Poemas neste tema
Alma
Fernando Pessoa
Mendigo do que não conhece,
Mendigo do que não conhece,
Meu ser na estrada sem lugar
Entre estragos amanhece...
Caminha só sem procurar.
1924
Meu ser na estrada sem lugar
Entre estragos amanhece...
Caminha só sem procurar.
1924
4 698
1
Fernando Pessoa
Na quinta entre ciprestes
Na quinta entre ciprestes
Secaram todas as fontes,
As rosas brancas agrestes
Trazidas do fim dos montes
Vós mas tirastes, que as destes...
No rio ao pé de salgueiros
Passaram as águas em vão,
Com tristezas de estrangeiros
Passaram pelos salgueiros
As ondas, sem ter razão.
Secaram todas as fontes,
As rosas brancas agrestes
Trazidas do fim dos montes
Vós mas tirastes, que as destes...
No rio ao pé de salgueiros
Passaram as águas em vão,
Com tristezas de estrangeiros
Passaram pelos salgueiros
As ondas, sem ter razão.
4 275
1
Fernando Pessoa
Dizem?
Dizem?
Esquecem.
Não dizem?
Disseram.
Fazem?
Fatal.
Não fazem?
Igual.
Porquê
Esperar?
– Tudo é
Sonhar.
Esquecem.
Não dizem?
Disseram.
Fazem?
Fatal.
Não fazem?
Igual.
Porquê
Esperar?
– Tudo é
Sonhar.
5 877
1
Fernando Pessoa
Parece estar calor, mas nasce
Parece estar calor, mas nasce
Subitamente
Contra a minha face
Uma brisa fresca que se sente.
Assim também – poder comparar
É que é poesia –
A alma sente-se a esperar,
Mas não conhece em que confia.
31/08/1930
Subitamente
Contra a minha face
Uma brisa fresca que se sente.
Assim também – poder comparar
É que é poesia –
A alma sente-se a esperar,
Mas não conhece em que confia.
31/08/1930
4 789
1
Fernando Pessoa
É uma brisa leve
É uma brisa leve
Que o ar um momento teve
E que passa sem ter
Quase por tudo ser.
Quem amo não existe.
Vivo indeciso e triste.
Quem quis ser já me esquece
Quem sou não me conhece.
E em meio disto o aroma
Que a brisa traz me assoma
Um momento à consciência
Como uma confidência.
18/05/1922
Que o ar um momento teve
E que passa sem ter
Quase por tudo ser.
Quem amo não existe.
Vivo indeciso e triste.
Quem quis ser já me esquece
Quem sou não me conhece.
E em meio disto o aroma
Que a brisa traz me assoma
Um momento à consciência
Como uma confidência.
18/05/1922
6 209
1
Fernando Pessoa
O som do relógio
O som do relógio
Tem a alma por fora,
Só ele é a noite
E a noite se ignora.
Não sei que distância
Vai de som a som
Rezando, no tique
Do taque do tom.
Mas oiço de noite
A sua presença
Sem ter onde acoite
Meu ser sem ser.
Parece dizer
Sempre a mesma coisa
Como o que se senta
E se não repousa.
26/06/1929
Tem a alma por fora,
Só ele é a noite
E a noite se ignora.
Não sei que distância
Vai de som a som
Rezando, no tique
Do taque do tom.
Mas oiço de noite
A sua presença
Sem ter onde acoite
Meu ser sem ser.
Parece dizer
Sempre a mesma coisa
Como o que se senta
E se não repousa.
26/06/1929
5 576
1
Fernando Pessoa
O grande sol na eira
O grande sol na eira
Talvez seja o remédio...
Não quero quem me queira,
Amarem-me faz tédio.
Baste-me o beijo intacto
Que a luz dá a luzir
E o amor alheio e abstracto
De campos a florir.
O resto é gente e alma:
Complica, fala, vê.
Tira-me o sonho e a calma
E nunca é o que é.
21/08/1930
Talvez seja o remédio...
