Poemas neste tema
Corpo
José Anastácio da Cunha
O Abraço
Não vês inda, de gosto sufocados,
Um noutro nossos peitos esculpidos?
Não sentes nossos rostos tão chegados
E ainda mais os corações unidos?
Oh! Mais, mais do que unidos!
Tu fizeste, Doce encanto, que eu fosse mais que teu.
Lembra, lembra-te quando me disseste:
– Meu bem, eu não sou tu?… Tu não és eu?
Goza, de todo goza o teu amante;
E unidos ambos… -Oh!… e estás tão perto!…
Meu bem, deliro, sonho ou estou desperto?
Ambos unidos em mimoso laço,
Faces, bocas unidas… Ah! que faço?…
É ar… Quando que a abraço me parece,
A mim me abraço e em ar se desvanece.
Mas que duvido com abraço estreito
Cingir-me?… Dize, não és seu, meu peito?…
...
Goza, meu bem (enquanto a Sorte avara
Com tanta crueldade nos separa)
Goza do alívio, que nos concedeu,
De dizer com certeza: É minha! – É meu!…
Um noutro nossos peitos esculpidos?
Não sentes nossos rostos tão chegados
E ainda mais os corações unidos?
Oh! Mais, mais do que unidos!
Tu fizeste, Doce encanto, que eu fosse mais que teu.
Lembra, lembra-te quando me disseste:
– Meu bem, eu não sou tu?… Tu não és eu?
Goza, de todo goza o teu amante;
E unidos ambos… -Oh!… e estás tão perto!…
Meu bem, deliro, sonho ou estou desperto?
Ambos unidos em mimoso laço,
Faces, bocas unidas… Ah! que faço?…
É ar… Quando que a abraço me parece,
A mim me abraço e em ar se desvanece.
Mas que duvido com abraço estreito
Cingir-me?… Dize, não és seu, meu peito?…
...
Goza, meu bem (enquanto a Sorte avara
Com tanta crueldade nos separa)
Goza do alívio, que nos concedeu,
De dizer com certeza: É minha! – É meu!…
768
Everardo Norões
Corpo
Teu corpo
se enxuga em minha água:
calafeta,
enxágua.
Completa
o que não vem de mim.
E por ser água e calma,
sonâmbula
como a
distraída voz do lume,
lembra um vago perfume
de jasmim.
se enxuga em minha água:
calafeta,
enxágua.
Completa
o que não vem de mim.
E por ser água e calma,
sonâmbula
como a
distraída voz do lume,
lembra um vago perfume
de jasmim.
639
Ademir Assunção
CURRAL VIP NA ILHA DE FODAS
O sol sádico cai com peso de bigorna
na Ilha de Fodas.
A Noite Neblina veste espartilho de couro
e tapa-sexo metálico.
Chicotes com espinhos de chumbo sobre a carne crua,
mamilos lacerados e nádegas marcadas
com ferro em brasa – celebridades big brother
contorcem músculos siliconados,
ganem ladainhas obscenas em louvor à Senhora dos Açoites,
suplicam suplícios e torturas
para afugentar o tédio.
Olhos vendados na Alcova de Prazeres Bárbaros,
a Cantora Devassa é sodomizada por Black Ice
em sessões contínuas de fist fucking.
Microcâmeras Paparazzi flagram em detalhes
as mucosas do intestino vip.
Olor de sêmen, sangue e fezes excita narizes de platina.
Âncoras de noticiários políticos rastejam no chão
salpicado de lâminas, clamando açoites brutais.
Policiais com uniforme de oficiais nazistas,
coturnos prateados & máscaras de bode,
achacam escravas brancas
na Galeria do Amor.
na Ilha de Fodas.
A Noite Neblina veste espartilho de couro
e tapa-sexo metálico.
Chicotes com espinhos de chumbo sobre a carne crua,
mamilos lacerados e nádegas marcadas
com ferro em brasa – celebridades big brother
contorcem músculos siliconados,
ganem ladainhas obscenas em louvor à Senhora dos Açoites,
suplicam suplícios e torturas
para afugentar o tédio.
Olhos vendados na Alcova de Prazeres Bárbaros,
a Cantora Devassa é sodomizada por Black Ice
em sessões contínuas de fist fucking.
Microcâmeras Paparazzi flagram em detalhes
as mucosas do intestino vip.
Olor de sêmen, sangue e fezes excita narizes de platina.
Âncoras de noticiários políticos rastejam no chão
salpicado de lâminas, clamando açoites brutais.
Policiais com uniforme de oficiais nazistas,
coturnos prateados & máscaras de bode,
achacam escravas brancas
na Galeria do Amor.
998
João Filho
UMA MULHER TODA MÚSICA
Eu pretendi colhê-la num só gesto,
que fosse imaterial, também tangível,
tentei a forma livro, o sonho aberto,
estive atento ao peso do invisível.
Busquei coisas menores, mais modesto,
— uma manhã urbana, a luz possível.
Tudo inútil, desejo o cerne e aperto
o escuro, mesmo sendo tão legível
o corpo branco, nu, dentro da tarde.
Agora me concentro em não fixá-la
em pauta ou pensamento para dar-lhe
o ritmo necessário de quem cala,
a música a envolvê-la sem alarde
enquanto ela caminha pela sala.
que fosse imaterial, também tangível,
tentei a forma livro, o sonho aberto,
estive atento ao peso do invisível.
Busquei coisas menores, mais modesto,
— uma manhã urbana, a luz possível.
Tudo inútil, desejo o cerne e aperto
o escuro, mesmo sendo tão legível
o corpo branco, nu, dentro da tarde.
Agora me concentro em não fixá-la
em pauta ou pensamento para dar-lhe
o ritmo necessário de quem cala,
a música a envolvê-la sem alarde
enquanto ela caminha pela sala.
587
José Anastácio da Cunha
Os Porquês do Amor
Céu, porque tão convulso e consternado
Me bate, ao Vê-la, o coração no peito?
Porque pasma entre os beiços congelado,
Indo a falar-lhe, o tímido conceito?
Porque nas áureas ondas engolfado
Da caudalosa trança, inda que afeito,
Me naufraga o juízo embelezado,
E em ternura suavíssima desfeito?
Porque a luz dos seus olhos, tão activa,
Por lânguida inda mais encantadora,
Me cega, e por a ver, ansioso, clamo?
Porque da mão nevada sai tão viva
Chama, que me electriza e me devora?
Os mesmos meus porquês me dizem: - Amo!
Me bate, ao Vê-la, o coração no peito?
Porque pasma entre os beiços congelado,
Indo a falar-lhe, o tímido conceito?
Porque nas áureas ondas engolfado
Da caudalosa trança, inda que afeito,
Me naufraga o juízo embelezado,
E em ternura suavíssima desfeito?
Porque a luz dos seus olhos, tão activa,
Por lânguida inda mais encantadora,
Me cega, e por a ver, ansioso, clamo?
Porque da mão nevada sai tão viva
Chama, que me electriza e me devora?
Os mesmos meus porquês me dizem: - Amo!
683
Salgado Maranhão
Do Arbítrio
Das estrias que a mão
esculpe
só o que brilha
sobrevive.
Nômade a manhã
despe o sol
à flor
da carne,
múltipla,
à vertigem da linguagem.
Não há comportas
nem caminhos
não há saaras
nem vienas
em tudo há rinhas
e arestas
de flores
e esquifes.
Em tudo entalha-se
ao revés
coisas que se mostram
e não se dão,
que só no verso vêem-se,
no peeling pelo avesso.
(Delitos que em seu exílio
transbordam de rubro
a lira,
resenham através do júbilo,
rasuram através da ira.)
Sopra revanche de ritmos
no íntimo viés do não dito,
sopra o arbítrio dos dias.
esculpe
só o que brilha
sobrevive.
Nômade a manhã
despe o sol
à flor
da carne,
múltipla,
à vertigem da linguagem.
Não há comportas
nem caminhos
não há saaras
nem vienas
em tudo há rinhas
e arestas
de flores
e esquifes.
Em tudo entalha-se
ao revés
coisas que se mostram
e não se dão,
que só no verso vêem-se,
no peeling pelo avesso.
(Delitos que em seu exílio
transbordam de rubro
a lira,
resenham através do júbilo,
rasuram através da ira.)
Sopra revanche de ritmos
no íntimo viés do não dito,
sopra o arbítrio dos dias.
764
José Paulo Paes
Canção do adolescente
Se mais bem olhardes
notareis que as rugas
umas são postiças
outras literárias.
Notareis ainda
o que mais escondo:
a descontinuidade
do meu corpo híbrido.
Quando corto a rua
para me ocultar
as mulheres riem
(sempre tão agudas!)
do meu corpo.
Que força macabra
misturou pedaços
de criança e homem
para me criar?
Se quereis salvar-me
desta anatomia,
batizai-me depressa
com as inefáveis
as assustadoras
águas do mundo.
notareis que as rugas
umas são postiças
outras literárias.
Notareis ainda
o que mais escondo:
a descontinuidade
do meu corpo híbrido.
Quando corto a rua
para me ocultar
as mulheres riem
(sempre tão agudas!)
do meu corpo.
Que força macabra
misturou pedaços
de criança e homem
para me criar?
Se quereis salvar-me
desta anatomia,
batizai-me depressa
com as inefáveis
as assustadoras
águas do mundo.
1 667
Tatiana Faia
o que eu sei da filha de agamémnon
para lá de tudo isto o teu entendimento
um campo de feno exposto no interior da lente
antes do golpe da luz
quando a precisão de um momento te invade
e se vira exposto sobre si próprio
como papel de prata na violência do vento
e altos edifícios de pedra selam as saídas
de ruas interiores por onde carros circulam
a baixa velocidade
o que eu me lembro não é
o que nenhum poeta da antiguidade
pudesse ter deixado escrito
em versos a que sopro nenhum
imprimiria o ritmo da fala
onde ela assomasse de carne e osso
não uma criatura literária
mas a urgência de um corpo livre do seu enredo
o que eu me lembro dela
é um dia de parada quando o suor
me colava a camisa ao corpo
e a segui por entre a multidão
para lá dos guardas e das linhas de gente
reunidas para ver soldados desfilar
o que me lembro
é entender que pode ser um erro gracioso
a conclusão mais lógica de um passo
e reparar que forma nenhuma
traria de volta o momento antes da manhã romper
quando o rosto encontra o seu duplo
na superfície vítrea de um lago
claro que nada disto teve nada
de uma quietude campestre
a limpidez de uma manhã mitológica
cortada pela seta de um deus em degredo
segui-a e perdi-a e tornei a encontrá-la ainda
em ruas paralelas onde os cafés ficam vazios
a meio da tarde por causa do estado de sítio da rotina
e há secretos motivos cultivados atrás
de portas que se fecham subitamente
mas não aprendi nada do mundo dela
nem poderia precisar a extensão do seu segredo
peão e estratega
o que ficou comigo muito tempo depois
foi essa longa caminhada de muitas centenas de metros
por ruas cheias de gente
o cabelo preso que lhe caía pelas costas
o que lhe ia chamar eu antes que soubesse o que fosse
pó, ouro, o corte de papel na memória de um fantasma
inevitável, real mesmo antes
da manhã se derramar com a luz
na impessoalidade de um quarto estranho
depois de uma noite de insónia
Oxford, 3 de Setembro de 2017
Leopardo e Abstracção, Fresca, 2020
um campo de feno exposto no interior da lente
antes do golpe da luz
quando a precisão de um momento te invade
e se vira exposto sobre si próprio
como papel de prata na violência do vento
e altos edifícios de pedra selam as saídas
de ruas interiores por onde carros circulam
a baixa velocidade
o que eu me lembro não é
o que nenhum poeta da antiguidade
pudesse ter deixado escrito
em versos a que sopro nenhum
imprimiria o ritmo da fala
onde ela assomasse de carne e osso
não uma criatura literária
mas a urgência de um corpo livre do seu enredo
o que eu me lembro dela
é um dia de parada quando o suor
me colava a camisa ao corpo
e a segui por entre a multidão
para lá dos guardas e das linhas de gente
reunidas para ver soldados desfilar
o que me lembro
é entender que pode ser um erro gracioso
a conclusão mais lógica de um passo
e reparar que forma nenhuma
traria de volta o momento antes da manhã romper
quando o rosto encontra o seu duplo
na superfície vítrea de um lago
claro que nada disto teve nada
de uma quietude campestre
a limpidez de uma manhã mitológica
cortada pela seta de um deus em degredo
segui-a e perdi-a e tornei a encontrá-la ainda
em ruas paralelas onde os cafés ficam vazios
a meio da tarde por causa do estado de sítio da rotina
e há secretos motivos cultivados atrás
de portas que se fecham subitamente
mas não aprendi nada do mundo dela
nem poderia precisar a extensão do seu segredo
peão e estratega
o que ficou comigo muito tempo depois
foi essa longa caminhada de muitas centenas de metros
por ruas cheias de gente
o cabelo preso que lhe caía pelas costas
o que lhe ia chamar eu antes que soubesse o que fosse
pó, ouro, o corte de papel na memória de um fantasma
inevitável, real mesmo antes
da manhã se derramar com a luz
na impessoalidade de um quarto estranho
depois de uma noite de insónia
Oxford, 3 de Setembro de 2017
Leopardo e Abstracção, Fresca, 2020
702
Charles Bukowski
Abandono da Luta
cometeram seu primeiro erro quando
deitaram o campeão
de cara para baixo
na mesa do vestiário -
foi um grito de
câncer -
e então ele os amaldiçoou em italiano de
gente pobre e disse
me virem me virem me virem seus bundões
me virem,
e eles o fizeram
e ele disse,
ele quebrou todas as costelas do meu lado esquerdo
é um assassino, não é um lutador,
e então ele
disse,
olha, me arranje uma arma, eu vou matar aquele filho de uma
puta.
