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Poemas neste tema

Cidade e Cotidiano

Renato Rezende

Renato Rezende

[Re-Nato]

O poder da respiração—entrando e saindo do corpo

e tive a sensação de que um nó havia se desatado
em algum ponto profundo do meu corpo

Depois de completamente esvaziado, sinto-me pouco a pouco
sendo preenchido, desde os pés.

(Às vezes me sinto sem pé, submerso).

Saia para uma caminhada pelo bairro

(Como entendo essa língua em que me falam?)

Observe bem
As casas dos homens, as ruas da cidade:
Esta é tua casa.
O teu espaço, o teu
É a medida do teu braço.
A tua boca come,
O teu intestino digere,
Agora você é um homem.

Ah, a dádiva de ser uma pessoa normal entre outras.

Deus veio tocar Rachmaninoff

e tocou pior que Rachmaninoff

(era eu)

A perfeição não é fazer tudo perfeito

Tudo acontece para o melhor

Eu era uma menina de 7 anos quando fui estuprada e jogada num poço. Agonizei durante 3 dias e 3 noites antes de morrer. É por isso que vivo meio morto.

Esse ato de violência inaugurou nova vida,

o caminho de volta.

Hoje amo o assassino sinceramente.

Quando o mundo acaba, a casa se ilumina.

O amor está na respiração profunda.

Acabei de voltar do supermercado. Comprei
um maço de coentro e um de basílico. A mão
direita ficou cheirando a coentro, e a
esquerda a basílico. Ambos tão vegetais e tão
diferentes. E como nos é difícil descrevê-los!

Uma vida humana é muita coisa—é uma eternidade.

Não há porque sentir vergonha ou culpa, tudo que desabrocha é a própria alegria, é a própria limpeza.

No instante sereno
Em que todas as derrotas se tornam vitórias

A vida humana é longa
Se cada instante é doce

aqui tem um poço novo
poço dos desejos
lanço uma moeda de ouro
nesse poço

(viver cada momento como se rememorasse
em seu leito de doente, diante da morte)
eu fui Flora
eu fui Carlos
eu fui Jonas e Sebastião e Caius
e Raimundo e Stefania

(que importância um nome tem?)

Sou todo mundo,
agora você sou eu

(Uma mente sem fantasias):

Abra-te Coração.
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Renato Rezende

Renato Rezende

[O Outro]

Se todas as pessoas que estão nesses prédios descessem à rua agora seria uma grande confusão, as ruas ficariam entupidas de gente veríamos quantos somos, olharíamos um a um nos olhos

Muitas dessas pessoas devem sentir o que eu sinto esse sentimento de inadequação, esse não-pertencimento

(talvez, todos juntos, num grande abraço da cidade inteira, no meio da rota do planeta pelo universo, num momento diante do sol, nos ajudaria)

Uma amiga diz que é a vista embaçada, não ver

o seio...

Eu não sou escritor. Não sou poeta. Não sou artista. O artista é aquele que se utiliza da linguagem para criar mensagens, conteúdos, novos significados. Eu sou uma pessoa que se utiliza desesperadamente da linguagem para criar-me a mim mesmo, para outorgar conteúdo e significado a mim mesmo. Quando e se alcançar meu objetivo, não precisarei mais escrever. Não sou um poeta, não sou um escritor, não, não sou um artista.

E às vezes viver é um mar de doçura.

Vontade de vadiar o dia todo

Eu sempre quis que uma mulher se apaixonasse por mim

(mulher)

Eu sou alguém que não sabe quem é e tenta se inventar com palavras, fora esse esforço, sou mudo—isso é ser poeta?

Sou um homem quebrado.
Talvez de alguma forma mais humano
Que todos os outros homens, funcionando.

Eu não sou teu inimigo
Sou apenas outro.

Uma voz tentando dizer alguma coisa.

Na escuridão—ou na luz
Tão ofuscante que cega—na escuridão.

Alguém tentando nascer.
Talvez uma menina.

Talvez um menino. Algo de bom
Algo de gentil. Talvez uma flor...

Para ser cuidada. Poderia ser sua filha
Poderia ser
Seu maior sonho de amor.

A poesia serve para desmascarar.
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