Poemas neste tema
Beleza
Cruz e Sousa
Olhos
A Grécia d’Arte, a estranha claridade
D’aquela Grécia de beleza e graça,
Passa, cantando, vai cantando e passa
Dos teus olhos na eterna castidade.
Toda a serena e altiva heroicidade
Que foi dos gregos a imortal couraça,
Aquele encanto e resplendor de raça
Constelada de antiga majestade,
Da Atenas flórea toda o viço louro,
E as rosas e os mirtais e as pompas d’ouro,
Odisséias e deuses e galeras...
Na sonolência de uma lua aziaga,
Tudo em saudade nos teus olhos vaga,
Canta melancolias de outras eras!...
Publicado no livro Faróis (1900). Segundo de uma série de sete sonetos sobre o corpo feminino.
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinenses de Cultura, 1985. p.90
D’aquela Grécia de beleza e graça,
Passa, cantando, vai cantando e passa
Dos teus olhos na eterna castidade.
Toda a serena e altiva heroicidade
Que foi dos gregos a imortal couraça,
Aquele encanto e resplendor de raça
Constelada de antiga majestade,
Da Atenas flórea toda o viço louro,
E as rosas e os mirtais e as pompas d’ouro,
Odisséias e deuses e galeras...
Na sonolência de uma lua aziaga,
Tudo em saudade nos teus olhos vaga,
Canta melancolias de outras eras!...
Publicado no livro Faróis (1900). Segundo de uma série de sete sonetos sobre o corpo feminino.
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinenses de Cultura, 1985. p.90
2 521
Capinan
Bandeira de Brasil
Terra
Vê a cana verde,
o nascer do céu, ô.
Verde mar,
Maracanã,
onde há progresso
fica o mato em paz.
Campo
Verde, bananeira,
amarela fruta
do Brasil azul, ô.
Ouro
Vê em cada estrela
brilha a nossa terra,
terra brasileira.
In: RÁ TIM BUM. São Paulo: Estúdio Eldorado, s.d. 1 CD
NOTA: Letra tirada do encarte que acompanha o C
Vê a cana verde,
o nascer do céu, ô.
Verde mar,
Maracanã,
onde há progresso
fica o mato em paz.
Campo
Verde, bananeira,
amarela fruta
do Brasil azul, ô.
Ouro
Vê em cada estrela
brilha a nossa terra,
terra brasileira.
In: RÁ TIM BUM. São Paulo: Estúdio Eldorado, s.d. 1 CD
NOTA: Letra tirada do encarte que acompanha o C
1 406
Raimundo Correia
Nuvem Branca
Dizei-me: é ela a noiva casta e pura,
Que no alvor dessa nuvem rutilante,
Passa agora? Dizei-me, nesse instante,
Turbilhões de translúcida brancura;
Colar, broches de pérolas e opalas;
Gaza que, em níveos flocos, por formosas,
Rijas pomas de mármore, ondulosas
Curvas e espáduas de marfim, resvalas...
Dizei-me, branca, virginal capela;
Nítida espuma de nevadas rendas;
Alvos botões de laranjeira; prendas
Simbólicas do amor; dizei-me: é ela?
É ela a noiva? É mesto, ou prazenteiro,
Seu doce olhar? Sorri alegre, ou chora,
Seu semblante gentil oculto agora
Do espesso véu no alvíssimo nevoeiro?
É ela, sim! Su’alma, entre os fulgores
Das claras tochas cândidas e ardentes,
Nas querúbicas asas transparentes,
Voa, festiva, a um tálamo de flores...
Mistérios nupciais, só vos devassa
Um louco amante! Ao seu olhar ansioso
Velais debalde o arcanjo, o astro radioso
Que, dentro dessa nuvem branca, passa...
Publicado no livro Aleluias (1891).
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p. 79-80
Que no alvor dessa nuvem rutilante,
Passa agora? Dizei-me, nesse instante,
Turbilhões de translúcida brancura;
Colar, broches de pérolas e opalas;
Gaza que, em níveos flocos, por formosas,
Rijas pomas de mármore, ondulosas
Curvas e espáduas de marfim, resvalas...
Dizei-me, branca, virginal capela;
Nítida espuma de nevadas rendas;
Alvos botões de laranjeira; prendas
Simbólicas do amor; dizei-me: é ela?
É ela a noiva? É mesto, ou prazenteiro,
Seu doce olhar? Sorri alegre, ou chora,
Seu semblante gentil oculto agora
Do espesso véu no alvíssimo nevoeiro?
É ela, sim! Su’alma, entre os fulgores
Das claras tochas cândidas e ardentes,
Nas querúbicas asas transparentes,
Voa, festiva, a um tálamo de flores...
Mistérios nupciais, só vos devassa
Um louco amante! Ao seu olhar ansioso
Velais debalde o arcanjo, o astro radioso
Que, dentro dessa nuvem branca, passa...
Publicado no livro Aleluias (1891).
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p. 79-80
2 477
Paulo Bomfim
XXVI [As flores falam perfumes
As flores falam perfumes
E pensam cor...
Poema integrante da série Prelúdios de Inverno.
In: BOMFIM, Paulo. Sinfonia branca. São Paulo: Martins, 1955
E pensam cor...
