Poemas neste tema
Beleza
Anna Akhmatova
Sombra
Que sabe
certa mulher
Sobre a hora a morte?
O.Mandelstam
Sempre mais
elegante, mais rosada, mais alta que todas,
Para que vens ao de cima do fundo dos anos tombados
E a memória rapace diante de mim faz tremular
O teu perfil transparente por trás dos vidros do coche?
Como se discutia nessa altura - tu, anjo ou pássaro!
Uma pequena palha te chamou o poeta.
Para todos por igual através das negras pestanas
Dos olhos em abismo fluía a terna luz.
Oh sombra! Perdoa-me mas o tempo claro,
Flaubert, a insónia e os lilases tardios
De ti - bela de 1913 -
E do teu dia indiferente e sem nuvens
Me fizeram lembrar... Mas tais recordações
A mim não me ficam bem. Oh sombra!
9 de Agosto de 1940. De noite.
certa mulher
Sobre a hora a morte?
O.Mandelstam
Sempre mais
elegante, mais rosada, mais alta que todas,
Para que vens ao de cima do fundo dos anos tombados
E a memória rapace diante de mim faz tremular
O teu perfil transparente por trás dos vidros do coche?
Como se discutia nessa altura - tu, anjo ou pássaro!
Uma pequena palha te chamou o poeta.
Para todos por igual através das negras pestanas
Dos olhos em abismo fluía a terna luz.
Oh sombra! Perdoa-me mas o tempo claro,
Flaubert, a insónia e os lilases tardios
De ti - bela de 1913 -
E do teu dia indiferente e sem nuvens
Me fizeram lembrar... Mas tais recordações
A mim não me ficam bem. Oh sombra!
9 de Agosto de 1940. De noite.
2 482
Murillo Mendes
Vermeer de Delft
É manhã no copo:
Tempo de decifrar o mapa
Com seus amarelos e azuis,
De abrir as cortinas – o sol frio nasce
Nos ladrilhos silenciosos –,
De ler uma carta perturbadora
Que veio pela galera da China:
Até que a lição do cravo
Através de seus cristais
Restitui a inocência.
Tempo de decifrar o mapa
Com seus amarelos e azuis,
De abrir as cortinas – o sol frio nasce
Nos ladrilhos silenciosos –,
De ler uma carta perturbadora
Que veio pela galera da China:
Até que a lição do cravo
Através de seus cristais
Restitui a inocência.
1 122
Mário Rui de Oliveira
Mark Rothko
Mede a tapeçaria como quem entra no santuário e quebra o espelho de
uma ausência. Suas cores são um milagre. De púrpura violácea, de
púrpura escarlate, de púrpura carmesin.
Assim o manto do seu encontro. Feito de romãs e sinos de oiro. Da
matéria dos holocaustos.
(para José Tolentino Mendonça)
uma ausência. Suas cores são um milagre. De púrpura violácea, de
púrpura escarlate, de púrpura carmesin.
Assim o manto do seu encontro. Feito de romãs e sinos de oiro. Da
matéria dos holocaustos.
(para José Tolentino Mendonça)
1 080
André Breton
Pièce fausse
Pièce fausse
Du vase en cristal de bohème
Du vase en cris
Du vase en cris
Du vase en
En cristal
Du vase en cristal de bohême
Bohême
Bohême
Bohême
Hême hême oui bohême
Du vase en cristal de Bo Bo
Du vase en cristal de bohême
Aux bulles quenfant tu soufflais
Tu soufflais
Tu soufflais
Flais
Flais
Tu soufflais
Quenfant tu soufflais
Du vase en cristal de bohême
Aux bulles quenfant tu soufflais
Tu soufflais
Tu soufflais
oui quenfant tu soufflais
Cest là cest là tout le poème
Aube éphé
Aube éphé
Aube éphémère de reflets
Aube éphé
Aube éphé
Aube éphémère de reflets
Du vase en cristal de bohème
Du vase en cris
Du vase en cris
Du vase en
En cristal
Du vase en cristal de bohême
Bohême
Bohême
Bohême
Hême hême oui bohême
Du vase en cristal de Bo Bo
Du vase en cristal de bohême
Aux bulles quenfant tu soufflais
Tu soufflais
Tu soufflais
Flais
Flais
Tu soufflais
Quenfant tu soufflais
Du vase en cristal de bohême
Aux bulles quenfant tu soufflais
Tu soufflais
Tu soufflais
oui quenfant tu soufflais
Cest là cest là tout le poème
Aube éphé
Aube éphé
Aube éphémère de reflets
Aube éphé
Aube éphé
Aube éphémère de reflets
2 951
William Carlos Williams
The Red Wheelbarrow
The Red Wheelbarrow
so much depends
upon
a red wheel
barrow
glazed with rain
water
beside the white
chickens.
so much depends
upon
a red wheel
barrow
glazed with rain
water
beside the white
chickens.
