Poemas neste tema
Cidade e Cotidiano
Martim Soares
Joam Fernandéz, Que Mal Vos Talharom
Joam Fernandéz, que mal vos talharom
essa saia que tragedes aqui,
que nunca eu peior talhada vi;
e sequer muito vo-la escotarom:
ca lhi talharom cabo do girom;
muit'i é corta, si Deus me perdom,
porque lhi cabo do girom talharom.
E porque vos lhi talharom atanto
sô o girom, vo-la talharom mal,
Joam Fernández; ar direi-vos al:
pois que dela nom tragedes o manto,
saia tam curta nom convém a vós,
ca muitas vezes ficades em cós
e faz-vos peior talhado já quanto.
Nom vos vestides de saia, guisado,
pois que a corta queredes trager,
ante fazedes i vosso prazer;
ca na corta sodes vós mal talhado
e a longa estar-vos-ia bem;
e a mui corta, senher, nom convém
a vós, que sodes cortês e casado.
essa saia que tragedes aqui,
que nunca eu peior talhada vi;
e sequer muito vo-la escotarom:
ca lhi talharom cabo do girom;
muit'i é corta, si Deus me perdom,
porque lhi cabo do girom talharom.
E porque vos lhi talharom atanto
sô o girom, vo-la talharom mal,
Joam Fernández; ar direi-vos al:
pois que dela nom tragedes o manto,
saia tam curta nom convém a vós,
ca muitas vezes ficades em cós
e faz-vos peior talhado já quanto.
Nom vos vestides de saia, guisado,
pois que a corta queredes trager,
ante fazedes i vosso prazer;
ca na corta sodes vós mal talhado
e a longa estar-vos-ia bem;
e a mui corta, senher, nom convém
a vós, que sodes cortês e casado.
525
João Garcia de Guilhade
Dona Ouroana, Pois Já Besta Havedes
Dona Ouroana, pois já besta havedes,
outro conselh'ar havedes mester:
vós sodes mui fraquelinha molher
e já mais cavalgar nom podedes;
mais, cada que quiserdes cavalgar,
mandade sempr[e] a besta chegar
a um car[v]alho, de que cavalguedes.
E cada que vós andardes senlheira,
se vo'la besta mal enselada andar,
guardade-a de xi vos derramar,
ca, pela besta, sodes soldadeira,
e, par Deus, grave vos foi d'haver;
e punhade sempr'en'[a] guarecer,
ca em talho sodes de peideira.
E nom moredes muito [e]na rua,
este conselho filhade de mim,
ca perderedes log'i o rocim
e nom faredes i vossa prol nẽũa;
e mentr'houverdes a besta, de pram,
cada u fordes, todos vos farám
honra doutra puta fududancua.
E se ficardes em besta muar,
eu vos conselho sempr[e] a ficar
ant'em muacho novo ca em mua.
outro conselh'ar havedes mester:
vós sodes mui fraquelinha molher
e já mais cavalgar nom podedes;
mais, cada que quiserdes cavalgar,
mandade sempr[e] a besta chegar
a um car[v]alho, de que cavalguedes.
E cada que vós andardes senlheira,
se vo'la besta mal enselada andar,
guardade-a de xi vos derramar,
ca, pela besta, sodes soldadeira,
e, par Deus, grave vos foi d'haver;
e punhade sempr'en'[a] guarecer,
ca em talho sodes de peideira.
E nom moredes muito [e]na rua,
este conselho filhade de mim,
ca perderedes log'i o rocim
e nom faredes i vossa prol nẽũa;
e mentr'houverdes a besta, de pram,
cada u fordes, todos vos farám
honra doutra puta fududancua.
E se ficardes em besta muar,
eu vos conselho sempr[e] a ficar
ant'em muacho novo ca em mua.
773
João Garcia de Guilhade
Vi Eu Estar Noutro Dia
Vi eu estar noutro dia
infanções com um ric'home
posfaçando de quem mal come;
e dix'eu, que os ouvia:
"Cada casa, favas lavam!"
Posfaçavam d'um escasso,
[e] foi-os eu ascuitando;
eles forom posfaçando,
e dixi-m'eu, pass'em passo:
"Cada casa, favas lavam!"
Posfaçavam d'encolheito
e de vil e d'espantoso
e em sa terra lixoso;
e dix'eu entom dereito:
"Cada casa, favas lavam!"
infanções com um ric'home
posfaçando de quem mal come;
e dix'eu, que os ouvia:
"Cada casa, favas lavam!"
Posfaçavam d'um escasso,
[e] foi-os eu ascuitando;
eles forom posfaçando,
e dixi-m'eu, pass'em passo:
"Cada casa, favas lavam!"
Posfaçavam d'encolheito
e de vil e d'espantoso
e em sa terra lixoso;
e dix'eu entom dereito:
"Cada casa, favas lavam!"
425
João Baveca
Pero D'ambroa, Sodes Maiordomo
Pero d'Ambroa, sodes maiordomo
e trabalhar-s'-á de vos enganar
o albergueiro; mais d'escarmentar-
-lo havedes. E direi-vos eu como:
se vos mentir do que vosco poser,
seja de vós e de nós, como quer,
é brita[r]-lh'os narizes no momo.
E de nosso ................
[...]
E ..........................
[...]