Poema integrante da série Prelúdios de Inverno.
In: BOMFIM, Paulo. Sinfonia branca. São Paulo: Martins, 1955
1 692
Joaquim Manuel de Macedo
Canto V - A Mãe
Mas é noite; em seu manto de papoulas
As donzelas acolhe um brando sono.
Em vasta sala que as janelas abre
Para ver o remanso de escolhidas flores,
Descansa a Peregrina; em doces ondas
De perfumes fagueiras vêm as auras
Brincar com as telas de virgíneo leito;
Da mãe de Deus a imagem sacrossanta
Em áureo quadro à cabeceira pende;
Dorme feliz a cândida donzela,
E das roupas finíssimas e brancas
Sob as quais lindas formas se desenham,
Um colo, que no alvor supera a neve,
E um rosto divinal surgem formosos,
Onde estão os encantos pululando
Através das madeixas atrevidas,
Que soltas vão pousar no seio e face,
Nublando graças que paixões acendem.
Um braço nu, que das cobertas foge,
Tipo de perfeição meigo de dobra,
As telas conchegando ao níveo seio,
Instinto de pudor, inda no sono.
D´uma janela aos zéfiros aberta
Vê-se no Céu a lua, e a lua afável
De luz derrama enchentes sobre o leito,
Contemplando, qual anjo adormecido,
Imersa a Peregrina em seus fulgores.
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A Nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s. d. p. 195-19
As donzelas acolhe um brando sono.
Em vasta sala que as janelas abre
Para ver o remanso de escolhidas flores,
Descansa a Peregrina; em doces ondas
De perfumes fagueiras vêm as auras
Brincar com as telas de virgíneo leito;
Da mãe de Deus a imagem sacrossanta
Em áureo quadro à cabeceira pende;
Dorme feliz a cândida donzela,
E das roupas finíssimas e brancas
Sob as quais lindas formas se desenham,
Um colo, que no alvor supera a neve,
E um rosto divinal surgem formosos,
Onde estão os encantos pululando
Através das madeixas atrevidas,
Que soltas vão pousar no seio e face,
Nublando graças que paixões acendem.
Um braço nu, que das cobertas foge,
Tipo de perfeição meigo de dobra,
As telas conchegando ao níveo seio,
Instinto de pudor, inda no sono.
D´uma janela aos zéfiros aberta
Vê-se no Céu a lua, e a lua afável
De luz derrama enchentes sobre o leito,
Contemplando, qual anjo adormecido,
Imersa a Peregrina em seus fulgores.
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A Nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s. d. p. 195-19
2 113
Luís Delfino
O Cristo e a Adúltera
(Mármore de Bernardelli)
VII
Tenho em frente de mim um deus: que importa o resto?
Vai fazer um milagre... Olhai, vede o seu gesto.
Uma pobre mulher corrida e quase nua,
Deita-te aos pés, Jesus, o clarão de uma lua.
Ela acolheu-se a ti e nela a formosura!
Que abismos nessa carne, e que luz nessa alvura!
Canta invisível nela um sol; ouço-lhe o trilo.
Não é Vênus de Cos, não é Vênus de Milo:
É vênus doutro mar, é deusa doutra espuma.
Bela, não se parece enfim com deusa alguma:
É o belo-ideal fundido de outra idéia:
Prometeu desta vez roubando a luz divina
Coalhou-a, como pode e ninguém imagina,
E fez dela o ideal da mulher da Judéia...
VIII
Olha a pobre mulher: esta mulher amante
Esta manhã ainda, ao aço rutilante,
Reviu seu rosto belo, enrolou seus cabelos,
Perfumou-os de mirra, untou-os de mamono,
Cacheou-os na testa em múltiplos novelos,
Enquanto lhe dormia ainda um pouco o sono
Entre os cílios; enquanto em sua face linda
Com um longo beijo o sol não a acordara ainda.
Mas se à festa do leão não resiste a leoa,
Caiu esta, que é bela, e além de tudo é boa.
Deus, que os sóis pelo céu andar em luta veda,
Deu-lhe a beleza — o abismo, e deu-lhe o amor — a queda.
Que dorso! Aquele branco e luminoso dorso!...
Aquele seio, aonde as pomas rutilantes
Vão nas asas fugir, sem fazer um esforço,
Vão fugir, adejar por esses céus distantes,
Ai! tão perto do céu! ai! tão fora do ninho!
Vejo-as quase a saltar do transparente linho:
Quero-os em pé, a luz, quero ver tudo isto...
O teu vasto linhol 'stá-m'a escondendo, ó Cristo.
O irradiar do torso esplêndido da adúltera
Vale o linhol de um deus, vale a inconsútil púrpura.
Caiu? — Quero alteada essa cabeça fina,
Ver um colo que ondula e como flor se inclina
Na haste flexível: sim, quero ver como rola
Na pequenina orelha a egipciana argola;
E erguida e a mover-se, a andar, a rir, sim! vê-la:
Ver se a estrela é que a vence, ou se ela vence a estrela.
Mas enquanto ela jaz a tua sombra santa,
Enquanto esta mulher gentil não se levanta,
E espera em tua força, ó Jesus, certo abrigo...
Ficarei junto dela, ó mármore, e contigo.