Não quero quem me queira,
Amarem-me faz tédio.
Baste-me o beijo intacto
Que a luz dá a luzir
E o amor alheio e abstracto
De campos a florir.
O resto é gente e alma:
Complica, fala, vê.
Tira-me o sonho e a calma
E nunca é o que é.
21/08/1930
4 493
1
Fernando Pessoa
Rala cai chuva. O ar não é escuro. A hora
Rala cai chuva. O ar não é escuro. A hora
Inclina-se na haste; e depois volta.
Que bem a fantasia se me solta!
Com que vestígios me descobre agora!
Tédio dos interstícios, onde mora
A fazer de lagarto. – O muro escolta
A minha eterna angústia de revolta
E esse muro sou eu e o que em mim chora.
Não digas mais, pois te ignorei cativo...
Teus olhos lembram o que querem ser,
Murmúrio de águas sobre a praia, e o esquivo
Langor do poente que me faz esquecer.
Que real que és! Mas eu, que vejo e vivo,
Perco-te, e o som do mar faz-te perder.
1932
Inclina-se na haste; e depois volta.
Que bem a fantasia se me solta!
Com que vestígios me descobre agora!
Tédio dos interstícios, onde mora
A fazer de lagarto. – O muro escolta
A minha eterna angústia de revolta
E esse muro sou eu e o que em mim chora.
Não digas mais, pois te ignorei cativo...
Teus olhos lembram o que querem ser,
Murmúrio de águas sobre a praia, e o esquivo
Langor do poente que me faz esquecer.
Que real que és! Mas eu, que vejo e vivo,
Perco-te, e o som do mar faz-te perder.
1932
4 356
1
Fernando Pessoa
Não quero mais que um som de água
Não quero mais que um som de água
Ao pé de um adormecer.
Trago sonho, trago mágoa,
Trago com que não querer.
Como nada amei nem fiz
Quero descansar de nada.
Amanhã serei feliz
Se para amanhã há estrada.
Por enquanto, na estalagem
De não ter cura de mim,
Gozarei só pela aragem
As flores do outro jardim.
Por enquanto, por enquanto,
Por enquanto não sei quê...
Pobre alma, choras sem pranto,
E ouves como quem vê.
19/08/1930
Ao pé de um adormecer.
Trago sonho, trago mágoa,
Trago com que não querer.
Como nada amei nem fiz
Quero descansar de nada.
Amanhã serei feliz
Se para amanhã há estrada.
Por enquanto, na estalagem
De não ter cura de mim,
Gozarei só pela aragem
As flores do outro jardim.
Por enquanto, por enquanto,
Por enquanto não sei quê...
Pobre alma, choras sem pranto,
E ouves como quem vê.
19/08/1930
4 462
1
Fernando Pessoa
Em torno a mim, em maré cheia,
Em torno a mim, em maré cheia,
Soam como ondas a brilhar,
O dia, o tempo, a obra alheia,
O mundo natural a estar.
Mas eu, fechado no meu sonho,
Parado enigma, e, sem querer,
Inutilmente recomponho
Visões do que não pude ser.
Cadáver da vontade feita,
Mito real, sonho a sentir,
Sequência interrompida, eleita
Para os destinos de partir.
Mas presa à inércia angustiada
De não saber a direcção,
E ficar morto na erma estrada
Que vai da alma ao coração.
Hora própria, nunca venhas,
Que olhar talvez fosse pior...
E tu, sol claro que me banhas,
Ah, banha sempre o meu torpor!
26/04/1926
Soam como ondas a brilhar,
O dia, o tempo, a obra alheia,
O mundo natural a estar.
Mas eu, fechado no meu sonho,
Parado enigma, e, sem querer,
Inutilmente recomponho
Visões do que não pude ser.
Cadáver da vontade feita,
Mito real, sonho a sentir,
Sequência interrompida, eleita
Para os destinos de partir.
Mas presa à inércia angustiada
De não saber a direcção,
E ficar morto na erma estrada
Que vai da alma ao coração.
