Poemas neste tema
Alma
Lucídio Freitas
Perscrutadoramente
Perscrutadoramente os olhos ponho
No que fui, no que sou, no que hei de ser,
E alucinado dentro do meu sonho
Sinto a inutilidade do nascer.
Minha origem componho e recomponho,
Venho do berço ao túmulo... viver
Um instante só, e após, ermo e tristonho,
Sob o ventre da terra apodrecer.
Homem — parcela humilde, humilde e obscura,
Que anda perdida e desapercebida
Buscando os vermes de uma sepultura —
O que foste? o que és? para onde vais?
Esta angústia maldita da tua vida
Foi a maldita angústia dos teus Pais!
No que fui, no que sou, no que hei de ser,
E alucinado dentro do meu sonho
Sinto a inutilidade do nascer.
Minha origem componho e recomponho,
Venho do berço ao túmulo... viver
Um instante só, e após, ermo e tristonho,
Sob o ventre da terra apodrecer.
Homem — parcela humilde, humilde e obscura,
Que anda perdida e desapercebida
Buscando os vermes de uma sepultura —
O que foste? o que és? para onde vais?
Esta angústia maldita da tua vida
Foi a maldita angústia dos teus Pais!
1 476
Lucídio Freitas
A meu Pai
Esqueço todo bem que, em minha estrada,
Prodigamente, como um Deus, semeio,
Fazendo meu o sofrimento alheio,
Amparando toda alma abandonada.
Quantas e quantas vezes tenho em meio
Da vida, dentro a noite erma e gelada,
Confortado a velhice desgraçada,
Na mornidão amiga do meu seio!
Para servir aos meus irmãos padeço
E dou-lhes a água e o pão, o teto e o leito
E o beijo que consola e que bendiz...
Mas todo bem que faço logo esqueço
Para guardar apenas no meu peito,
A saudade de um bem que eu nunca fiz...
Prodigamente, como um Deus, semeio,
Fazendo meu o sofrimento alheio,
Amparando toda alma abandonada.
Quantas e quantas vezes tenho em meio
Da vida, dentro a noite erma e gelada,
Confortado a velhice desgraçada,
Na mornidão amiga do meu seio!
Para servir aos meus irmãos padeço
E dou-lhes a água e o pão, o teto e o leito
E o beijo que consola e que bendiz...
Mas todo bem que faço logo esqueço
Para guardar apenas no meu peito,
A saudade de um bem que eu nunca fiz...
1 090
Gláucia Lemos
Soneto á Fala
ou
Rota do Sol
Cala-te e partirei. Muda e sem abraço.
E esta distância se fará completa.
Fechamos esta escala de embaraços,
me defino sem ti, na rota certa.
Mas, cala! Que tua voz é como um laço
que me ata o sangue e minha calma afeta.
Se falas, estremeço e me desfaço,
e quedo, penitente, manifesta.
Se falas, eu me arrisco ao precipício,
como fêmea arrastada, como um vício
que avassala em inteira embriaguez.
Se ainda me amas, me poupa o sacrifício
desta distância. Leva-me á difícil
rota do sol. Ou cala de uma vez!
12.07.96
Rota do Sol
Cala-te e partirei. Muda e sem abraço.
E esta distância se fará completa.
Fechamos esta escala de embaraços,
me defino sem ti, na rota certa.
Mas, cala! Que tua voz é como um laço
que me ata o sangue e minha calma afeta.
Se falas, estremeço e me desfaço,
e quedo, penitente, manifesta.
Se falas, eu me arrisco ao precipício,
como fêmea arrastada, como um vício
que avassala em inteira embriaguez.
Se ainda me amas, me poupa o sacrifício
desta distância. Leva-me á difícil
rota do sol. Ou cala de uma vez!
12.07.96
1 243
Gláucia Lemos
Reencontro
Foi com asas que veio. Mas com asas
da incerteza encravadas nos espinhos.
Qual pássaro qualquer por sobre casas,
pelos telhados, por desfeitos ninhos.
E pousou frente a mim. Eram lilases
- do tom dos tristes nos seus descaminhos -
suas asas de silêncio. Tantas frases
embrulhadas no medo dos sozinhos.
Foi assim como pássaro ferido
que me buscou. Eram - não sei - de vidro
ou eram de susto os olhos que mostrou .
Pousou uma vez mais no meu vestido.
Trouxe um gorjeio novo a meu ouvido.