Imagem - 02150002
Publicado no livro O Cristo e a Adúltera (1941).
In: DELFINO, Luiz. Poemas escolhidos. Sel. e introd. Nereu Corrêa. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1982. p.133-135
NOTA: Poema composto de 19 parte
VII
Tenho em frente de mim um deus: que importa o resto?
Vai fazer um milagre... Olhai, vede o seu gesto.
Uma pobre mulher corrida e quase nua,
Deita-te aos pés, Jesus, o clarão de uma lua.
Ela acolheu-se a ti e nela a formosura!
Que abismos nessa carne, e que luz nessa alvura!
Canta invisível nela um sol; ouço-lhe o trilo.
Não é Vênus de Cos, não é Vênus de Milo:
É vênus doutro mar, é deusa doutra espuma.
Bela, não se parece enfim com deusa alguma:
É o belo-ideal fundido de outra idéia:
Prometeu desta vez roubando a luz divina
Coalhou-a, como pode e ninguém imagina,
E fez dela o ideal da mulher da Judéia...
VIII
Olha a pobre mulher: esta mulher amante
Esta manhã ainda, ao aço rutilante,
Reviu seu rosto belo, enrolou seus cabelos,
Perfumou-os de mirra, untou-os de mamono,
Cacheou-os na testa em múltiplos novelos,
Enquanto lhe dormia ainda um pouco o sono
Entre os cílios; enquanto em sua face linda
Com um longo beijo o sol não a acordara ainda.
Mas se à festa do leão não resiste a leoa,
Caiu esta, que é bela, e além de tudo é boa.
Deus, que os sóis pelo céu andar em luta veda,
Deu-lhe a beleza — o abismo, e deu-lhe o amor — a queda.
Que dorso! Aquele branco e luminoso dorso!...
Aquele seio, aonde as pomas rutilantes
Vão nas asas fugir, sem fazer um esforço,
Vão fugir, adejar por esses céus distantes,
Ai! tão perto do céu! ai! tão fora do ninho!
Vejo-as quase a saltar do transparente linho:
Quero-os em pé, a luz, quero ver tudo isto...
O teu vasto linhol 'stá-m'a escondendo, ó Cristo.
O irradiar do torso esplêndido da adúltera
Vale o linhol de um deus, vale a inconsútil púrpura.
Caiu? — Quero alteada essa cabeça fina,
Ver um colo que ondula e como flor se inclina
Na haste flexível: sim, quero ver como rola
Na pequenina orelha a egipciana argola;
E erguida e a mover-se, a andar, a rir, sim! vê-la:
Ver se a estrela é que a vence, ou se ela vence a estrela.
Mas enquanto ela jaz a tua sombra santa,
Enquanto esta mulher gentil não se levanta,
E espera em tua força, ó Jesus, certo abrigo...
Ficarei junto dela, ó mármore, e contigo.
Imagem - 02150002
Publicado no livro O Cristo e a Adúltera (1941).
In: DELFINO, Luiz. Poemas escolhidos. Sel. e introd. Nereu Corrêa. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1982. p.133-135
NOTA: Poema composto de 19 parte
1 820
Fontoura Xavier
CXV - Faróis
Rubens, jardim do ócio e rio do esquecimento,
Estranho ser carnal que ninguém sabe amar,
Mas onde a vida ferve e flui n'um firmamento
Como o ar pelo céu, como o mar sobre o mar;
Leonardo da Vinci, espelho posto ao muro,
Onde arcanjos e gnomos riem de passagem
E cheios de mistério, abrem num claro-escuro
Geleiras e pinhais que encantam a paisagem;
Rembrandt, triste hospital de dor e de gemidos
Que um crucifixo de marfim orna pendente,
Onde o pranto e a oração se exalam dos feridos,
E um branco céu de inverno abre-se bruscamente;
Miguel Ângelo, aonde os Hércules os músculos
Misturam aos de Cristo, e assombra-nos de medo
Quando os fantasmas vêm por volta dos crepúsculos
Esgarçando o sudário apontar-nos o dedo;
Puget, imperador do box e das prisões,
Corpo farto de orgulho, alma de almas inquietas,
Que sabe reviver nas grandes criações
Impudências de fauno e toraxes de atletas;
Watteau, Carnaval de corações desconexos
Que voam como ao sol borboletas errantes
Numa orgia de luz, de lâmpadas, reflexos
De cristais, ao furor de danças delirantes;
Goya, sempre a sonhar de coisas desumanas,
De ceias de sabbat, onde, armadas de figas,
As bruxas de mantons à moda das gitanas
Para tentar o Diabo afivelavam as ligas;
(...)
Todos esses heróis cheios de maldições,
Hinos, êxtases, fés, de vulcões não extintos,
São o ópio ideal dos nossos corações,
Eco que enche de vez todos os labirintos.
(...)
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928.
