Poemas neste tema
Alma
João Linneu
Em seu leito, finda a velha
Em seu leito, finda a velha.Ao seu lado, fito a cena.Num átimo, sou seus sentidos.Por olhos turvoslímpidas visões;nos flácidos braços,íntimos abraçosNo silencio dos ouvidossussurros de paixão;br>no mutismo dos lábios,murmurando, disse não.Sofre pelo não feito...o beijo negado e tanto querido;o bilhete escrito e logo rasgado;o abraço sonhado e nunca dado;a palavra não dita, e que a sós gritava;amores ocultos, noites insones;um pouco mais e seria feliz...
755
Tarcísio Meira César
Miniteoria do poema
Farto da linguagem
de antes, que exercia,
despiu-se da imagem
que, oca, construía.
Artificial, externa,
mais morta que viva,
fê-la mais interna
árdua, convulsiva.
Com a dor morando
- tanto como o amor -
penas vai portando,
como o espaço a cor.
Sem medo da rima,
sem medo do verso,
mesmo que a obra-prima
saia pelo inverso.
Que o poema seja
novo, mas eterno
(sem a moda andeja),
nobre como o inverno.
de antes, que exercia,
despiu-se da imagem
que, oca, construía.
Artificial, externa,
mais morta que viva,
fê-la mais interna
árdua, convulsiva.
Com a dor morando
- tanto como o amor -
penas vai portando,
como o espaço a cor.
Sem medo da rima,
sem medo do verso,
mesmo que a obra-prima
saia pelo inverso.
Que o poema seja
novo, mas eterno
(sem a moda andeja),
nobre como o inverno.
1 009
Gláucia Lemos
Predestinos
No dia em que tuas águas forem tantas
que, por domá-las, te farás escrava,
chamarás pelo rei que te esperava
como um troféu. E engrandeceu teu pranto.
No dia em que te vier o teu viajante
será pra te seguir na tua estrada.
Te banhará de luz na madrugada
e dormirá contigo como amante.
E no dia de partir o teu amado
Teus pés arrumarás bem a seu lado
com ele irás tecer cada manhã,
ou ele deixará a sua carruagem
e os dois - metades - se unirão na imagem
de um mesmo e doce fruto de maçã.
07.07.96
que, por domá-las, te farás escrava,
chamarás pelo rei que te esperava
como um troféu. E engrandeceu teu pranto.
No dia em que te vier o teu viajante
será pra te seguir na tua estrada.
Te banhará de luz na madrugada
e dormirá contigo como amante.
E no dia de partir o teu amado
Teus pés arrumarás bem a seu lado
com ele irás tecer cada manhã,
ou ele deixará a sua carruagem
e os dois - metades - se unirão na imagem
de um mesmo e doce fruto de maçã.
07.07.96
1 023
Luis Germano Graal
Minhalma
Minhalma gentil que se parte
Vai
Sai de mim
Eu ficarei a relembrar-te
A reclamar-te
A chorar-te
Na clara escuridão da funda noite
Minhalma fremosa
Minhalma doce
Minhalma cheia de tudo, vai
Mãe natureza chama de volta
O que lhe pertence
Solta-te de mim
Não me pertences
Cai na toda escuridão
Minha luz, minha lâmpada, meu céu
Minha vida que minha mãe me deu
Fica a esperar
Escondida
Em algum colo
Morfeu
Fica meu corpo aqui
Fica meu corpo sem minhalma
Fica meu corpo no breu
Sem meu espírito
Um e uma e outro eram em mim
A presença
De alguém ausente de mim
Fica meu corpo longe
Bem longe
Minha sina
Meu destino
Minha cruz
Fica meu corpo incendiado no barco
Crucifixo
Fica o que foi e tinha sido
Antes
Destes mares de nunca mais
Nunca dantes
Nunca durantes
Nestes, naqueles, noutros mares
De nunca jamais
Restam nestas águas
Destes mares
A fumaça
O fero fogo
A luz
Os fantasmas, os ângelos
Os arcângelos
Que fomos
Restam pelo céu
Per omnia saecula saeculorum
Fumaças tapando a bola
Mas o fogo e a luz ardendo aqui
Transformam
Esta nave
Num farol
Lúmina, luminosa, lumescente
Lúcida
Nossa nave ilumina os mares
É farol
A nossa luz é tanta
Ilumina tudo
É sol.