E pois mercade lo al: logo cedo
vos amonstr'a roupa que vos dará;
e se pois virdes que vo-la nom dá,
ide sarrar la porta, vosso quedo,
e desses vossos narizes log'i
fiqu'o seu cuu quebrantad', assi
que já sempr'haja d'espanhoes medo.
e trabalhar-s'-á de vos enganar
o albergueiro; mais d'escarmentar-
-lo havedes. E direi-vos eu como:
se vos mentir do que vosco poser,
seja de vós e de nós, como quer,
é brita[r]-lh'os narizes no momo.
E de nosso ................
[...]
E ..........................
[...]
E pois mercade lo al: logo cedo
vos amonstr'a roupa que vos dará;
e se pois virdes que vo-la nom dá,
ide sarrar la porta, vosso quedo,
e desses vossos narizes log'i
fiqu'o seu cuu quebrantad', assi
que já sempr'haja d'espanhoes medo.
571
João Baveca
Um Escudeiro Vi Hoj'arrufado
Um escudeiro vi hoj'arrufado
por tomar penhor a Maior Garcia,
por dinheiros poucos que lhi devia;
e diss'ela, poilo viu denodado:
- Senher, vós nom mi afrontedes assi,
e será 'gora um judeu aqui,
com que barat', e dar-vos-ei recado
de vossos dinheiros de mui bom grado;
e tornad'aqui ao meio dia,
e entanto verrá da Judaria
aquel judeu com que hei baratado,
e um mouro, que há 'qui de chegar,
com que hei outrossi de baratar;
e, em como quer, farei-vos eu pagado.
E o mouro foi log'ali chegado,
e cuidou-s'ela que el pagaria
dívida velha que ela devia;
mais diss'o mouro: - Sol nom é pensado
que vós paguedes rem do meu haver,
meos d'eu carta sobre vós fazer,
ca um judeu havedes enganado.
E ela disse: - Fazede vós qual
carta quiserdes sobre mim, pois d'al
nom poss'haver aquel homem pagado.
E o mouro log'a carta notou
sobr'ela e sobre quanto lh'achou;
e pagou-a e leixou-lh'o tralado.
por tomar penhor a Maior Garcia,
por dinheiros poucos que lhi devia;
e diss'ela, poilo viu denodado:
- Senher, vós nom mi afrontedes assi,
e será 'gora um judeu aqui,
com que barat', e dar-vos-ei recado
de vossos dinheiros de mui bom grado;
e tornad'aqui ao meio dia,
e entanto verrá da Judaria
aquel judeu com que hei baratado,
e um mouro, que há 'qui de chegar,
com que hei outrossi de baratar;
e, em como quer, farei-vos eu pagado.
E o mouro foi log'ali chegado,
e cuidou-s'ela que el pagaria
dívida velha que ela devia;
mais diss'o mouro: - Sol nom é pensado
que vós paguedes rem do meu haver,
meos d'eu carta sobre vós fazer,
ca um judeu havedes enganado.
E ela disse: - Fazede vós qual
carta quiserdes sobre mim, pois d'al
nom poss'haver aquel homem pagado.
E o mouro log'a carta notou
sobr'ela e sobre quanto lh'achou;
e pagou-a e leixou-lh'o tralado.
464
Estêvão da Guarda
Disse-M'hoj'assi Um Home
Disse-m'hoj'assi um home:
- Vai-se daqui um ric'home.
Dix[i]-lh'eu: - Per com'el come,
pois que m'eu fiqu'em Lixboa!
Já que se vai o ric'home,
varom, vá-s'em hora boa.
E disse-m'el: - Per Leirea
se vai, caminho de Sea.
Dixi-lh'eu: - Per com'el cea,
pois eu fiqu'em Stremadura!
Se vai caminho de Sea
el, vá-s'em boa ventura.
Disse-m'el: - Este caminho
se vai d'Antre Doir'e Minho.
Dix'eu: - Pois bevo bom vinho
aqui, u com'e nom conto,
se vai Antre Doir'e Minho,
senher, vaa-s'em [bom] ponto.
- Vai-se daqui um ric'home.
Dix[i]-lh'eu: - Per com'el come,
pois que m'eu fiqu'em Lixboa!
Já que se vai o ric'home,
varom, vá-s'em hora boa.
E disse-m'el: - Per Leirea
se vai, caminho de Sea.
Dixi-lh'eu: - Per com'el cea,
pois eu fiqu'em Stremadura!
Se vai caminho de Sea
el, vá-s'em boa ventura.
Disse-m'el: - Este caminho
se vai d'Antre Doir'e Minho.
Dix'eu: - Pois bevo bom vinho
aqui, u com'e nom conto,
se vai Antre Doir'e Minho,
senher, vaa-s'em [bom] ponto.
662
D. Dinis
Joam Bolo Jouv'em Ua Pousada
Joam Bolo jouv'em ũa pousada
bem des ogano que da era passou,
com medo do meirinho, que lh'achou
ũa mua que tragia negada;
pero diz el que se lhi for mester
que provará ante qual juiz quer
que a trouxe sempre dês que foi nada.
Esta mũa pod'el provar por sua,
que a nom pod'home dele levar
pelo dereito, se a nom forçar,
ca moram bem cento naquela rua,
per que el poderá provar mui bem
que aquela mua, que ora tem,
que a teve sempre, mentre foi mua.