NOTA: Tradução do poema "Les Phares", do livro LES FLEURS DU MAL (AS FLORES DO MAL), de Baudelair
Estranho ser carnal que ninguém sabe amar,
Mas onde a vida ferve e flui n'um firmamento
Como o ar pelo céu, como o mar sobre o mar;
Leonardo da Vinci, espelho posto ao muro,
Onde arcanjos e gnomos riem de passagem
E cheios de mistério, abrem num claro-escuro
Geleiras e pinhais que encantam a paisagem;
Rembrandt, triste hospital de dor e de gemidos
Que um crucifixo de marfim orna pendente,
Onde o pranto e a oração se exalam dos feridos,
E um branco céu de inverno abre-se bruscamente;
Miguel Ângelo, aonde os Hércules os músculos
Misturam aos de Cristo, e assombra-nos de medo
Quando os fantasmas vêm por volta dos crepúsculos
Esgarçando o sudário apontar-nos o dedo;
Puget, imperador do box e das prisões,
Corpo farto de orgulho, alma de almas inquietas,
Que sabe reviver nas grandes criações
Impudências de fauno e toraxes de atletas;
Watteau, Carnaval de corações desconexos
Que voam como ao sol borboletas errantes
Numa orgia de luz, de lâmpadas, reflexos
De cristais, ao furor de danças delirantes;
Goya, sempre a sonhar de coisas desumanas,
De ceias de sabbat, onde, armadas de figas,
As bruxas de mantons à moda das gitanas
Para tentar o Diabo afivelavam as ligas;
(...)
Todos esses heróis cheios de maldições,
Hinos, êxtases, fés, de vulcões não extintos,
São o ópio ideal dos nossos corações,
Eco que enche de vez todos os labirintos.
(...)
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928.
NOTA: Tradução do poema "Les Phares", do livro LES FLEURS DU MAL (AS FLORES DO MAL), de Baudelair
1 244
Fontoura Xavier
VI - Dogaressa
Veneza; um grande sol, numa púrpura acesa,
Vermelha, semelhante ao rico colorido
De Ticiano, agoniza entre o Canal e o Lido:
A agonia do sol da glória de Veneza.
A sua dor de luz vibra como um gemido;
As balsas do Canal são negras de tristeza...
E é tudo o que recorda a colossal grandeza
De um mundo vencedor sobre um mundo vencido.
A quadriga de bronze, os jarretes em arcos,
Numa ânsia de aclamar a jornada de Arcole,
Escarva, piaffé, o frontão de São Marcos.
Dogaressa é um pombal; por Mocenigo, aos tombos,
Palácio que abrigou Byron e Guiccioli,
Beijam-se febrilmente, arruflados, dois pombos.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
Vermelha, semelhante ao rico colorido
De Ticiano, agoniza entre o Canal e o Lido:
A agonia do sol da glória de Veneza.
A sua dor de luz vibra como um gemido;
As balsas do Canal são negras de tristeza...
E é tudo o que recorda a colossal grandeza
De um mundo vencedor sobre um mundo vencido.
A quadriga de bronze, os jarretes em arcos,
Numa ânsia de aclamar a jornada de Arcole,
Escarva, piaffé, o frontão de São Marcos.
Dogaressa é um pombal; por Mocenigo, aos tombos,
Palácio que abrigou Byron e Guiccioli,
Beijam-se febrilmente, arruflados, dois pombos.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
1 104
Neide Archanjo
Era candeia
Era candeia
e parecia ser o lume.
Era candeia.
Nomeio-o
Alma
adequado ao clarão
que traz consigo.
Nem distraído
nem remoto
este Anjo
apenas hesitante
entre o bem e o mal
como se um e outro
ele não fora
e assim desapercebido
ora luz ora sombra
passasse por mim.
Em contrapontos.
In: ARCHANJO, Neide. O poeta e o anjo. Rio de Janeiro, 1994. p.9. Poemas datilografado
e parecia ser o lume.
Era candeia.
Nomeio-o
Alma
adequado ao clarão
que traz consigo.
Nem distraído
nem remoto
este Anjo
apenas hesitante
entre o bem e o mal
como se um e outro
ele não fora
e assim desapercebido
ora luz ora sombra
passasse por mim.
Em contrapontos.
In: ARCHANJO, Neide. O poeta e o anjo. Rio de Janeiro, 1994. p.9. Poemas datilografado
1 253
Martins Fontes
Na Medida Velha da Ensinança
Menina Briolanja
das vestes tafuis,
parecem-me a hidranja
teus olhos azuis.
És moça e formosa,
tra, li, la, la, ra...
Que linda esta rosa!
Colhamo-la já.
À tarde, querida,
a flor vai murchar...
Não percas, na vida,
o tempo de amar.
Meu Deus, que desgosto
seria essa dor
de ver o teu rosto
murchar como a flor.
É o tempo da hidranja.
És moça e gentil:
a hidranja, Briolanja,
se colhe em abril.
Publicado no livro Rosicler (1928).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.82-83. (Nossos clássicos, 40
das vestes tafuis,
parecem-me a hidranja
teus olhos azuis.
És moça e formosa,
tra, li, la, la, ra...
Que linda esta rosa!
Colhamo-la já.
À tarde, querida,
a flor vai murchar...
Não percas, na vida,
o tempo de amar.
Meu Deus, que desgosto
seria essa dor
de ver o teu rosto
murchar como a flor.
É o tempo da hidranja.
És moça e gentil:
a hidranja, Briolanja,
se colhe em abril.