Hora própria, nunca venhas,
Que olhar talvez fosse pior...
E tu, sol claro que me banhas,
Ah, banha sempre o meu torpor!
26/04/1926
4 365
1
Fernando Pessoa
Se sou alegre ou sou triste?...
Se sou alegre ou sou triste?...
Francamente, não o sei.
A tristeza em que consiste?
Da alegria o que farei?
Não sou alegre nem triste.
Verdade, não sei que sou.
Sou qualquer alma que existe
E sinto o que Deus fadou.
Afinal, alegre ou triste?
Pensar nunca tem bom fim...
Minha tristeza consiste
Em não saber bem de mim...
Mas a alegria é assim...
20/08/1930
Francamente, não o sei.
A tristeza em que consiste?
Da alegria o que farei?
Não sou alegre nem triste.
Verdade, não sei que sou.
Sou qualquer alma que existe
E sinto o que Deus fadou.
Afinal, alegre ou triste?
Pensar nunca tem bom fim...
Minha tristeza consiste
Em não saber bem de mim...
Mas a alegria é assim...
20/08/1930
5 881
1
Fernando Pessoa
Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Que há entre a vida e a morte me perdi.
E o que, na vaga viagem, eu senti
Com exacta memória não o sinto.
Se quero achar-me em mim dizendo-o, minto.
A vasta teia, estive-a e não a vi.
Obscuramente me desconcebi.
07/07/1930
Que há entre a vida e a morte me perdi.
E o que, na vaga viagem, eu senti
Com exacta memória não o sinto.
Se quero achar-me em mim dizendo-o, minto.
A vasta teia, estive-a e não a vi.
Obscuramente me desconcebi.
07/07/1930
4 199
1
Fernando Pessoa
Ah, como incerta, na noite em frente,
Ah, como incerta, na noite em frente,
De uma longínqua tasca vizinha
Uma ária antiga, subitamente,
Me faz saudades do que as não tinha.
A ária é antiga? É-o a guitarra.
Da ária mesma não sei, não sei.
Sinto a dor-sangue, não vejo a garra.
Não choro, e sinto que já chorei.
Qual o passado que me trouxeram?
Nem meu nem de outro, é só passado:
Todas as coisas que já morreram
A mim e a todos, no mundo andado.
É o tempo, o tempo que leva a vida
Que chora e choro na noite triste.
É a mágoa, a queixa mal definida
De quando existe, só porque existe.
14/08/1932
De uma longínqua tasca vizinha
Uma ária antiga, subitamente,
Me faz saudades do que as não tinha.
A ária é antiga? É-o a guitarra.
Da ária mesma não sei, não sei.
Sinto a dor-sangue, não vejo a garra.
Não choro, e sinto que já chorei.
Qual o passado que me trouxeram?
Nem meu nem de outro, é só passado:
Todas as coisas que já morreram
A mim e a todos, no mundo andado.
É o tempo, o tempo que leva a vida
Que chora e choro na noite triste.
É a mágoa, a queixa mal definida
De quando existe, só porque existe.
14/08/1932
4 761
1
Fernando Pessoa
Na orla do vento movem
Na orla do vento movem
Seus corpos mortos as folhas.
E ora das árvores chovem,
Ora onde inertes não movem
A chuva do Outono molha-as.
Não há no meu pensamento
Vontade com que o pensar
Não tenho neste momento
Nada no meu pensamento:
Sou como as folhas ao ar.
Mas elas certa não sentem
Esta mágoa inteira e funda
Que meus sentidos consentem.
Nada são e nada sentem
Da minha mágoa profunda.
19/01/1931
Seus corpos mortos as folhas.
E ora das árvores chovem,
Ora onde inertes não movem
A chuva do Outono molha-as.
Não há no meu pensamento
Vontade com que o pensar
Não tenho neste momento
Nada no meu pensamento:
Sou como as folhas ao ar.
Mas elas certa não sentem
Esta mágoa inteira e funda
Que meus sentidos consentem.