917
Lord Byron
She walks in beauty, like the night
She walks in beauty, like the night
Of cloudless climes and starry skies;
And all thats best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes:
Thus mellowed to that tender light
Which heaven to gaudy day denies.
One shade the more, one ray the less,
Had half impaired the nameless grace
Which waves in every raven tress,
Or softly lightens oer her face;
Where thoughts serenely sweet express
How pure, how dear their dwelling-place.
And on that cheek, and oer that brow,
So soft. so calm, yet eloquent,
The smiles that win, the tints that glow,
But tell of days in goodness spent,
A mind at peace with all below,
A heart whose love is innocent.
Of cloudless climes and starry skies;
And all thats best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes:
Thus mellowed to that tender light
Which heaven to gaudy day denies.
One shade the more, one ray the less,
Had half impaired the nameless grace
Which waves in every raven tress,
Or softly lightens oer her face;
Where thoughts serenely sweet express
How pure, how dear their dwelling-place.
And on that cheek, and oer that brow,
So soft. so calm, yet eloquent,
The smiles that win, the tints that glow,
But tell of days in goodness spent,
A mind at peace with all below,
A heart whose love is innocent.
1 356
Almeida Garrett
Barca bela
Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?
Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!
Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!
Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador.
Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?
Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!
Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!
Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador.
Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!
2 494
Jaques Mario Brand
Soneto à maneira do décimo-sétimo século
Dê-me tua mão, Amiga, e ao meu lado
venha dos campos ver as verdes lindes
- ainda mais lindas se por elas vindes
e mais ainda se vindes ao meu lado.
Ouçamos da floresta que os margeia
a brisa perpassar o chão florido
e num transporte breve o leve Ar ido
nos leve em seu alento ao léu, à Aléia.
Das sendas derivadas, e à deriva,
à Suma alcemos juntos, às alturas
de um Saber bom que eu sei, musa lasciva.
Enquanto achas levo à labareda
e achas leve em teus quadris meu gesto,
as Artes eu direi, de Amor, que enleva.
§ As Artes eu direi, de Amor, que enreda.
venha dos campos ver as verdes lindes
- ainda mais lindas se por elas vindes
e mais ainda se vindes ao meu lado.
Ouçamos da floresta que os margeia
a brisa perpassar o chão florido
e num transporte breve o leve Ar ido
nos leve em seu alento ao léu, à Aléia.
Das sendas derivadas, e à deriva,
à Suma alcemos juntos, às alturas
de um Saber bom que eu sei, musa lasciva.
Enquanto achas levo à labareda
e achas leve em teus quadris meu gesto,
as Artes eu direi, de Amor, que enleva.
§ As Artes eu direi, de Amor, que enreda.
1 014
José Lopes Ferreira
Soneto
Santíssima Senhora Virgem Pura,
Estrela do Mar, luz resplandecente,
Brilhante Aurora Espelho Transparente,
Divina, sendo humana criatura,
Protótipo da Graça em que se apura
A grandeza de Deus Onipotente,
Mortal flagelo, da infernal serpente,
Flor de Nazaré, Neve na candura.
lá que por nós, em vós baixou à terra
Um Deus que sendo Deus, homem se cria,
Que o nosso maior mal assim desterra;
Lembrai-vos pois, Puríssima Maria,
Do nosso puro afeto que se encerra,
De ser perpétua a vossa Academia.
Estrela do Mar, luz resplandecente,
Brilhante Aurora Espelho Transparente,
Divina, sendo humana criatura,
Protótipo da Graça em que se apura
A grandeza de Deus Onipotente,
Mortal flagelo, da infernal serpente,
Flor de Nazaré, Neve na candura.
lá que por nós, em vós baixou à terra
Um Deus que sendo Deus, homem se cria,
Que o nosso maior mal assim desterra;
Lembrai-vos pois, Puríssima Maria,
Do nosso puro afeto que se encerra,
De ser perpétua a vossa Academia.