Vai
Sai de mim
Eu ficarei a relembrar-te
A reclamar-te
A chorar-te
Na clara escuridão da funda noite
Minhalma fremosa
Minhalma doce
Minhalma cheia de tudo, vai
Mãe natureza chama de volta
O que lhe pertence
Solta-te de mim
Não me pertences
Cai na toda escuridão
Minha luz, minha lâmpada, meu céu
Minha vida que minha mãe me deu
Fica a esperar
Escondida
Em algum colo
Morfeu
Fica meu corpo aqui
Fica meu corpo sem minhalma
Fica meu corpo no breu
Sem meu espírito
Um e uma e outro eram em mim
A presença
De alguém ausente de mim
Fica meu corpo longe
Bem longe
Minha sina
Meu destino
Minha cruz
Fica meu corpo incendiado no barco
Crucifixo
Fica o que foi e tinha sido
Antes
Destes mares de nunca mais
Nunca dantes
Nunca durantes
Nestes, naqueles, noutros mares
De nunca jamais
Restam nestas águas
Destes mares
A fumaça
O fero fogo
A luz
Os fantasmas, os ângelos
Os arcângelos
Que fomos
Restam pelo céu
Per omnia saecula saeculorum
Fumaças tapando a bola
Mas o fogo e a luz ardendo aqui
Transformam
Esta nave
Num farol
Lúmina, luminosa, lumescente
Lúcida
Nossa nave ilumina os mares
É farol
A nossa luz é tanta
Ilumina tudo
É sol.
967
Lucídio Freitas
Teresina Apagou-se
Teresina apagou-se na distância,
Ficou longe de mim, adormecida,
Guardando a alma de sol da minha infância
E o minuto melhor da minha vida.
E eu sigo, e eu vou para a perpétua lida.
Espera-me, distante, uma outra estância...
É a parada da luta indefinida,
É a minha febre, minha dor, minha ânsia...
Como são infinitos os caminhos!
E como agora estou tão diferente,
Carregado de angústias e de espinhos!...
Tudo me desconhece. Ingrata é a terra.
O céu é feio. Eu eu sigo para a frente
Como quem vai seguindo para a guerra...
Ficou longe de mim, adormecida,
Guardando a alma de sol da minha infância
E o minuto melhor da minha vida.
E eu sigo, e eu vou para a perpétua lida.
Espera-me, distante, uma outra estância...
É a parada da luta indefinida,
É a minha febre, minha dor, minha ânsia...
Como são infinitos os caminhos!
E como agora estou tão diferente,
Carregado de angústias e de espinhos!...
Tudo me desconhece. Ingrata é a terra.
O céu é feio. Eu eu sigo para a frente
Como quem vai seguindo para a guerra...
1 344
Gláucia Lemos
Reencontro
Foi com asas que veio. Mas com asas
da incerteza encravadas nos espinhos.
Qual pássaro qualquer por sobre casas,
pelos telhados, por desfeitos ninhos.
E pousou frente a mim. Eram lilases
- do tom dos tristes nos seus descaminhos -
suas asas de silêncio. Tantas frases
embrulhadas no medo dos sozinhos.
Foi assim como pássaro ferido
que me buscou. Eram - não sei - de vidro
ou eram de susto os olhos que mostrou .
Pousou uma vez mais no meu vestido.
Trouxe um gorjeio novo a meu ouvido.
Foi assim que o guardei. E ele ficou.
06.07.96
da incerteza encravadas nos espinhos.
Qual pássaro qualquer por sobre casas,
pelos telhados, por desfeitos ninhos.
E pousou frente a mim. Eram lilases
- do tom dos tristes nos seus descaminhos -
suas asas de silêncio. Tantas frases
embrulhadas no medo dos sozinhos.
Foi assim como pássaro ferido
que me buscou. Eram - não sei - de vidro
ou eram de susto os olhos que mostrou .
Pousou uma vez mais no meu vestido.
Trouxe um gorjeio novo a meu ouvido.
Foi assim que o guardei. E ele ficou.
06.07.96
1 214
Gláucia Lemos
Poema Para a Mulher de Malandro
Um segundo
ave assustada voando para longe.
Asas molhadas de vento
arrastando o peso
da surpresa e do susto.
Para longe
para bem longe do temporal.
Olhos enxutos respiram distância
coração de ave frágil
pequenino
pulsa pânico
irrompe do peito.
É preciso aguardar o retorno do sol.
O sol...
Luz infiltrando suave
da coroa dos montes.
A medo e a susto
o romper do vento a rota de retorno.
Não sou, não me torno
mas entendo
a mulher do malandro.
ave assustada voando para longe.
Asas molhadas de vento
arrastando o peso
da surpresa e do susto.
Para longe
para bem longe do temporal.
Olhos enxutos respiram distância
coração de ave frágil
pequenino
pulsa pânico
irrompe do peito.
É preciso aguardar o retorno do sol.
O sol...
Luz infiltrando suave
da coroa dos montes.
A medo e a susto
o romper do vento a rota de retorno.
Não sou, não me torno
mas entendo
a mulher do malandro.