Foi assim que o guardei. E ele ficou.
06.07.96
da incerteza encravadas nos espinhos.
Qual pássaro qualquer por sobre casas,
pelos telhados, por desfeitos ninhos.
E pousou frente a mim. Eram lilases
- do tom dos tristes nos seus descaminhos -
suas asas de silêncio. Tantas frases
embrulhadas no medo dos sozinhos.
Foi assim como pássaro ferido
que me buscou. Eram - não sei - de vidro
ou eram de susto os olhos que mostrou .
Pousou uma vez mais no meu vestido.
Trouxe um gorjeio novo a meu ouvido.
Foi assim que o guardei. E ele ficou.
06.07.96
1 207
Tarcísio Meira César
Miniteoria do poema
Farto da linguagem
de antes, que exercia,
despiu-se da imagem
que, oca, construía.
Artificial, externa,
mais morta que viva,
fê-la mais interna
árdua, convulsiva.
Com a dor morando
- tanto como o amor -
penas vai portando,
como o espaço a cor.
Sem medo da rima,
sem medo do verso,
mesmo que a obra-prima
saia pelo inverso.
Que o poema seja
novo, mas eterno
(sem a moda andeja),
nobre como o inverno.
de antes, que exercia,
despiu-se da imagem
que, oca, construía.
Artificial, externa,
mais morta que viva,
fê-la mais interna
árdua, convulsiva.
Com a dor morando
- tanto como o amor -
penas vai portando,
como o espaço a cor.
Sem medo da rima,
sem medo do verso,
mesmo que a obra-prima
saia pelo inverso.
Que o poema seja
novo, mas eterno
(sem a moda andeja),
nobre como o inverno.
991
Gláucia Lemos
Poema ao Amor Recém-Nascido
Vê, é crescente,
quarto de lua crescente.
No universo inteiro
tudo chegou ao tempo de crescer.
Deixa que cresça
deixa que amadureça
como o sol faz crescerem os trigais.
Deixa que nasça o pão
das espigas crescidas
e o alimente qual se nutre um corpo
na bandeja da emoção.
Deixa que cresça indomável.
Seja rebentação nos quebra-mares
das marés de enchente.
Faça-se grande qual só é grande a vida
invencível como só assim a morte.
Que seja um deus nos concedendo a graça
de escrevermos nós, nosso destino.
Deixa que cresça.
Que cresça e se mature
e multiplique qual no ventre térreo
planetário de sementes.
E depois, como chuva,
deixa que se esparrame
no universo
dos universos aonde possa ir,
maravilhado da própria grandeza.
Deixa que cresça e nos cubra.
E nos proteja como anjo-de-guarda
e nos leve pelas mãos
nas mãos da vida
que ele faz ressuscitar.
Deixa em silêncio,
deixa em canto suave,
deixa no toque de ternura nova,
deixa crescer em ti
que não deixaste
perder-se sem razão nossa verdade.
Vê. é crescente.
Quarto de lua crescente!
Doce criança, deixa-o crescer!
Em uma lua crescente de 1996.
quarto de lua crescente.
No universo inteiro
tudo chegou ao tempo de crescer.
Deixa que cresça
deixa que amadureça
como o sol faz crescerem os trigais.
Deixa que nasça o pão
das espigas crescidas
e o alimente qual se nutre um corpo
na bandeja da emoção.
Deixa que cresça indomável.
Seja rebentação nos quebra-mares
das marés de enchente.
Faça-se grande qual só é grande a vida
invencível como só assim a morte.
Que seja um deus nos concedendo a graça
de escrevermos nós, nosso destino.
Deixa que cresça.
Que cresça e se mature
e multiplique qual no ventre térreo
planetário de sementes.
E depois, como chuva,
deixa que se esparrame
no universo
dos universos aonde possa ir,
maravilhado da própria grandeza.
Deixa que cresça e nos cubra.
E nos proteja como anjo-de-guarda
e nos leve pelas mãos
nas mãos da vida
que ele faz ressuscitar.
Deixa em silêncio,
deixa em canto suave,
deixa no toque de ternura nova,
deixa crescer em ti
que não deixaste
perder-se sem razão nossa verdade.
Vê. é crescente.
Quarto de lua crescente!
Doce criança, deixa-o crescer!
Em uma lua crescente de 1996.