965
Almeida Garrett
Ignoto Deo
D.D.D.
Creio em ti, Deus: a fé viva
De minha alma a ti se eleva
És: - o que és não sei. Deriva
Meu ser do teu: luz... e treva,
Em que - indistintas! - se envolve
Este espírito agitado,
De ti vem, a ti devolve.
O nada, a que foi roubado
Pelo sopro ciador
Tudo o mais, o há-de tragar.
Só vive de eterno ardor
O que está sempre a aspirar
Ao infinito donde veio
Beleza és tu, luz és tu.
Verdade és tu só. Não creio
Senão em ti; o olho nu
Do homem não vê na terra
Mais que a dúvida, a incerteza,
A forma que engana e erra.
Essência! a real beleza,
O puro amor - o prazer
Que não fatiga e não gasta...
Só por ti os pode ver
O que inspirando se afasta,
Ignoto Deo, das ronceiras,
Vulgares turbas: despidos
Das coisas vãs e grosseiras
Sua alma, razão, sentidos,
A ti se dão, em ti vida,
E por ti vida têm. Eu consagrado
A teu altar, me prostro e a combatida
Existência aqui ponho, aqui votado
Fica este livro - confissão sincera
Da alma que a ti voou e em ti só spera.
Creio em ti, Deus: a fé viva
De minha alma a ti se eleva
És: - o que és não sei. Deriva
Meu ser do teu: luz... e treva,
Em que - indistintas! - se envolve
Este espírito agitado,
De ti vem, a ti devolve.
O nada, a que foi roubado
Pelo sopro ciador
Tudo o mais, o há-de tragar.
Só vive de eterno ardor
O que está sempre a aspirar
Ao infinito donde veio
Beleza és tu, luz és tu.
Verdade és tu só. Não creio
Senão em ti; o olho nu
Do homem não vê na terra
Mais que a dúvida, a incerteza,
A forma que engana e erra.
Essência! a real beleza,
O puro amor - o prazer
Que não fatiga e não gasta...
Só por ti os pode ver
O que inspirando se afasta,
Ignoto Deo, das ronceiras,
Vulgares turbas: despidos
Das coisas vãs e grosseiras
Sua alma, razão, sentidos,
A ti se dão, em ti vida,
E por ti vida têm. Eu consagrado
A teu altar, me prostro e a combatida
Existência aqui ponho, aqui votado
Fica este livro - confissão sincera
Da alma que a ti voou e em ti só spera.
2 265
Carlos Eduardo da Rocha
Retrato da Mulher Amada
I
Os longos cabelos dourados
derramados até os ombros frágeis
Um manto perfumado
emoldurando o rosto singular
de mulher e de menina.
Madeixas separadas deixando
Entrever no colo ofegante
A curva harmoniosa
dos seios pequeninos.
II
O pescoço esguio como a haste
da flor que é a sua face.
O queixo fino estremece
ao desabrochar do sorriso
Nos lábios de pétalas
entreabertos, separados
Na alvura dos dentes
arrumados como sementes
da romã madura e perfumada.
III
O pequeno nariz arrebitado
cheio de graça aspira
Na brisa vespertina
o cheiro do jasmin adocicado
O brilho dos seus olhos
é como estrelas lucilantes
E a fronte delicada se esconde
Nos caracoes pendentes
dos seus longos cabelos
IV
Os seus braços envolventes
recobertos de suave penugem
macia como a relva
E ao toque mais sutil arrepiada.
Entrelaçados aos meus
num terno abraço aconchegados
ao peito por breve instante
Sentíamos ofegantes
o bater descompassado
dos nossos corações.
V
Nos reencontros marcados
com os beijos na face
um de cada lado
Como se fossem amigos
emocionados apenas
e nunca enamorados
Para sempre
em todo o tempo fluindo
em nosso fado.
VI
Somente as mãos
são dadas de repente
na procura constante
Agarradas por entrelaçados
dedos em permanentes
cariciais, apertados
e frementes.
Beijadas subitamente
nas incontáveis despedidas
e tristes separações.