1 544
Gláucia Lemos
Soneto á Fala
ou
Rota do Sol
Cala-te e partirei. Muda e sem abraço.
E esta distância se fará completa.
Fechamos esta escala de embaraços,
me defino sem ti, na rota certa.
Mas, cala! Que tua voz é como um laço
que me ata o sangue e minha calma afeta.
Se falas, estremeço e me desfaço,
e quedo, penitente, manifesta.
Se falas, eu me arrisco ao precipício,
como fêmea arrastada, como um vício
que avassala em inteira embriaguez.
Se ainda me amas, me poupa o sacrifício
desta distância. Leva-me á difícil
rota do sol. Ou cala de uma vez!
12.07.96
Rota do Sol
Cala-te e partirei. Muda e sem abraço.
E esta distância se fará completa.
Fechamos esta escala de embaraços,
me defino sem ti, na rota certa.
Mas, cala! Que tua voz é como um laço
que me ata o sangue e minha calma afeta.
Se falas, estremeço e me desfaço,
e quedo, penitente, manifesta.
Se falas, eu me arrisco ao precipício,
como fêmea arrastada, como um vício
que avassala em inteira embriaguez.
Se ainda me amas, me poupa o sacrifício
desta distância. Leva-me á difícil
rota do sol. Ou cala de uma vez!
12.07.96
1 249
Gláucia Lemos
Poema para um instante
Surpreendente é amor
brincando no olhar
brisa tremulando em canteiro
de miosótis.
Xale de luar de lua cheia
estremecendo nas águas.
Lúdico mesmo é o olhar
brincando de amor
aventura de criança jogando
um jogo de armar.
Mágico tirando da cartola
pombos e flores de papel crepom.
Encantamento é a presença
iluminando a porta
é alguém à espera
com um sol entre os lábios.
05.06.96
brincando no olhar
brisa tremulando em canteiro
de miosótis.
Xale de luar de lua cheia
estremecendo nas águas.
Lúdico mesmo é o olhar
brincando de amor
aventura de criança jogando
um jogo de armar.
Mágico tirando da cartola
pombos e flores de papel crepom.
Encantamento é a presença
iluminando a porta
é alguém à espera
com um sol entre os lábios.
05.06.96
1 254
Maria Thereza Noronha
Pássaro
Assombrava-me o dia um pensamento.
Acuada, corri ao mais cômodo arbusto
e, à sua escassa sombra,
abriguei-me do dia.
Entanto, o negro pássaro do remorso
- insistente sombra noturna -
dissimulado em algum sutil remanso
aguardava o momento mais propício
para estender as asas friorentas
sobre meu sono de púrpura.
Acuada, corri ao mais cômodo arbusto
e, à sua escassa sombra,
abriguei-me do dia.
Entanto, o negro pássaro do remorso
- insistente sombra noturna -
dissimulado em algum sutil remanso
aguardava o momento mais propício
para estender as asas friorentas
sobre meu sono de púrpura.
917
Lúcio José Gusman
Obsessão
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
Quando moves as pupilas
e semicerras as pálpebras,
vejo-a
num espiral frenético
a me chamar e enfeitiçar.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
E eu fico a contemplá-la
extasiado, mudo e triste,
com vontade de acompanhá-la.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
E eu fico a contemplá-la,
extasiado, mudo e triste,
sem poder acompanhar-lhe o vôo.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos.
Uma borboleta linda...
linda... linda...
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
Quando moves as pupilas
e semicerras as pálpebras,
vejo-a
num espiral frenético
a me chamar e enfeitiçar.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
E eu fico a contemplá-la
extasiado, mudo e triste,
com vontade de acompanhá-la.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
E eu fico a contemplá-la,
extasiado, mudo e triste,
sem poder acompanhar-lhe o vôo.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos.
Uma borboleta linda...
linda... linda...
877
Gláucia Lemos
Permanência
É assim que consigo ter-te perto
quando não estás. Apenas manuseio
o livro que deixaste, e então eu creio
sentir as tuas mãos junto a meus gestos.
Sinto que estás pra vir. No meu deserto
sempre deixas sinal. Terás receio
que me perca de ti?... No entanto é certo
que só estou a buscar-te enquanto leio...
Tens o teu jeito de guardar-me pronta
à tua espera: Uma lembrança apenas,
qualquer coisa em que possa me dar conta
da tua presença, enquanto te vais.
Assim te ficas em coisas pequenas
assim te tenho perto se não estás.
10.07.96
quando não estás. Apenas manuseio
o livro que deixaste, e então eu creio
sentir as tuas mãos junto a meus gestos.
Sinto que estás pra vir. No meu deserto
sempre deixas sinal. Terás receio
que me perca de ti?... No entanto é certo
que só estou a buscar-te enquanto leio...