vá com calma, campeão, disse seu empresário, não foi pelo título, você
ainda tem o título. você pode derrotá-lo
na revanche. não assinamos o contrato para
lutar com Sondelle ainda. vamos adiar com
Sondelle e pegar esse cara na
revanche.
eu não vou lutar com esse assassino outra vez, disse o
campeão,
deviam banir esse chupador de paus nojento do
ringue.
veja, campeão, disse o empresário, não seja
estúpido, vamos conseguir uma bilheteria
grande para a próxima
luta, vão querer ver se ele pode
fazer isso de novo.
o campeão os amaldiçoou em italiano e depois disse,
nunca mais vão conseguir me colocar no ringue com esse
assassino outra vez.
olha, campeão, ele é um vagabundo eu lhe digo, um vagabundo, ele
nunca
bateu em ninguém antes, na próxima vez você
se prepara, larga a bebida e as fodas por
uma semana, ele não conseguirá
tocá-lo quando você estiver bem. ele não pode bater em você porra
nenhuma, campeão.
ele me
bateu. nunca vou tomar outra surra como essa de
ninguém.
você vai abandonar, campeão? você vai abandonar?
vou lutar com qualquer um menos
com esse cara.
tudo certo.
então, está bem, que tal um raio X das minhas
costelas? não consigo respirar, de verdade,
sinto-as cutucando meu
pulmão.
eles o retiraram dali e o levaram em uma
longa e negra
limusine baixa
ao hospital particular onde o
raio X não mostrou
nenhuma fratura.
eles estão mentindo, berrou o campeão, esses porras desses
idiotas estão mentindo! você não acha que eu
consigo sentir meus próprios ossos quando estão
quebrados?
ninguém disse nada.
deitaram o campeão
de cara para baixo
na mesa do vestiário -
foi um grito de
câncer -
e então ele os amaldiçoou em italiano de
gente pobre e disse
me virem me virem me virem seus bundões
me virem,
e eles o fizeram
e ele disse,
ele quebrou todas as costelas do meu lado esquerdo
é um assassino, não é um lutador,
e então ele
disse,
olha, me arranje uma arma, eu vou matar aquele filho de uma
puta.
vá com calma, campeão, disse seu empresário, não foi pelo título, você
ainda tem o título. você pode derrotá-lo
na revanche. não assinamos o contrato para
lutar com Sondelle ainda. vamos adiar com
Sondelle e pegar esse cara na
revanche.
eu não vou lutar com esse assassino outra vez, disse o
campeão,
deviam banir esse chupador de paus nojento do
ringue.
veja, campeão, disse o empresário, não seja
estúpido, vamos conseguir uma bilheteria
grande para a próxima
luta, vão querer ver se ele pode
fazer isso de novo.
o campeão os amaldiçoou em italiano e depois disse,
nunca mais vão conseguir me colocar no ringue com esse
assassino outra vez.
olha, campeão, ele é um vagabundo eu lhe digo, um vagabundo, ele
nunca
bateu em ninguém antes, na próxima vez você
se prepara, larga a bebida e as fodas por
uma semana, ele não conseguirá
tocá-lo quando você estiver bem. ele não pode bater em você porra
nenhuma, campeão.
ele me
bateu. nunca vou tomar outra surra como essa de
ninguém.
você vai abandonar, campeão? você vai abandonar?
vou lutar com qualquer um menos
com esse cara.
tudo certo.
então, está bem, que tal um raio X das minhas
costelas? não consigo respirar, de verdade,
sinto-as cutucando meu
pulmão.
eles o retiraram dali e o levaram em uma
longa e negra
limusine baixa
ao hospital particular onde o
raio X não mostrou
nenhuma fratura.
eles estão mentindo, berrou o campeão, esses porras desses
idiotas estão mentindo! você não acha que eu
consigo sentir meus próprios ossos quando estão
quebrados?
ninguém disse nada.
1 130
Charles Bukowski
Livre?
tem uma empresa aérea
eles oferecem champanhe de graça
mas eu já estive lá
antes.
quando a comissária de bordo passou
eu disse, não.
estava quente e
aquilo saía direto da
garrafa.
a comissária ia e voltava
reabastecendo.
foi um voo tranquilo
mas então
começou:
corrida aos toaletes.
filas se formaram.
os saquinhos de vômito
surgiram.
eu fiquei lá
escutando os
grunhidos e os
vômitos.
quando chegamos ao aeroporto
alguns ainda
estavam indo
lá.
alguns vomitavam enquanto esperavam por sua
bagagem. outros vomitavam nas
escadas rolantes e no estacionamento.
alguns vomitavam em seus carros enquanto
dirigiam para casa. alguns continuaram vomitando em
casa.
quando cheguei em casa
liguei o noticiário da TV
abri uma cerveja gelada
e deixei a água do banho
correr.
eles oferecem champanhe de graça
mas eu já estive lá
antes.
quando a comissária de bordo passou
eu disse, não.
estava quente e
aquilo saía direto da
garrafa.
a comissária ia e voltava
reabastecendo.
foi um voo tranquilo
mas então
começou:
corrida aos toaletes.
filas se formaram.
os saquinhos de vômito
surgiram.
eu fiquei lá
escutando os
grunhidos e os
vômitos.
quando chegamos ao aeroporto
alguns ainda
estavam indo
lá.
alguns vomitavam enquanto esperavam por sua
bagagem. outros vomitavam nas
escadas rolantes e no estacionamento.
alguns vomitavam em seus carros enquanto
dirigiam para casa. alguns continuaram vomitando em
casa.
quando cheguei em casa
liguei o noticiário da TV
abri uma cerveja gelada
e deixei a água do banho
correr.
634
Charles Bukowski
O Porco na Cerca
você sabe, dirigindo através desta cidade ou de qualquer cidade
caminhando através desta cidade ou de qualquer cidade vejo
gente com narinas, dedos, pés,
olhos, boca, ouvido, queixo, sobrancelhas e assim por diante.
entro em uma lanchonete e peço o desjejum,
olho ao redor e estou consciente de crânios e esquele-
tos enquanto observo um homem enfiar
um pedaço de bacon em sua boca e morrer um pouco
e não gosto de contemplar a morte porque
pode haver algum outro lugar aonde tenhamos que ir depois
e já encarei confusões o bastante só por estar bem aqui
mas
talvez seja a culpa de todas as cobras em viveiros de vidro,
elas não podem mover-se, respirar ou matar e eles
deveriam soltá-las e eles deveriam esvaziar as
prisões também assim que eu arrumar minha Luger[1] e
soltar meus cachorros.
os prédios são todos pobremente construídos e o corpo
humano também; às vezes assisto a dançarinas dando pulos
por aí e penso, isso é feio e desajeitado,
o corpo humano foi construído de modo errado, é desengonçado e
estúpido... comparado a quê? comparado ao cacto
e ao leopardo. bem,
minhas mulheres sempre me disseram, "você é tão negativo!"
e eu olhava para elas e respondia, "eu acho que a reali-
dade é negativa". comparada a quê? irrealidade.
no entanto mesmo assim tive mais alegrias que qualquer um
deles, eles foram positivos e deprimidos, e eu sou negativo
e feliz. bem,
tudo isso pode ser culpa de bombeiros parados esperando
por um incêndio. pode ser culpa de algum cara em Moscou
estuprando uma menina de
6 anos, ou pode ser porque a neblina não é
mais a neblina do jeito como costumava ser - fresca, molhada,
refrescante,
mas tudo está machucando agora. eles acharam algum cara jogando
futebol na U.C.L.A. que nem sabia ler ou escrever
mas por Cristo como ele tinha força, que corpo, ele podia ter se dado
bem mas ele se aborreceu e matou seu fornecedor
de drogas e depois descobriram que ao final das contas ele nem era
muito um universitário, só uma espécie de peixinho dourado criado
o que me lembra
dificilmente mais alguém cria peixes dourados: você sabe quando eu
era criança, um domicílio em cada 3 tinha peixes dourados.
o que aconteceu com eles? alguns tinham até
laguinhos de peixes dourados no quintal com um fino musgo e
dúzias de peixes dourados, pequenos, médios, grandes,
viviam de migalhas de pão e alguns desses fodões se tornaram
tão gordos e estúpidos que simplesmente subiram até a superfície e se
deitaram
de lado, um olho para o sol, largados, como uma má mensagem
de Deus, mas as pessoas também desistem quando não deviam.
certa vez
houve um campeão, recebeu 5 milhões por uma disputa de campeonato,
o Macho Man, nunca havia sido derrotado mas deu de cara com
um sujeito que podia enfrentá-lo e depois de uns rounds ele
deu as costas e disse,
"no más".
imagine só, por 5 milhões um homem poderia aguentar alguma
dor, eu vi homens com suas vidas inteiras destruídas por
55 centavos a hora ou menos.
bem,
talvez seja a alvenaria ou talvez seja a bomba d'água, ou talvez seja o
porco na cerca, ou talvez seja o fim da sorte. anjos estão voando
baixo hoje com asas em chamas, sua mãe é a vítima de
seus pesadelos ordinários enquanto 40 torneiras gotejam, o gato está com
leucemia, faltam só 245 dias até o Natal e meu
protético me odeia.
assim agora
eu acordo com o pescoço duro em vez do pau
duro e
você
sempre poderá me achar aqui
em East Hollywood mas
por favor por favor por favor
não
tente.
caminhando através desta cidade ou de qualquer cidade vejo
gente com narinas, dedos, pés,
olhos, boca, ouvido, queixo, sobrancelhas e assim por diante.
entro em uma lanchonete e peço o desjejum,
olho ao redor e estou consciente de crânios e esquele-
tos enquanto observo um homem enfiar
um pedaço de bacon em sua boca e morrer um pouco
e não gosto de contemplar a morte porque
pode haver algum outro lugar aonde tenhamos que ir depois
e já encarei confusões o bastante só por estar bem aqui
mas
talvez seja a culpa de todas as cobras em viveiros de vidro,
elas não podem mover-se, respirar ou matar e eles
deveriam soltá-las e eles deveriam esvaziar as
prisões também assim que eu arrumar minha Luger[1] e
soltar meus cachorros.
os prédios são todos pobremente construídos e o corpo
humano também; às vezes assisto a dançarinas dando pulos
por aí e penso, isso é feio e desajeitado,
o corpo humano foi construído de modo errado, é desengonçado e
estúpido... comparado a quê? comparado ao cacto
e ao leopardo. bem,
minhas mulheres sempre me disseram, "você é tão negativo!"
e eu olhava para elas e respondia, "eu acho que a reali-
dade é negativa". comparada a quê? irrealidade.
no entanto mesmo assim tive mais alegrias que qualquer um
deles, eles foram positivos e deprimidos, e eu sou negativo
e feliz. bem,
tudo isso pode ser culpa de bombeiros parados esperando
por um incêndio. pode ser culpa de algum cara em Moscou
estuprando uma menina de
6 anos, ou pode ser porque a neblina não é
mais a neblina do jeito como costumava ser - fresca, molhada,
refrescante,
mas tudo está machucando agora. eles acharam algum cara jogando
futebol na U.C.L.A. que nem sabia ler ou escrever
mas por Cristo como ele tinha força, que corpo, ele podia ter se dado
bem mas ele se aborreceu e matou seu fornecedor
de drogas e depois descobriram que ao final das contas ele nem era
muito um universitário, só uma espécie de peixinho dourado criado
o que me lembra
dificilmente mais alguém cria peixes dourados: você sabe quando eu
era criança, um domicílio em cada 3 tinha peixes dourados.
o que aconteceu com eles? alguns tinham até
laguinhos de peixes dourados no quintal com um fino musgo e
dúzias de peixes dourados, pequenos, médios, grandes,
viviam de migalhas de pão e alguns desses fodões se tornaram
tão gordos e estúpidos que simplesmente subiram até a superfície e se
deitaram
de lado, um olho para o sol, largados, como uma má mensagem
de Deus, mas as pessoas também desistem quando não deviam.
certa vez
houve um campeão, recebeu 5 milhões por uma disputa de campeonato,
o Macho Man, nunca havia sido derrotado mas deu de cara com
um sujeito que podia enfrentá-lo e depois de uns rounds ele
deu as costas e disse,
"no más".
imagine só, por 5 milhões um homem poderia aguentar alguma
dor, eu vi homens com suas vidas inteiras destruídas por
55 centavos a hora ou menos.
bem,
talvez seja a alvenaria ou talvez seja a bomba d'água, ou talvez seja o
porco na cerca, ou talvez seja o fim da sorte. anjos estão voando
baixo hoje com asas em chamas, sua mãe é a vítima de
seus pesadelos ordinários enquanto 40 torneiras gotejam, o gato está com
leucemia, faltam só 245 dias até o Natal e meu
protético me odeia.
assim agora
eu acordo com o pescoço duro em vez do pau
duro e
você
sempre poderá me achar aqui
em East Hollywood mas
por favor por favor por favor
não
tente.