Nada são e nada sentem
Da minha mágoa profunda.
19/01/1931
4 628
1
Fernando Pessoa
Vou com um passo como de ir parar
Vou com um passo como de ir parar
Pela rua vazia
Nem sinto como um mal ou mal-estar
A vaga chuva fria...
Vou pela noite da indistinta rua
Alheio a andar e a ser
E a chuva leve em minha face nua
Orvalha de esquecer...
Sim, tudo esqueço. Pela noite sou
Noite também
E vagaroso eu (...) vou,
Fantasma de magia.
No vácuo que se forma de eu ser eu
E da noite ser triste
Meu ser existe sem que seja meu
E anónimo persiste...
Qual é o instinto que fica esquecido
Entre o passeio e a rua?
Vou sob a chuva, amargo e diluído
E tenho a face nua.
14/02/1929
Pela rua vazia
Nem sinto como um mal ou mal-estar
A vaga chuva fria...
Vou pela noite da indistinta rua
Alheio a andar e a ser
E a chuva leve em minha face nua
Orvalha de esquecer...
Sim, tudo esqueço. Pela noite sou
Noite também
E vagaroso eu (...) vou,
Fantasma de magia.
No vácuo que se forma de eu ser eu
E da noite ser triste
Meu ser existe sem que seja meu
E anónimo persiste...
Qual é o instinto que fica esquecido
Entre o passeio e a rua?
Vou sob a chuva, amargo e diluído
E tenho a face nua.
14/02/1929
4 532
1
Fernando Pessoa
Parece que estou sossegando
Parece que estou sossegando
Estarei talvez para morrer.
Há um cansaço novo e brando
De tudo quanto quis querer.
Há uma surpresa de me achar
Tão conformado com sentir.
Súbito vejo um rio
Entre arvoredo a luzir.
17/03/1929
Estarei talvez para morrer.
Há um cansaço novo e brando
De tudo quanto quis querer.
Há uma surpresa de me achar
Tão conformado com sentir.
Súbito vejo um rio
Entre arvoredo a luzir.
17/03/1929
4 759
1
Fernando Pessoa
Sepulto vive quem é a outrem dado.
Sepulto vive quem é a outrem dado.
E quem ao outrem que há em si, sepulto
Não poderei, Senhor, alguma vez
Desalgemar de mim as minhas mãos?
1921
E quem ao outrem que há em si, sepulto
Não poderei, Senhor, alguma vez
Desalgemar de mim as minhas mãos?
1921
4 338
1
Fernando Pessoa
Ah, a esta alma que não arde
Ah, a esta alma que não arde
Não envolve, porque ama
A esperança, ainda que vã,
O esquecimento que vive
Entre o orvalho da tarde
E o orvalho da manhã.
1930
Não envolve, porque ama
A esperança, ainda que vã,
O esquecimento que vive
Entre o orvalho da tarde
E o orvalho da manhã.
1930
4 805
1
Fernando Pessoa
TÉDIO
TÉDIO
Não vivo, mal vegeto, duro apenas,
Vazio dos sentidos porque existo;
Não tenho infelizmente sequer penas
E o meu mal é ser (alheio Cristo)
Nestas horas doridas e serenas
Completamente consciente disto.
12/05/1910
Não vivo, mal vegeto, duro apenas,
Vazio dos sentidos porque existo;
Não tenho infelizmente sequer penas
E o meu mal é ser (alheio Cristo)
Nestas horas doridas e serenas
Completamente consciente disto.
12/05/1910
7 447
1
Fernando Pessoa
SCHEHERAZAD
SCHEHRAZAD
O que eu penso não sei e é alegria
Pensá-lo; nada sou, salvo a harmonia
Interior entre existir e ouvir
A música cantar-te e dissuadir
Da vida e desta inútil atenção
Ao útil dada, mortal sensação
Real, passada
E à minha mente inutilmente dada.