1 976
Gláucia Lemos
Soneto do Rio
(A um poeta)
Aonde me levam águas deste rio
com a insignificância de uma folha,
não sei como parar, não tenho escolha,
deslizo em seixos e húmus. Sol ou frio.
Ora numa vertigem rodopio
indo à flor da corrente. Ora à bolha
da água batendo em pedras. Ora me olha
a me encantar, o seu espelho esguio.
Perderam-se os meus pés por essas águas.
Minha sorte não sei. Mas sei que trago a
ansiedade de ainda prosseguir.
Por isso é que me advirto, vez em quando,
se é mesmo o rio que me está levando
ou se sou eu quem está querendo ir...
15.07.96
Aonde me levam águas deste rio
com a insignificância de uma folha,
não sei como parar, não tenho escolha,
deslizo em seixos e húmus. Sol ou frio.
Ora numa vertigem rodopio
indo à flor da corrente. Ora à bolha
da água batendo em pedras. Ora me olha
a me encantar, o seu espelho esguio.
Perderam-se os meus pés por essas águas.
Minha sorte não sei. Mas sei que trago a
ansiedade de ainda prosseguir.
Por isso é que me advirto, vez em quando,
se é mesmo o rio que me está levando
ou se sou eu quem está querendo ir...
15.07.96
1 246
Washington Queiroz
O Xamã e os Deuses
O xamã era um menino;
um menino que guardava
os deuses em um laço;
que criava estrelas,
que era jaguar e azul;
bebia fumaça
e a esparzia sobre a terra,
carinhosamente alisando-a.
Mas era bem velho o xamã:
o tempo - redomoinho de ancestrais -
vergava-o, fazendo-lhe rugas
e paciência,
para poder guardar
em seu laço os deuses
que, segundo ele me contara,
são todos meninos e meninas
como ele.
um menino que guardava
os deuses em um laço;
que criava estrelas,
que era jaguar e azul;
bebia fumaça
e a esparzia sobre a terra,
carinhosamente alisando-a.
Mas era bem velho o xamã:
o tempo - redomoinho de ancestrais -
vergava-o, fazendo-lhe rugas
e paciência,
para poder guardar
em seu laço os deuses
que, segundo ele me contara,
são todos meninos e meninas
como ele.
864
Gláucia Lemos
Predestinos
No dia em que tuas águas forem tantas
que, por domá-las, te farás escrava,
chamarás pelo rei que te esperava
como um troféu. E engrandeceu teu pranto.
No dia em que te vier o teu viajante
será pra te seguir na tua estrada.
Te banhará de luz na madrugada
e dormirá contigo como amante.
E no dia de partir o teu amado
Teus pés arrumarás bem a seu lado
com ele irás tecer cada manhã,
ou ele deixará a sua carruagem
e os dois - metades - se unirão na imagem
de um mesmo e doce fruto de maçã.
07.07.96
que, por domá-las, te farás escrava,
chamarás pelo rei que te esperava
como um troféu. E engrandeceu teu pranto.
No dia em que te vier o teu viajante
será pra te seguir na tua estrada.
Te banhará de luz na madrugada
e dormirá contigo como amante.
E no dia de partir o teu amado
Teus pés arrumarás bem a seu lado
com ele irás tecer cada manhã,
ou ele deixará a sua carruagem
e os dois - metades - se unirão na imagem
de um mesmo e doce fruto de maçã.
07.07.96
1 019
Maria Thereza Noronha
Pássaro
Assombrava-me o dia um pensamento.
Acuada, corri ao mais cômodo arbusto
e, à sua escassa sombra,
abriguei-me do dia.
Entanto, o negro pássaro do remorso
- insistente sombra noturna -
dissimulado em algum sutil remanso
aguardava o momento mais propício
para estender as asas friorentas
sobre meu sono de púrpura.
Acuada, corri ao mais cômodo arbusto
e, à sua escassa sombra,
abriguei-me do dia.
Entanto, o negro pássaro do remorso
- insistente sombra noturna -
dissimulado em algum sutil remanso
aguardava o momento mais propício
para estender as asas friorentas
sobre meu sono de púrpura.
899
Lúcio José Gusman
Ausência
Não estares
é como abrir uma ferida imensa
de onde salta
um mar vermelho de solidão.
É dissecar em mim
um tempo que não existe,
um tempo em que não sou,
no qual tu és, absoluta,
pela falta em que me queimas.