670
Charles Bukowski
Idade
a decência de suar em uma cadeira de balanço
está reservada aos velhos generais ou aos antigos
estadistas enquanto as tardes florescem com
garotinhas que não têm nada a fazer a não ser rir
e passar por perto.
para mim
quando os dedos forem embora o cérebro terá ido embora.
não haverá mais nada para erguer o
copo e eu ficarei por aí pensando em
camisolas brancas e piranhas
e blocos de noite com ratos no lugar dos olhos.
quando os dedos falharem no copo eu terei
falhado
e a alma
em um velho saco de papel marrom
dirá adeus
assim como as sebes dizem adeus
assim como os canhões parados nos parques perguntando-se o que
vem aí.
está reservada aos velhos generais ou aos antigos
estadistas enquanto as tardes florescem com
garotinhas que não têm nada a fazer a não ser rir
e passar por perto.
para mim
quando os dedos forem embora o cérebro terá ido embora.
não haverá mais nada para erguer o
copo e eu ficarei por aí pensando em
camisolas brancas e piranhas
e blocos de noite com ratos no lugar dos olhos.
quando os dedos falharem no copo eu terei
falhado
e a alma
em um velho saco de papel marrom
dirá adeus
assim como as sebes dizem adeus
assim como os canhões parados nos parques perguntando-se o que
vem aí.
683
Charles Bukowski
Licença Médica
aqui estou deitado de barriga para baixo, Hem está morto, Shake está
morto,
os peixes que pesquei e comi e caguei estão mortos
e o médico está martelando um tubo de vidro em meu rabo,
um tubo de vidro com uma luzinha no final,
e estou torcendo por um atestado médico
para mais 2 dias de licença
e o doutor faz o jogo direitinho: "você tem umas belezas aí,
você deveria ser cortado..." bem, os russos brancos costumavam
cavar um buraco em um homem e agarrar a ponta do seu intestino
e pregá-lo a uma árvore e em seguida obrigavam o homem a
correr dando voltas e voltas na árvore.
ele puxa o tubo de vidro para fora do meu rabo
e uma parte de mim vem junto
ele tem uma cara de castanha e quando sua enfermeira
se debruça (o que é frequente)
a bunda dela é como um travesseiro macio ou
uma rosquinha açucarada, nada de sangue, só nuvens,
e digo, "Doutor, acrescente um dia à licença médica,
posso sentir a dor até lá embaixo nos meus bagos..."
"com certeza," ele diz, "com certeza, eu conheço um monte de rapazes
da agência dos correios, todos bons rapazes."
em casa saco a tampa da garrafa
e tomo o primeiro gole da boa: chovia enquanto ele remexia em mim:
a chuva continua a luzir na janela
como moscas comendo sonhos,
e abro o boletim de apostas com meu polegar,
em seguida telefono para meu agente
"...dê-me 2 para Indian Blood,
5 na ponta para Lady Fanfare, 5 de placê em The Rage."
desligo e penso suavemente em Kafka
dormindo sob patas de esquilos
enquanto a senhora do outro lado do corredor canta para seu canário.
o amor se acendeu e se apagou
como um isqueiro
e agora o amor dela é um
pássaro.
é assim quando não acontece muita coisa
e você atua em um palco pequeno,
e eu espeto minha licença médica
sobre um dos meus velhos quadros
esfrego um pouco de unguento em meu rabo
e me sirvo de mais um drinque.
morto,
os peixes que pesquei e comi e caguei estão mortos
e o médico está martelando um tubo de vidro em meu rabo,
um tubo de vidro com uma luzinha no final,
e estou torcendo por um atestado médico
para mais 2 dias de licença
e o doutor faz o jogo direitinho: "você tem umas belezas aí,
você deveria ser cortado..." bem, os russos brancos costumavam
cavar um buraco em um homem e agarrar a ponta do seu intestino
e pregá-lo a uma árvore e em seguida obrigavam o homem a
correr dando voltas e voltas na árvore.
ele puxa o tubo de vidro para fora do meu rabo
e uma parte de mim vem junto
ele tem uma cara de castanha e quando sua enfermeira
se debruça (o que é frequente)
a bunda dela é como um travesseiro macio ou
uma rosquinha açucarada, nada de sangue, só nuvens,
e digo, "Doutor, acrescente um dia à licença médica,
posso sentir a dor até lá embaixo nos meus bagos..."
"com certeza," ele diz, "com certeza, eu conheço um monte de rapazes
da agência dos correios, todos bons rapazes."
em casa saco a tampa da garrafa
e tomo o primeiro gole da boa: chovia enquanto ele remexia em mim:
a chuva continua a luzir na janela
como moscas comendo sonhos,
e abro o boletim de apostas com meu polegar,
em seguida telefono para meu agente
"...dê-me 2 para Indian Blood,
5 na ponta para Lady Fanfare, 5 de placê em The Rage."
desligo e penso suavemente em Kafka
dormindo sob patas de esquilos
enquanto a senhora do outro lado do corredor canta para seu canário.
o amor se acendeu e se apagou
como um isqueiro
e agora o amor dela é um
pássaro.
é assim quando não acontece muita coisa
e você atua em um palco pequeno,
e eu espeto minha licença médica
sobre um dos meus velhos quadros
esfrego um pouco de unguento em meu rabo
e me sirvo de mais um drinque.
764
Charles Bukowski
Pernas
ela chegou de táxi
completamente embriagada.
foi
depois de um dos meus longos dias como
estoquista na Companhia May
e lá estava eu
exausto e
mamando minha
cerveja e
olhando-a em seu
estado derrubado
estendida sobre a cama
a saia erguida bem alto.
eu mamei meu drinque
e então a segui até
a cama e ergui
sua saia mais alto ainda:
que vista
aquelas pernas gloriosas
descobertas e indefesas.
ela era uma grande mulher com
grandes pernas.
fizemos uma tamanha farra
e passamos por muita agonia juntos
por alguns anos
mas ela achou
a vida dura demais;
ela morreu
há 34 anos e
eu nunca vi
pernas como aquelas
desde então
e eu nunca
deixei de
procurar.
completamente embriagada.
foi
depois de um dos meus longos dias como
estoquista na Companhia May
e lá estava eu
exausto e
mamando minha
cerveja e
olhando-a em seu
estado derrubado
estendida sobre a cama
a saia erguida bem alto.
eu mamei meu drinque
e então a segui até
a cama e ergui
sua saia mais alto ainda:
que vista
aquelas pernas gloriosas
descobertas e indefesas.
ela era uma grande mulher com
grandes pernas.
fizemos uma tamanha farra
e passamos por muita agonia juntos
por alguns anos
mas ela achou
a vida dura demais;
ela morreu
há 34 anos e
eu nunca vi
pernas como aquelas
desde então
e eu nunca
deixei de
procurar.
1 329
Charles Bukowski
Chega Desses Rapazes
meu primeiro marido, Retzel, ela disse,
voava em paragliders. ele tinha só uma das mãos.
ele nunca me chupou, nem uma vez só.
ele quer conhecê-lo, ele mora em
Redondo Beach.
Redondo Beach, eu disse, Redondo Beach.
meu marido seguinte,
Craft, tomava comprimidos e tocava piano o dia todo.
depois ele precisou operar um dos dedos da mão.
uma verruga. ele foi cruel comigo. agora ele sabe
o quanto foi cruel comigo.
onde ele está agora?
África. ele ainda está na África.
eu rodei pela África toda. circulei por lá
de barco. conheci um homem que tinha um
leopardo. ele costumava levar seu leopardo para
passear todo dia preso a uma corrente.
um dia ele não apareceu. seu leopardo o havia
comido.
essa é uma história engraçada.
eu também acho. você entende
as coisas. para mim chega desses rapazes,
desses corpos duros. eu quero você. você está no controle
de tudo.
eu estou?
sim, meu marido seguinte,
Larry, certa vez cobriu meu corpo com
pétalas de rosa. todas aquelas flores! foi
adorável, mas ele não fez amor comigo
outra vez por 2 anos. ele foi tão ruim como
amante. você é um grande
amante.
eu sou?
sim, você não gostaria de ir à Holanda?
não.
a Paris?
não.
à África?
não.
Redondo Beach?
não.
você é esquisito. não gosta de
viajar?
estou cheio disso.
você devia ter-me visto voar no paraglider de Retzel!
eu era boa naquele paraglider.
mas ele nunca me
chupava.
Retzel?
sim, agora ele é publicitário. ganha um bom
dinheiro.
algum dia eu vou lhe contar sobre minhas
mulheres.
não quero saber de suas
mulheres. não quero saber de
nenhuma
delas.
ela se virou na cama
oferecendo-me suas costas e seu
rabo.
garota, eu disse, conte-me mais sobre
Retzel.
ela se virou em minha
direção. você realmente quer
ouvir?
com certeza.
então ficamos deitados de costas
e ela me contou sobre Retzel
e eu ouvi.
voava em paragliders. ele tinha só uma das mãos.
ele nunca me chupou, nem uma vez só.
ele quer conhecê-lo, ele mora em
Redondo Beach.
Redondo Beach, eu disse, Redondo Beach.
meu marido seguinte,
Craft, tomava comprimidos e tocava piano o dia todo.
depois ele precisou operar um dos dedos da mão.
uma verruga. ele foi cruel comigo. agora ele sabe
o quanto foi cruel comigo.
onde ele está agora?
África. ele ainda está na África.
eu rodei pela África toda. circulei por lá
de barco. conheci um homem que tinha um
leopardo. ele costumava levar seu leopardo para
passear todo dia preso a uma corrente.
um dia ele não apareceu. seu leopardo o havia
comido.
essa é uma história engraçada.
eu também acho. você entende
as coisas. para mim chega desses rapazes,
desses corpos duros. eu quero você. você está no controle
de tudo.
eu estou?
sim, meu marido seguinte,
Larry, certa vez cobriu meu corpo com
pétalas de rosa. todas aquelas flores! foi
adorável, mas ele não fez amor comigo
outra vez por 2 anos. ele foi tão ruim como
amante. você é um grande
amante.
eu sou?
sim, você não gostaria de ir à Holanda?
não.
a Paris?
não.
à África?
não.
Redondo Beach?
não.
você é esquisito. não gosta de
viajar?
estou cheio disso.
você devia ter-me visto voar no paraglider de Retzel!
eu era boa naquele paraglider.
mas ele nunca me
chupava.
Retzel?
sim, agora ele é publicitário. ganha um bom
dinheiro.
algum dia eu vou lhe contar sobre minhas
mulheres.
não quero saber de suas
mulheres. não quero saber de
nenhuma
delas.
ela se virou na cama
oferecendo-me suas costas e seu
rabo.
garota, eu disse, conte-me mais sobre
Retzel.
ela se virou em minha
direção. você realmente quer
ouvir?
com certeza.
então ficamos deitados de costas
e ela me contou sobre Retzel
e eu ouvi.
945
Charles Bukowski
Nota Sobre a Tigresa
primeiro, uma terrível discussão.
em seguida, nós fizemos amor.
agora, finalmente, estou pacificamente deitado
em sua vasta cama
que está
coberta por um prado de graciosas flores espalhadas nela,
minha cabeça e barriga para baixo,
cabeça de lado,
borrifado pela luz através da cortina
enquanto ela se banha silenciosa no
outro aposento.
tudo está além de mim
assim como está a maioria das coisas.
ouço música clássica em um pequeno rádio.
ela toma banho.
ouço a água a escorrer.
três
enquanto a maioria das pessoas
joga toda a conversa fora
eu
em seguida, nós fizemos amor.
agora, finalmente, estou pacificamente deitado
em sua vasta cama
que está
coberta por um prado de graciosas flores espalhadas nela,
minha cabeça e barriga para baixo,
cabeça de lado,
borrifado pela luz através da cortina
enquanto ela se banha silenciosa no
outro aposento.
tudo está além de mim
assim como está a maioria das coisas.
ouço música clássica em um pequeno rádio.
ela toma banho.
ouço a água a escorrer.
três
enquanto a maioria das pessoas
joga toda a conversa fora
eu
1 090
Charles Bukowski
Maldito Rimbaud
foi em Santa Fé.
estávamos sentados esperando-a.
ela havia ido a alguma exposição de arte ou qualquer outra
maldita coisa inútil.
era uma boa artista
melhor que muitos homens
e esse era O
problema.
"que diabo aconteceu com Helen?"
"onde está Helen?"
o marido de Helen, ex-marido, agora estava sentado no topo de uma
colina em algum lugar com uma nova puta de olhos azuis.
uma puta
muito puta: ela até escrevia
poesia. Vicki era o nome dela. Vicki agora era "Sra."
ela havia trocado um marido rico por outro mais
rico ainda.
"Helen me pediu para não odiar Vicki!", disse minha anfitriã,
"mas que diabo, não consigo gostar de Vicki."