Nõn'a perderá se houver bom vogado,
pois el pode per enquisas põer
como lha virom criar e trager
em cas sa madr[e], u foi el criado;
e provará per maestre Reinel
que lha guardou bem dez meses daquel
cerro, ou bem doze, que trag'inchado.
bem des ogano que da era passou,
com medo do meirinho, que lh'achou
ũa mua que tragia negada;
pero diz el que se lhi for mester
que provará ante qual juiz quer
que a trouxe sempre dês que foi nada.
Esta mũa pod'el provar por sua,
que a nom pod'home dele levar
pelo dereito, se a nom forçar,
ca moram bem cento naquela rua,
per que el poderá provar mui bem
que aquela mua, que ora tem,
que a teve sempre, mentre foi mua.
Nõn'a perderá se houver bom vogado,
pois el pode per enquisas põer
como lha virom criar e trager
em cas sa madr[e], u foi el criado;
e provará per maestre Reinel
que lha guardou bem dez meses daquel
cerro, ou bem doze, que trag'inchado.
321
D. Dinis
U Noutro Dia Seve Dom Foam
U noutro dia seve Dom Foam
a mi começou gram noj'a crecer
de muitas cousas que lh'oí dizer.
Diss'el: "- Ir-m'-ei ca já se deitar ham".
E dix'eu: "- Bõa ventura hajades,
porque vos ides e me leixades".
E muit'enfadado de seu parlar
sevi gram peça, se mi valha Deus,
e tosquiavam estes olhos meus.
E quand'el disse "Ir-me quer'eu deitar",
[lh]e dix'eu: "- Bõa ventura hajades,
porque vos ides e me leixades".
El seve muit'e diss'e parfiou
e a mim creceu gram nojo por en
e nom soub'el se x'era mal se bem.
E quand'el disse "Já m'eu deitar vou",
dixi-lh'eu: "- Bõa ventura hajades,
porque vos ides e me leixades".
a mi começou gram noj'a crecer
de muitas cousas que lh'oí dizer.
Diss'el: "- Ir-m'-ei ca já se deitar ham".
E dix'eu: "- Bõa ventura hajades,
porque vos ides e me leixades".
E muit'enfadado de seu parlar
sevi gram peça, se mi valha Deus,
e tosquiavam estes olhos meus.
E quand'el disse "Ir-me quer'eu deitar",
[lh]e dix'eu: "- Bõa ventura hajades,
porque vos ides e me leixades".
El seve muit'e diss'e parfiou
e a mim creceu gram nojo por en
e nom soub'el se x'era mal se bem.
E quand'el disse "Já m'eu deitar vou",
dixi-lh'eu: "- Bõa ventura hajades,
porque vos ides e me leixades".
822
Airas Nunes
O Meu Senhor o Bispo, Na Redondela, Um Dia
O meu senhor o bispo, na Redondela, um dia,
de noit'e com gram medo, de desonra fogia;
eu, indo-mi aguisando por ir com el mia via,
achei ũa companha assaz brava e crua
que me decerom logo de cima da mia mua:
azêmela e cama levarom-na por sua.
E des que eu nacera nunca entrara em lide;
[e] pero que já fora cabo Valedolide
escovardoas muitas fezerom em Molide.
E ali me lançarom a mim a falcatrua;
a meus 'scudeiros [em] cage o Churruchão [assua]
e atá aos sergentes, ca som gente befua.
Ali me desbulharom do tabardo e dos panos
e nom houverom vergonha dos meus cabelos canos,
nem me derom por ende grã[a]s nem adianos:
leixarom-me qual fui nado no meio da rua;
e um rapaz tinhoso, que há de par em 'strua,
chamava-mi "minhana, velha fududancua!"
de noit'e com gram medo, de desonra fogia;
eu, indo-mi aguisando por ir com el mia via,
achei ũa companha assaz brava e crua
que me decerom logo de cima da mia mua:
azêmela e cama levarom-na por sua.
E des que eu nacera nunca entrara em lide;
[e] pero que já fora cabo Valedolide
escovardoas muitas fezerom em Molide.
E ali me lançarom a mim a falcatrua;
a meus 'scudeiros [em] cage o Churruchão [assua]
e atá aos sergentes, ca som gente befua.
Ali me desbulharom do tabardo e dos panos
e nom houverom vergonha dos meus cabelos canos,
nem me derom por ende grã[a]s nem adianos:
leixarom-me qual fui nado no meio da rua;
e um rapaz tinhoso, que há de par em 'strua,
chamava-mi "minhana, velha fududancua!"
675
Virgílio Martinho
Uma Canção de Amor
Na cidade a noite
Entre nós o peixe
Estamos sós, amor,
Somos um do outro,
É simples.
Quando nos conhecemos,
Chovia.
Era inverno no mar.
Havia dinheiro,
Fomos ao baile.
Uma luz tinha nome,
Não era Deus, não era,
Havia também uma cama
E os nossos corpos eram macios.
Viajámos vezes sem conta,
Porque somos pessoas humildes,
Com um segredo apenas:
Vermo-nos no dia seguinte.
Por isso,
Lemos nos intervalos dos gestos,
Aprendemos a tabuada dos sentidos,
Bebemos cerveja gelada,
Fazemos canções castas.