Tens o teu jeito de guardar-me pronta
à tua espera: Uma lembrança apenas,
qualquer coisa em que possa me dar conta
da tua presença, enquanto te vais.
Assim te ficas em coisas pequenas
assim te tenho perto se não estás.
10.07.96
1 138
Luiz Fernandes da Silva
Afirmação
Quero que neste momento
teu corpo se abra como ave
e deixe o tempo desmemorizar o homem.
Quero ouvir o eco e o grito
no fundo de um poço
Quero que meu corpo fique
inerte sobre a mesa
para receber a luz do Cruzeiro do Sul.
Quero que escrevam
meu nome na ribanceira dos rios
no ancoradouro do cais.
Quero que o vento cante
minha lira e corte minha palavra
em mil fatias de desespero.
Quero viver intensamente
as minhas noites de vigília.
Quero ruminar campos de outrora
para pisar nas mãos do vento.
Quero viver sem tua presença
na ausência de todos os teus retratos.
teu corpo se abra como ave
e deixe o tempo desmemorizar o homem.
Quero ouvir o eco e o grito
no fundo de um poço
Quero que meu corpo fique
inerte sobre a mesa
para receber a luz do Cruzeiro do Sul.
Quero que escrevam
meu nome na ribanceira dos rios
no ancoradouro do cais.
Quero que o vento cante
minha lira e corte minha palavra
em mil fatias de desespero.
Quero viver intensamente
as minhas noites de vigília.
Quero ruminar campos de outrora
para pisar nas mãos do vento.
Quero viver sem tua presença
na ausência de todos os teus retratos.
814
Gláucia Lemos
Poema de uma Madrugada Lilás
Depois de ti todas as faces
estão transformadas.
Agora mesmo
um vendaval cavalga a madrugada lá fora.
Vergasta galhos e arrebata folhas
para cá do mar. Lá fora .
Mas entra no meu quarto
e está em mim.
Já não estou neste ermo,
parti para não sei, onde estiveres,
em algum lugar, num livro, num CD,
numa varanda talvez, ou numa sala.
Sei lá, onde estiveres...
Quatro séculos há em mim assassinados
e se rebelam,
e eu tenho que seguir
a me revelar na face de cristal
das tuas reminiscências
onde
ainda ontem grafaste o meu abraço.
E, não sei, não sei,
se do labirinto em que me enredei
ou me enredaste em saliva e carinho,
é possível sair.
Está escrito que eu tenho que seguir.
Mas não entendo
porque não te esperei pra vir contigo.
No entanto eu te amei.
Te reconheço.
Em segredo te amei.
Em silêncio te amei
Te amei em insônias,
e em confissão me amaste.
Talvez ainda...
Chove na madrugada do meu bairro.
Ainda sinto vibrando nos meus braços
a eletricidade do teu gozo
em um tempo que não marco
inscrito em algum tempo.
Nunca mais, nunca mais
terei nos olhos a angústia
ansiosa dos contidos
nem a placidez dos moribundos.
Nunca mais a morte dos que se perderam
sem direção.
Agora esta loucura
de pássaro distante
que conhece o seu rumo e sabe
o seu destino
e em vôo cego, desconhece o espaço.
Agora nos meus olhos
esta loucura
ansiedade de te ter e te guardar
do meu jeito.
Depois de ti nunca mais serei eu.
Serei só madrugada em insônia
e temporal
serei dor e dúvida e busca
e o repouso e a paz do teu encontro
e despedida e ansiedade nova e repetida,
e depois, e depois...
até quando?
Por que amar com lágrimas e esperas?
Por que amar nas noites deste quarto
em silêncio de trevas?
Se sei que a tua luz
bruxuleia no âmago do meu corpo
e se funde com a minha luz,
mas é quase um punhal
me ensinando a morrer.
Por que meu tormento e meu cárcere frio
se estás por aí
e eu te dou o meu colo e o meu beijo
e te abrigo
na febre do meu peito
e nas águas do meu ninho,
como em pia batismal de um só desejo.
Ah...
Não sabes de tempestades...
E se sabes
não entendes da minha tempestade
toda feita de perdão e de pedidos.
Quem tomará teu corpo a acarinhar teu dorso
como quem mata
o meu pedaço amado?
Se eu te protejo qual leoa brava
tomada de ciúmes...
Depois de ti nunca mais outra face de vida
haverá.
Só esta loucura que me faz servida
entre valvas de conchas
a ti
a teu querer
à tua espera.
(madrugada de 18.05.96)
estão transformadas.
Agora mesmo
um vendaval cavalga a madrugada lá fora.
Vergasta galhos e arrebata folhas
para cá do mar. Lá fora .
Mas entra no meu quarto
e está em mim.