"que diabo", disse meu anfitrião, "você não pode nem
tentar?"
"você gosta de Vicki?", perguntou minha anfitriã.
Vicki me parecia legal. eu não conseguia achar nada de errado
nela.
"onde está Helen?", perguntei de novo. "oh onde oh onde diabos está
Helen?"
"ela vai chegar, ela vai chegar, ela disse que estava
chegando."
Helen apareceu 3 horas mais tarde.
ela parecia uma serpente em um vestido verde, todo fluido,
louco louco, lustroso,
seu colar prateado pulsando
em sua garganta
bem debaixo do meu nariz.
ela era consumida por 3 simples coisas:
bebida, desespero, solidão; e mais 2:
juventude e beleza.
era demais:
eu não podia resistir à força
dela. eu a beijei. eu a beijei
de novo. eu era como um garoto na escola,
toda a minha dureza
tinha desaparecido.
"vamos cair fora daqui!"
eu lhe disse, ignorando nosso anfitrião e nossa anfitriã.
fomos para sua casa logo ao lado
e eu fiquei na cozinha bebendo e
observando-a.
"seu corpo, seu corpo, Jesus!", eu lhe
disse. ela era realmente bela e dava risadas,
como quando você lê a respeito em um romance
só que isso nunca acontece com
ninguém.
ela contorceu seu corpo e enquanto cantarolava
fez uma adorável dança repleta de
insinuações.
"baby, eu te amo", eu disse, "baby, eu te
amo!"
nós descemos para um salão escuro com um crucifixo
na parede e alguns de seus quadros. entramos em
outro quarto grande. continuei no meu
drinque.
"fique aqui", ela disse.
sentei-me em um sofá e bebi. parecia
frio e vazio de repente e eu
me perguntava aonde ela havia ido.
então olhei em volta e ela estava deitada em outro sofá
nua e sorridente
o que foi inesperado
pois estou acostumado a despir minhas
mulheres.
e a visão dela ali nua em pelo me fazia lembrar mais
dos meus dias no matadouro do
que de Mozart,
mas, é claro, quem quer foder
com Mozart?
terminei meu drinque e tirei a roupa e tentei
mas acho que não estava lá essas coisas
foi minha culpa
minha culpa
e ela me empurrou
pra longe.
eu fiz mais algumas tentativas
desanimadas e então ela se levantou e saiu.
também me vesti e depois
não me lembro de muita coisa exceto
de estar um bocado bêbado.
mas quando ela me pôs para fora na chuva
eu ressuscitei.
a chuva estava molhada a chuva estava fria a chuva estava
gelada.
"merda!", eu disse, "merda!" corri de volta para
a porta dela ou a porta que achei que fosse dela
mas parecia haver dúzias de portas,
uma série de apartamentos todos
engatados.
bati na porta que esperava ser a dela:
"baby, baby, eu não quero foder com você! sei que sou
um amante horrível! tudo o que eu quero é sair
desta maldita chuva!"
ela não respondeu. eu desisti. voltei correndo para
o apartamento do meu primeiro anfitrião. bati na porta.
não adiantou. a chuva era como gelo.
olhei para uma garagem aberta mas estava cheia de lama e água;
nenhum lugar para me deitar.
"deixe-me entrar!", eu gritei. "Jesus! misericórdia! o que eu fiz?
em que eu falhei? VOCÊ É O GUARDIÃO DO SEU IRMÃO!"
meu anfitrião apareceu na porta:
"você é um cachorro sujo!"
"eu sei, mas deixe-me entrar,
por favor."
ele abriu a porta e eu o segui pela
sala.
"cara oh cara." ele disse, "você é um filho da puta, você é um
cachorro covarde, você não vale nada!"
"eu sei," eu disse.
"você contou para ela que eu era um ex-condenado?"
"diabos, não, nem estava pensando em
você."
"então que diabo você quer de
mim?"
"nada, você me pagou a passagem de
trem de volta."
"você insultou a nós dois. eu não me importo comigo mas você não pode
insultar minha mulher. você disse para Helen, "vamos eu e você cair
fora daqui, essas outras pessoas não são de nada!"
"foda-se. você ainda tem algum uísque
sobrando?"
"na geladeira."
"obrigado."
ele grunhiu e subiu para a cama ao lado de sua
mulher.
eu peguei a garrafa e a trouxe para minha cama
e beberiquei beberiquei beberiquei e escutei a
chuva. pensei que a noite tivesse
passado mas aí ele começou
outra vez:
"pensei que você fosse um grande escritor
pensei que você fosse um grande homem
foi por isso que paguei sua passagem até aqui
foi por isso que publiquei sua poesia
foi por isso que quis que toda essa gente o
conhecesse!"
"está certo", eu disse tomando goles do bom uísque.
"eu tenho que ir embora de manhã. por que não vamos todos
dormir?"
"você é realmente um filho da puta!
nunca pensei que você fosse um tamanho filho da puta!
por que você fica sempre com seus olhos semicerrados?
por que você não é capaz de encarar um homem?
por que você sempre desvia o olhar?"
"não sei, não sei."
"você é covarde, é isso: COVARDE!"
eu sabia que era verdade
e tomei um gole grande de uísque e
disse:
"você quer ir lá fora para brigar?"
"diabo! você tem dez anos de vantagem sobre mim!"
"eu lhe dou o primeiro
soco!"
"você promete que vai embora de manhã?"
"com certeza."
Helen soube que eu iria embora
através deles eu acho
e ela chegou lá mais cedo na manhã seguinte para saber se
podia me levar até o hotelzinho para pegar o ônibus até
a estação de trem.
ela ainda estava linda
até mais do que antes
vestindo calças justas e mocassins indígenas e
enquanto ninguém estava olhando
eu me estiquei e peguei seu
pé. ela ignorou mas não me mandou
para o inferno
então me senti todo aquecido
por dentro.
"está bem, eu o levo até lá", ela disse a meus
anfitriões.
"obrigado", eles disseram.
entrei para dar uma
cagada.
"detestamos vê-lo ir embora", eu ouvi
meus anfitriões dizerem.
"eu também", ela
disse.
um cagalhão
saiu.
"voltarei às 2h. para apanhá-lo",
ela disse.
"até logo."
"até logo."
quando eu saí havia 2 índios sentados lá
com meus anfitriões.
o Chefe disse: "eu adiantei aquele negro 8 mangos
por 2 sacos de quatro libras de feijão. passaram 2
semanas e ele ainda não voltou. ele trabalhou para alguma companhia de
cimento.
dê-me sua caderneta de telefones, eu vou encontrar aquele
desgraçado!"
apresentaram-me à sua "squaw". eu a beijei no
rosto. ela deu uma risadinha. tinha uns 60 anos e
um defeito nas pernas.
"estou com problemas," disse o Chefe, e
então arrancou o cobertor do meu catre
e o enrolou em volta de si.
"sou grande Chefe", ele disse, "e tudo que preciso é um
bom pedaço de rabo e depois ir pegar aquele negro."
"não olhe para mim", eu lhe disse, "não sou
nem um nem outro."
o Chefe me olhou:
"acho que preciso de um banho",
ele disse.
ele foi lá e entrou em uma das 3 banheiras em um dos
3 banheiros. então a "squaw" resolveu que ela também precisava tomar
um banho. e depois mais alguém resolveu que precisava dar uma
cagada. todos desapareceram. eu tomei meu drinque e voltei a
dormir.
"sentimos muito por vê-lo ir embora", uma
voz disse, me despertando.
os índios haviam ido embora.
"tudo bem", eu
disse.
ninguém discutiu
comigo.
entrei no carro com Helen e a vista de
seus joelhos de nylon fez martelos baterem em meus miolos.
eu estava tão triste por nunca vir a possuir algo de bom,
algo como ela,
que nada de bom nunca viesse a me pertencer
não porque eu estivesse sempre pobre de dólares
mas porque eu era pobre em expressar-me a dois.
eu era tão amarelo de covardia quanto o sol talvez
mas também tão quente e tão verdadeiro quanto o sol
em algum lugar lá dentro de mim
mas nunca ninguém acharia esse lugar.
eu certamente acabaria para sempre chorando os blues em uma
xícara de café em um parque para velhos jogarem
xadrez ou algum outro jogo bobo.
merda! merda!
e então Helen engatou a marcha e rodamos através das
ricas colinas e não havia nada que eu pudesse lhe dizer
sobre sua beleza ou o quanto eu era durão
ou que só ficar sentado e olhá-la por um mês
sem nunca tocá-la de novo
seria meu único desejo
mas como um desgraçado eu provavelmente estava mentindo para mim
mesmo
eu provavelmente queria tudo tudo
mas agora aos 45
tendo vivido com uma dúzia de mulheres e sem amar nenhuma delas
eu agora estava louco, acabado, enquanto ela
me levava através das colinas tudo gritava dentro de
mim, e eu continuava a dizer enquanto seguíamos
(para mim mesmo, é claro)
fodão, vai passar,
tudo passa,
tudo é uma piada
uma piada sobre você,
esqueça, pense em cachorros mortos coisas mortas pense em
você: indesejado, quebrado, simples, um suposto poeta que escreve
coisas profundas, mas você não é capaz de escrever sobre nada exceto
VOCÊ MESMO. não é verdade? não é verdade? você é uma porra,
um trouxa centrado em si mesmo só esperando por alguma saída fácil?
você anseia
por dinheiro, palanques cheios de aplauso, reconhecimento e um livro
de poemas que ainda será admirado no ano de 2179.
você é um impostor de merda covarde que grita: você não vai conseguir
e
é bom você acostumar-se a isso
agora.
nós rodamos até o hotelzinho
e o pobre poeta impostor disse,
"eu posso lhe dizer adeus?" era
como um filme ruim, só que não era um filme:
eu podia entender Crime e Castigo de Dos
eu podia entender a lua inclinando-se sobre um bar no beco
ao pedir um drinque, mas eu não podia entender nada sobre mim mesmo
eu estava assassinado, eu era um merda, eu era uma matilha de cães,
eu era papoulas ceifadas por rajadas de metralhadora
eu era uma vespa presa em uma teia de aranha
eu era cada vez menos e menos e ainda assim tentando alcançar
algo, e eu pensei em seu comentário banal
a noite passada ou algo assim:
"você tem olhos feridos."
piegas, é claro, mas tudo o que vem de uma mulher
de verdade não é piegas
e eu pensei em suas pinturas decentes de pessoas e coisas
chegando lá querendo querendo
e como um japa na trincheira cercado por heroicas
tropas americanas
eu a beijei
em despedida.
"sinto muito por não ter conseguido ser legal com você",
ela disse. "eu não estava pronta, acho."
"não, foi minha culpa",
eu lhe disse.
entrei no hotelzinho daquela
cidadezinha (de onde levavam de ônibus
até o trem) e me perdi, merda, me perdi,
não conseguia achar a bilheteria, degraus para
cima e para baixo
entrar e sair pelas portas
lágrimas de novo finalmente
como um filme ruim de novo, e
finalmente eu achei o vendedor de bilhetes
e consegui fazer o negócio
de comprar um bilhete.
saí e me sentei no saguão e
olhei por cima do meu bilhete
e lá estava ela.
"o que você está fazendo aqui?", eu perguntei.
"vi você todo encurvado e triste e friorento.
não parei de pensar em você."
o ônibus para o trem estava atrasado, tudo estava
atrasado, assim ela me levou de carro até a cidade nesse meio-tempo e
tive que repassar
a coisa toda com ela.
e eu sabia que mesmo as palavras mais apropriadas nunca resolveriam.
eu estava sujo, sujeira, eu parecia sujeira,
eu estava sujo de sujeira suja,
eu só queria entrar nela,
ficar lá, eu não era nada a não ser um comedor de buceta e
eu estava quebrado. eu não sabia soletrar, eu nem sabia como usar
2 ou 3 garfos para jantar, eu não sabia nada sobre Harvard ou
diplomas ou 50 mil por ano, e ela sabia que tudo isso
era verdade: eu havia sido chutado por aí por muito tempo, eu não sabia
mais
o caminho para cima ou para fora ou nem queria saber: eu estava
destinado ao
fracasso.
eu disse adeus de novo
sugando tudo o que havia sido deixado dela dentro do
pouco que foi deixado de
mim. eu disse: "não me procure de novo. foda-se.
nós estamos todos perdidos. adeus, adeus".
ela era grande. ela foi embora. observei o último clarão
dela dobrar a esquina e desaparecer e
então caminhei de volta até o saguão do hotel.
eles eram boa gente, 5 ou 6 bundões sentados quietos
à espera ali.