Somos puros, é verdade,
Tanto que ninguém nos quer,
E tão inocentes no dia a dia,
Que temos dívidas.
Devemos os olhos que temos,
Devemos o vermelho dos lábios,
Devemos todos os sonhos,
Devemos o pão e o sal.
Certo temos sinais diferentes,
Luas que não acertam com eles,
Por vezes chegamos a ser perversos,
Porque eles são redondos, nós esguios,
Amor.
Mas o beijo que nos une
É um silêncio justo, alegre,
E o amor que fazemos
É como o vento sobre o vento.
Entre nós o peixe
Estamos sós, amor,
Somos um do outro,
É simples.
Quando nos conhecemos,
Chovia.
Era inverno no mar.
Havia dinheiro,
Fomos ao baile.
Uma luz tinha nome,
Não era Deus, não era,
Havia também uma cama
E os nossos corpos eram macios.
Viajámos vezes sem conta,
Porque somos pessoas humildes,
Com um segredo apenas:
Vermo-nos no dia seguinte.
Por isso,
Lemos nos intervalos dos gestos,
Aprendemos a tabuada dos sentidos,
Bebemos cerveja gelada,
Fazemos canções castas.
Somos puros, é verdade,
Tanto que ninguém nos quer,
E tão inocentes no dia a dia,
Que temos dívidas.
Devemos os olhos que temos,
Devemos o vermelho dos lábios,
Devemos todos os sonhos,
Devemos o pão e o sal.
Certo temos sinais diferentes,
Luas que não acertam com eles,
Por vezes chegamos a ser perversos,
Porque eles são redondos, nós esguios,
Amor.
Mas o beijo que nos une
É um silêncio justo, alegre,
E o amor que fazemos
É como o vento sobre o vento.
916
Virgílio Martinho
A Luz Encarnada
A luz encarnada é o proibido
Na cidade povoada de fendas.
A luz encarnada é o pigmento
Dos rostos tintados de cólera.
A luz encarnada é a corrida Sade,
Explosão sem princípio nem fim.
A luz encarnada é o meu amor assim,
Visão que às vezes é peixe galo.
A luz encarnada é o sangue da cabra
Imolada no altar da capela papal.
A luz encarnada é o homem na cruz,
Sonho antigo para se morrer santo.
A luz encarnada é o devasso nu
Erecto no horizonte dos ventres.
A luz encarnada é a erva daninha
Que tudo envenena com seu hálito.
A luz encarnada é o gás letal
Na câmara escura da inocência.
A luz encarnada é a praga do sangue
Que bolça dos ouvidos da criança.
Veio ao mundo havia uma guerra grega,
Havia também um olho cor de âmbar,
Farol da máquina macho de Jarry.
Só não havia o meu amor assim.
Na cidade povoada de fendas.
A luz encarnada é o pigmento
Dos rostos tintados de cólera.
A luz encarnada é a corrida Sade,
Explosão sem princípio nem fim.
A luz encarnada é o meu amor assim,
Visão que às vezes é peixe galo.
A luz encarnada é o sangue da cabra
Imolada no altar da capela papal.
A luz encarnada é o homem na cruz,
Sonho antigo para se morrer santo.
A luz encarnada é o devasso nu
Erecto no horizonte dos ventres.
A luz encarnada é a erva daninha
Que tudo envenena com seu hálito.
A luz encarnada é o gás letal
Na câmara escura da inocência.
A luz encarnada é a praga do sangue
Que bolça dos ouvidos da criança.
Veio ao mundo havia uma guerra grega,
Havia também um olho cor de âmbar,
Farol da máquina macho de Jarry.
Só não havia o meu amor assim.
1 065
Virgílio Martinho
Já Sei o Que Se Passa No Mundo
Já sei o que se passa no mundo.
Ouvi a música da vitória,
vi a multidão hiante a correr,
os rostos como narizes compridos.
Ouvi as vozes da vitória,
mastigavam como vulcões, mordiam.
Eram todos bonitos, ganharam.
Tinham as caras dos pais, ganiam.
Vieram do campeonato, tinham alma,
eram jovens, comiam, como comiam!
Tisnados da praia, olhos pardos, barba,
tudo que faz parte da agonia.
Têm rabo, picha grande, acne,
são o futuro, conhecem dinheiro,
mas ganharam, alpista para eles,
vitória para nós, parecem bigodes.
Têm razão, são as vozes, os voos
do mundo, são os corredores da morte,
os rapazes do grande balão,
os amortecedores do colchão.
Ouvi a música da vitória,
vi a multidão hiante a correr,
os rostos como narizes compridos.
Ouvi as vozes da vitória,
mastigavam como vulcões, mordiam.
Eram todos bonitos, ganharam.
Tinham as caras dos pais, ganiam.
Vieram do campeonato, tinham alma,
eram jovens, comiam, como comiam!
Tisnados da praia, olhos pardos, barba,
tudo que faz parte da agonia.
Têm rabo, picha grande, acne,
são o futuro, conhecem dinheiro,
mas ganharam, alpista para eles,
vitória para nós, parecem bigodes.
Têm razão, são as vozes, os voos
do mundo, são os corredores da morte,
os rapazes do grande balão,
os amortecedores do colchão.
