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Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

Tradicão Reencontrada

Lirismo e antilirismo em João Cabral

Foi em 1966, logo após A educação pela pedra, que João Cabral pela primeira vez prometeu parar de escrever, sob a alegação de que esgotara o veio e não tinha mais o que dizer. Foi preciso aguardar até 1975, quando Museu de tudo quebrou a promessa --em seguida refeita e de novo rompida, com A escola das facas, em 1980. Na abertura desta coletânea, um bilhete em versos, ao editor, declara: "Eis mais um livro (fio que o último)". Em seguida os intervalos diminuem: Auto do frade, 1984; Agrestes, 1985; Crime na Calle Relator, 1987; Sevilha andando, 1989 --sempre entremeados de entrevistas em que a mesma promessa é refeita para ser descumprida. Que enigmas esconderá a inusitada atitude? Uma explicação possível é que o poeta exige de si bem mais do que seus leitores o fazem. Seu exacerbado rigor, além da própria idade (Cabral é de 1920), o levam a declarar-se exaurido e desistente, a cada novo livro. É o preço que paga por ter levado sua poesia a tão altas paragens. A fama é implacável: a mesma devoção com que o lemos nos leva a esperar que ele se recupere, para que possamos fruir, sem cessar, sua energia criadora. Mas continua a intrigar a promessa tantas vezes firmada quantas desmentida. Talvez se oculte aí uma das chaves que permitirá compreender o sentido de sua trajetória poética e humana. Antes de aventar outras explicações, convido o leitor a deter comigo a atenção em Crime na Calle Relator, marcadamente característico do último Cabral.
A exemplo do que vinha ocorrendo desde Museu de tudo, não se trata de um livro "vertebrado", isto é, composto a partir de um plano geral de estruturação. É uma recolha mais ou menos arbitrária de poemas avulsos, "não chega ao vertebrado/ que deve entranhar qualquer livro:/ é depósito do que aí está", dizia o poeta na abertura da coletânea de 1975. Em entrevista concedida no ano seguinte, como que para atenuar a severidade da autocrítica, ele esclarece, referindo-se a Museu de tudo: "Fiz o que todos os poetas fazem: escrevi, escrevi e publiquei o livro. Por isso ele é menos rigoroso como concepção geral, mas não creio que se possa dizer o mesmo quanto à concepção do verso".
A avaliação é correta e aplica-se também aos livros posteriores, como este Crime na Calle Relator. Aqui João Cabral utiliza uniformemente um só padrão métrico, o octossilábico, de rimas ora toantes, ora consoantes, realizando um esforço de disciplina e contenção invulgar na moderna poesia da língua. Mas isso não é novidade. O leitor habituado à poesia cabralina conhece de longa data sua aversão à "espontaneidade". Não são novidade também a extrema concisão e o discurso elíptico, que obrigam o leitor a uma cerrada atenção, sob pena de perder o fio do que se diz, sempre sutil, velado, escondido nas entrelinhas.
Considere-se por exemplo o poema intitulado "A sevilhana que não se sabia" (composição aliás reproduzida na coletânea mais recente, Sevilha andando), cujos versos iniciais

Quando queria dá-la a ver
ou queria dá-la a se ver
ei-lo então incapaz de todo:
nada sabe dizer de novo

soam herméticos, ou ao menos dúbios, à primeira leitura. "Dá-la a ver" entende-se: dar a ver a sevilhana, "que não se sabia", como informa o título. Mas quem o "queria"? Bem, por ora não importa; alguém o queria, quem quer que seja, que não a própria sevilhana. E "dá-la a ver" a quem? Ao corrigir o primeiro verso, o segundo introduz um "se" gerador de inevitável ambigüidade. Permitindo que a sevilhana seja vista, por qualquer observador, esse alguém também se vê a si próprio. A ambigüidade, decorrente da elisão dos pronomes retos e da similitude de formas verbais e pronomes oblíquos, para as duas pessoas, estende-se por todo o longo poema, composto de quatro conjuntos simétricos de dez dísticos. ("Eu tenho mania de simetria", confessará o poeta em entrevista recente.) A ambigüidade só ao final se esclarece, entre parênteses: "não fosse ele homem do Nordeste".
Isso nos obriga a reler o poema, cientes agora de que esse alguém que queria dar a ver a sevilhana é o próprio poeta (que também "não se sabia"?), imiscuído em seu motivo literário desde o primeiro verso --o que também não chega a ser surpresa. Mesmo que não se tivesse dado conta antes, até o leitor menos atento já o sabia, desde as "Dúvidas apócrifas de Mariane Moore", esclarecedor poema de Agrestes, que assim principia:

Sempre evitei falar de mim,
falar-me. Quis falar de coisas.
Mas na seleção dessas coisas
não haverá um falar de mim?

Não haverá nesse pudor
de falar-me uma confissão,
uma indireta confissão,
pelo avesso, e sempre impudor?

Crime na Calle Relator não escapa à regra: é uma sucessão de poemas que "falam de coisas", poemas descritivos e narrativos, expediente em que o autor vem insistindo há muitos anos. O recenseamento dos seus motivos não parece ser, de imediato, revelador: a neta que leva um gole de cachaça à avó no leito de morte; a sevilhana que é Sevilha sem o saber; a suicida que conduz uma tartaruga pelas ruas; três viúvas que conversam interminavelmente a propósito das filhas artistas; um ferrageiro de Carmona que explica a diferença entre ferro fundido e ferro forjado; o psiquiatra; o leito de lama do Parnamirim, em Recife; outra vez Sevilha, e assim por diante. O resultado é um colorido mosaico de tipos humanos --dramatis personae que povoam cenários variados, sempre em clima de estranheza, nonsense, magia.
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Amador Ribeiro Neto

Amador Ribeiro Neto

Na Poesia de Frederico Barbosa

Ou: Nada Dessa Cica de Palavra Feito Flor

Frederico Barbosa publicou, até o momento, dois livros de poesia: Rarefato, em 1990, e Nada Feito Nada, em 1993. Uma média de um livro a cada 3 anos. Estatística essa que nos autoriza a supor que alguma coisa pode acontecer, ainda este ano, na esquina da dura poesia.
Rarefato foi publicado pela Iluminuras e Nada Feito Nada, pela Perspectiva, este integrando a prestigiosa Coleção Signos, dirigida por Haroldo de Campos.
Logo após o lançamento de Rarefato, publiquei no JORNAL DA TARDE uma resenha em que chamava a atenção dos leitores para a poesia do estreante Frederico Barbosa. Como uma das funções do crítico literário é apresentar ao leitor o talento de novos autores, a resenha terminava assim: "FB em Rarefato, não se satisfazendo com a busca empenhada pelos grandes poetas, inventa um modo particularíssimo de dizer o não-dito, o quase impossível. Com isso, corre o risco de transformar-se num dos mais importantes poetas de nossa década. Do ano, já o é, de longe". E finalizava: "É hora de o leitor verificar por si mesmo".
De fato, as matérias relativas aos melhores lançamentos do ano, feitas pelos jornais, no final do ano de 1990, destacaram o livro de Frederico Barbosa. Em 94 ele recebe o Prêmio Jabuti por Nada Feito Nada. Em 95 e 96 sua poesia aparece em livros didáticos do 2o. grau.
No entanto, não nos iludamos: sua poesia é "grão imastigável, de quebrar dente". Vale para ela estas palavras de Paul Valéry: "A literatura não tem para mim outro interesse que o exemplo ou a tentativa de dizer o que é difícil dizer". Ou estas: "Prefiro ser lido muitas vezes por um só do que uma só vez por muitos". Ou estas: "Minha ambição literária foi a escrita de precisão". Ou, finalizando: "O verdadeiro pecado é escrever para o público".
Como se deduz, a poesia de FB está anos-luz distante daquela missão catequética, de uma certa música popular, que propala que "o artista tem ir onde o povo está". Isto é: deve correr atrás do público, oferecendo-lhe seu produto a preços módicos (de linguagem). Nada disso. Tanto em Rarefato, com em Nada Feito Nada, o rigor para com a poesia começa na capa dos livros e se estende à diagramação e até à cor de suas páginas. Texto poético e projeto gráfico complementam-se admiravelmente.
O trabalho gráfico (capa, projeto e execução), dos dois livros, é de Carlos Fernando. Este exímio intérprete da música popular transfere, para a diagramação dos dois livros, toda a precisão e a beleza que impõe ao seu trabalho musical.
A capa de Rarefato exibe a reprodução em desenho da lápide do filho de Demétrios (séc IV a.C.), sob fundo compacto, margeado pelo reticulado de pontos. Na laje tumular uma personagem, misto de alguém que chora com o prenúncio do pensador de Rodin. Na dureza do mármore, a expressão de dor/pensamento da personagem da lápide, choca-se com a leveza do fundo reticulado. Os dois elementos plásticos (lápide sob fundo compacto e margem reticulada) sintetizam as linhas básicas deste livro: pensamento e sentimento, densidade e rarefação, fato e forma. Linhas estas que constituem, dialeticamente, a unidade da poesia de FB. Unidade que, por sua vez, reflete e refrata, a crise. Crise individual. Crise social. Crise da linguagem. Crise de representação. Em outras palavras, a própria modernidade. Afinal, FB é um autor antenado (a la Ezra Pound) com o nosso tempo. Faz do desafio da modernidade o ofício dos seus versos.
