrindo a janela,
Contemplo, a mal ver,
Ao luar uma estrela
Tão vaga, tão vaga,
Que quase se apaga.
Quem sabe se ela
Vai também levada,
Qual tanta faltada,
Nessa cavalgada
Que passou sem ser?
05/09/1933
De além do luar
Vêm formas estranhas.
São gémeas do vento,
São só pensamento.
Mudam as entranhas
De as ouvir passar.
Cavalgada rindo
Seu curso do além,
Vem vindo, vem vindo,
E tremem janelas,
Velam-se as estrelas,
Os ramos, rugindo,
Falam como alguém.
Mas, súbito, aragem
Que perdeu o som,
Cessou a passagem
Do que tirou calma
Aos ramos e à alma.
Só se ouve a folhagem
Num sussurro bom.
E, abrindo a janela,
Contemplo, a mal ver,
Ao luar uma estrela
Tão vaga, tão vaga,
Que quase se apaga.
Quem sabe se ela
Vai também levada,
Qual tanta faltada,
Nessa cavalgada
Que passou sem ser?
05/09/1933
5 803
1
Fernando Pessoa
De além das montanhas,
De além das montanhas,
De além do luar
Vêm formas estranhas.
São gémeas do vento,
São só pensamento.
Mudam as entranhas
De as ouvir passar.
Cavalgada rindo
Seu curso do além,
Vem vindo, vem vindo,
E tremem janelas,
Velam-se as estrelas,
Os ramos, rugindo,
Falam como alguém.
Mas, súbito, aragem
Que perdeu o som,
Cessou a passagem
Do que tirou calma
Aos ramos e à alma.
Só se ouve a folhagem
Num sussurro bom.
E, abrindo a janela,
Contemplo, a mal ver,
Ao luar uma estrela
Tão vaga, tão vaga,
Que quase se apaga.
Quem sabe se ela
Vai também levada,
Qual tanta faltada,
Nessa cavalgada
Que passou sem ser?
05/09/1933
De além do luar
Vêm formas estranhas.
São gémeas do vento,
São só pensamento.
Mudam as entranhas
De as ouvir passar.
Cavalgada rindo
Seu curso do além,
Vem vindo, vem vindo,
E tremem janelas,
Velam-se as estrelas,
Os ramos, rugindo,
Falam como alguém.
Mas, súbito, aragem
Que perdeu o som,
Cessou a passagem
Do que tirou calma
Aos ramos e à alma.
Só se ouve a folhagem
Num sussurro bom.
E, abrindo a janela,
Contemplo, a mal ver,
Ao luar uma estrela
Tão vaga, tão vaga,
Que quase se apaga.
Quem sabe se ela
Vai também levada,
Qual tanta faltada,
Nessa cavalgada
Que passou sem ser?
05/09/1933
5 803
1
Fernando Pessoa
De além das montanhas,
De além das montanhas,
De além do luar
Vêm formas estranhas.
São gémeas do vento,
São só pensamento.
Mudam as entranhas
De as ouvir passar.
Cavalgada rindo
Seu curso do além,
Vem vindo, vem vindo,
E tremem janelas,
Velam-se as estrelas,
Os ramos, rugindo,
Falam como alguém.
Mas, súbito, aragem
Que perdeu o som,
Cessou a passagem
Do que tirou calma
Aos ramos e à alma.
Só se ouve a folhagem
Num sussurro bom.
E, abrindo a janela,
Contemplo, a mal ver,
Ao luar uma estrela
Tão vaga, tão vaga,
Que quase se apaga.
Quem sabe se ela
Vai também levada,
Qual tanta faltada,
Nessa cavalgada
Que passou sem ser?
05/09/1933
De além do luar
Vêm formas estranhas.
São gémeas do vento,
São só pensamento.
Mudam as entranhas
De as ouvir passar.
Cavalgada rindo
Seu curso do além,
Vem vindo, vem vindo,
E tremem janelas,
Velam-se as estrelas,
Os ramos, rugindo,
Falam como alguém.
Mas, súbito, aragem
Que perdeu o som,
Cessou a passagem
Do que tirou calma
Aos ramos e à alma.
Só se ouve a folhagem
Num sussurro bom.
E, abrindo a janela,
Contemplo, a mal ver,
Ao luar uma estrela
Tão vaga, tão vaga,
Que quase se apaga.
Quem sabe se ela
Vai também levada,
Qual tanta faltada,
Nessa cavalgada
Que passou sem ser?
05/09/1933
5 803
1