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Poemas neste tema

Consciência e autoconhecimento

Renato Rezende

Renato Rezende

[Ensaios]

Saberei renascer em vida?

De vez em quando paro de escrever, com vontade de morrer.

Várias vezes ao dia me deito na cama e durmo um pouco.

Ensaios.

Vou perder o medo de ficar louco.

Começar a ser o que eu sou.

Quanto a mim, continuo com essa idéia de que não tenho (nem quero ter) outra alternativa além de ser exatamente o que eu sou. Isto

Será um fracasso absoluto; mas não importa, essa é minha vida.

Eu nunca fui eu; eu sempre fui essa força dentro de mim.

Eu poderia ser facilmente qualquer pessoa.

Por acaso eu sou eu.

Eu:

Quando um prato quebra, eu digo, um prato a menos.
E sinto uma felicidade sincera, um júbilo.

Quando morre alguém, não me comovo.
Um dia serei eu, e pronto.

Para mim, a verdadeira vida sempre foi outra.

Ela cortou a ponta da minha cabeça. Me misturei ao céu.

Avisto o ponto de paz no qual a morte e o tempo já não existem como realidades limitantes.

Um homem que chegou cedo demais ao seu próprio enterro. Espero pacientemente sentado numa cadeira. Quando as pessoas enfim chegam, deito-me no caixão. Aí começam os ritos.

É preciso afirmar: Eu sou. Eu existo.

AMA ET FAC UT VIS

Tenho sido meticulosamente destruído.

Era uma casa abandonada, sem telhado

e as vacas

a haviam invadido
(e lambiam as paredes de barro):

era eu
quando por fim
me viraram
do avesso.

Meu Deus, muito obrigado por ajudar-me a ser quem eu sou. Ajudaime a ser quem eu sou. Ajudai-me a ser quem seu sou. Ajudai-me, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, meu belo Senhor, eu quero ser quem eu sou. Oh, Senhor, eu serei quem eu sou. É preciso que eu seja quem eu sou. Oh, Senhor, que eu seja quem eu sou.

Tem uma hora em que você abandona todo mundo e sai sozinho.

Eu vivo minha vida como se eu não existisse.

A pessoa sempre vai se sentir bem ou mal, ou uma coisa ou outra, mas eu não sou ela.

Não me importo com o que possa vir a acontecer.

Eu só sossegarei com o silêncio.

Estes têm sido os melhores e piores anos da minha vida.

Sei que não tenho um emprego, mas eu não vivo nessa realidade.

Eu não faço a menor idéia do que um poeta seja.
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Renato Rezende

Renato Rezende

[Pessoa]

A pessoa que olha para si mesma e diz,

Deus, eu preciso sair de mim!

(Eu preciso entrar em mim)

O que se pede?:

Que você brote em mim.

Eu já percebia essas coisas em você desde que nos conhecemos. Noque diz respeito aos relacionamentos, você me parecia ser uma pessoa que dá um passo a frente e dois para trás. Confesso que isso me dava uma certa vontade (ou impulso) de provocar, uma coisa meio: “quero ver se ele sai do sério...”. Mas não pense que era um jogo ou algo assim, não era nada de caso pensado, só um impulso provocado (sem intenção, creio eu) por aquele seu jeito. E talvez aquele seu jeito nunca tenha realmente mudado. Acho perfeitamente normal querer e não querer. Você pode não querer intimidade, mas pode querer se aproximar de alguém de vez em quando, se sentir atraído e sentir que é capaz de atrair. Você pode não querer morder a maçã e acabar com o caroço nas mãos, mas pode querer ter maçãs por perto às vezes, cheirar, apreciar e até dar uma mordidinha. Por que não?

Acordo no meio da noite gritando
minha vida está acabando!

Preso no corpo, no corredor do tempo, um segundo de cada vez—
a via estreita. .

EU QUERO!

Às vezes me dou conta como minha vida é intrinsecamente inseparável de mim; ou seja, como o que eu sou é a expressão fiel do que sou. Minha vida é a expressão exata do que sou, em traço e pulsão, do que sou em semente e potência. Para libertar-me e viver eu preciso de fato morrer, ou seja, libertar-me do que existe em mim que dá expressão material à minha vida, erradicar o que mais irredutivelmente em mim sou eu. Para enfim brotar em mim: eu sendo, aquilo que se É.

Aqui poderia viver, uma vez que aqui vivo

Se o tempo passa,
é porque já passou

Primeira premonição da Morte:

O homem que eu fui
E a mulher que eu fui;
E os homens que eu não fui
E as mulheres que eu não fui;
Somam-se agora ao meu corpo.