Daí o parentesco inevitável com poetas e pensadores do pouco, do magro, do miúdo, do minimal, do seco, do denso, do duro, do pó. Do nada. Do raro. Do fato. Do fato feito nada.
O mesmo nada que ressurgirá no título do segundo livro, ao lado do feito. Nada Feito Nada. A poesia que se faz do nada, da negação do feito fácil.
Os títulos dos dois livros apontam para o modo de fazer poesia e não para o que se dizer em poesia. A palavra rarefato, que é apenas um sinônimo, para o usual rarefeito, introduz a ambigüidade: Rarefato: fato raro ou fato rarefeito. Como nada. Ao modo de ser nada. É o nada trazendo a linguagem, em crise, feito nada. Nada Feito Nada. O poeta aceita, e faz, do poema, objeto da impossibilidade.
Impossibilidade que se corporifica na capa do segundo livro: um círculo vazando um quadrado, ou um quadrado vazando um círculo. O quadrado divide-se por 4 linhas diagonais que formam 4 ângulos retos. Em cada uma das quatro extremidades do quadrado, as linhas diagonais, associadas às do círculo, terminam formando setas, qual uma rosa-dos-ventos.
Rosa-dos-rumos poética, que aponta para nada. Sempre nada. Afinal, os pontos cardeais formam a palavra NADA.
O papel da capa, em sépia, com o desenho em tons de marrom, remete-nos à célebre representação das medidas do corpo humano, feita por da Vinci. Ali, as pernas do homem se abrem dentro dos limites do círculo e os braços, se abrem dentro dos limites do quadrado. Como estão, braços e pernas, em duas posições diferentes, sempre temos o número quatro como variante dos gestos. Quatro pernas, quatro braços. Quatro setas no desenho da capa de Nada Feito Nada. Nada: N-A-D-A: 4 letras. O mesmo princípio davinciano, com uma diferença radical: aqui a figura do homem é substituída pela língua: o título do livro repetido enésimas vezes. E o centro, um grande ZERO; quer seja, um grande nada.
A linguagem é tomada como a medida do mundo: somente ela fornece as verdadeiras referências do valor estético. O fato (o homem) se torna presente pela via da memória da linguagem. Memória histórica e cultural.
Porém, não exageremos. Não se trata do nada absoluto, pois, então, nem a poesia sobreviveria a tanto niilismo, levando a linguagem à aporia. Ou seja, às afirmações decididamente contrárias e categóricas.
Vejamos o que é este fato rarefeito, este fato raro, este nada feito nada, este cabralino "fazer o que seja é inútil".
A imagem do círculo, tal como a do mitológico uroboru, constrói e formata o primeiro livro. Ali a forma circular não é viciosa. Nem poderia ser. Para esta estirpe de poetas, à qual Frederico Barbosa pertence, não há espaço para redundâncias, adiposidades e rabeiras. A poesia pó, é rarefação, grão e nada. Nada enquanto inutensílio leminskiano.
A linguagem percorre uma via que vai de "nenhuma voz humana", "do amplo nada", "tudo que escoa em silêncio em tempo ecoa" (do poema que dá título e abre o primeiro livro), até a busca da co-autoria com o leitor, em versos tais como: "Virar a chave, / como quem lê uma página / (.....) / Como quem se envolve na personagem, / lento" ("Como quem lê"). Ou: "sua leitura minha / do seu meu poema /Meus olhos buscando / nos seus / um outro poema" ("Ao leitor")
Poesia interativa? Se o leitor for "aquele de Baudelaire", por que não?
O segundo livro inicia-se com um poema malcriadamente visual - herança concreta do Barroco. O título: "Labyrintho Difficultoso". A grafia imperial do título, com y, th e f duplicado firma, uma vez mais, o sentido da poesia para este poeta: labirinto. Labirinto, diz o Aurélio, é coisa complicada, confusa, obscura. Não se satisfazendo com esta acepção da palavra, o poeta insiste em adjetivá-la, tornando-a ainda mais borgeana: labirinto dificultoso. Último verso deste primeiro poema: "é nada é nada é nada".
O livro fecha-se com um poema intitulado "All or nothing at all". (Tudo ou nada para todos), título de uma das canções clássicas do Jazz. Mesmo na música popular, como se vê, o poeta só consome "o magro dos pratos". Últimos versos deste poema: "Nada feito nada, / no poema / não há termo meio, / meio-amor, meia-palavra.// Do sem / sentido intenso / se faz / um tudo atento./ feito a palavra / em / cantada, // nada / feito / nada".
Neste segundo livro, FB incorpora o humor, pela via da tradição sterniana: biscoito fino. Nos caminhos da História ele vasculha os jornais de Recife, publicados no Império. Agindo como um antropóf
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Leonel Neves