VII
Ansiosamente esperada
a volta do dia a dia
nas saudades doloridas
De ausências prolongadas
nos caminhos diversos
de nossos desencontros
Prisioneiros de graves compromissos
E inconformados fiéis de um só destino.
VIII
Os meneios da cintura
num ritmo pausado
em desfile permanente.
As vestes marcando
as formas surpreendentes
da saia curta ajustada.
Livres as coxas longas
sinal maior de beleza
caminho sem fim a perpassar
na pele iluminada.
IX
Na placidez do ventre
a sugestão de frutos
Praia rasa de areia molhada
inconsistente
Água clara transparente
deixando ver na concha
Entreaberta
A pérola rosada
do pingo umbelical
completando o fascínio.
X
Dos joelhos concentrados
às belas pernas
E a ponta dos pés pequenos
Pisando leves
quase a flutuar
a cada passo dado
Na dança do seu andar
de suave movimentos
como peixes no mar
XI
A visão das costas
da nuca desprotegida
nos cabelos levantadas
pelas espadas nuas
sombras e suaves relevos
são revelados ao tato
nas pontas dos dedos
captantes
de múltipla sensualidade.
XII
As linhas curvas
mais expressivas
com suas maiores
riquezas...
A cintura
as alegrias dos quadris
equilibrados
E a completa formosura
na harmonia
de tão preciosos lados
celebrados.
Os longos cabelos dourados
derramados até os ombros frágeis
Um manto perfumado
emoldurando o rosto singular
de mulher e de menina.
Madeixas separadas deixando
Entrever no colo ofegante
A curva harmoniosa
dos seios pequeninos.
II
O pescoço esguio como a haste
da flor que é a sua face.
O queixo fino estremece
ao desabrochar do sorriso
Nos lábios de pétalas
entreabertos, separados
Na alvura dos dentes
arrumados como sementes
da romã madura e perfumada.
III
O pequeno nariz arrebitado
cheio de graça aspira
Na brisa vespertina
o cheiro do jasmin adocicado
O brilho dos seus olhos
é como estrelas lucilantes
E a fronte delicada se esconde
Nos caracoes pendentes
dos seus longos cabelos
IV
Os seus braços envolventes
recobertos de suave penugem
macia como a relva
E ao toque mais sutil arrepiada.
Entrelaçados aos meus
num terno abraço aconchegados
ao peito por breve instante
Sentíamos ofegantes
o bater descompassado
dos nossos corações.
V
Nos reencontros marcados
com os beijos na face
um de cada lado
Como se fossem amigos
emocionados apenas
e nunca enamorados
Para sempre
em todo o tempo fluindo
em nosso fado.
VI
Somente as mãos
são dadas de repente
na procura constante
Agarradas por entrelaçados
dedos em permanentes
cariciais, apertados
e frementes.
Beijadas subitamente
nas incontáveis despedidas
e tristes separações.
VII
Ansiosamente esperada
a volta do dia a dia
nas saudades doloridas
De ausências prolongadas
nos caminhos diversos
de nossos desencontros
Prisioneiros de graves compromissos
E inconformados fiéis de um só destino.
VIII
Os meneios da cintura
num ritmo pausado
em desfile permanente.
As vestes marcando
as formas surpreendentes
da saia curta ajustada.
Livres as coxas longas
sinal maior de beleza
caminho sem fim a perpassar
na pele iluminada.
IX
Na placidez do ventre
a sugestão de frutos
Praia rasa de areia molhada
inconsistente
Água clara transparente
deixando ver na concha
Entreaberta
A pérola rosada
do pingo umbelical
completando o fascínio.
X
Dos joelhos concentrados
às belas pernas
E a ponta dos pés pequenos
Pisando leves
quase a flutuar
a cada passo dado
Na dança do seu andar
de suave movimentos
como peixes no mar
XI
A visão das costas
da nuca desprotegida
nos cabelos levantadas
pelas espadas nuas
sombras e suaves relevos
são revelados ao tato
nas pontas dos dedos
captantes
de múltipla sensualidade.
XII
As linhas curvas
mais expressivas
com suas maiores
riquezas...
A cintura
as alegrias dos quadris
equilibrados
E a completa formosura
na harmonia
de tão preciosos lados
celebrados.
1 149
Carlos Felipe Moisés
Lagartixa
para Margarida
O peito é de vidro.