1 013
Álvaro Guerra
antimemória
Viemos do mundo para o mundo
do nosso lugar para o lugar
e perdemos a memória de onde viemos
só o ar que respiramos nos não custa o esforço visível
dor mínima
dor habituada
em tecidos que se usam e se rompem
o resto é nunca nos inscrevermos
senão com violência
entre as acumuladas pedras da cidade
(ou) sobre o caprichoso húmus
inventando o esquecimento
e perseguindo a inventada liberdade
do infinito sempre interrogando
um regresso
uma despedida
suamos a passagem
soamos a rangente esperança
somos amos desta soma de anos não somados
consolamentum excomungado
redenção crucificada
sabemos que acabar lutando é começar
e da beleza é tudo o que sabemos
do nosso lugar para o lugar
e perdemos a memória de onde viemos
só o ar que respiramos nos não custa o esforço visível
dor mínima
dor habituada
em tecidos que se usam e se rompem
o resto é nunca nos inscrevermos
senão com violência
entre as acumuladas pedras da cidade
(ou) sobre o caprichoso húmus
inventando o esquecimento
e perseguindo a inventada liberdade
do infinito sempre interrogando
um regresso
uma despedida
suamos a passagem
soamos a rangente esperança
somos amos desta soma de anos não somados
consolamentum excomungado
redenção crucificada
sabemos que acabar lutando é começar
e da beleza é tudo o que sabemos
1 063
Mário-Henrique Leiria
OPERAÇÃO CIRÚRGICA
a re-compensa da perna da reta-guarda
o zumbido do mosquito re-organizado para o surdo-mudo
a manobra suspeita da afinação do oboé
o gesto mais gnânimo de atravessar a ponte suspensa entre o pé e a vírgula
a gangrena sedentária da frase quotidiana
a proposta súbita sobre o preço da pescada
a pátria pautada e apresentada à cobrança
a quebra que dura até ao estalar da vértebra
a agonia radical de coçar a úlcera na doçaria da esquina
a mobilidade persistente do rodízio made-in-england
o direito cívico de usar abundantemente os urinóis
a boca sorridente como um vestígio de cicatriz de navalha
o tampão inesperado…
o zumbido do mosquito re-organizado para o surdo-mudo
a manobra suspeita da afinação do oboé
o gesto mais gnânimo de atravessar a ponte suspensa entre o pé e a vírgula
a gangrena sedentária da frase quotidiana
a proposta súbita sobre o preço da pescada
a pátria pautada e apresentada à cobrança
a quebra que dura até ao estalar da vértebra
a agonia radical de coçar a úlcera na doçaria da esquina
a mobilidade persistente do rodízio made-in-england
o direito cívico de usar abundantemente os urinóis
a boca sorridente como um vestígio de cicatriz de navalha
o tampão inesperado…
501
Mário-Henrique Leiria
WILHELM REICH
Passando como a faca profissional
cortante e exacta
através da porta da noite rigorosa
riscando a pedra clara
com a última fúria armada de granada
solitário como a árvore
na véspera do funeral familiar
dirigindo a máquina
de esfolar fascismos ditos socialistas
organizados em comités de salvação
fazendo a ligação feroz
entre a disciplina proletária
do sexo atento
e a rapidez agressiva de viver
por sim
acabaste extremamente lúcido
no fracasso de inventar
a liberdade certa.
cortante e exacta
através da porta da noite rigorosa
riscando a pedra clara
com a última fúria armada de granada
solitário como a árvore
na véspera do funeral familiar
dirigindo a máquina
de esfolar fascismos ditos socialistas
organizados em comités de salvação
fazendo a ligação feroz
entre a disciplina proletária
do sexo atento
e a rapidez agressiva de viver
por sim
acabaste extremamente lúcido
no fracasso de inventar
a liberdade certa.
631
Mário-Henrique Leiria
canção do mundo novo
Entre eternos dias de poeira
entre noites imensas de ferrugem
bebendo a cinza que nos dão por vida
cuspindo nevoeiros de silêncio
de mãos amarradas pelo medo
e bocas sufocadas pela sombra
com os pés viscosamente presos
num solo de pântano e repulsa
olhos perdidos e sem luz
reflectindo apenas um remoto horizonte
a desfazer-se em treva
assim vamos quotidianamente
mastigando sem força a própria cobardia
afagando a vergonha podre em que vivemos
entre uma longa interminável
estrada de baionetas
na obediência inútil e servil
a uma voz sem rosto e sem presença
cumprindo surdas ordens de ódio e mentira
marchando sem razão e sem destino
assim vamos quotidianamente
entre noites imensas de ferrugem
bebendo a cinza que nos dão por vida
cuspindo nevoeiros de silêncio
de mãos amarradas pelo medo
e bocas sufocadas pela sombra
com os pés viscosamente presos
num solo de pântano e repulsa
olhos perdidos e sem luz
reflectindo apenas um remoto horizonte
a desfazer-se em treva
assim vamos quotidianamente
mastigando sem força a própria cobardia
afagando a vergonha podre em que vivemos
entre uma longa interminável
estrada de baionetas
na obediência inútil e servil
a uma voz sem rosto e sem presença
cumprindo surdas ordens de ódio e mentira