Já não estou neste ermo,
parti para não sei, onde estiveres,
em algum lugar, num livro, num CD,
numa varanda talvez, ou numa sala.
Sei lá, onde estiveres...
Quatro séculos há em mim assassinados
e se rebelam,
e eu tenho que seguir
a me revelar na face de cristal
das tuas reminiscências
onde
ainda ontem grafaste o meu abraço.
E, não sei, não sei,
se do labirinto em que me enredei
ou me enredaste em saliva e carinho,
é possível sair.
Está escrito que eu tenho que seguir.
Mas não entendo
porque não te esperei pra vir contigo.
No entanto eu te amei.
Te reconheço.
Em segredo te amei.
Em silêncio te amei
Te amei em insônias,
e em confissão me amaste.
Talvez ainda...
Chove na madrugada do meu bairro.
Ainda sinto vibrando nos meus braços
a eletricidade do teu gozo
em um tempo que não marco
inscrito em algum tempo.
Nunca mais, nunca mais
terei nos olhos a angústia
ansiosa dos contidos
nem a placidez dos moribundos.
Nunca mais a morte dos que se perderam
sem direção.
Agora esta loucura
de pássaro distante
que conhece o seu rumo e sabe
o seu destino
e em vôo cego, desconhece o espaço.
Agora nos meus olhos
esta loucura
ansiedade de te ter e te guardar
do meu jeito.
Depois de ti nunca mais serei eu.
Serei só madrugada em insônia
e temporal
serei dor e dúvida e busca
e o repouso e a paz do teu encontro
e despedida e ansiedade nova e repetida,
e depois, e depois...
até quando?
Por que amar com lágrimas e esperas?
Por que amar nas noites deste quarto
em silêncio de trevas?
Se sei que a tua luz
bruxuleia no âmago do meu corpo
e se funde com a minha luz,
mas é quase um punhal
me ensinando a morrer.
Por que meu tormento e meu cárcere frio
se estás por aí
e eu te dou o meu colo e o meu beijo
e te abrigo
na febre do meu peito
e nas águas do meu ninho,
como em pia batismal de um só desejo.
Ah...
Não sabes de tempestades...
E se sabes
não entendes da minha tempestade
toda feita de perdão e de pedidos.
Quem tomará teu corpo a acarinhar teu dorso
como quem mata
o meu pedaço amado?
Se eu te protejo qual leoa brava
tomada de ciúmes...
Depois de ti nunca mais outra face de vida
haverá.
Só esta loucura que me faz servida
entre valvas de conchas
a ti
a teu querer
à tua espera.
(madrugada de 18.05.96)
1 400
Gláucia Lemos
Soneto do Rio
(A um poeta)
Aonde me levam águas deste rio
com a insignificância de uma folha,
não sei como parar, não tenho escolha,
deslizo em seixos e húmus. Sol ou frio.
Ora numa vertigem rodopio
indo à flor da corrente. Ora à bolha
da água batendo em pedras. Ora me olha
a me encantar, o seu espelho esguio.
Perderam-se os meus pés por essas águas.
Minha sorte não sei. Mas sei que trago a
ansiedade de ainda prosseguir.
Por isso é que me advirto, vez em quando,
se é mesmo o rio que me está levando
ou se sou eu quem está querendo ir...
15.07.96
Aonde me levam águas deste rio
com a insignificância de uma folha,
não sei como parar, não tenho escolha,
deslizo em seixos e húmus. Sol ou frio.
Ora numa vertigem rodopio
indo à flor da corrente. Ora à bolha
da água batendo em pedras. Ora me olha
a me encantar, o seu espelho esguio.
Perderam-se os meus pés por essas águas.
Minha sorte não sei. Mas sei que trago a
ansiedade de ainda prosseguir.
Por isso é que me advirto, vez em quando,
se é mesmo o rio que me está levando
ou se sou eu quem está querendo ir...
15.07.96
1 260
Gláucia Lemos
Poema ao Amor Recém-Nascido
Vê, é crescente,
quarto de lua crescente.
No universo inteiro
tudo chegou ao tempo de crescer.
Deixa que cresça
deixa que amadureça
como o sol faz crescerem os trigais.
Deixa que nasça o pão
das espigas crescidas
e o alimente qual se nutre um corpo
na bandeja da emoção.
Deixa que cresça indomável.
Seja rebentação nos quebra-mares
das marés de enchente.
Faça-se grande qual só é grande a vida
invencível como só assim a morte.
Que seja um deus nos concedendo a graça
de escrevermos nós, nosso destino.
Deixa que cresça.
Que cresça e se mature
e multiplique qual no ventre térreo
planetário de sementes.
E depois, como chuva,
deixa que se esparrame
no universo
dos universos aonde possa ir,
maravilhado da própria grandeza.