26/11/1916
O que eu penso não sei e é alegria
Pensá-lo; nada sou, salvo a harmonia
Interior entre existir e ouvir
A música cantar-te e dissuadir
Da vida e desta inútil atenção
Ao útil dada, mortal sensação
Real, passada
E à minha mente inutilmente dada.
26/11/1916
4 092
1
Fernando Pessoa
Há um frio e um vácuo no ar.
Há um frio e um vácuo no ar.
Stá sobre tudo a pairar,
Cinzento-preto, o luar.
Luar triste de antemanhã
De outro dia e sua vã
Sperança e inútil afã.
É como a morte de alguém
Que era tudo que a alma tem
E que não era ninguém.
Absurdo erro disperso
No spaço, água onde é imerso
O cadáver do universo.
É como o meu coração
Frio da vaga opressão
Da antemanhã da visão.
23/02/1932
Stá sobre tudo a pairar,
Cinzento-preto, o luar.
Luar triste de antemanhã
De outro dia e sua vã
Sperança e inútil afã.
É como a morte de alguém
Que era tudo que a alma tem
E que não era ninguém.
Absurdo erro disperso
No spaço, água onde é imerso
O cadáver do universo.
É como o meu coração
Frio da vaga opressão
Da antemanhã da visão.
23/02/1932
5 294
1
Fernando Pessoa
Eis-me em mim absorto
Eis-me em mim absorto
Sem o conhecer
Bóio no mar morto
Do meu próprio ser.
Sinto-me pesar
No meu sentir-me água...
Eis-me a balancear
Minha vida-mágoa.
Barco sem ter velas...
De quilha virada...
O céu com estrelas
É frio como espada.
E eu sou vento e céu...
Sou o barco e o mar...
Só que não sou eu...
Quero-o ignorar.
12/05/1913
Sem o conhecer
Bóio no mar morto
Do meu próprio ser.
Sinto-me pesar
No meu sentir-me água...
Eis-me a balancear
Minha vida-mágoa.
Barco sem ter velas...
De quilha virada...
O céu com estrelas
É frio como espada.
E eu sou vento e céu...
Sou o barco e o mar...
Só que não sou eu...
Quero-o ignorar.
12/05/1913
4 812
1
Fernando Pessoa
Sou o fantasma de um rei
Sou o fantasma de um rei
Que sem cessar percorre
As salas de um palácio abandonado...
Minha história não sei...
Longe em mim, fumo de eu pensá-la, morre
A ideia de que tive algum passado...
Eu não sei o que sou.
Não sei se sou o sonho
Que alguém do outro mundo esteja tendo...
Creio talvez que estou
Sendo um perfil casual de rei tristonho
Numa história que um deus está relendo...
19/10/1913
Que sem cessar percorre
As salas de um palácio abandonado...
Minha história não sei...
Longe em mim, fumo de eu pensá-la, morre
A ideia de que tive algum passado...
Eu não sei o que sou.
Não sei se sou o sonho
Que alguém do outro mundo esteja tendo...
Creio talvez que estou
Sendo um perfil casual de rei tristonho
Numa história que um deus está relendo...
19/10/1913
4 627
1
Fernando Pessoa
Deve chamar-se tristeza
Deve chamar-se tristeza
Isto que não sei que seja
Que me inquieta sem surpresa,
Saudade que não deseja.
Sim, tristeza – mas aquela
Que nasce de conhecer
Que ao longe está uma estrela
E ao perto está não a ter.
Seja o que for, é o que tenho.
Tudo mais é tudo só.
E eu deixo ir o pó que apanho
De entre as mãos ricas de pó.
19/08/1930
Isto que não sei que seja
Que me inquieta sem surpresa,
Saudade que não deseja.
Sim, tristeza – mas aquela
Que nasce de conhecer
Que ao longe está uma estrela
E ao perto está não a ter.
Seja o que for, é o que tenho.
Tudo mais é tudo só.
E eu deixo ir o pó que apanho
De entre as mãos ricas de pó.
19/08/1930
5 050
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