marchando sem razão e sem destino
assim vamos quotidianamente
545
Mário-Henrique Leiria
facto diverso
Discretamente fui ontem almoçar
ao lado do meu túmulo
levei para o acto um ramo de papoilas
que guardava em casa há cerca de oito anos
para qualquer momento circunstancial
(sempre me considerei digno e respeitador
dos insultantes bons costumes)
Lá estava gravado na pedra de Estremoz
EUROPA – MAIS UM DIA
era certo e fora um trabalho bem eficiente
em elzevir escolhido e sem defeito
Sentei-me sempre tive esse costume
e fiquei a olhar inquisitivo para a Europa
donde nunca consegui sair
mesmo quando pareço estar remotamente longe
fiquei a olhar para São Paulo
fantasma abúlico mal traduzido do americano
que se apaga triste e sem figura
com a presença real e muito nítida
de Londres de Paris de Moscovo
de Lisboa menina sorridente e milenária
(…)
ao lado do meu túmulo
levei para o acto um ramo de papoilas
que guardava em casa há cerca de oito anos
para qualquer momento circunstancial
(sempre me considerei digno e respeitador
dos insultantes bons costumes)
Lá estava gravado na pedra de Estremoz
EUROPA – MAIS UM DIA
era certo e fora um trabalho bem eficiente
em elzevir escolhido e sem defeito
Sentei-me sempre tive esse costume
e fiquei a olhar inquisitivo para a Europa
donde nunca consegui sair
mesmo quando pareço estar remotamente longe
fiquei a olhar para São Paulo
fantasma abúlico mal traduzido do americano
que se apaga triste e sem figura
com a presença real e muito nítida
de Londres de Paris de Moscovo
de Lisboa menina sorridente e milenária
(…)
697
Wanda Ramos
E correram os rios
Correram como rios as palavras
altas e soltas correram os rios na gente
rios de lava Lisboa inflamada acorrendo fremente
nos dias eu se abriram vinda das faldas vertida
dos dormitórios da cintura fumegante e mecanizada
Lisboa livre acorreu
enxameadas as veias avenida da liberdade
rossio terreiro do paço Belém
– e além na outra banda absurdo o cristo:
braços em cruz impotente –
e correndo os rios cada vez mais latos
até o súbito despedaçar-se da seda contra a amurada
afundadas as olheiras da vigília entornadas
as falas em busca do nexo – e achámos esta sorte
o sangue agitado o tempo:
uníssono o nosso grito
escancarado em cada rua
em passo de estar alerta
uníssono ressoou porém mais fundo.
E assim nos pergunto que águas nos lavaram tão de dentro
e levaram alamedas da liberdade acima
que rios tão feitos de luta e punhos? alegria?
altas e soltas correram os rios na gente
rios de lava Lisboa inflamada acorrendo fremente
nos dias eu se abriram vinda das faldas vertida
dos dormitórios da cintura fumegante e mecanizada
Lisboa livre acorreu
enxameadas as veias avenida da liberdade
rossio terreiro do paço Belém
– e além na outra banda absurdo o cristo:
braços em cruz impotente –
e correndo os rios cada vez mais latos
até o súbito despedaçar-se da seda contra a amurada
afundadas as olheiras da vigília entornadas
as falas em busca do nexo – e achámos esta sorte
o sangue agitado o tempo:
uníssono o nosso grito
escancarado em cada rua
em passo de estar alerta
uníssono ressoou porém mais fundo.
E assim nos pergunto que águas nos lavaram tão de dentro
e levaram alamedas da liberdade acima
que rios tão feitos de luta e punhos? alegria?
642
Francesca Angiolillo
No campo
O vermelho é a cor das coisas feitas
pelo homem:
o caminhão
o balde
o carrinho
de mão
o vermelho é a cor que cor
ta
o campo.
Uma vez pegamos o carro
e fomos ver
o campo
de maçãs.
O carro era cinza
o campo era plano,
de quando em quando havia
uma construção no meio
do nada todo igual
a ele mesmo.
O bebê dormia
nós não vimos nada
vermelho
mesmo se as maçãs
estavam lá
em algum lugar.
De quando em quando havia
um trator
amarelo.
pelo homem:
o caminhão
o balde
o carrinho
de mão
o vermelho é a cor que cor
ta
o campo.
Uma vez pegamos o carro
e fomos ver
o campo
de maçãs.
O carro era cinza
o campo era plano,
de quando em quando havia
uma construção no meio
do nada todo igual
a ele mesmo.
O bebê dormia
nós não vimos nada
vermelho
mesmo se as maçãs
estavam lá
em algum lugar.
De quando em quando havia
um trator
amarelo.
705
Francesca Angiolillo
Parêntesis
(um beijo roubado em uma
esquina e um
no balcão
de um bar os beijos
prolongando-se na esquina
–e foram cem e mil e outros cem
e um mais a apagar
toda dúvida não há dúvida
que resista a essa chuva
dúvidas nunca
nunca se cristalizam
há só certezas
nessa pausa nossas falsas
certezas cristalinas
roubando-me de mim,
roubando-me na esquina,
abrindo esta página;
este silêncio
branco
perturbado por negros
pontos
de interrogação
Aonde foi o odor de roupa
limpa, fumaça e perfume?
Aonde nossos nomes,
hieróglifos, inscrições
pichações? nessa esquina
eterna as letras
se reordenam as letras são
falas iniciais numa cama
molhada
neste mundo.
Como fechar a gaveta
deste parêntese?