Deixa que cresça e nos cubra.
E nos proteja como anjo-de-guarda
e nos leve pelas mãos
nas mãos da vida
que ele faz ressuscitar.
Deixa em silêncio,
deixa em canto suave,
deixa no toque de ternura nova,
deixa crescer em ti
que não deixaste
perder-se sem razão nossa verdade.
Vê. é crescente.
Quarto de lua crescente!
Doce criança, deixa-o crescer!
Em uma lua crescente de 1996.
quarto de lua crescente.
No universo inteiro
tudo chegou ao tempo de crescer.
Deixa que cresça
deixa que amadureça
como o sol faz crescerem os trigais.
Deixa que nasça o pão
das espigas crescidas
e o alimente qual se nutre um corpo
na bandeja da emoção.
Deixa que cresça indomável.
Seja rebentação nos quebra-mares
das marés de enchente.
Faça-se grande qual só é grande a vida
invencível como só assim a morte.
Que seja um deus nos concedendo a graça
de escrevermos nós, nosso destino.
Deixa que cresça.
Que cresça e se mature
e multiplique qual no ventre térreo
planetário de sementes.
E depois, como chuva,
deixa que se esparrame
no universo
dos universos aonde possa ir,
maravilhado da própria grandeza.
Deixa que cresça e nos cubra.
E nos proteja como anjo-de-guarda
e nos leve pelas mãos
nas mãos da vida
que ele faz ressuscitar.
Deixa em silêncio,
deixa em canto suave,
deixa no toque de ternura nova,
deixa crescer em ti
que não deixaste
perder-se sem razão nossa verdade.
Vê. é crescente.
Quarto de lua crescente!
Doce criança, deixa-o crescer!
Em uma lua crescente de 1996.
1 985
Lúcio José Gusman
Ausência
Não estares
é como abrir uma ferida imensa
de onde salta
um mar vermelho de solidão.
É dissecar em mim
um tempo que não existe,
um tempo em que não sou,
no qual tu és, absoluta,
pela falta em que me queimas.
Não estares
é afogar-me em águas turvas
ardendo na sede,
insaciável,
que me consome.
Não estares
é como se não quisesses estar
mesmo querendo,
enquanto eu sorvo, ininterruptamente,
a agridoce essência
do teu ser onipresenteausente
é como abrir uma ferida imensa
de onde salta
um mar vermelho de solidão.
É dissecar em mim
um tempo que não existe,
um tempo em que não sou,
no qual tu és, absoluta,
pela falta em que me queimas.
Não estares
é afogar-me em águas turvas
ardendo na sede,
insaciável,
que me consome.
Não estares
é como se não quisesses estar
mesmo querendo,
enquanto eu sorvo, ininterruptamente,
a agridoce essência
do teu ser onipresenteausente
855
Tarcísio Meira César
Breve sono
A leveza da pálpebra dormente
tinha, quando uma tarde adormeci:
uma pequena morte que morri,
muito aquém de algum sono, o mais ardente.
Parecia uma névoa dissolvente
de um momento breve que escondi,
feito do mais esquivo e suavíssimo
instante despregado do poente.
Morri um breve sono desde o além,
silencioso e só e sem lembrança,
como se em nada dissolvesse alguém.
Eu era como a tarde que morria
entre um pedaço da noite e a esquivança
de um instante escondido em pleno dia.
tinha, quando uma tarde adormeci:
uma pequena morte que morri,
muito aquém de algum sono, o mais ardente.
Parecia uma névoa dissolvente
de um momento breve que escondi,
feito do mais esquivo e suavíssimo
instante despregado do poente.
Morri um breve sono desde o além,
silencioso e só e sem lembrança,
como se em nada dissolvesse alguém.
Eu era como a tarde que morria
entre um pedaço da noite e a esquivança
de um instante escondido em pleno dia.
1 174
Lélia Coelho Frota
Hipótese de Maio
Sobre a mesa o relógio
anuncia meu tempo
que se desfaz em crivo
de aflito pensamento.
De que jardins me evado
de que amores provenho
de que enredo impreciso
se armara o que estou sendo
entre meus dicionários
fragmentos de retratos
os rútilos canários
enfunadas cortinas.
Os amigos inquietos
o silêncio a aumentar
concêntrico, severo
em torno das conversas
além da ausência,
além dos constantes afetos.
Resíduos de passeios
em paisagens alheias
empinham-se em gavetas —
cartas de amor nos seus
macios envelopes
risadas e conchinhas
a voz que fala sempre
no fundo da sonata
diletantes poemas
todos concordemente
citando o Coração
ladeado de flores
zéfiros sorridentes
(e os sabia chorosos).