2 eram médicos. um outro era dono de qualquer coisa grande
e importante. todos tinham esposas. começava a
nevar.
todos subimos no ônibus para seguir até
o trem. eu já estava dormente,
dormente de novo,
dormente
de novo
e mais uma vez e mais uma vez,
torpor e dor crescendo em
mim - assim como nos bons
velhos tempos.
o mexicano dirigiu rodovia abaixo e quase arrebentou a
embreagem.
pessoas confortáveis faziam piadas confortáveis
sobre o tempo e coisas
mas eu fiquei mais em silêncio
dizendo uma palavra ou outra quando necessário
uma palavra ou outra
tentando esconder-me do fato de eu ser um idiota
e sentido-me horrível
e as pequenas colinas começaram a cobrir-se de neve
vagarosamente as coisas tornaram-se brancas
vagarosamente as coisas tornaram-se mais brancas
e eu sabia que tudo finalmente passaria
e graças à boa graça do bom Deus
meus anos e meu tempo estavam acabando;
seguimos em frente e cada vez mais em frente,
por vilarejos e tanto as coisas boas quanto
as coisas más estavam acontecendo às
pessoas naqueles vilarejos também,
mas eu continuava a não ser nada
a não ser braços e orelhas e olhos e talvez ainda houvesse
alguma sorte para mim ou
mais morte amanhã.
estávamos sentados esperando-a.
ela havia ido a alguma exposição de arte ou qualquer outra
maldita coisa inútil.
era uma boa artista
melhor que muitos homens
e esse era O
problema.
"que diabo aconteceu com Helen?"
"onde está Helen?"
o marido de Helen, ex-marido, agora estava sentado no topo de uma
colina em algum lugar com uma nova puta de olhos azuis.
uma puta
muito puta: ela até escrevia
poesia. Vicki era o nome dela. Vicki agora era "Sra."
ela havia trocado um marido rico por outro mais
rico ainda.
"Helen me pediu para não odiar Vicki!", disse minha anfitriã,
"mas que diabo, não consigo gostar de Vicki."
"que diabo", disse meu anfitrião, "você não pode nem
tentar?"
"você gosta de Vicki?", perguntou minha anfitriã.
Vicki me parecia legal. eu não conseguia achar nada de errado
nela.
"onde está Helen?", perguntei de novo. "oh onde oh onde diabos está
Helen?"
"ela vai chegar, ela vai chegar, ela disse que estava
chegando."
Helen apareceu 3 horas mais tarde.
ela parecia uma serpente em um vestido verde, todo fluido,
louco louco, lustroso,
seu colar prateado pulsando
em sua garganta
bem debaixo do meu nariz.
ela era consumida por 3 simples coisas:
bebida, desespero, solidão; e mais 2:
juventude e beleza.
era demais:
eu não podia resistir à força
dela. eu a beijei. eu a beijei
de novo. eu era como um garoto na escola,
toda a minha dureza
tinha desaparecido.
"vamos cair fora daqui!"
eu lhe disse, ignorando nosso anfitrião e nossa anfitriã.
fomos para sua casa logo ao lado
e eu fiquei na cozinha bebendo e
observando-a.
"seu corpo, seu corpo, Jesus!", eu lhe
disse. ela era realmente bela e dava risadas,
como quando você lê a respeito em um romance
só que isso nunca acontece com
ninguém.
ela contorceu seu corpo e enquanto cantarolava
fez uma adorável dança repleta de
insinuações.
"baby, eu te amo", eu disse, "baby, eu te
amo!"
nós descemos para um salão escuro com um crucifixo
na parede e alguns de seus quadros. entramos em
outro quarto grande. continuei no meu
drinque.
"fique aqui", ela disse.
sentei-me em um sofá e bebi. parecia
frio e vazio de repente e eu
me perguntava aonde ela havia ido.
então olhei em volta e ela estava deitada em outro sofá
nua e sorridente
o que foi inesperado
pois estou acostumado a despir minhas
mulheres.
e a visão dela ali nua em pelo me fazia lembrar mais
dos meus dias no matadouro do
que de Mozart,
mas, é claro, quem quer foder
com Mozart?
terminei meu drinque e tirei a roupa e tentei
mas acho que não estava lá essas coisas
foi minha culpa
minha culpa
e ela me empurrou
pra longe.
eu fiz mais algumas tentativas
desanimadas e então ela se levantou e saiu.
também me vesti e depois
não me lembro de muita coisa exceto
de estar um bocado bêbado.
mas quando ela me pôs para fora na chuva
eu ressuscitei.
a chuva estava molhada a chuva estava fria a chuva estava
gelada.
"merda!", eu disse, "merda!" corri de volta para
a porta dela ou a porta que achei que fosse dela
mas parecia haver dúzias de portas,
uma série de apartamentos todos
engatados.
bati na porta que esperava ser a dela:
"baby, baby, eu não quero foder com você! sei que sou
um amante horrível! tudo o que eu quero é sair
desta maldita chuva!"
ela não respondeu. eu desisti. voltei correndo para
o apartamento do meu primeiro anfitrião. bati na porta.
não adiantou. a chuva era como gelo.
olhei para uma garagem aberta mas estava cheia de lama e água;
nenhum lugar para me deitar.
"deixe-me entrar!", eu gritei. "Jesus! misericórdia! o que eu fiz?
em que eu falhei? VOCÊ É O GUARDIÃO DO SEU IRMÃO!"
meu anfitrião apareceu na porta:
"você é um cachorro sujo!"
"eu sei, mas deixe-me entrar,
por favor."
ele abriu a porta e eu o segui pela
sala.
"cara oh cara." ele disse, "você é um filho da puta, você é um
cachorro covarde, você não vale nada!"
"eu sei," eu disse.
"você contou para ela que eu era um ex-condenado?"
"diabos, não, nem estava pensando em
você."
"então que diabo você quer de
mim?"
"nada, você me pagou a passagem de
trem de volta."
"você insultou a nós dois. eu não me importo comigo mas você não pode
insultar minha mulher. você disse para Helen, "vamos eu e você cair
fora daqui, essas outras pessoas não são de nada!"
"foda-se. você ainda tem algum uísque
sobrando?"
"na geladeira."
"obrigado."
ele grunhiu e subiu para a cama ao lado de sua
mulher.
eu peguei a garrafa e a trouxe para minha cama
e beberiquei beberiquei beberiquei e escutei a
chuva. pensei que a noite tivesse
passado mas aí ele começou
outra vez:
"pensei que você fosse um grande escritor
pensei que você fosse um grande homem
foi por isso que paguei sua passagem até aqui
foi por isso que publiquei sua poesia
foi por isso que quis que toda essa gente o
conhecesse!"
"está certo", eu disse tomando goles do bom uísque.
"eu tenho que ir embora de manhã. por que não vamos todos
dormir?"
"você é realmente um filho da puta!
nunca pensei que você fosse um tamanho filho da puta!
por que você fica sempre com seus olhos semicerrados?
por que você não é capaz de encarar um homem?
por que você sempre desvia o olhar?"
"não sei, não sei."
"você é covarde, é isso: COVARDE!"
eu sabia que era verdade
e tomei um gole grande de uísque e
disse:
"você quer ir lá fora para brigar?"
"diabo! você tem dez anos de vantagem sobre mim!"
"eu lhe dou o primeiro
soco!"
"você promete que vai embora de manhã?"
"com certeza."
Helen soube que eu iria embora
através deles eu acho
e ela chegou lá mais cedo na manhã seguinte para saber se
podia me levar até o hotelzinho para pegar o ônibus até
a estação de trem.
ela ainda estava linda
até mais do que antes
vestindo calças justas e mocassins indígenas e
enquanto ninguém estava olhando
eu me estiquei e peguei seu
pé. ela ignorou mas não me mandou
para o inferno
então me senti todo aquecido
por dentro.
"está bem, eu o levo até lá", ela disse a meus
anfitriões.
"obrigado", eles disseram.
entrei para dar uma
cagada.
"detestamos vê-lo ir embora", eu ouvi
meus anfitriões dizerem.
"eu também", ela
disse.
um cagalhão
saiu.
"voltarei às 2h. para apanhá-lo",
ela disse.
"até logo."
"até logo."
quando eu saí havia 2 índios sentados lá
com meus anfitriões.
o Chefe disse: "eu adiantei aquele negro 8 mangos
por 2 sacos de quatro libras de feijão. passaram 2
semanas e ele ainda não voltou. ele trabalhou para alguma companhia de
cimento.
dê-me sua caderneta de telefones, eu vou encontrar aquele
desgraçado!"
apresentaram-me à sua "squaw". eu a beijei no
rosto. ela deu uma risadinha. tinha uns 60 anos e
um defeito nas pernas.
"estou com problemas," disse o Chefe, e
então arrancou o cobertor do meu catre
e o enrolou em volta de si.
"sou grande Chefe", ele disse, "e tudo que preciso é um
bom pedaço de rabo e depois ir pegar aquele negro."
"não olhe para mim", eu lhe disse, "não sou
nem um nem outro."
o Chefe me olhou:
"acho que preciso de um banho",
ele disse.
ele foi lá e entrou em uma das 3 banheiras em um dos
3 banheiros. então a "squaw" resolveu que ela também precisava tomar
um banho. e depois mais alguém resolveu que precisava dar uma
cagada. todos desapareceram. eu tomei meu drinque e voltei a
dormir.
"sentimos muito por vê-lo ir embora", uma
voz disse, me despertando.
os índios haviam ido embora.
"tudo bem", eu
disse.
ninguém discutiu
comigo.
entrei no carro com Helen e a vista de
seus joelhos de nylon fez martelos baterem em meus miolos.
eu estava tão triste por nunca vir a possuir algo de bom,
algo como ela,
que nada de bom nunca viesse a me pertencer
não porque eu estivesse sempre pobre de dólares
mas porque eu era pobre em expressar-me a dois.
eu era tão amarelo de covardia quanto o sol talvez
mas também tão quente e tão verdadeiro quanto o sol
em algum lugar lá dentro de mim
mas nunca ninguém acharia esse lugar.
eu certamente acabaria para sempre chorando os blues em uma
xícara de café em um parque para velhos jogarem
xadrez ou algum outro jogo bobo.
merda! merda!
e então Helen engatou a marcha e rodamos através das
ricas colinas e não havia nada que eu pudesse lhe dizer
sobre sua beleza ou o quanto eu era durão
ou que só ficar sentado e olhá-la por um mês
sem nunca tocá-la de novo
seria meu único desejo
mas como um desgraçado eu provavelmente estava mentindo para mim
mesmo
eu provavelmente queria tudo tudo
mas agora aos 45
tendo vivido com uma dúzia de mulheres e sem amar nenhuma delas
eu agora estava louco, acabado, enquanto ela
me levava através das colinas tudo gritava dentro de
mim, e eu continuava a dizer enquanto seguíamos
(para mim mesmo, é claro)
fodão, vai passar,
tudo passa,
tudo é uma piada
uma piada sobre você,
esqueça, pense em cachorros mortos coisas mortas pense em
você: indesejado, quebrado, simples, um suposto poeta que escreve
coisas profundas, mas você não é capaz de escrever sobre nada exceto
VOCÊ MESMO. não é verdade? não é verdade? você é uma porra,
um trouxa centrado em si mesmo só esperando por alguma saída fácil?
você anseia
por dinheiro, palanques cheios de aplauso, reconhecimento e um livro
de poemas que ainda será admirado no ano de 2179.
você é um impostor de merda covarde que grita: você não vai conseguir
e
é bom você acostumar-se a isso
agora.
nós rodamos até o hotelzinho
e o pobre poeta impostor disse,
"eu posso lhe dizer adeus?" era
como um filme ruim, só que não era um filme:
eu podia entender Crime e Castigo de Dos
eu podia entender a lua inclinando-se sobre um bar no beco
ao pedir um drinque, mas eu não podia entender nada sobre mim mesmo
eu estava assassinado, eu era um merda, eu era uma matilha de cães,
eu era papoulas ceifadas por rajadas de metralhadora
eu era uma vespa presa em uma teia de aranha
eu era cada vez menos e menos e ainda assim tentando alcançar
algo, e eu pensei em seu comentário banal
a noite passada ou algo assim:
"você tem olhos feridos."
piegas, é claro, mas tudo o que vem de uma mulher
de verdade não é piegas
e eu pensei em suas pinturas decentes de pessoas e coisas
chegando lá querendo querendo
e como um japa na trincheira cercado por heroicas
tropas americanas
eu a beijei
em despedida.
"sinto muito por não ter conseguido ser legal com você",
ela disse. "eu não estava pronta, acho."
"não, foi minha culpa",
eu lhe disse.
entrei no hotelzinho daquela
cidadezinha (de onde levavam de ônibus
até o trem) e me perdi, merda, me perdi,
não conseguia achar a bilheteria, degraus para
cima e para baixo
entrar e sair pelas portas
lágrimas de novo finalmente
como um filme ruim de novo, e
finalmente eu achei o vendedor de bilhetes
e consegui fazer o negócio
de comprar um bilhete.
saí e me sentei no saguão e
olhei por cima do meu bilhete
e lá estava ela.
"o que você está fazendo aqui?", eu perguntei.