Há só um
meio, e é assim:
)
Um parêntese que não se fecha
é uma ferida aberta
sempre, sempre
algo como
escrevo
em todo lume seu nome
algo como
sem você
minhas mãos estão vazias
(um perfil enviado desde longe:
um parêntese ainda por fechar.)
esquina e um
no balcão
de um bar os beijos
prolongando-se na esquina
–e foram cem e mil e outros cem
e um mais a apagar
toda dúvida não há dúvida
que resista a essa chuva
dúvidas nunca
nunca se cristalizam
há só certezas
nessa pausa nossas falsas
certezas cristalinas
roubando-me de mim,
roubando-me na esquina,
abrindo esta página;
este silêncio
branco
perturbado por negros
pontos
de interrogação
Aonde foi o odor de roupa
limpa, fumaça e perfume?
Aonde nossos nomes,
hieróglifos, inscrições
pichações? nessa esquina
eterna as letras
se reordenam as letras são
falas iniciais numa cama
molhada
neste mundo.
Como fechar a gaveta
deste parêntese?
Há só um
meio, e é assim:
)
Um parêntese que não se fecha
é uma ferida aberta
sempre, sempre
algo como
escrevo
em todo lume seu nome
algo como
sem você
minhas mãos estão vazias
(um perfil enviado desde longe:
um parêntese ainda por fechar.)
583
Renato Rezende
[Re-Nato]
O poder da respiração—entrando e saindo do corpo
e tive a sensação de que um nó havia se desatado
em algum ponto profundo do meu corpo
Depois de completamente esvaziado, sinto-me pouco a pouco
sendo preenchido, desde os pés.
(Às vezes me sinto sem pé, submerso).
Saia para uma caminhada pelo bairro
(Como entendo essa língua em que me falam?)
Observe bem
As casas dos homens, as ruas da cidade:
Esta é tua casa.
O teu espaço, o teu
É a medida do teu braço.
A tua boca come,
O teu intestino digere,
Agora você é um homem.
Ah, a dádiva de ser uma pessoa normal entre outras.
Deus veio tocar Rachmaninoff
e tocou pior que Rachmaninoff
(era eu)
A perfeição não é fazer tudo perfeito
Tudo acontece para o melhor
Eu era uma menina de 7 anos quando fui estuprada e jogada num poço. Agonizei durante 3 dias e 3 noites antes de morrer. É por isso que vivo meio morto.
Esse ato de violência inaugurou nova vida,
o caminho de volta.
Hoje amo o assassino sinceramente.
Quando o mundo acaba, a casa se ilumina.
O amor está na respiração profunda.
Acabei de voltar do supermercado. Comprei
um maço de coentro e um de basílico. A mão
direita ficou cheirando a coentro, e a
esquerda a basílico. Ambos tão vegetais e tão
diferentes. E como nos é difícil descrevê-los!
Uma vida humana é muita coisa—é uma eternidade.
Não há porque sentir vergonha ou culpa, tudo que desabrocha é a própria alegria, é a própria limpeza.
No instante sereno
Em que todas as derrotas se tornam vitórias
A vida humana é longa
Se cada instante é doce
aqui tem um poço novo
poço dos desejos
lanço uma moeda de ouro
nesse poço
(viver cada momento como se rememorasse
em seu leito de doente, diante da morte)
eu fui Flora
eu fui Carlos
eu fui Jonas e Sebastião e Caius
e Raimundo e Stefania
(que importância um nome tem?)
Sou todo mundo,
agora você sou eu
(Uma mente sem fantasias):
Abra-te Coração.
e tive a sensação de que um nó havia se desatado
em algum ponto profundo do meu corpo
Depois de completamente esvaziado, sinto-me pouco a pouco
sendo preenchido, desde os pés.
(Às vezes me sinto sem pé, submerso).
Saia para uma caminhada pelo bairro
(Como entendo essa língua em que me falam?)
Observe bem
As casas dos homens, as ruas da cidade:
Esta é tua casa.
O teu espaço, o teu
É a medida do teu braço.
A tua boca come,
O teu intestino digere,
Agora você é um homem.
Ah, a dádiva de ser uma pessoa normal entre outras.
Deus veio tocar Rachmaninoff
e tocou pior que Rachmaninoff
(era eu)
A perfeição não é fazer tudo perfeito
Tudo acontece para o melhor
Eu era uma menina de 7 anos quando fui estuprada e jogada num poço. Agonizei durante 3 dias e 3 noites antes de morrer. É por isso que vivo meio morto.
Esse ato de violência inaugurou nova vida,
o caminho de volta.
Hoje amo o assassino sinceramente.
Quando o mundo acaba, a casa se ilumina.
O amor está na respiração profunda.
Acabei de voltar do supermercado. Comprei
um maço de coentro e um de basílico. A mão
direita ficou cheirando a coentro, e a
esquerda a basílico. Ambos tão vegetais e tão
diferentes. E como nos é difícil descrevê-los!
Uma vida humana é muita coisa—é uma eternidade.
Não há porque sentir vergonha ou culpa, tudo que desabrocha é a própria alegria, é a própria limpeza.