As gavetas estufam
o que nelas se havia
adquire vida própria
um sitiado encanto
e explusa da memória
de que participava
com escassa competência
eu, que leve o lembrava.
O conteúdo humano
desse ditoso espólio
palpita, e entretanto
— semicerrados olhos
agitar de cambraia —
invencível o sono
se engolfa na dolência.
Sono maior que o escuro
a corromper a luz
diuturna nostalgia
de um sonho, não sei mais
ao certo o que seria.
Coágulo sombrio
adensando-se em zona
fechada, onde me perco
neste mês-de-maria
pensando o que seria
de mim, no dissolvido
rumor que me povoa
sem conduzir à fala
da sempre poesia
sem revelar o muito
de amar que pretendia
antes de antes, não sei
ao certo o que seria.
Mas bem que perfazia
um circuito profundo
onde a primeira imagem
(início e ata finda)
que ainda se reflete
é a da jovem correndo
pela campina, soltos
cabelos, e as glicínias
a descer pelos ombros
prendendo-se na boca
primavera garrida
pelo azul florentino.
Na mão direita tinha
uma roseira viva
juritis entoavam
campestres ladainhas
e pela transparência
de sua carnação
via-se-lhe o coração
com um só nome gravado
a rubro, fulcro infenso.
Corria na campina
fantástica, e ainda
posso lembrar que em fuga
amava sempre, e ria.
anuncia meu tempo
que se desfaz em crivo
de aflito pensamento.
De que jardins me evado
de que amores provenho
de que enredo impreciso
se armara o que estou sendo
entre meus dicionários
fragmentos de retratos
os rútilos canários
enfunadas cortinas.
Os amigos inquietos
o silêncio a aumentar
concêntrico, severo
em torno das conversas
além da ausência,
além dos constantes afetos.
Resíduos de passeios
em paisagens alheias
empinham-se em gavetas —
cartas de amor nos seus
macios envelopes
risadas e conchinhas
a voz que fala sempre
no fundo da sonata
diletantes poemas
todos concordemente
citando o Coração
ladeado de flores
zéfiros sorridentes
(e os sabia chorosos).
As gavetas estufam
o que nelas se havia
adquire vida própria
um sitiado encanto
e explusa da memória
de que participava
com escassa competência
eu, que leve o lembrava.
O conteúdo humano
desse ditoso espólio
palpita, e entretanto
— semicerrados olhos
agitar de cambraia —
invencível o sono
se engolfa na dolência.
Sono maior que o escuro
a corromper a luz
diuturna nostalgia
de um sonho, não sei mais
ao certo o que seria.
Coágulo sombrio
adensando-se em zona
fechada, onde me perco
neste mês-de-maria
pensando o que seria
de mim, no dissolvido
rumor que me povoa
sem conduzir à fala
da sempre poesia
sem revelar o muito
de amar que pretendia
antes de antes, não sei
ao certo o que seria.
Mas bem que perfazia
um circuito profundo
onde a primeira imagem
(início e ata finda)
que ainda se reflete
é a da jovem correndo
pela campina, soltos
cabelos, e as glicínias
a descer pelos ombros
prendendo-se na boca
primavera garrida
pelo azul florentino.
Na mão direita tinha
uma roseira viva
juritis entoavam
campestres ladainhas
e pela transparência
de sua carnação
via-se-lhe o coração
com um só nome gravado
a rubro, fulcro infenso.
Corria na campina
fantástica, e ainda
posso lembrar que em fuga
amava sempre, e ria.
1 053
Gláucia Lemos
Poema de uma Hora Triste
Deixa que eu sinta este momento novo
e talvez quando houver o nosso encontro
vejas em mim a marca dessa ausência.
Deixa que eu queira te sentir presente
e talvez se eu disser quanto te espero
mostres em ti o quanto me esperavas.
Deixa que eu possa te buscar agora
e talvez nunca mais nosso universo
conheça as brumas desta solidão.
Deixa que eu possa, nesta hora triste,
crer que também, talvez, estou contigo,
e a dor que é minha tua se tornou.
e talvez quando houver o nosso encontro
vejas em mim a marca dessa ausência.
Deixa que eu queira te sentir presente
e talvez se eu disser quanto te espero
mostres em ti o quanto me esperavas.
Deixa que eu possa te buscar agora
e talvez nunca mais nosso universo
conheça as brumas desta solidão.
Deixa que eu possa, nesta hora triste,
crer que também, talvez, estou contigo,
e a dor que é minha tua se tornou.
976
Maria Thereza Noronha
Soneto ao Estilo Neo-clássico
Em verde indiferença me pressinto
em prados onde outrora fui rainha.
A grinalda de flores que me vinha
a cabeça adornar, já não a sinto.