Não estares
é afogar-me em águas turvas
ardendo na sede,
insaciável,
que me consome.
Não estares
é como se não quisesses estar
mesmo querendo,
enquanto eu sorvo, ininterruptamente,
a agridoce essência
do teu ser onipresenteausente
é como abrir uma ferida imensa
de onde salta
um mar vermelho de solidão.
É dissecar em mim
um tempo que não existe,
um tempo em que não sou,
no qual tu és, absoluta,
pela falta em que me queimas.
Não estares
é afogar-me em águas turvas
ardendo na sede,
insaciável,
que me consome.
Não estares
é como se não quisesses estar
mesmo querendo,
enquanto eu sorvo, ininterruptamente,
a agridoce essência
do teu ser onipresenteausente
850
Tasso de Oliveira
Noturno
Notturno
tradução: Anton Angelo Chiocchio
Veleiro ao cais amarrado
em vago balouço, dorme?
Não dorme. Sonha, acordado,
que vai pelo mar enorme,
pelo mar ilimitado.
Se acaso me objetardes
que veleiro não é gente
e, assim, não sonha nem sente,
sem orgulhos nem alardes
eu direi: por que haveria
de falar-vos do homem triste
mas de olhar grave e profundo
que, à amargura acorrentado
sonha, no entanto, que vive
toda a beleza do mundo?
Melhor é dizer: Veleiro...
veleiro ao cais amarrado,
sob as límpidas estrelas.
Vela branca é uma alma trêmula,
sobretudo se cai sombra
do alto abismo constelado.
Veleiro, sim, que não dorme
mas na silente penumbra
sonha, ao balouço, acordado
que vai pelo mar enorme,
pelo mar ilimitado.
Quel veliero che, ancorato
giú nel porto, sembra assorto
a cullarsi, forse dorme?
No, non dorme. Sogna, desto,
di solcare il mare enorme,
sogna il mare illimitato.
Se obbiettaste che un veliero
non é un uomo, non é gente,
che non sogna, che non sente,
senza fingermi modesto,
vi direi: perché parlare
di questuorno cosi mesto,
dallo sguardo aspro e profondo,
che, ancorato all’amarezza,
tuttavia, ogni bellezza
sogna vivere del mondo?
Meglio dirvi del veliero
che a quel molo sta ancorato
sotto un vivo firmamento.
La sua vela trema: é un’anima,
soprattutto se ombre piovono ,
da quel baratro stellato.
Si, un veliero, che non dorme:
sogna ill mezzo allacqua e al vento,
mentre dondola svagato,
di solcare il mare enorme,
sogna il mare illimitato.
tradução: Anton Angelo Chiocchio
Veleiro ao cais amarrado
em vago balouço, dorme?
Não dorme. Sonha, acordado,
que vai pelo mar enorme,
pelo mar ilimitado.
Se acaso me objetardes
que veleiro não é gente
e, assim, não sonha nem sente,
sem orgulhos nem alardes
eu direi: por que haveria
de falar-vos do homem triste
mas de olhar grave e profundo
que, à amargura acorrentado
sonha, no entanto, que vive
toda a beleza do mundo?
Melhor é dizer: Veleiro...
veleiro ao cais amarrado,
sob as límpidas estrelas.
Vela branca é uma alma trêmula,
sobretudo se cai sombra
do alto abismo constelado.
Veleiro, sim, que não dorme
mas na silente penumbra
sonha, ao balouço, acordado
que vai pelo mar enorme,
pelo mar ilimitado.
Quel veliero che, ancorato
giú nel porto, sembra assorto
a cullarsi, forse dorme?
No, non dorme. Sogna, desto,
di solcare il mare enorme,
sogna il mare illimitato.
Se obbiettaste che un veliero
non é un uomo, non é gente,
che non sogna, che non sente,
senza fingermi modesto,
vi direi: perché parlare
di questuorno cosi mesto,
dallo sguardo aspro e profondo,
che, ancorato all’amarezza,
tuttavia, ogni bellezza
sogna vivere del mondo?
Meglio dirvi del veliero
che a quel molo sta ancorato
sotto un vivo firmamento.
La sua vela trema: é un’anima,
soprattutto se ombre piovono ,
da quel baratro stellato.
Si, un veliero, che non dorme:
sogna ill mezzo allacqua e al vento,
mentre dondola svagato,
di solcare il mare enorme,
sogna il mare illimitato.