"vi você todo encurvado e triste e friorento.
não parei de pensar em você."
o ônibus para o trem estava atrasado, tudo estava
atrasado, assim ela me levou de carro até a cidade nesse meio-tempo e
tive que repassar
a coisa toda com ela.
e eu sabia que mesmo as palavras mais apropriadas nunca resolveriam.
eu estava sujo, sujeira, eu parecia sujeira,
eu estava sujo de sujeira suja,
eu só queria entrar nela,
ficar lá, eu não era nada a não ser um comedor de buceta e
eu estava quebrado. eu não sabia soletrar, eu nem sabia como usar
2 ou 3 garfos para jantar, eu não sabia nada sobre Harvard ou
diplomas ou 50 mil por ano, e ela sabia que tudo isso
era verdade: eu havia sido chutado por aí por muito tempo, eu não sabia
mais
o caminho para cima ou para fora ou nem queria saber: eu estava
destinado ao
fracasso.
eu disse adeus de novo
sugando tudo o que havia sido deixado dela dentro do
pouco que foi deixado de
mim. eu disse: "não me procure de novo. foda-se.
nós estamos todos perdidos. adeus, adeus".
ela era grande. ela foi embora. observei o último clarão
dela dobrar a esquina e desaparecer e
então caminhei de volta até o saguão do hotel.
eles eram boa gente, 5 ou 6 bundões sentados quietos
à espera ali.
2 eram médicos. um outro era dono de qualquer coisa grande
e importante. todos tinham esposas. começava a
nevar.
todos subimos no ônibus para seguir até
o trem. eu já estava dormente,
dormente de novo,
dormente
de novo
e mais uma vez e mais uma vez,
torpor e dor crescendo em
mim - assim como nos bons
velhos tempos.
o mexicano dirigiu rodovia abaixo e quase arrebentou a
embreagem.
pessoas confortáveis faziam piadas confortáveis
sobre o tempo e coisas
mas eu fiquei mais em silêncio
dizendo uma palavra ou outra quando necessário
uma palavra ou outra
tentando esconder-me do fato de eu ser um idiota
e sentido-me horrível
e as pequenas colinas começaram a cobrir-se de neve
vagarosamente as coisas tornaram-se brancas
vagarosamente as coisas tornaram-se mais brancas
e eu sabia que tudo finalmente passaria
e graças à boa graça do bom Deus
meus anos e meu tempo estavam acabando;
seguimos em frente e cada vez mais em frente,
por vilarejos e tanto as coisas boas quanto
as coisas más estavam acontecendo às
pessoas naqueles vilarejos também,
mas eu continuava a não ser nada
a não ser braços e orelhas e olhos e talvez ainda houvesse
alguma sorte para mim ou
mais morte amanhã.
1 832
Charles Bukowski
Dr. Nazi
Bem, sou um homem com muitos problemas e suponho que em sua maioria sejam criados por mim mesmo. Estou falando de problemas com mulheres, jogo, hostilidade contra grupos de pessoas, e, quanto maior o grupo, maior a hostilidade. Dizem que sou negativo, sombrio e taciturno.
Sempre me lembro da mulher que me gritou assim:
– Você é tão negativo, porra! A vida pode ser bonita!
Suponho que possa e especialmente com menos gritaria. Mas quero falar de meu médico. Não vou a psiquiatras. Psiquiatras não valem nada e estão muito satisfeitos consigo mesmos. Mas um bom médico está sempre de saco cheio e/ou louco, e, portanto, muito mais interessante.
Fui ao consultório do dr. Kiepenheur porque era o mais perto. Minhas mãos estavam estourando com pequenas bolhas brancas... um sinal, imaginei, da minha ansiedade presente ou possivelmente câncer. Eu usava luvas grossas para que as pessoas não ficassem olhando. E minhas mãos ardiam dentro das luvas, enquanto eu fumava dois maços de cigarro por dia.
Entrei no consultório do doutor. Minha consulta era a primeira. Sendo o homem ansioso que eu era, estava trinta minutos adiantado, pensando no câncer. Caminhei pela sala de espera, olhando para o escritório. Ali estava uma enfermeira-recepcionista agachada no chão com o seu uniforme branco e justo, seu vestido subira quase até os quadris, coxas grossas e potentes apareciam através da meia-calça de náilon apertada. Esqueci completamente do câncer. Ela não me ouvira, e eu olhava suas pernas e coxas desveladas, apreciava aquela bunda deliciosa com meus olhos. Ela estava secando água do chão, a privada havia transbordado e ela dizia palavrões, de modo passional, e ela era rosa e marrom e cheia de vida e desvelada e eu a encarava.
Ela olhou para cima.
– Sim?
– Vá em frente – eu disse –, não deixe que eu a atrapalhe.
– É a privada – ela disse –, vive transbordando.
Ela continuou secando e eu continuei olhando por cima da revista Life. Finalmente ela se levantou. Caminhei até o sofá e me sentei. Ela revisou a agenda de consultas.
– Você é o sr. Chinaski?
– Sim.
– Por que não tira as luvas? Está quente aqui.
– Prefiro não tirá-las, se não se importa.
– O dr. Kiepenheuer logo estará aqui.
– Tudo bem. Posso esperar.
– Qual é o seu problema?
– Câncer.
– Câncer?
– Sim.
A enfermeira desapareceu, e eu li a Life e depois outro exemplar da Life e então uma Sports Illustrated e em seguida fiquei sentado, olhando as pinturas de paisagens marítimas e terrestres pregadas na parede. Logo uma música de saxofone surgiu de algum lugar. Então, subitamente, todas as luzes piscaram, então mais uma vez, e imaginei se haveria alguma maneira de estuprar a enfermeira e não ser preso, quando o médico entrou. Ignorei-o, e ele me ignorou, de modo que ficamos quites.
Ele me chamou para seu escritório. Estava sentado em um banquinho e me olhou. Tinha uma cara amarela e cabelos amarelados e seus olhos eram opacos. Ele estava morrendo. Devia ter uns 42 anos. Vi-o e lhe dei seis meses de vida.
– Por que as luvas? – ele perguntou.
– Sou um homem sensível, doutor.
– É?
– Sim.
– Então devo lhe informar que eu já fui nazista.
– Tudo bem.
– Não se importa de eu já ter sido nazista?
– Não, não me importo.
– Fui capturado. Eles me levaram pela França em um vagão de trem com as portas abertas, e as pessoas ficavam ao longo do caminho e atiravam bombas de fedor e pedras e todo tipo de lixo em nós... ossos de peixe, plantas mortas, excremento, tudo o que se possa imaginar.
Então o doutor me falou de sua esposa. Ela estava tentando lhe arrancar o couro. Uma tremenda cadela. Queria toda a grana dele. A casa. O jardim. A casa de verão. O jardineiro também, provavelmente, se já não o tinha. E o carro. E uma pensão. Além de uma grande quantia em dinheiro. Mulher horrível. Ele trabalhava tão duro. Cinquenta pacientes por dia a dez dólares por cabeça. Quase impossível sobreviver. E aquela mulher. Mulher. Sim, mulher. Ele decompôs a palavra para mim. Não lembro se ele disse mulher ou fêmea ou outra coisa, mas ele decompôs a palavra para mim em latim e a dividiu para me mostrar qual era a raiz... em latim: mulheres eram basicamente insanas.
Enquanto ele falava sobre a insanidade das mulheres, comecei a me sentir bem com o doutor. Minha cabeça sinalizava em concordância.
Subitamente ele me mandou para a balança, me pesou, então auscultou meu coração e meu peito. Tirou rudemente as minhas luvas, lavou minhas mãos com algum tipo de merda e abriu as bolhas com uma lâmina, ainda falando sobre o rancor e a vingança que todas as mulheres carregavam em seus corações. Era glandular. As mulheres eram comandadas por suas glândulas; os homens, por seus corações. Era por isso que apenas os homens sofriam.
Disse que eu deveria lavar as mãos regularmente e jogar as malditas luvas fora. Falou um pouco mais sobre as mulheres e sua esposa e então fui embora.
O problema seguinte foram vertigens que me causavam desmaios. Mas só me acontecia quando eu estava em pé em alguma fila. Comecei a ficar aterrorizado de ter que ficar em qualquer fila. Era insuportável.
Descobri que na América e provavelmente em todos os outros lugares, tudo se resumia a ficar na fila. Fazíamos isso em toda parte. Carteira de motorista: três ou quatro filas. Hipódromo: filas. Cinema: filas. Mercado: filas. Eu odiava filas. Senti que devia haver uma maneira de evitar as filas. Então a resposta me iluminou. Ter mais atendentes. Sim, essa era a solução. Dois atendentes para cada pessoa. Três atendentes. Deixem os atendentes fazerem fila.
Sabia que as filas estavam me matando. Não podia aceitá-las, mas todo mundo aceitava. Todo mundo era normal. A vida era bela para eles. Podiam ficar na fila sem sentir dor. Podiam ficar na fila para sempre. Eles até mesmo gostavam de ficar na fila. Conversavam e se mostravam os dentes e sorriam e flertavam uns com os outros. Não tinham mais nada para fazer. Não conseguiam pensar em mais nada para fazer. E eu tinha que olhar para suas orelhas e bocas e pescoços e pernas e bundas e narinas, tudo aquilo. Podia sentir raios de morte emanando de seus corpos, como vapores e, ouvindo suas conversas, eu sentia vontade de gritar:
– Jesus Cristo, alguém me ajude! Tenho que sofrer desta forma só para comprar um quilo de hambúrger e um pedaço de pão de centeio?
A tontura vinha, e eu espichava e afastava minhas pernas para evitar cair no chão, o supermercado girava e também as caras dos atendentes do supermercado com seus bigodes dourados e marrons, seus olhos alegres e espertos, todos chegarão a gerentes de supermercado um dia, com suas caras esfoliadas e contentes, comprando casas em Arcádia e trepando à noite com suas esposas loiras, pálidas e graciosas.
Marquei novamente uma consulta com o doutor. Recebi o primeiro horário. Cheguei meia hora mais cedo e a privada estava consertada. A enfermeira estava tirando o pó do escritório. Ela se curvou e se endireitou e se curvou um pouco e então se curvava para a direita e então se curvava para a esquerda e virou a bunda para mim e se curvou. O uniforme branco se contraía e subia, escalava, se erguia; aqui estava um joelho com covinhas, lá uma coxa, aqui um quadril, lá o corpo inteiro. Sentei e abri um exemplar da Life.
Ela parou de tirar o pó e pôs a cabeça para fora e me sorriu:
– Livrou-se das luvas, sr. Chinaski.
– Sim.
O doutor entrou, parecendo estar um pouco mais perto da morte, acenou com a cabeça, levantei e o segui para seu consultório.
Ele sentou em seu banco.
– Chinaski, como vai?
– Bem, doutor...
– Problema com as mulheres?
– Bem, é claro, mas...
Ele não me deixava terminar minhas frases. Tinha perdido mais cabelo. Seus dedos se contraíam. Parecia não ter mais fôlego. Mais magro. Era um homem desesperado.
Sua esposa o estava esfolando. Tinham ido ao tribunal. Ela lhe deu um tapa no tribunal. Ele gostou disso. Ajudou no caso. Eles viram quem era aquela cadela. De qualquer forma, não se saiu tão mal. Ela lhe deixara alguma coisa. É claro, sabe quanto custam os advogados. Desgraçados. Já reparou nos advogados? Quase sempre gordos. Especialmente ao redor do rosto.
– De qualquer forma, caralho, ela me ferrou. Mas tenho um pouco guardado. Quer saber quanto custa uma tesoura como essa? Olha bem. Latão com um parafuso. Dezoito e cinquenta. Meu Deus, e eles odiavam os nazistas. O que é um nazista comparado a isso?
– Não sei, doutor. Já disse que sou um homem confuso.
– Já tentou um psiquiatra?
– Não adianta. São idiotas, sem imaginação. Não preciso de psiquiatras. Ouvi dizer que eles acabam molestando sexualmente suas pacientes. Eu gostaria de ser um psiquiatra, se eu pudesse foder todas as mulheres. Fora isso, o trabalho deles é inútil.
Meu doutor se endireitou no seu banco. Ele amarelou e acinzentou um pouco mais. Um gigantesco espasmo percorreu seu corpo. Estava quase acabado. Um bom camarada, apesar de tudo.
– Bem, me livrei da minha esposa – ele disse. – Está acabado.
– Bom – eu disse –, me conte de quando você era nazista.
– Bem, não tínhamos muita escolha. Eles simplesmente nos faziam entrar. Eu era jovem. Quero dizer, porra, o que se pode fazer? Só se pode viver em um país por vez. Vai-se à guerra e, se não acaba morrendo, acaba em um vagão aberto com pessoas atirando merda em você...
Perguntei-lhe se ele trepava com sua enfermeira gostosa. Ele sorriu gentilmente. O sorriso era um sim. Então me disse que desde o divórcio, bem, vinha se encontrando com uma de suas pacientes e ele sabia que não era ético fazer isso com pacientes...
– Não, acho que está tudo bem, doutor.
– É uma mulher muito inteligente. Casei com ela.
– Tudo bem.
– Agora estou feliz... mas...
Então ele esticou suas mãos abertas, lado a lado, com as palmas para cima...
Contei-lhe sobre o meu medo de filas. Ele me deu uma receita de Librium.
Então fui atacado por uma furunculose na minha bunda. Estava em agonia. Amarraram-me com tiras de couro, esses sujeitos podem fazer o que quiserem com você, me deram uma anestesia local e me abriram o cu. Virei minha cabeça e olhei para o meu doutor e disse:
– Há alguma possibilidade de que eu mude de ideia?
Três rostos me olhavam de cima. O do médico e outros dois. Ele para cortar. Ela para as bandagens. Um terceiro metendo agulhas.