Publicado no livro Rosicler (1928).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.82-83. (Nossos clássicos, 40
1 471
Eduardo Guimaraens
Tudo que faz da carne um mistério inquietante
D'une beauté effrayante, presque
spectrale
THÉOPHILE GAUTIER
Tudo que faz da carne um mistério inquietante,
languescências, brancor de túmulos ao luar,
marfins de rosa murcha, inerte e singular,
tudo o seu corpo tem, de abandonada amante.
Nimba-lhe a fronte o horror. Quando emudece, o olhar
mostra a antiga tortura eterna e alucinante,
porque os seus olhos são dois tercetos de Dante
que Gustavo Doré deixou por ilustrar!
Do gesto vão, jamais de arremesso ou de assomo,
fez o esforço brutal que dá glória ao perigo;
atrai assim, contudo, a alma do sonhador,
magnífica, fatal e funerária como
hirta e nua, ao entrar de um cenotáfio antigo,
uma estátua da morte, um mármore de dor!
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944
spectrale
THÉOPHILE GAUTIER
Tudo que faz da carne um mistério inquietante,
languescências, brancor de túmulos ao luar,
marfins de rosa murcha, inerte e singular,
tudo o seu corpo tem, de abandonada amante.
Nimba-lhe a fronte o horror. Quando emudece, o olhar
mostra a antiga tortura eterna e alucinante,
porque os seus olhos são dois tercetos de Dante
que Gustavo Doré deixou por ilustrar!
Do gesto vão, jamais de arremesso ou de assomo,
fez o esforço brutal que dá glória ao perigo;
atrai assim, contudo, a alma do sonhador,
magnífica, fatal e funerária como
hirta e nua, ao entrar de um cenotáfio antigo,
uma estátua da morte, um mármore de dor!
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944
998
Felipe d’Oliveira
Cenário de Louça e de Cristal
A onda e a algazarra espocam girândolas sonoras.
As serpentinas dos risos sem compasso
se arremessam de lado a lado,
estendem no azul redes aéreas de rumores eufóricos.
A onda bate a cadência no seu gongo líquido,
— fermata sem fim, pasta melódica em que
se fundem e se amaciam
todas as notas do alarido.
A manhã ressoa,
o mar redondo é todo um copo de cristal
vibrado pelo atrito de dedos luminosos.
A manhã põe brunidos de faiança
no mosaico desmanchado sobre a areia.
As tintas se interpenetram, móveis,
— puzzle vivo que a vaga empurra e espalha —
e as cores correm, chocam-se, repelem-se,
como uma grande bola de mercúrio
desagregada em gotas coloridas.
O arlequim da manhã, caindo do alto,
desarticulou os pedaços da roupa policrômica
e foi esmaltar os "tóraces" e os ventres
com o arco-íris decomposto dos losangos.
Os corpos úmidos deslocam-se,
brilham no fundo de porcelana que o azul
espesso enxuga.
Elásticos, libertos,
os corpos úmidos desenham ritmos instintivos
e mergulhados no sol,
que os alivia de um peso igual a seu
volume em luz compacta,
ainda guardam a leveza dos movimentos na água.
A manhã progride em tons,
transborda de roxos, verdes, escarlates.
Abrem-se umbelíferas gigantéias de novos guarda-sóis.
Outros ombros irrompem de novas capas
pintalgadas, — vitrais de pano,
corrediços, baixados sobre a areia.
E o homem dos balões de borracha cai da altura
pendurado a um pára-quedas de esferas multicores
que, agitadas às pontas dos barbantes,
sacolejam no ar a flor desmanchada de
um fogo de artifício em pleno dia.
Os corpos úmidos desenrolam
a ronda dos troncos harmoniosos,
dos seios em ponta,
das espáduas queimadas,
das coxas lisas,
buscam-se, penetram-se à distância,
atropelam-se nas fugas ágeis,
sem perceber o rapaz corcunda de maiô preto,
amargo e imóvel,
recurvo, arqueado em G maiúsculo,
que pensa, triste, a olhar de longe o atleta
de camisa verde:
— Se o mundo fosse de corcundas
eu de certo teria nascido como ele...
E a manhã continua,
sacudindo cores
como uma arara que se espluma.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Cenários.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.69-70
As serpentinas dos risos sem compasso
se arremessam de lado a lado,
estendem no azul redes aéreas de rumores eufóricos.
A onda bate a cadência no seu gongo líquido,
— fermata sem fim, pasta melódica em que
se fundem e se amaciam
todas as notas do alarido.
A manhã ressoa,
o mar redondo é todo um copo de cristal
vibrado pelo atrito de dedos luminosos.
A manhã põe brunidos de faiança
no mosaico desmanchado sobre a areia.
As tintas se interpenetram, móveis,
— puzzle vivo que a vaga empurra e espalha —
e as cores correm, chocam-se, repelem-se,
como uma grande bola de mercúrio
desagregada em gotas coloridas.
O arlequim da manhã, caindo do alto,
desarticulou os pedaços da roupa policrômica
e foi esmaltar os "tóraces" e os ventres
com o arco-íris decomposto dos losangos.
Os corpos úmidos deslocam-se,
brilham no fundo de porcelana que o azul
espesso enxuga.