940
Luis Germano Graal
Nesta Embarcação
Nesta embarcação, nesta caravela
Na qual ficou a voz que
Neste trampolim, nesta passarela
me roubaste
Nesta nave na qual tu não ficaste
Fiquei com tua voz em mim mais bela
Papai do céu
Por que me abandonaste?
Por que deixaste só um filho teu
Um anjo maluco, teu filho: eu
Sou um deus esquisito
Olhando pros lados
Sol e lua e mar
São fragmentos de mim
E sou
Todos quatro
Cantando
Papai, por que deixaste-me a cantar
Este psalmo
Eli, eli, papai
Lamma Sabactáni?
Na qual ficou a voz que
Neste trampolim, nesta passarela
me roubaste
Nesta nave na qual tu não ficaste
Fiquei com tua voz em mim mais bela
Papai do céu
Por que me abandonaste?
Por que deixaste só um filho teu
Um anjo maluco, teu filho: eu
Sou um deus esquisito
Olhando pros lados
Sol e lua e mar
São fragmentos de mim
E sou
Todos quatro
Cantando
Papai, por que deixaste-me a cantar
Este psalmo
Eli, eli, papai
Lamma Sabactáni?
791
Gláucia Lemos
Poema Para a Mulher de Malandro
Um segundo
ave assustada voando para longe.
Asas molhadas de vento
arrastando o peso
da surpresa e do susto.
Para longe
para bem longe do temporal.
Olhos enxutos respiram distância
coração de ave frágil
pequenino
pulsa pânico
irrompe do peito.
É preciso aguardar o retorno do sol.
O sol...
Luz infiltrando suave
da coroa dos montes.
A medo e a susto
o romper do vento a rota de retorno.
Não sou, não me torno
mas entendo
a mulher do malandro.
ave assustada voando para longe.
Asas molhadas de vento
arrastando o peso
da surpresa e do susto.
Para longe
para bem longe do temporal.
Olhos enxutos respiram distância
coração de ave frágil
pequenino
pulsa pânico
irrompe do peito.
É preciso aguardar o retorno do sol.
O sol...
Luz infiltrando suave
da coroa dos montes.
A medo e a susto
o romper do vento a rota de retorno.
Não sou, não me torno
mas entendo
a mulher do malandro.
1 538
Maria Thereza Noronha
Soneto ao Estilo Neo-clássico
Em verde indiferença me pressinto
em prados onde outrora fui rainha.
A grinalda de flores que me vinha
a cabeça adornar, já não a sinto.
Em pálidas areias me reclino
de ilhas onde aportei. Mas se advinha
do mar a voz em versos de marinha
e em conchas de segredo cristalino.
Pastora de lembranças, me sustenta
o hálito da brisa vespertina.
Na asa da borboleta, a face lenta
da larva onde dormiu, não se divisa.
Nem a enxurrada se percebe ainda
na lágrima tangida pela brisa.
em prados onde outrora fui rainha.
A grinalda de flores que me vinha
a cabeça adornar, já não a sinto.
Em pálidas areias me reclino
de ilhas onde aportei. Mas se advinha
do mar a voz em versos de marinha
e em conchas de segredo cristalino.
Pastora de lembranças, me sustenta
o hálito da brisa vespertina.
Na asa da borboleta, a face lenta
da larva onde dormiu, não se divisa.
Nem a enxurrada se percebe ainda
na lágrima tangida pela brisa.
1 001
Gláucia Lemos
Permanência
É assim que consigo ter-te perto
quando não estás. Apenas manuseio
o livro que deixaste, e então eu creio
sentir as tuas mãos junto a meus gestos.
Sinto que estás pra vir. No meu deserto
sempre deixas sinal. Terás receio
que me perca de ti?... No entanto é certo
que só estou a buscar-te enquanto leio...
Tens o teu jeito de guardar-me pronta
à tua espera: Uma lembrança apenas,
qualquer coisa em que possa me dar conta
da tua presença, enquanto te vais.
Assim te ficas em coisas pequenas
assim te tenho perto se não estás.
10.07.96
quando não estás. Apenas manuseio
o livro que deixaste, e então eu creio
sentir as tuas mãos junto a meus gestos.
Sinto que estás pra vir. No meu deserto
sempre deixas sinal. Terás receio
que me perca de ti?... No entanto é certo
que só estou a buscar-te enquanto leio...