Os olhos, porcelana
delicada e astuta.
Da língua escorre
o néctar sutil.
As patas são de estanho,
mas sabem se mover
imóveis: mal flutuam.
O ventre é quase nada,
pura transparência
onde se escondem
o dorso e seus andaimes.
Não tem entranhas.
A pele
de tão fina já não é:
limita
semovente
o nada de fora
e o quase nada de dentro.
O peito é de vidro
mas às vezes se desmancha
em pétalas.
Dentro
pulsa um coração
que imobiliza tudo em torno.
O rabo, sim,
é feito de algo insuspeitado:
nuvem
algas
milhares de roldanas
e desejos
enrodilhados na engrenagem
que espaneja o chão
e foge
para o céu aberto.
(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)
O peito é de vidro.
Os olhos, porcelana
delicada e astuta.
Da língua escorre
o néctar sutil.
As patas são de estanho,
mas sabem se mover
imóveis: mal flutuam.
O ventre é quase nada,
pura transparência
onde se escondem
o dorso e seus andaimes.
Não tem entranhas.
A pele
de tão fina já não é:
limita
semovente
o nada de fora
e o quase nada de dentro.
O peito é de vidro
mas às vezes se desmancha
em pétalas.
Dentro
pulsa um coração
que imobiliza tudo em torno.
O rabo, sim,
é feito de algo insuspeitado:
nuvem
algas
milhares de roldanas
e desejos
enrodilhados na engrenagem
que espaneja o chão
e foge
para o céu aberto.
(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)
1 080
Gonzaga Leão
Soneto de Mar e vôo quase pássaro
Possuis provavelmente repetido
da ave o vôo nas mãos e nos cabelos;
nos teus lábios maduros e vermelhos
há certamente um pássaro ferido
que se refaz, de vôo prometido;
são de asas silenciosas teus artelhos:
e há também um mar que em teus joelhos
repousa, um mar na cor do teu vestido
transparente, finíssimo, de gaze,
quase desfeito ao vento, voando quase:
um mar pousado em ti, calado e breve.
Digo eu que sei que me perdi no mar
que em ti descansa e que aprendi a voar
sem consequências com teu corpo leve.
da ave o vôo nas mãos e nos cabelos;
nos teus lábios maduros e vermelhos
há certamente um pássaro ferido
que se refaz, de vôo prometido;
são de asas silenciosas teus artelhos:
e há também um mar que em teus joelhos
repousa, um mar na cor do teu vestido
transparente, finíssimo, de gaze,
quase desfeito ao vento, voando quase:
um mar pousado em ti, calado e breve.
Digo eu que sei que me perdi no mar
que em ti descansa e que aprendi a voar
sem consequências com teu corpo leve.
1 228
William Carlos Williams
FLORES AO PÉ DO MAR
Quando sobre a florida nítida beira
do pasto, o oceano de sal
ergue a sua forma - chicória e margaridas
presas, soltas, mal parecem só flores
mas cor e movimento - ou a forma
talvez - da inquietude, enquanto
o mar é limitado e balouça
calmamente em sua haste como de planta.
do pasto, o oceano de sal
ergue a sua forma - chicória e margaridas
presas, soltas, mal parecem só flores
mas cor e movimento - ou a forma
talvez - da inquietude, enquanto
o mar é limitado e balouça
calmamente em sua haste como de planta.
1 084
Angelo Augusto Ferreira
TV Espanhola Internacional
Noticiário Via Satélite
Sua voz habita o éter
Abstrato
Nos ventos, nos ares
Nas cores do espectro da luz,
Convive com os satélites
Passeia com o sol
A lua, as estrelas.
Permanece no céu
Formosa, linda
No corpo, nas falas dos anjos
Ligada na terra !
Nossos olhos embevecidos
Com o seu jeito pleno de ternura,
Do ventre da Criação,
Surgiu resplandecente, divina.
Mulher laboriosa
Valiosa na comunicação
Jornalismo, informação!
A fala de MADRID enfeita o mundo.
Tomara, por dias, anos infindos
Assistiremos
Atentos com alegrias.
A flor perfeita na vitrine da vida
Faz bem à visão.
Linda, bela, sem disfarces
SANDRA SUTHERLAND
O valor da mulher jornalista-reporter
No mundo, no vídeo, chama atenção
Na tela da televisão!