– Você não pode mudar de ideia – disse o doutor e esfregou suas mãos e arreganhou os dentes e começou...
A última vez que o vi foi por causa de algo relacionado à cera em meus ouvidos. Eu podia ver seus lábios se mexendo, tentei entender, mas não podia ouvir. Eu sabia, por seus olhos e por sua cara, que eram tempos difíceis para ele outra vez e assenti com a cabeça.
Fazia calor. Eu estava um pouco tonto e pensei, bem, sim, ele é um bom camarada, mas por que não me deixa falar sobre os meus problemas, isso não é justo, também tenho problemas e tenho que pagá-lo.
Por fim, meu doutor se deu conta de que eu não estava ouvindo nada. Pegou algo que parecia com um extintor de incêndio e meteu em meus ouvidos. Mais tarde me mostrou grandes pedaços de cera... era a cera, ele disse. E apontou para um balde. Parecia realmente com feijões requentados.
Levantei da mesa, paguei-o e me fui. Ainda não podia ouvir nada. Não me sentia particularmente mal nem bem e imaginei que doença eu lhe traria da próxima vez, o que ele faria a respeito disso, o que ele faria com respeito à sua filha de dezessete anos que estava apaixonada por outra mulher e que iria casar com ela e me ocorreu que todo mundo sofria continuamente, incluindo aqueles que fingiam não sofrer. Parecia-me que essa era uma boa descoberta. Olhei para o garoto que vendia jornal e pensei, hummmm, hummmm, e olhei para a próxima pessoa que passou e pensei hummmm, hummmm, hummmmmm, e no semáforo perto do hospital, um carro novo e preto dobrou a esquina e atropelou uma bela garota que vestia um minivestido azul, e ela era loira e tinha faixas azuis no cabelo e se sentou na rua, ao sol, e um filete escarlate correu de seu nariz.
– Ao sul de lugar nenhum
Sempre me lembro da mulher que me gritou assim:
– Você é tão negativo, porra! A vida pode ser bonita!
Suponho que possa e especialmente com menos gritaria. Mas quero falar de meu médico. Não vou a psiquiatras. Psiquiatras não valem nada e estão muito satisfeitos consigo mesmos. Mas um bom médico está sempre de saco cheio e/ou louco, e, portanto, muito mais interessante.
Fui ao consultório do dr. Kiepenheur porque era o mais perto. Minhas mãos estavam estourando com pequenas bolhas brancas... um sinal, imaginei, da minha ansiedade presente ou possivelmente câncer. Eu usava luvas grossas para que as pessoas não ficassem olhando. E minhas mãos ardiam dentro das luvas, enquanto eu fumava dois maços de cigarro por dia.
Entrei no consultório do doutor. Minha consulta era a primeira. Sendo o homem ansioso que eu era, estava trinta minutos adiantado, pensando no câncer. Caminhei pela sala de espera, olhando para o escritório. Ali estava uma enfermeira-recepcionista agachada no chão com o seu uniforme branco e justo, seu vestido subira quase até os quadris, coxas grossas e potentes apareciam através da meia-calça de náilon apertada. Esqueci completamente do câncer. Ela não me ouvira, e eu olhava suas pernas e coxas desveladas, apreciava aquela bunda deliciosa com meus olhos. Ela estava secando água do chão, a privada havia transbordado e ela dizia palavrões, de modo passional, e ela era rosa e marrom e cheia de vida e desvelada e eu a encarava.
Ela olhou para cima.
– Sim?
– Vá em frente – eu disse –, não deixe que eu a atrapalhe.
– É a privada – ela disse –, vive transbordando.
Ela continuou secando e eu continuei olhando por cima da revista Life. Finalmente ela se levantou. Caminhei até o sofá e me sentei. Ela revisou a agenda de consultas.
– Você é o sr. Chinaski?
– Sim.
– Por que não tira as luvas? Está quente aqui.
– Prefiro não tirá-las, se não se importa.
– O dr. Kiepenheuer logo estará aqui.
– Tudo bem. Posso esperar.
– Qual é o seu problema?
– Câncer.
– Câncer?
– Sim.
A enfermeira desapareceu, e eu li a Life e depois outro exemplar da Life e então uma Sports Illustrated e em seguida fiquei sentado, olhando as pinturas de paisagens marítimas e terrestres pregadas na parede. Logo uma música de saxofone surgiu de algum lugar. Então, subitamente, todas as luzes piscaram, então mais uma vez, e imaginei se haveria alguma maneira de estuprar a enfermeira e não ser preso, quando o médico entrou. Ignorei-o, e ele me ignorou, de modo que ficamos quites.
Ele me chamou para seu escritório. Estava sentado em um banquinho e me olhou. Tinha uma cara amarela e cabelos amarelados e seus olhos eram opacos. Ele estava morrendo. Devia ter uns 42 anos. Vi-o e lhe dei seis meses de vida.
– Por que as luvas? – ele perguntou.
– Sou um homem sensível, doutor.
– É?
– Sim.
– Então devo lhe informar que eu já fui nazista.
– Tudo bem.
– Não se importa de eu já ter sido nazista?
– Não, não me importo.
– Fui capturado. Eles me levaram pela França em um vagão de trem com as portas abertas, e as pessoas ficavam ao longo do caminho e atiravam bombas de fedor e pedras e todo tipo de lixo em nós... ossos de peixe, plantas mortas, excremento, tudo o que se possa imaginar.
Então o doutor me falou de sua esposa. Ela estava tentando lhe arrancar o couro. Uma tremenda cadela. Queria toda a grana dele. A casa. O jardim. A casa de verão. O jardineiro também, provavelmente, se já não o tinha. E o carro. E uma pensão. Além de uma grande quantia em dinheiro. Mulher horrível. Ele trabalhava tão duro. Cinquenta pacientes por dia a dez dólares por cabeça. Quase impossível sobreviver. E aquela mulher. Mulher. Sim, mulher. Ele decompôs a palavra para mim. Não lembro se ele disse mulher ou fêmea ou outra coisa, mas ele decompôs a palavra para mim em latim e a dividiu para me mostrar qual era a raiz... em latim: mulheres eram basicamente insanas.
Enquanto ele falava sobre a insanidade das mulheres, comecei a me sentir bem com o doutor. Minha cabeça sinalizava em concordância.
Subitamente ele me mandou para a balança, me pesou, então auscultou meu coração e meu peito. Tirou rudemente as minhas luvas, lavou minhas mãos com algum tipo de merda e abriu as bolhas com uma lâmina, ainda falando sobre o rancor e a vingança que todas as mulheres carregavam em seus corações. Era glandular. As mulheres eram comandadas por suas glândulas; os homens, por seus corações. Era por isso que apenas os homens sofriam.
Disse que eu deveria lavar as mãos regularmente e jogar as malditas luvas fora. Falou um pouco mais sobre as mulheres e sua esposa e então fui embora.
O problema seguinte foram vertigens que me causavam desmaios. Mas só me acontecia quando eu estava em pé em alguma fila. Comecei a ficar aterrorizado de ter que ficar em qualquer fila. Era insuportável.
Descobri que na América e provavelmente em todos os outros lugares, tudo se resumia a ficar na fila. Fazíamos isso em toda parte. Carteira de motorista: três ou quatro filas. Hipódromo: filas. Cinema: filas. Mercado: filas. Eu odiava filas. Senti que devia haver uma maneira de evitar as filas. Então a resposta me iluminou. Ter mais atendentes. Sim, essa era a solução. Dois atendentes para cada pessoa. Três atendentes. Deixem os atendentes fazerem fila.
Sabia que as filas estavam me matando. Não podia aceitá-las, mas todo mundo aceitava. Todo mundo era normal. A vida era bela para eles. Podiam ficar na fila sem sentir dor. Podiam ficar na fila para sempre. Eles até mesmo gostavam de ficar na fila. Conversavam e se mostravam os dentes e sorriam e flertavam uns com os outros. Não tinham mais nada para fazer. Não conseguiam pensar em mais nada para fazer. E eu tinha que olhar para suas orelhas e bocas e pescoços e pernas e bundas e narinas, tudo aquilo. Podia sentir raios de morte emanando de seus corpos, como vapores e, ouvindo suas conversas, eu sentia vontade de gritar:
– Jesus Cristo, alguém me ajude! Tenho que sofrer desta forma só para comprar um quilo de hambúrger e um pedaço de pão de centeio?
A tontura vinha, e eu espichava e afastava minhas pernas para evitar cair no chão, o supermercado girava e também as caras dos atendentes do supermercado com seus bigodes dourados e marrons, seus olhos alegres e espertos, todos chegarão a gerentes de supermercado um dia, com suas caras esfoliadas e contentes, comprando casas em Arcádia e trepando à noite com suas esposas loiras, pálidas e graciosas.
Marquei novamente uma consulta com o doutor. Recebi o primeiro horário. Cheguei meia hora mais cedo e a privada estava consertada. A enfermeira estava tirando o pó do escritório. Ela se curvou e se endireitou e se curvou um pouco e então se curvava para a direita e então se curvava para a esquerda e virou a bunda para mim e se curvou. O uniforme branco se contraía e subia, escalava, se erguia; aqui estava um joelho com covinhas, lá uma coxa, aqui um quadril, lá o corpo inteiro. Sentei e abri um exemplar da Life.
Ela parou de tirar o pó e pôs a cabeça para fora e me sorriu:
– Livrou-se das luvas, sr. Chinaski.
– Sim.
O doutor entrou, parecendo estar um pouco mais perto da morte, acenou com a cabeça, levantei e o segui para seu consultório.
Ele sentou em seu banco.
– Chinaski, como vai?
– Bem, doutor...
– Problema com as mulheres?
– Bem, é claro, mas...
Ele não me deixava terminar minhas frases. Tinha perdido mais cabelo. Seus dedos se contraíam. Parecia não ter mais fôlego. Mais magro. Era um homem desesperado.
Sua esposa o estava esfolando. Tinham ido ao tribunal. Ela lhe deu um tapa no tribunal. Ele gostou disso. Ajudou no caso. Eles viram quem era aquela cadela. De qualquer forma, não se saiu tão mal. Ela lhe deixara alguma coisa. É claro, sabe quanto custam os advogados. Desgraçados. Já reparou nos advogados? Quase sempre gordos. Especialmente ao redor do rosto.
– De qualquer forma, caralho, ela me ferrou. Mas tenho um pouco guardado. Quer saber quanto custa uma tesoura como essa? Olha bem. Latão com um parafuso. Dezoito e cinquenta. Meu Deus, e eles odiavam os nazistas. O que é um nazista comparado a isso?
– Não sei, doutor. Já disse que sou um homem confuso.
– Já tentou um psiquiatra?
– Não adianta. São idiotas, sem imaginação. Não preciso de psiquiatras. Ouvi dizer que eles acabam molestando sexualmente suas pacientes. Eu gostaria de ser um psiquiatra, se eu pudesse foder todas as mulheres. Fora isso, o trabalho deles é inútil.
Meu doutor se endireitou no seu banco. Ele amarelou e acinzentou um pouco mais. Um gigantesco espasmo percorreu seu corpo. Estava quase acabado. Um bom camarada, apesar de tudo.
– Bem, me livrei da minha esposa – ele disse. – Está acabado.
– Bom – eu disse –, me conte de quando você era nazista.
– Bem, não tínhamos muita escolha. Eles simplesmente nos faziam entrar. Eu era jovem. Quero dizer, porra, o que se pode fazer? Só se pode viver em um país por vez. Vai-se à guerra e, se não acaba morrendo, acaba em um vagão aberto com pessoas atirando merda em você...
Perguntei-lhe se ele trepava com sua enfermeira gostosa. Ele sorriu gentilmente. O sorriso era um sim. Então me disse que desde o divórcio, bem, vinha se encontrando com uma de suas pacientes e ele sabia que não era ético fazer isso com pacientes...
– Não, acho que está tudo bem, doutor.
– É uma mulher muito inteligente. Casei com ela.
– Tudo bem.
– Agora estou feliz... mas...
Então ele esticou suas mãos abertas, lado a lado, com as palmas para cima...
Contei-lhe sobre o meu medo de filas. Ele me deu uma receita de Librium.
Então fui atacado por uma furunculose na minha bunda. Estava em agonia. Amarraram-me com tiras de couro, esses sujeitos podem fazer o que quiserem com você, me deram uma anestesia local e me abriram o cu. Virei minha cabeça e olhei para o meu doutor e disse:
– Há alguma possibilidade de que eu mude de ideia?
Três rostos me olhavam de cima. O do médico e outros dois. Ele para cortar. Ela para as bandagens. Um terceiro metendo agulhas.
– Você não pode mudar de ideia – disse o doutor e esfregou suas mãos e arreganhou os dentes e começou...
A última vez que o vi foi por causa de algo relacionado à cera em meus ouvidos. Eu podia ver seus lábios se mexendo, tentei entender, mas não podia ouvir. Eu sabia, por seus olhos e por sua cara, que eram tempos difíceis para ele outra vez e assenti com a cabeça.
Fazia calor. Eu estava um pouco tonto e pensei, bem, sim, ele é um bom camarada, mas por que não me deixa falar sobre os meus problemas, isso não é justo, também tenho problemas e tenho que pagá-lo.