Nosso assombro é a nossa alegria.

(O que está vivo, está morto)

Deus é doido

(E todos eles ressuscitaram e retornaram às suas vidas)

O espírito deve se apossar do corpo e fazer dele um corpo divino— um corpo de ouro.

O Amor é dentro e fora; no interior e ao redor do corpo

Quando sou AMOR estou na ETERNIDADE

A distância mais potente de queda
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Renato Rezende

Renato Rezende

[Filtros]

Eu criei uma ilusão, um véu, há muitas camadas de tecido,
muito filtro, entre eu e a vida.
Mas uma vida humana não é justamente a experiência desses
filtros?
A vida—experiência absurda—não é sempre necessariamente
mediada?
A vida humana só é se mediada.

Somos todos vazios,
Sem existência fixa.

A gente vai sempre virando

apenas mais uma vida,
perdida

ARRISCAR TUDO

Todos os recursos

Concentrar todos os esforços

Lançar tudo fora

Um homem deve dedicar sua vida àquilo pelo qual se esquece

se perde

diante do abismo

pisa

no vazio

Nada tem sentido

Tudo é um fim em si mesmo.
Derreter no coração todos os sentidos.

Nesta terra não há jardim que não tenha sido construído sobre os quintos dos infernos.

A pessoa nunca é em termos absolutos. Nenhum de nós é.

Somos sempre em termos relativos. Em relação ao outro: espelhos uns dos outros. Poderíamos ser qualquer um de nós.

Isso é ser livre?

Toda pessoa que se preze é uma fracassada.

Na Noruega há um Joe Doe que passa os dias olhando pela janela a neve cair, sem vontade de sair de casa. Ele teria coisas para fazer, responder emails e telefonemas, o trabalho se acumulando. Eu não me importo com isso, não o julgo, não o condeno. Acho que ele tem todo o tempo do mundo, o direito a todo esse tempo: não sinto ansiedade, nem culpa, não me envolvo. Agora eu sou esse Joe Doe no Rio de Janeiro:

No meio da tarde, levanto e saio: nada realmente para fazer, apenas a atração pela luz e pelo abismo. Apenas o descaso pelo falatório.
[Essa é a imagem da minha vida].
Mas não saio com a experiência de um vazio interno, um oco. Não é para o exílio que saio, e sim para a VIDA. Agora, quando saio, carrego o mundo comigo: sou eu o vivo, são eles os mortos.
[Não. O Amor nos une a todos: somos todos vivos e mortos: homo caritas est].
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Renato Rezende

Renato Rezende

Alhures

Sinto de uma vez por todas que minha vida—a vida—acabou. Durou o suficiente, e foi
muito, e foi bem vivida. Nos dias de hoje, os homens sobrevivem em muito ao apogeu físico e
mental. O certo é morrer cedo, com menos de quarenta anos no máximo. Mas esta morte que a mim
mesmo decreto não é física. Não, continuarei respirando o ar deste planeta, bebendo a água e me
alimentando dos frutos da terra até que o corpo, por si só, definhe e morra. Não fugirei tampouco
dos avanços da medicina, dos remédios, das operações, dos transplantes, da quimioterapia. É
preciso ser um homem de seu tempo, afinal. Essa minha vida que acaba é outra, mais íntima. Tudo
que havia para ser visto já foi visto, tudo que havia para ser gozado já foi gozado. Não procurarei
repetir, com um corpo cada vez mais decrépito, os prazeres que teve meu corpo jovem. Minha
parcela de amor também já foi o suficiente. Renuncio ao nadar no rio do tempo, todos juntos em
direção ao mar. Caio fora. Solto as mãos daqueles que comigo compartilhavam esse nosso tempo, a
causa da geração, os infinitos diálogos e trocas com as pessoas que cruzaram e cruzam minha vida,
as aventuras de todos os tipos, as viagens de todos os tipos, adeus às moedas, aos tigres, às areias.
Enfim, a tudo que se apreende com olhos, ouvidos, tato; os sentidos. Essa é a vida que acabou,
como alguém que sai do rio, levanta-se na margem sozinho, dá adeus e dirige-se para as montanhas
azuis, lá no fundo. Isso origina uma nova vida. Mas que vida é essa, que começa? Aparentemente,
nada mudou: corpo, cidade, linguagem. Mas no íntimo nada é mais fixo como antes. Tudo em volta
lembra a morte. Nenhum poder é verdadeiro. A vida que começa é a vida de uma máscara vazia.
Não, vazia não: um infinito repleto de luz.
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