Leonel Neves

UM ROMANCE DE REGRESSO

Vindo do Mundo Perdido,
Mau-Máli foi à Missão,
por acaso ou a pedido
ensinar sua lição,
fazer o que em qualquer parte
faria como artesão:
trabalhar na sua arte
de bonecos de latão.

Depois, ou por ter gostado
desta ou daquela oração,
ou por ter-se enamorado
de algum Cristo de latão,
fosse lá pelo que fosse,
Mau-Máli fez-se cristão,
dentro e fora baptizou-se,
Mau-Máli virou João.
E, como João, guardou
dentro do seu coração
não palavras que escutou
mas toda a sua intenção.

Pecados mortais e tudo
ouviu com muita atenção...
mas, guerreiro sobretudo,
que lá matar, isso não!

Tendo assim acontecido,
dada e tomada a lição,
voltou ao Mundo Perdido,
não Mau-Máli, mas João.
E a mulher barlaqueada
com Mau-Máli artesão
já com outro tinha aramada
sua esteira de traição.

Um timor que assim se engana
sabe a sua obrigação,
a que só uma catana
pode dar satisfação.
Uma adúltera confessa
merece tanto perdão
como o outro: sem cabeça,
o seu crime pagarão.
Mas o que Mau-Máli sabe,
o que manda a tradição,
é coisa que já não cabe
na cabeça de João.

Poderia esquecer tudo,
Cristo, baptismo, oração,
mas lembra-se sobretudo
que lá matar, isso não!

Ora já foi cumprido
o seu tempo na Missão,
já só no Mundo Perdido
há bonecos de latão,
não há lugar onde ponha
sua vida de artesão.
Sem lavar sua vergonha
como há-de viver João?
Por isso decapitou-se
com um só golpe de mão.

Mas... João suicidou-se?
- Mau-Máli matou João!

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