Tens o teu jeito de guardar-me pronta
à tua espera: Uma lembrança apenas,
qualquer coisa em que possa me dar conta
da tua presença, enquanto te vais.
Assim te ficas em coisas pequenas
assim te tenho perto se não estás.
10.07.96
1 131
Lígia Diniz
Depois (de pensar em mim)
De tudo não fica nada
Nem sei se estou em mim
Me dou sem me ter, me entrego
Não sobra, não basta.
De tudo, o que era para ficar não fica
Me tiram de mim porque consinto
Também dos outros tiro
Me troco, nos trocamos.
E o que me resta sou eu,
um salão vazio tão cheio
sozinha em uma multidão.
E assim me vou, me deixando por aí
A cada dia menor e maior
A cada dia menos e mais eu.
Nem sei se estou em mim
Me dou sem me ter, me entrego
Não sobra, não basta.
De tudo, o que era para ficar não fica
Me tiram de mim porque consinto
Também dos outros tiro
Me troco, nos trocamos.
E o que me resta sou eu,
um salão vazio tão cheio
sozinha em uma multidão.
E assim me vou, me deixando por aí
A cada dia menor e maior
A cada dia menos e mais eu.
707
Lêdo Ivo
Soneto Presunçoso
Que forma luminosa me acompanha
quando, entre o lusco e o fusco, bebo a voz
do meu tempo perdido, e um rio banha
tudo o que caminhei da fonte à foz?
Dos homens desde o berço enfrento a sanha
que os difere da abelha e do albatroz.
Meu irmão, meu algoz! No perde-e-ganha
quem ganhou, quem perdeu, não fomos nós.
O mundo nada pesa. Atlas, sinto
a leveza dos astros nos meus ombros.
Minha alma desatenta é mais pesada.
Quer ganhe ou perca, sou verdade e minto.
Se pergunto, a resposta é dos assombros.
No sol a pino finjo a madrugada.
quando, entre o lusco e o fusco, bebo a voz
do meu tempo perdido, e um rio banha
tudo o que caminhei da fonte à foz?
Dos homens desde o berço enfrento a sanha
que os difere da abelha e do albatroz.
Meu irmão, meu algoz! No perde-e-ganha
quem ganhou, quem perdeu, não fomos nós.
O mundo nada pesa. Atlas, sinto
a leveza dos astros nos meus ombros.
Minha alma desatenta é mais pesada.
Quer ganhe ou perca, sou verdade e minto.
Se pergunto, a resposta é dos assombros.
No sol a pino finjo a madrugada.
1 549
Valéry Larbaud
Descuido
Mergulhei por descuido teus olhos
Em outros mares, em outros vinhos:
Perigosas paisagens, proibidas,
Que desfazem seus próprios caminhos.
Hoje, mais nada sabemos, loucos
E bêbados náufragos de um sonho.
Os nossos silêncios estão roucos
De tanto nos ferirmos. Choramos.
Que outros céus acolham nossos corpos.
Em outros mares, em outros vinhos:
Perigosas paisagens, proibidas,
Que desfazem seus próprios caminhos.
Hoje, mais nada sabemos, loucos
E bêbados náufragos de um sonho.
Os nossos silêncios estão roucos
De tanto nos ferirmos. Choramos.
Que outros céus acolham nossos corpos.