Sua voz habita o éter
Abstrato
Nos ventos, nos ares
Nas cores do espectro da luz,
Convive com os satélites
Passeia com o sol
A lua, as estrelas.
Permanece no céu
Formosa, linda
No corpo, nas falas dos anjos
Ligada na terra !
Nossos olhos embevecidos
Com o seu jeito pleno de ternura,
Do ventre da Criação,
Surgiu resplandecente, divina.
Mulher laboriosa
Valiosa na comunicação
Jornalismo, informação!
A fala de MADRID enfeita o mundo.
Tomara, por dias, anos infindos
Assistiremos
Atentos com alegrias.
A flor perfeita na vitrine da vida
Faz bem à visão.
Linda, bela, sem disfarces
SANDRA SUTHERLAND
O valor da mulher jornalista-reporter
No mundo, no vídeo, chama atenção
Na tela da televisão!
980
Angelo Augusto Ferreira
Noticiário Via Satélite
Sua voz habita o éter
Abstrata
Nos ventos, nos ares
Nas cores do espectro da luz.
Convive com os satélites
Passeia com o sol
A lua, as estrelas.
Permanece no céu
Formosa, linda
No corpo nas falas dos anjos
Ligada na terra!
Nossos olhos embevecidos
Como seu jeito pleno de ternura.
Do ventre da Criação,
Surgiu resplandescente, divina.
Mulher laboriosa
Valiosa na cominicação
Jornalismo, informação!
MADRID, Via Satélite
Irradia ao mundo
Dias, anos infindos
Assistiremos
Atentos com alegrias
A flor perfeita na vitrine da vida
Faz bem à visão.
Linda, bela, sem disfarces
SANDRA SUTHERLAND
O valor da mulher jornalista, repórter
No mundo, no vídeo, chama atenção
Na tela da televisão!
Abstrata
Nos ventos, nos ares
Nas cores do espectro da luz.
Convive com os satélites
Passeia com o sol
A lua, as estrelas.
Permanece no céu
Formosa, linda
No corpo nas falas dos anjos
Ligada na terra!
Nossos olhos embevecidos
Como seu jeito pleno de ternura.
Do ventre da Criação,
Surgiu resplandescente, divina.
Mulher laboriosa
Valiosa na cominicação
Jornalismo, informação!
MADRID, Via Satélite
Irradia ao mundo
Dias, anos infindos
Assistiremos
Atentos com alegrias
A flor perfeita na vitrine da vida
Faz bem à visão.
Linda, bela, sem disfarces
SANDRA SUTHERLAND
O valor da mulher jornalista, repórter
No mundo, no vídeo, chama atenção
Na tela da televisão!
936
Áurea de Arruda Féres
Verão
Parece tarrafa
o teto do pescador
com a chuva de pedra!
Num vaso solitário
perfuma toda a sala
um único jasmin.
o teto do pescador
com a chuva de pedra!
Num vaso solitário
perfuma toda a sala
um único jasmin.
1 060
Aldir Blanc
Angústia de Influência
A mulher e o toureiro
têm em comum o cheiro
de sangue no esmero da roupa
têm em comum a graça
com que transpassam
a besta com a capa e a espada
têm em comum o estro
poético do gesto antes da
morte, os olhos de martírio
o homem-fera
babuja a bainha da Valquíria
quando
o infinito
lavra no lacre
seu sinete:
a besta expira, atônita
diante da verônica
de Manolete
têm em comum o cheiro
de sangue no esmero da roupa
têm em comum a graça
com que transpassam
a besta com a capa e a espada
têm em comum o estro
poético do gesto antes da
morte, os olhos de martírio
o homem-fera
babuja a bainha da Valquíria
quando
o infinito
lavra no lacre
seu sinete:
a besta expira, atônita
diante da verônica
de Manolete
1 326
Adriana Sampaio
Ponto de Mutação
Ponto de Mutação
Hoje choveu, e o dia estava lindo
Na estrada verde lhe vi
E você estava ali
Meu menino grande...