Por fim, meu doutor se deu conta de que eu não estava ouvindo nada. Pegou algo que parecia com um extintor de incêndio e meteu em meus ouvidos. Mais tarde me mostrou grandes pedaços de cera... era a cera, ele disse. E apontou para um balde. Parecia realmente com feijões requentados.
Levantei da mesa, paguei-o e me fui. Ainda não podia ouvir nada. Não me sentia particularmente mal nem bem e imaginei que doença eu lhe traria da próxima vez, o que ele faria a respeito disso, o que ele faria com respeito à sua filha de dezessete anos que estava apaixonada por outra mulher e que iria casar com ela e me ocorreu que todo mundo sofria continuamente, incluindo aqueles que fingiam não sofrer. Parecia-me que essa era uma boa descoberta. Olhei para o garoto que vendia jornal e pensei, hummmm, hummmm, e olhei para a próxima pessoa que passou e pensei hummmm, hummmm, hummmmmm, e no semáforo perto do hospital, um carro novo e preto dobrou a esquina e atropelou uma bela garota que vestia um minivestido azul, e ela era loira e tinha faixas azuis no cabelo e se sentou na rua, ao sol, e um filete escarlate correu de seu nariz.
– Ao sul de lugar nenhum
1 529
Charles Bukowski
O Assistente Hospitalar
estou sentado numa cadeira de latão do lado de fora do laboratório de raio X
enquanto a morte, em asas fétidas, bafeja eternamente
através dos corredores.
lembro dos fedores do hospital de quando
era um garoto e de quando me fiz homem e agora
que sou velho
e me sento, esperando, na minha cadeira de latão.
então um assistente hospitalar
um jovem entre 23 ou 24 anos
surge empurrando um equipamento.
parece uma cesta
com roupas recém-lavadas
mas não posso ter certeza.
o assistente é estranho.
não chega a ser deformado
mas suas pernas se movem
de um modo desgovernado
como se dissociadas dos
comandos motores cerebrais.
está vestido de azul, dos pés à cabeça,
empurrando,
empurrando sua carga.
pequeno e desajeitado garoto azul.
então ele vira a cabeça e grita para
a recepcionista junto ao guichê do raio X:
“se alguém precisar de mim, estarei no 76
por uns 20 minutos!”
sua face enrubesce enquanto ele grita,
sua boca forma um arco
voltado para baixo como a
boca de uma abóbora no dia das bruxas.
então ele entrou por alguma porta
provavelmente a do 76.
um camarada não muito bem-disposto.
perdido como ser humano,
caminhante avançado de alguma
estrada entorpecente.
mas
ele é saudável
ele é saudável.
ELE É SAUDÁVEL.
enquanto a morte, em asas fétidas, bafeja eternamente
através dos corredores.
lembro dos fedores do hospital de quando
era um garoto e de quando me fiz homem e agora
que sou velho
e me sento, esperando, na minha cadeira de latão.
então um assistente hospitalar
um jovem entre 23 ou 24 anos
surge empurrando um equipamento.
parece uma cesta
com roupas recém-lavadas
mas não posso ter certeza.
o assistente é estranho.
não chega a ser deformado
mas suas pernas se movem
de um modo desgovernado
como se dissociadas dos
comandos motores cerebrais.
está vestido de azul, dos pés à cabeça,
empurrando,
empurrando sua carga.
pequeno e desajeitado garoto azul.
então ele vira a cabeça e grita para
a recepcionista junto ao guichê do raio X:
“se alguém precisar de mim, estarei no 76
por uns 20 minutos!”
sua face enrubesce enquanto ele grita,
sua boca forma um arco
voltado para baixo como a
boca de uma abóbora no dia das bruxas.
então ele entrou por alguma porta
provavelmente a do 76.
um camarada não muito bem-disposto.
perdido como ser humano,
caminhante avançado de alguma
estrada entorpecente.
mas
ele é saudável
ele é saudável.
ELE É SAUDÁVEL.
995
Charles Bukowski
Doente
ter andado muito doente e muito fraco é algo muito
estranho.
quando é necessária toda sua força para ir do
quarto ao banheiro e voltar, isto parece
uma piada mas
você não ri.
de volta à cama você volta a pensar na morte e descobre
a mesma coisa: quanto mais perto se está dela
menos apavorante ela se
torna.
você tem tempo o suficiente para examinar as paredes
e lá fora
os passarinhos sobre o fio do telefone ganham tremenda
importância.
e ali está a tevê: homens jogando beisebol
dia após dia.
nenhum apetite.
a comida tem gosto de papelão, faz com que você se sinta
mal, além de todos os
limites.
a esposa dedicada não cansa de insistir para que você
coma.
“o médico disse...”
pobrezinha.
e os gatos.
os gatos pulam sobre a cama e me olham.
me encaram, e então pulam para o
chão.
que mundo, você pensa: comer, trabalhar, trepar,
morrer.
por sorte tenho uma doença contagiosa: nada de
visitas.
a balança marca 70, do que um dia foram
98.
pareço um homem num campo de concentração.
eu sou esse
homem.
ainda assim, tenho sorte: me agrada a solidão,
jamais sentirei falta das pessoas.
eu poderia ler os grandes livros mas os grandes livros não
me interessam.
me sento na cama e espero que tudo siga
por um caminho ou pelo
outro.
exatamente como faz todo
mundo.
estranho.
quando é necessária toda sua força para ir do
quarto ao banheiro e voltar, isto parece
uma piada mas
você não ri.
de volta à cama você volta a pensar na morte e descobre
a mesma coisa: quanto mais perto se está dela
menos apavorante ela se
torna.
você tem tempo o suficiente para examinar as paredes
e lá fora
os passarinhos sobre o fio do telefone ganham tremenda
importância.
e ali está a tevê: homens jogando beisebol
dia após dia.
nenhum apetite.
a comida tem gosto de papelão, faz com que você se sinta
mal, além de todos os
limites.
a esposa dedicada não cansa de insistir para que você
coma.
“o médico disse...”
pobrezinha.
e os gatos.
os gatos pulam sobre a cama e me olham.
me encaram, e então pulam para o
chão.
que mundo, você pensa: comer, trabalhar, trepar,
morrer.
por sorte tenho uma doença contagiosa: nada de
visitas.
a balança marca 70, do que um dia foram
98.
pareço um homem num campo de concentração.
eu sou esse
homem.
ainda assim, tenho sorte: me agrada a solidão,
jamais sentirei falta das pessoas.
eu poderia ler os grandes livros mas os grandes livros não
me interessam.
me sento na cama e espero que tudo siga
por um caminho ou pelo
outro.
exatamente como faz todo
mundo.
1 100
Charles Bukowski
Morda-Se de Raiva
vim até aqui, ela diz, para lhe falar
que está tudo acabado. não estou de brincadeira,
acabou. ficamos assim.
sento no sofá olhando ela ajeitar
seus cabelos longos e ruivos em frente ao espelho
do meu quarto.
ela ergue os cabelos e
faz um coque no topo da cabeça –
ela deixa que seus olhos encontrem
os meus –
então ela solta os cabelos e
deixa que eles lhe cubram o rosto.
vamos para a cama e eu a seguro
de costas sem dizer uma palavra
meu braço em volta de seu pescoço
toco seus pulsos e mãos
sinto-a até chegar
aos cotovelos
mas não além.
ela se levanta.
está tudo acabado, ela diz,
morda-se de raiva. você
tem alguma borrachinha?
não sei.
achei uma, ela diz,
vai servir. bem,
vou indo.
me levanto e a levo
até a porta
logo ao sair
ela diz,
quero que você me compre
um sapato de salto alto
salto agulha
sapatos pretos de salto.
não, quero um par
vermelho.
vejo ela seguir pela passagem de cimento
debaixo das árvores
ela caminha direitinho e
enquanto as poinsétias gotejam ao sol
eu fecho a porta.
que está tudo acabado. não estou de brincadeira,
acabou. ficamos assim.
sento no sofá olhando ela ajeitar
seus cabelos longos e ruivos em frente ao espelho
do meu quarto.
ela ergue os cabelos e
faz um coque no topo da cabeça –
ela deixa que seus olhos encontrem
os meus –
então ela solta os cabelos e
deixa que eles lhe cubram o rosto.
vamos para a cama e eu a seguro
de costas sem dizer uma palavra
meu braço em volta de seu pescoço
toco seus pulsos e mãos
sinto-a até chegar
aos cotovelos
mas não além.
ela se levanta.
está tudo acabado, ela diz,
morda-se de raiva. você
tem alguma borrachinha?
não sei.
achei uma, ela diz,
vai servir. bem,
vou indo.
me levanto e a levo
até a porta
logo ao sair
ela diz,
quero que você me compre
um sapato de salto alto
salto agulha
sapatos pretos de salto.
não, quero um par
vermelho.
vejo ela seguir pela passagem de cimento
debaixo das árvores
ela caminha direitinho e
enquanto as poinsétias gotejam ao sol
eu fecho a porta.
1 064
Charles Bukowski
Prece Debaixo de Mau Tempo
por Deus, não sei o que
fazer.
elas são tão legais de se ter por perto.
elas têm um jeito de tocar
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
virando-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem
sobre a sua barriga.
não é apenas o foder e o chupar
que alcançam o interior do homem
e o amaciam, são os extras,
está tudo nos extras.
agora é noite e está chovendo
e não há ninguém
estão todas em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
com novos humores
mesmo que em velhos
quartos.
seja o que for, é noite e está chovendo,
uma chuva torrencial, maldita e
pesada...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a conta de luz
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas amaciam um homem
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma vagabunda no velho estilo
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada sobre
sua bolsa, dizendo, “merda, cara,
não consegue achar uma música melhor do que
essa no seu rádio?
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está tomado
de amor e tudo
mais
que continua chovendo
alagadoura
encharcante
chuva
boa para as árvores e para a
grama e para o ar...
boa para coisas que
vivem sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea em mim
esta noite.
elas amaciam um homem e
depois o deixam
escutando a chuva.
fazer.
elas são tão legais de se ter por perto.
elas têm um jeito de tocar
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
virando-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem
sobre a sua barriga.
não é apenas o foder e o chupar
que alcançam o interior do homem
e o amaciam, são os extras,
está tudo nos extras.
agora é noite e está chovendo
e não há ninguém
estão todas em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
com novos humores
mesmo que em velhos
quartos.
seja o que for, é noite e está chovendo,
uma chuva torrencial, maldita e
pesada...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a conta de luz
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas amaciam um homem
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma vagabunda no velho estilo
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada sobre
sua bolsa, dizendo, “merda, cara,
não consegue achar uma música melhor do que
essa no seu rádio?
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está tomado
de amor e tudo
mais
que continua chovendo
alagadoura
encharcante
chuva
boa para as árvores e para a
grama e para o ar...
boa para coisas que
vivem sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea em mim
esta noite.
elas amaciam um homem e
depois o deixam
escutando a chuva.
1 075
Charles Bukowski
Você Anda Bebendo?
desanimado, na praia, o velho caderno amarelo de anotações
mais uma vez aberto
escrevo na cama
como fiz ano
passado.
vamos ao médico,
segunda-feira.
“sim, doutor, pernas fracas, vertigem, dor-de-
cabeça e minhas costas
doem.”
“você anda bebendo?”, ele perguntará.
“tem feito seus
exercícios, tomado suas
vitaminas?”
acho que estou doente simplesmente de
viver, os mesmos elementos sem graça
ainda que
flutuantes.
mesmo nas corridas
vejo os cavalos correrem
e isso me parece
sem sentido.
vou embora mais cedo depois de ter comprado bilhetes para as
corridas restantes.
“já vai?”, pergunta o vendedor das
apostas.
“sim, estou de saco cheio”,
eu lhe digo.
“se você acha que é chato
aí fora”, ele me diz, “tem que ver como é
aqui dentro.”
então cá estou
mais uma vez apoiado em meus
travesseiros
apenas um cara velho
apenas um velho escritor
com uma caderneta
amarela.
alguma coisa
cruza pelo
chão
e vem até
mim.
oh, é apenas
meu gato
desta
vez.
mais uma vez aberto
escrevo na cama
como fiz ano
passado.
vamos ao médico,
segunda-feira.
“sim, doutor, pernas fracas, vertigem, dor-de-
cabeça e minhas costas
doem.”
“você anda bebendo?”, ele perguntará.
“tem feito seus
exercícios, tomado suas
vitaminas?”
acho que estou doente simplesmente de
viver, os mesmos elementos sem graça
ainda que
flutuantes.
mesmo nas corridas
vejo os cavalos correrem
e isso me parece
sem sentido.
vou embora mais cedo depois de ter comprado bilhetes para as
corridas restantes.
“já vai?”, pergunta o vendedor das
apostas.
“sim, estou de saco cheio”,
eu lhe digo.
“se você acha que é chato
aí fora”, ele me diz, “tem que ver como é
aqui dentro.”
então cá estou
mais uma vez apoiado em meus
travesseiros
apenas um cara velho
apenas um velho escritor
com uma caderneta
amarela.
alguma coisa
cruza pelo
chão
e vem até
mim.
oh, é apenas
meu gato
desta
vez.
1 017