824
Lago Burnett
A Última Canção da Ilha
Trarei sempre verde
gaivotas e sal:
a lembrança não perde
a ilha inicial
Nem descuido as brisas
o mar de imundícies
(minhas pesquisas
bóiam às superfícies)
A obsessão do cerco
por ínvias águas
é o em que me perco
entre — agora — mágoas
Autêntico Atlântico
aleou-me todo
quanto de romântico
mergulhou-me em lodo
Oh! velas belas
ao ritmo transeunte
vosso, belas velas
que eu me unte
Trago-me à retina
de mastros e quilhas
cheia a sina
de todas as ilhas
Código pressago
de pássaro marítimo
na alma trago
canto e ritmo
Que é quanto me sobre
por ter-me feliz
ao sol que encobre
minha São Luís
Onde era só
com hábil engenho
quanto virou pó
tudo que não tenho
Idéias descalças
desfiando saias
longas como valsas
pelas praias
A primeira estância
ao céu abstrato
coisas como infância
ritmando com mato
Outros poucos casos
como águas insípidas
Nos olhos rasos
saudades liquidas
(Os Elementos do Mito / l953)
gaivotas e sal:
a lembrança não perde
a ilha inicial
Nem descuido as brisas
o mar de imundícies
(minhas pesquisas
bóiam às superfícies)
A obsessão do cerco
por ínvias águas
é o em que me perco
entre — agora — mágoas
Autêntico Atlântico
aleou-me todo
quanto de romântico
mergulhou-me em lodo
Oh! velas belas
ao ritmo transeunte
vosso, belas velas
que eu me unte
Trago-me à retina
de mastros e quilhas
cheia a sina
de todas as ilhas
Código pressago
de pássaro marítimo
na alma trago
canto e ritmo
Que é quanto me sobre
por ter-me feliz
ao sol que encobre
minha São Luís
Onde era só
com hábil engenho
quanto virou pó
tudo que não tenho
Idéias descalças
desfiando saias
longas como valsas
pelas praias
A primeira estância
ao céu abstrato
coisas como infância
ritmando com mato
Outros poucos casos
como águas insípidas
Nos olhos rasos
saudades liquidas
(Os Elementos do Mito / l953)
958
Lígia Diniz
Querer
Há certas coisas que não cabem em uma linha
Não cabem em uma estrofe
Não cabem em um poema,
em mil poemas.
Não cabem em uma idéia
Não cabem em uma alma,
em um corpo, em mil corpos
Há certas coisas que se chamam,
sem se chamar - não cabem em um nome -
Se chamam fogo.
Não cabem em uma estrofe
Não cabem em um poema,
em mil poemas.
Não cabem em uma idéia
Não cabem em uma alma,
em um corpo, em mil corpos
Há certas coisas que se chamam,
sem se chamar - não cabem em um nome -
Se chamam fogo.
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Lago Burnett
O copo dágua
O copo dágua. Insípido
entre o pássaro e a lâmpada.
Lúcido e líquido.
Listras de sol passeiam-lhe a superfície
sem excessos matinais de azul-desperto.
Luz flutuante, o mundo transparente,
o copo dágua resiste.
Sólida contextura, as
firmes paredes de vidro unânimes, eternas,
equilibram o milagre.
O copo dágua. insípido
na antenoite sonora. Simples,
lúcido e líquido.
(Os Elementos do Mito / l953)
entre o pássaro e a lâmpada.
Lúcido e líquido.
Listras de sol passeiam-lhe a superfície
sem excessos matinais de azul-desperto.
Luz flutuante, o mundo transparente,
o copo dágua resiste.
Sólida contextura, as
firmes paredes de vidro unânimes, eternas,
equilibram o milagre.
O copo dágua. insípido
na antenoite sonora. Simples,
lúcido e líquido.
(Os Elementos do Mito / l953)
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Lêdo Ivo
Os Peixes
Os peixes estão no lago, os dardos escondidos.
Entre as pedras e o lodo eles avançam
túrgidos como o amor.
Venha a mão do desejo turvar a água clara
e eles serão o amor, o sol que penetra em gretas
nupciais,
as espadas cobertas de saliva.
Entre as pedras e o lodo eles avançam
túrgidos como o amor.
Venha a mão do desejo turvar a água clara
e eles serão o amor, o sol que penetra em gretas
nupciais,
as espadas cobertas de saliva.
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Lígia Diniz
Meus Filhos
Fechei a porta
Finalmente o vento parou de bater
O monstro alado parou de lutar
Fechei a porta no último minuto
Nem precisei usar força
Talvez nem mesmo a tenha fechado
Ela se fechou sozinha
Como quando o vento muda de direção.
Saí para ver o céu
Finalmente a chuva parou de cair
As gotas grossas pararam de me machucar
Saí para ver o céu no último dia
Nem precisei esperar
Talvez nem mesmo tenha saído
O céu entrou em mim
Como quando fechamos os olhos e ainda vemos a luz.
Finalmente o vento parou de bater
O monstro alado parou de lutar
Fechei a porta no último minuto
Nem precisei usar força
Talvez nem mesmo a tenha fechado
Ela se fechou sozinha
Como quando o vento muda de direção.
Saí para ver o céu
Finalmente a chuva parou de cair
As gotas grossas pararam de me machucar
Saí para ver o céu no último dia
Nem precisei esperar
Talvez nem mesmo tenha saído
O céu entrou em mim
Como quando fechamos os olhos e ainda vemos a luz.
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