No instante sereno
Em que todas as derrotas se tornam vitórias
A vida humana é longa
Se cada instante é doce
aqui tem um poço novo
poço dos desejos
lanço uma moeda de ouro
nesse poço
(viver cada momento como se rememorasse
em seu leito de doente, diante da morte)
eu fui Flora
eu fui Carlos
eu fui Jonas e Sebastião e Caius
e Raimundo e Stefania
(que importância um nome tem?)
Sou todo mundo,
agora você sou eu
(Uma mente sem fantasias):
Abra-te Coração.
995
Sérgio Medeiros
O caminho
– em cima da mureta
que separa as pistas
da estrada uma bota
envelhece aparentemente
imune aos ventos que
balançam tudo
que separa as pistas
da estrada uma bota
envelhece aparentemente
imune aos ventos que
balançam tudo
635
Renato Rezende
[O Outro]
Se todas as pessoas que estão nesses prédios descessem à rua agora seria uma grande confusão, as ruas ficariam entupidas de gente veríamos quantos somos, olharíamos um a um nos olhos
Muitas dessas pessoas devem sentir o que eu sinto esse sentimento de inadequação, esse não-pertencimento
(talvez, todos juntos, num grande abraço da cidade inteira, no meio da rota do planeta pelo universo, num momento diante do sol, nos ajudaria)
Uma amiga diz que é a vista embaçada, não ver
o seio...
Eu não sou escritor. Não sou poeta. Não sou artista. O artista é aquele que se utiliza da linguagem para criar mensagens, conteúdos, novos significados. Eu sou uma pessoa que se utiliza desesperadamente da linguagem para criar-me a mim mesmo, para outorgar conteúdo e significado a mim mesmo. Quando e se alcançar meu objetivo, não precisarei mais escrever. Não sou um poeta, não sou um escritor, não, não sou um artista.
E às vezes viver é um mar de doçura.
Vontade de vadiar o dia todo
Eu sempre quis que uma mulher se apaixonasse por mim
(mulher)
Eu sou alguém que não sabe quem é e tenta se inventar com palavras, fora esse esforço, sou mudo—isso é ser poeta?
Sou um homem quebrado.
Talvez de alguma forma mais humano
Que todos os outros homens, funcionando.
Eu não sou teu inimigo
Sou apenas outro.
Uma voz tentando dizer alguma coisa.
Na escuridão—ou na luz
Tão ofuscante que cega—na escuridão.
Alguém tentando nascer.
Talvez uma menina.
Talvez um menino. Algo de bom
Algo de gentil. Talvez uma flor...
Para ser cuidada. Poderia ser sua filha
Poderia ser
Seu maior sonho de amor.
A poesia serve para desmascarar.
Muitas dessas pessoas devem sentir o que eu sinto esse sentimento de inadequação, esse não-pertencimento
(talvez, todos juntos, num grande abraço da cidade inteira, no meio da rota do planeta pelo universo, num momento diante do sol, nos ajudaria)
Uma amiga diz que é a vista embaçada, não ver
o seio...
Eu não sou escritor. Não sou poeta. Não sou artista. O artista é aquele que se utiliza da linguagem para criar mensagens, conteúdos, novos significados. Eu sou uma pessoa que se utiliza desesperadamente da linguagem para criar-me a mim mesmo, para outorgar conteúdo e significado a mim mesmo. Quando e se alcançar meu objetivo, não precisarei mais escrever. Não sou um poeta, não sou um escritor, não, não sou um artista.
E às vezes viver é um mar de doçura.
Vontade de vadiar o dia todo
Eu sempre quis que uma mulher se apaixonasse por mim
(mulher)
Eu sou alguém que não sabe quem é e tenta se inventar com palavras, fora esse esforço, sou mudo—isso é ser poeta?
Sou um homem quebrado.
Talvez de alguma forma mais humano
Que todos os outros homens, funcionando.
Eu não sou teu inimigo
Sou apenas outro.
Uma voz tentando dizer alguma coisa.
Na escuridão—ou na luz
Tão ofuscante que cega—na escuridão.
Alguém tentando nascer.
Talvez uma menina.
Talvez um menino. Algo de bom
Algo de gentil. Talvez uma flor...
Para ser cuidada. Poderia ser sua filha
Poderia ser
Seu maior sonho de amor.
A poesia serve para desmascarar.
970
Francesca Angiolillo
Na avenida
Como é triste a vida na cidade
a mãe empurra o carrinho na galeria
a criança sonolenta com a cara suja
de sorvete como é boa
a vida na cidade quando
se sai na avenida
e um homem dança
sacudindo todo o corpo ao som
da banda que acelera
todos os hits
que alegria
é sair na avenida e saber
que nela não encontro
mais você nem um eco
emana da esquina cheia
de papéis e folhas e cadeiras acanhadas
Ah que bela é a vida quando
a gente se esquece
e nem lembra
de que pensando na vida
assim
distraída
pode vir um carro e
bam.
a mãe empurra o carrinho na galeria
a criança sonolenta com a cara suja
de sorvete como é boa
a vida na cidade quando
se sai na avenida
e um homem dança
sacudindo todo o corpo ao som
da banda que acelera
todos os hits
que alegria
é sair na avenida e saber
que nela não encontro
mais você nem um eco
emana da esquina cheia
de papéis e folhas e cadeiras acanhadas
Ah que bela é a vida quando
a gente se esquece
e nem lembra
de que pensando na vida
assim
distraída
pode vir um carro e
bam.
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