Em pálidas areias me reclino
de ilhas onde aportei. Mas se advinha
do mar a voz em versos de marinha
e em conchas de segredo cristalino.
Pastora de lembranças, me sustenta
o hálito da brisa vespertina.
Na asa da borboleta, a face lenta
da larva onde dormiu, não se divisa.
Nem a enxurrada se percebe ainda
na lágrima tangida pela brisa.
em prados onde outrora fui rainha.
A grinalda de flores que me vinha
a cabeça adornar, já não a sinto.
Em pálidas areias me reclino
de ilhas onde aportei. Mas se advinha
do mar a voz em versos de marinha
e em conchas de segredo cristalino.
Pastora de lembranças, me sustenta
o hálito da brisa vespertina.
Na asa da borboleta, a face lenta
da larva onde dormiu, não se divisa.
Nem a enxurrada se percebe ainda
na lágrima tangida pela brisa.
1 006
Thereza Magalhães Pinto
Intransferível
Deixo exiladas
na distância do tempo
efêmero e rude
as lembranças do amor
que vive em mim e
exaltei mais do que pude.
Queixo-me calada
um saldar de profundo
escuro olhar de sensações
e luzes enfim
inexistentes.
Concentro-me
impiedosa, veemente
nos meus
séculos incríveis
de solidão total.
na distância do tempo
efêmero e rude
as lembranças do amor
que vive em mim e
exaltei mais do que pude.
Queixo-me calada
um saldar de profundo
escuro olhar de sensações
e luzes enfim
inexistentes.
Concentro-me
impiedosa, veemente
nos meus
séculos incríveis
de solidão total.
989
Lúcio José Gusman
Poema definitivo
És assim como o vento:
pões a biruta da vida
sobre o mastro a voltear;
és a gaivota prateada:
bicas de leve e silente
cada onda do meu mar;
és o grãozinho de areia
que cola e logo descola,
voltando ao seu lugar;
és aquele raio quente
do sol do meio-do-dia,
astro-rei, a me queimar;
és a vitela pastando,
a arvorezinha brotando,
ceifa do ceifador a me ceifar...;
és o vestido de rendas
na menina indefinível
a rodar, rodar, rodar;
és meu ímã predileto
que meu sangue, fer r o-em-brasa,
parece querer sugar;
és tudo quanto não tive,
mais o que pensei ter tido,
louco, louco a sonhar.
Quanto te vejo passar,
quando te sinto chegar,
sei que não vivi em vão:
tu me surges como aquela
que não se gerou no ventre
mas nasceu do coração!
pões a biruta da vida
sobre o mastro a voltear;
és a gaivota prateada:
bicas de leve e silente
cada onda do meu mar;
és o grãozinho de areia
que cola e logo descola,
voltando ao seu lugar;
és aquele raio quente
do sol do meio-do-dia,
astro-rei, a me queimar;
és a vitela pastando,
a arvorezinha brotando,
ceifa do ceifador a me ceifar...;
és o vestido de rendas
na menina indefinível
a rodar, rodar, rodar;
és meu ímã predileto
que meu sangue, fer r o-em-brasa,
parece querer sugar;
és tudo quanto não tive,
mais o que pensei ter tido,
louco, louco a sonhar.
Quanto te vejo passar,
quando te sinto chegar,
sei que não vivi em vão:
tu me surges como aquela
que não se gerou no ventre
mas nasceu do coração!
980
Gláucia Lemos
Poema dos Olhos
Pões em mim os teus olhos.
Carregados de uma busca indefinida
envolvidos em uma dor que me é palpável
tão sutil no olhar
no sentir tão denso.
Pões em mim os teus olhos.
E só há trevas. E a luz se foi.
Estranho essa agonia
que te arrebata e se expõe
mas os lábios não murmuram.
Há um pedido sem voz soluçando em teu silêncio.
Na garganta te travam
a culpa e o remorso
e te espumam no sangue
e em teus olhos te traem.
Amargura de mater dolorosa
sangra no teu olhar num só pedido.
Desço. Não sei se creio.
Vacilo e desço.
Em tua dor ponho afinal meus olhos
e te perdôo.
03.06.96
Carregados de uma busca indefinida
envolvidos em uma dor que me é palpável
tão sutil no olhar
no sentir tão denso.
Pões em mim os teus olhos.
E só há trevas. E a luz se foi.
Estranho essa agonia
que te arrebata e se expõe
mas os lábios não murmuram.
Há um pedido sem voz soluçando em teu silêncio.
Na garganta te travam
a culpa e o remorso
e te espumam no sangue
e em teus olhos te traem.
Amargura de mater dolorosa
sangra no teu olhar num só pedido.
Desço. Não sei se creio.
Vacilo e desço.
Em tua dor ponho afinal meus olhos
e te perdôo.
03.06.96
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