Elásticos, libertos,
os corpos úmidos desenham ritmos instintivos
e mergulhados no sol,
que os alivia de um peso igual a seu
volume em luz compacta,
ainda guardam a leveza dos movimentos na água.
A manhã progride em tons,
transborda de roxos, verdes, escarlates.
Abrem-se umbelíferas gigantéias de novos guarda-sóis.
Outros ombros irrompem de novas capas
pintalgadas, — vitrais de pano,
corrediços, baixados sobre a areia.
E o homem dos balões de borracha cai da altura
pendurado a um pára-quedas de esferas multicores
que, agitadas às pontas dos barbantes,
sacolejam no ar a flor desmanchada de
um fogo de artifício em pleno dia.
Os corpos úmidos desenrolam
a ronda dos troncos harmoniosos,
dos seios em ponta,
das espáduas queimadas,
das coxas lisas,
buscam-se, penetram-se à distância,
atropelam-se nas fugas ágeis,
sem perceber o rapaz corcunda de maiô preto,
amargo e imóvel,
recurvo, arqueado em G maiúsculo,
que pensa, triste, a olhar de longe o atleta
de camisa verde:
— Se o mundo fosse de corcundas
eu de certo teria nascido como ele...
E a manhã continua,
sacudindo cores
como uma arara que se espluma.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Cenários.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.69-70
1 352
Alphonsus de Guimaraens
O Lago de Tai-Hu
(Poesia chinesa de Yang-Pi)
Uma após outra (os ares são tranqüilos)
As gôndolas deslizam suavemente.
O espaço cortam sons de flauta... e a gente
Tem o ouvido encantado só de ouvi-los.
Oh Lago de Tai-Hu! Poente vermelho...
O vento morre em calmaria e o undoso
Céu, repleto de azul, vem luminoso
Refletir-se no movediço espelho.
Publicado no livro Poesias (1938). Segundo João Alphonsus, tradução de poema que se encontra como parte inicial da terceira novela, Mariage Forcé, em Trois Nouvelles Chinoises traduites pour la première fois par le Marquis D’Hervev-Saint-Denis (1885).
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 199. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
Uma após outra (os ares são tranqüilos)
As gôndolas deslizam suavemente.
O espaço cortam sons de flauta... e a gente
Tem o ouvido encantado só de ouvi-los.
Oh Lago de Tai-Hu! Poente vermelho...
O vento morre em calmaria e o undoso
Céu, repleto de azul, vem luminoso
Refletir-se no movediço espelho.
Publicado no livro Poesias (1938). Segundo João Alphonsus, tradução de poema que se encontra como parte inicial da terceira novela, Mariage Forcé, em Trois Nouvelles Chinoises traduites pour la première fois par le Marquis D’Hervev-Saint-Denis (1885).
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 199. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
2 508
Antonio Fernando De Franceschi
Garça
1.
de relance
mero
surpresa
é te colher
em vôo:
o já fugaz
— ponto:
em riste
no horizonte
2.
a penas
te desenho
em derrisão:
asas taorminas
securas
branco arco sob o céu
3.
pelo estuo das águas
astúcia:
flaminga?
flamínia?
no claro em pluma
alvejo sem rasura
a branca garça
em sua alvura
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Sal. São Paulo: companhia das Letras, (1989). p. 55-57. Poema integrante da série Poemas ao Natural.
de relance
mero
surpresa
é te colher
em vôo:
o já fugaz
— ponto:
em riste
no horizonte
2.
a penas
te desenho
em derrisão:
asas taorminas
securas
branco arco sob o céu
3.
pelo estuo das águas
astúcia:
flaminga?
flamínia?
no claro em pluma
alvejo sem rasura
a branca garça
em sua alvura
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Sal. São Paulo: companhia das Letras, (1989). p. 55-57. Poema integrante da série Poemas ao Natural.
1 400
Eduardo Guimaraens
Aos Lustres
Suspensos, nos salões, dos tetos decorados,
que de arabescos orna o gesso alvinitente,
ó lustres de cristal, enganadoramente
ao mesmo tempo sois sonoros e calados.
Pesados, dais no entanto às pompas do ambiente,
onde há ricos painéis entre florões dourados,
a mais aérea graça; e o os olhos deslumbrados
sentem que os cega o vosso encanto reluzente.
Que o silêncio ao redor guarde a fragilidade
translúcida que sois: e ouçam-se quase a medo
os rumores quaisquer que em torno a voz se formem!
Toquem-vos docemente a sombra, a claridade...
Nem se turbe jamais, ó lustres, o segredo
das vibrações que em vós musicalmente dormem!
Publicado no Jornal da Manhã (Porto Alegre, 1908).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 3.ed. rev. e ampl. São Paulo: Perspectiva, 1987. v.2, p.1058
que de arabescos orna o gesso alvinitente,
ó lustres de cristal, enganadoramente
ao mesmo tempo sois sonoros e calados.
Pesados, dais no entanto às pompas do ambiente,
onde há ricos painéis entre florões dourados,
a mais aérea graça; e o os olhos deslumbrados
sentem que os cega o vosso encanto reluzente.
Que o silêncio ao redor guarde a fragilidade
translúcida que sois: e ouçam-se quase a medo
os rumores quaisquer que em torno a voz se formem!
Toquem-vos docemente a sombra, a claridade...