Os dois entregues
Igualmente humanos
E a nossa humanidade nos fez sublimes
A sua doçura lhe fez príncipe
O meu amor lhe enterneceu
E pude ver que a beleza
Que encontro nos seus olhos
Vem da expressividade imensa
Que de você transborda
Você foi o mar, onde mergulhei
E as suas águas calmas e quentes
Me inundaram de paixão
Assim, depois desse dia chuvoso e lindo
Alguma mágica se derramou sobre nós
E nas palavras que me restaram
Não coube a imensidão
De tanto mar.
Hoje choveu, e o dia estava lindo
Na estrada verde lhe vi
E você estava ali
Meu menino grande...
Os dois entregues
Igualmente humanos
E a nossa humanidade nos fez sublimes
A sua doçura lhe fez príncipe
O meu amor lhe enterneceu
E pude ver que a beleza
Que encontro nos seus olhos
Vem da expressividade imensa
Que de você transborda
Você foi o mar, onde mergulhei
E as suas águas calmas e quentes
Me inundaram de paixão
Assim, depois desse dia chuvoso e lindo
Alguma mágica se derramou sobre nós
E nas palavras que me restaram
Não coube a imensidão
De tanto mar.
944
Fernando Mendes Vianna
Oratório do corpo (trechos)
Segue os ditames do teu corpo.
Ele sabe as tuas necessidades.
Atende quando ele grita "liberdade".
Segue teu corpo; ele sabe do que necessita,
sabe os caminhos da fome, do cio, da sede, do sono.
Sê humilde perante o corpo sábio, pois o corpo
pensa de acordo com as raízes mais profundas,
Pode sentir as raízes que te irmanam à criação.
...
O corpo não precisa desencantar-se, não precisa
de fadas, de demiurgos, de paraísos, de infernos.
Se for corpo de mulher, nenhum príncipe é necessário:
só um macho que acredite no sêmen.
como na hóstia de um deus apenas seiva,
e confie o corpo à fêmea como o padre confia o cálice ao altar.
Crê no teu corpo, confia no teu corpo, no corpo do homem,
no corpo da mulher.
Crê no corpo como na única ponte entre os homens;
e que acima do rio variável e enganoso da palavra,
a carne seja como um gesto em perene dádiva.
O corpo é mais antigo e belo do que a Cova de Altamira,
e a gruta do útero pode ser mais funda e clara
do que uma aurora que se abrisse no fundo da terra.
...
Vê, amigo melancólico, como é bela a moça que bota corpo:
ontem era como um coelho, hoje é uma novilha.
E tu, moça, minha amiga não fiques triste
a remoer a utopia dos contos de fadas:
vem comigo. Eu vou te mostrar
a beleza do corpo, o átrio, o pórtico, a nave, o chão, a abóbada!
Quero que escutes o silêncio de cristal do cio saciado, sêmen
semeado com luz
– a mais fértil luz.
Em corpo montarei teu corpo e montarás meu corpo,
e sairemos a galope, o corpo aberto à palavra do vento,
e verás que uma cópula é o mais belo dos corpos de baile, e o
mais equóreo corpo-a-corpo.
Ele sabe as tuas necessidades.
Atende quando ele grita "liberdade".
Segue teu corpo; ele sabe do que necessita,
sabe os caminhos da fome, do cio, da sede, do sono.
Sê humilde perante o corpo sábio, pois o corpo
pensa de acordo com as raízes mais profundas,
Pode sentir as raízes que te irmanam à criação.
...
O corpo não precisa desencantar-se, não precisa
de fadas, de demiurgos, de paraísos, de infernos.
Se for corpo de mulher, nenhum príncipe é necessário:
só um macho que acredite no sêmen.
como na hóstia de um deus apenas seiva,
e confie o corpo à fêmea como o padre confia o cálice ao altar.
Crê no teu corpo, confia no teu corpo, no corpo do homem,
no corpo da mulher.
Crê no corpo como na única ponte entre os homens;
e que acima do rio variável e enganoso da palavra,
a carne seja como um gesto em perene dádiva.
O corpo é mais antigo e belo do que a Cova de Altamira,
e a gruta do útero pode ser mais funda e clara
do que uma aurora que se abrisse no fundo da terra.
...
Vê, amigo melancólico, como é bela a moça que bota corpo:
ontem era como um coelho, hoje é uma novilha.
E tu, moça, minha amiga não fiques triste
a remoer a utopia dos contos de fadas:
vem comigo. Eu vou te mostrar
a beleza do corpo, o átrio, o pórtico, a nave, o chão, a abóbada!