Nem se turbe jamais, ó lustres, o segredo
das vibrações que em vós musicalmente dormem!
Publicado no Jornal da Manhã (Porto Alegre, 1908).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 3.ed. rev. e ampl. São Paulo: Perspectiva, 1987. v.2, p.1058
2 138
Álvares de Azevedo
Pálida à luz da lâmpada sombria
Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!
Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!
Era mais bela! O seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...
Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biográficas por Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas por Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1949. p.568
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!
Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!
Era mais bela! O seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...
Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biográficas por Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas por Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1949. p.568
5 360
Mafalda Veiga
Soslaio
húmido canto da boca
húmido olhar de soslaio
fresco de verde molhado
gotas de verde luar
riso no canto da boca
tão descarado no olhar
da cor bonita de Maio
húmido olhar de soslaio
sol que amormece na pele
gato a dormir na janela
o meu amor enroscado
em linho, meiguice e mel
sonhos no rubro dos lábios
fresco de verde molhado
da côr intensa de Maio
húmido olhar de soslaio
faz-me comichão na alma
o azul do olhar roçando
o riso que põe bricando
no canto da minha boca
riso de luar molhado
seus olhos do azul de Maio
húmido canto da boca
húmido olhar de soslaio
húmido olhar de soslaio
fresco de verde molhado
gotas de verde luar
riso no canto da boca
tão descarado no olhar
da cor bonita de Maio
húmido olhar de soslaio
sol que amormece na pele
gato a dormir na janela
o meu amor enroscado
em linho, meiguice e mel
sonhos no rubro dos lábios
fresco de verde molhado
da côr intensa de Maio
húmido olhar de soslaio
faz-me comichão na alma
o azul do olhar roçando
o riso que põe bricando
no canto da minha boca
riso de luar molhado
seus olhos do azul de Maio
húmido canto da boca
húmido olhar de soslaio
1 399
Edgar Allan Poe
To Helen [Sarah Helen Whitman
I saw thee once— once only — years ago:
I must not say how many — but not many.
It was a July midnight; and from out
A full-orbed moon, that, like thine own soul, soaring,
Sought a precipitate pathway up through heaven,
There fell a silvery-silken veil of light,
With quietude, and sultriness, and slumber,
Upon the upturned faces of a thousand
Roses that grew in an enchanted garden,
Where no wind dared to stir, unless on tiptoe —
Fell on the upturn'd faces of these roses
That gave out, in return for the love-light,
Their odorous souls in an ecstatic death —
Fell on the upturn'd faces of these roses
That smiled and died in this parterre, enchanted
By thee, and by the poetry of thy presence.
Clad all in white, upon a violet bank
I saw thee half reclining; while the moon
Fell on the upturn'd faces of the roses,
And on thine own, upturn'd— alas, in sorrow!
Was it not Fate, that, on this July midnight—
Was it not Fate, (whose name is also Sorrow,)
That bade me pause before that garden-gate,
To breathe the incense of those slumbering roses?
No footstep stirred: the hated world an slept,
Save only thee and me. (Oh, Heaven!— oh, God!
How my heart beats in coupling those two words!)
Save only thee and me. I paused— I looked—
And in an instant all things disappeared.
(Ah, bear in mind this garden was enchanted!)
The pearly lustre of the moon went out:
The mossy banks and the meandering paths,
The happy flowers and the repining trees,
Were seen no more: the very roses' odors
Died in the arms of the adoring airs.
All— all expired save thee— save less than thou:
Save only the divine light in thine eyes—
Save but the soul in thine uplifted eyes.
I saw but them— they were the world to me!
I saw but them— saw only them for hours,
Saw only them until the moon went down.
What wild heart-histories seemed to he enwritten
Upon those crystalline, celestial spheres!
How dark a woe, yet how sublime a hope!
How silently serene a sea of pride!
How daring an ambition; yet how deep—
How fathomless a capacity for love!
But now, at length, dear Dian sank from sight,
Into a western couch of thunder-cloud;
And thou, a ghost, amid the entombing trees
Didst glide away. Only thine eyes remained;
They would not go— they never yet have gone;
Lighting my lonely pathway home that night,
They have not left me (as my hopes have) since;
They follow me— they lead me through the years.
They are my ministers — yet I their slave.
Their office is to illumine and enkindle —
My duty, to be saved by their bright light,
And purified in their electric fire,
And sanctified in their elysian fire.
They fill my soul with Beauty (which is Hope),
And are far up in Heaven — the stars I kneel to
In the sad, silent watches of my night;
While even in the meridian glare of day
I see them still — two sweetly scintillant
Venuses, unextinguished by the sun!
1850
I must not say how many — but not many.
It was a July midnight; and from out
A full-orbed moon, that, like thine own soul, soaring,
Sought a precipitate pathway up through heaven,
There fell a silvery-silken veil of light,
With quietude, and sultriness, and slumber,
Upon the upturned faces of a thousand
Roses that grew in an enchanted garden,
Where no wind dared to stir, unless on tiptoe —
Fell on the upturn'd faces of these roses
That gave out, in return for the love-light,
Their odorous souls in an ecstatic death —
Fell on the upturn'd faces of these roses
That smiled and died in this parterre, enchanted
By thee, and by the poetry of thy presence.