Quero que escutes o silêncio de cristal do cio saciado, sêmen
semeado com luz
– a mais fértil luz.
Em corpo montarei teu corpo e montarás meu corpo,
e sairemos a galope, o corpo aberto à palavra do vento,
e verás que uma cópula é o mais belo dos corpos de baile, e o
mais equóreo corpo-a-corpo.
1 462
António de Navarro
Poema XVI
Uma nota solta
De não sei que música
Vagueia flor em flor
Como abelha de som.
Não lhe sei a cor,
Não lhe sei o tom,
— Deve ser esquiva e nívea
E faltar com certeza
Ao compositor e poeta
Que sonhou a perfeição
E a beleza
Sem mácula, que lhe adoece
De a buscar o coração
Ah, se ela quisesse
Aninhar-se na minha alma!...
De não sei que música
Vagueia flor em flor
Como abelha de som.
Não lhe sei a cor,
Não lhe sei o tom,
— Deve ser esquiva e nívea
E faltar com certeza
Ao compositor e poeta
Que sonhou a perfeição
E a beleza
Sem mácula, que lhe adoece
De a buscar o coração
Ah, se ela quisesse
Aninhar-se na minha alma!...
1 246
Luís de Camões
Quem presumir, Senhora, de louvar-vos
Quem presumir, Senhora, de louvar-vos
Com humano saber, e não divino,
Ficará de tamanha culpa dino
Quamanha ficais sendo em contemplar-vos.
Não pretenda ninguém de louvor dar-vos,
Por mais que raro seja, e peregrino:
Que vossa fermosura eu imagino
Que Deus a ele só quis comparar-vos.
Ditosa esta alma vossa, que quisestes
Em posse pôr de prenda tão subida,
Como, Senhora, foi a que me destes.
Melhor a guardarei que a própria vida;
Que, pois mercê tamanha me fizestes,
De mim será jamais nunca esquecida.
Com humano saber, e não divino,
Ficará de tamanha culpa dino
Quamanha ficais sendo em contemplar-vos.
Não pretenda ninguém de louvor dar-vos,
Por mais que raro seja, e peregrino:
Que vossa fermosura eu imagino
Que Deus a ele só quis comparar-vos.
Ditosa esta alma vossa, que quisestes
Em posse pôr de prenda tão subida,
Como, Senhora, foi a que me destes.
Melhor a guardarei que a própria vida;
Que, pois mercê tamanha me fizestes,
De mim será jamais nunca esquecida.
5 660
Bocage
Já o Inverno, expremendo as cãs nevosas
Já o Inverno, expremendo as cãs nevosas,
Geme, de horrendas nuvens carregado;
Luz o aéreo fuzil, e o mar inchado
Investe ao pólo em serras escumosas;
Ó benignas manhãs!, tardes saudosas,
Em que folga o pastor, medrando o gado,
Em que brincam no ervoso e fértil prado
Ninfas e Amores, Zéfiros e Rosas!
Voltai, retrocedei, formosos dias:
Ou antes vem, vem tu, doce beleza
Que noutros campos mil prazeres crias;
E ao ver-te sentirá minha alma acesa
Os perfumes, o encanto, as alegrias,
Da estação que remoça a natureza.
Geme, de horrendas nuvens carregado;
Luz o aéreo fuzil, e o mar inchado
Investe ao pólo em serras escumosas;
Ó benignas manhãs!, tardes saudosas,
Em que folga o pastor, medrando o gado,
Em que brincam no ervoso e fértil prado
Ninfas e Amores, Zéfiros e Rosas!
Voltai, retrocedei, formosos dias:
Ou antes vem, vem tu, doce beleza
Que noutros campos mil prazeres crias;
E ao ver-te sentirá minha alma acesa
Os perfumes, o encanto, as alegrias,
Da estação que remoça a natureza.
1 975
Almeida Garrett
Não te amo
Não te amo, quero-te: o amor vem dalma.
E eu nalma --- tenho a calma,
A calma --- do jazigo.
Ai! não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida --- nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai! não te amo, não!
Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.
E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.
E eu nalma --- tenho a calma,
A calma --- do jazigo.
Ai! não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida --- nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai! não te amo, não!
Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.
E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.
1 995