Clad all in white, upon a violet bank
I saw thee half reclining; while the moon
Fell on the upturn'd faces of the roses,
And on thine own, upturn'd— alas, in sorrow!
Was it not Fate, that, on this July midnight—
Was it not Fate, (whose name is also Sorrow,)
That bade me pause before that garden-gate,
To breathe the incense of those slumbering roses?
No footstep stirred: the hated world an slept,
Save only thee and me. (Oh, Heaven!— oh, God!
How my heart beats in coupling those two words!)
Save only thee and me. I paused— I looked—
And in an instant all things disappeared.
(Ah, bear in mind this garden was enchanted!)
The pearly lustre of the moon went out:
The mossy banks and the meandering paths,
The happy flowers and the repining trees,
Were seen no more: the very roses' odors
Died in the arms of the adoring airs.
All— all expired save thee— save less than thou:
Save only the divine light in thine eyes—
Save but the soul in thine uplifted eyes.
I saw but them— they were the world to me!
I saw but them— saw only them for hours,
Saw only them until the moon went down.
What wild heart-histories seemed to he enwritten
Upon those crystalline, celestial spheres!
How dark a woe, yet how sublime a hope!
How silently serene a sea of pride!
How daring an ambition; yet how deep—
How fathomless a capacity for love!
But now, at length, dear Dian sank from sight,
Into a western couch of thunder-cloud;
And thou, a ghost, amid the entombing trees
Didst glide away. Only thine eyes remained;
They would not go— they never yet have gone;
Lighting my lonely pathway home that night,
They have not left me (as my hopes have) since;
They follow me— they lead me through the years.
They are my ministers — yet I their slave.
Their office is to illumine and enkindle —
My duty, to be saved by their bright light,
And purified in their electric fire,
And sanctified in their elysian fire.
They fill my soul with Beauty (which is Hope),
And are far up in Heaven — the stars I kneel to
In the sad, silent watches of my night;
While even in the meridian glare of day
I see them still — two sweetly scintillant
Venuses, unextinguished by the sun!
1850
1 870
Edgar Allan Poe
To
Fair maiden, let thy generous heart
From its present pathway part not!
Being every thing which now thou art,
Be nothing which thou art not.
So with the world thy gentle ways,
Thy unassuming beauty,
Thy truth — shall be a theme of praise,
Forever — and love a duty.
1839
From its present pathway part not!
Being every thing which now thou art,
Be nothing which thou art not.
So with the world thy gentle ways,
Thy unassuming beauty,
Thy truth — shall be a theme of praise,
Forever — and love a duty.
1839
1 048
Edgar Allan Poe
To Elizabeth
Would'st thou be loved? — then let thy heart
From its present pathway part not —
Be every thing which now thou art
And nothing which thou art not:
So with the world thy gentle ways,
And unassuming beauty
Shall be a constant theme of praise,
And love — a duty.
From its present pathway part not —
Be every thing which now thou art
And nothing which thou art not:
So with the world thy gentle ways,
And unassuming beauty
Shall be a constant theme of praise,
And love — a duty.
1 235
Edgar Allan Poe
Impromptu To Kate Carol
When from your gems of thought I turn
To those pure orbs, your heart to learn,
I scarce know which to prize most high —
The bright i-dea, or the bright dear-eye.
1845
To those pure orbs, your heart to learn,
I scarce know which to prize most high —
The bright i-dea, or the bright dear-eye.
1845
1 135
Edgar Allan Poe
Lines Written in an Album
Eliza! — let thy generous heart
From its present pathway part not!
Being every thing which now thou art,
Be nothing which thou art not.
So with the world thy gentle ways,
Thy unassuming beauty,
And truth shall be a theme of praise,
Forever — and love a duty.
1835
From its present pathway part not!
Being every thing which now thou art,
Be nothing which thou art not.
So with the world thy gentle ways,
Thy unassuming beauty,
And truth shall be a theme of praise,
Forever — and love a duty.
1835
1 130
Paulo Leminski
nada que o sol
nada que o sol
não explique
tudo que a lua
mais chique
não tem chuva
que desbote essa flor
não explique
tudo que a lua
mais chique
não tem chuva
que desbote essa flor
4 214
Edgar Allan Poe
To Helen
Helen, thy beauty is to me
Like those Nicean barks of yore,
That gently, o'er a perfum'd sea,
The weary way-worn wanderer bore
To his own native shore.
On desperate seas long wont to roam,
Thy hyacinth hair, thy classic face,
Thy Naiad airs have brought me home
To the beauty of fair Greece,
And the grandeur of old Rome.
Lo ! in that little window-niche
How statue-like I see thee stand!
The folded scroll within thy hand —
A Psyche from the regions which
Are Holy land !
1831
Like those Nicean barks of yore,
That gently, o'er a perfum'd sea,
The weary way-worn wanderer bore
To his own native shore.
On desperate seas long wont to roam,
Thy hyacinth hair, thy classic face,
Thy Naiad airs have brought me home
To the beauty of fair Greece,
And the grandeur of old Rome.
Lo ! in that little window-niche
How statue-like I see thee stand!
The folded scroll within thy hand —
A Psyche from the regions which
Are Holy land !
1831
1 560