Poemas neste tema
Dor e Desespero
José Fernandes Fafe
Exegese
De que é feito esse amor?, perguntam-me e não sei...
Da matéria da noite mais impávida,
onde as estrelas inscrevem uma lei ...
Da estrada longa e da cegueira ávida
com que quiseste povoar de amor os ermos...
Longe, os cães das quintas ladravam-te com raiva
(Vejo o teu gesto, um franciscano aceno,
vejo a minha mão crispar-se, dolorida,
vejo unir-nos num abraço o desespero... )
Das trevas, do linho negro em que tecemos
a manta na noite dos pobres estendida...
(Senhora, acamaradando-se dói menos. . . )
Das mãos dadas, pelo sono dos casais, pela Vida,
pela emboscada — onde caíste de cansaço
e me rasgaram a rubra e funda ferida
donde manam — o baço tempo, o alaranjado lume
e a inexorável frialdade de aço
que um anjo tetular em si reúne.
Da matéria da noite mais impávida,
onde as estrelas inscrevem uma lei ...
Da estrada longa e da cegueira ávida
com que quiseste povoar de amor os ermos...
Longe, os cães das quintas ladravam-te com raiva
(Vejo o teu gesto, um franciscano aceno,
vejo a minha mão crispar-se, dolorida,
vejo unir-nos num abraço o desespero... )
Das trevas, do linho negro em que tecemos
a manta na noite dos pobres estendida...
(Senhora, acamaradando-se dói menos. . . )
Das mãos dadas, pelo sono dos casais, pela Vida,
pela emboscada — onde caíste de cansaço
e me rasgaram a rubra e funda ferida
donde manam — o baço tempo, o alaranjado lume
e a inexorável frialdade de aço
que um anjo tetular em si reúne.
864
Ivan Junqueira
Esse punhado de ossos
A Moacyr Félix
Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro
adunco do assassino,
nas úlceras do mendigo,
na voz melíflua do bispo,
no martírio dos suicidas,
na mão crispada das vítimas,
na forca e na Guilhotina,
no sangue sobre o patíbulo,
no sexo do hermafrodita,
no ventre da meretriz
que deu à luz uma harpia,
nas bestas do Apocalipse,
no selo que foi rompido,
nas trombetas do Juízo,
no êxtase mudo dos místicos,
na agonia dos epígonos,
no corvo que bica as vísceras
de alguém cujo sacrifício
vale tanto quanto a epígrafe
de uma página vazia.
Paz, enfim, até no ríctus
que torce a boca do Cristo.
Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro
adunco do assassino,
nas úlceras do mendigo,
na voz melíflua do bispo,
no martírio dos suicidas,
na mão crispada das vítimas,
na forca e na Guilhotina,
no sangue sobre o patíbulo,
no sexo do hermafrodita,
no ventre da meretriz
que deu à luz uma harpia,
nas bestas do Apocalipse,
no selo que foi rompido,
nas trombetas do Juízo,
no êxtase mudo dos místicos,
na agonia dos epígonos,
no corvo que bica as vísceras
de alguém cujo sacrifício
vale tanto quanto a epígrafe
de uma página vazia.
Paz, enfim, até no ríctus
que torce a boca do Cristo.
2 420
Isabel Machado
Constantemente
Será constante
esta dor navegante
assolada no peito
que impede a entrega a um beijo
qualquer
que sufoca a loucura mais louca
de uma mulher?!
Será constante
o impedimento inquietante
de qualquer entrega mais ardente
ou provocante?!
Serás constantemente
constante?!
esta dor navegante
assolada no peito
que impede a entrega a um beijo
qualquer
que sufoca a loucura mais louca
de uma mulher?!
Será constante
o impedimento inquietante
de qualquer entrega mais ardente
ou provocante?!
Serás constantemente
constante?!
833
Myriam Fraga
Inquisição
Costuraram sua boca
Com alfinetes
E ele dizia que NÃO
E perguntavam.
E cortaram seus dedos
E o lançaram
Bem no fundo do poço
E ele dizia que não, que não, que não
E seus cabelos cresciam como chamas.
Com alfinetes
E ele dizia que NÃO
E perguntavam.
E cortaram seus dedos
E o lançaram
Bem no fundo do poço
E ele dizia que não, que não, que não
E seus cabelos cresciam como chamas.
1 378
Hemetério Cabrinha
Geminidade
Numa gôta de orvalho escassa, cintilante,
Há um mundo a rolar latente, palpitante
Em sua pequenez etérea, cristalina,
Que à luz do sol parece estrêla, diamantina;
Há um beijo de Deus para exaltar a vida...
E essa gôta do céu, na pétala caída,
Vivificando a planta e colorindo a flor,
Tem para a Natureza uma expansão de amor.
Assim também o pranto -- a lágrima tremente --
Como a gôta de orvalho, a derramar-se quente
De uns olhos cujo encanto a sobra da tristeza
Apagou, para dar emocional beleza
Que só a dor profunda esboça, plasma, imprime;
Traz em seu cintilar o que há de mais sublime
Nos refolhos sutís da alma desolada;
E num rosto ou num colo ebúrneo derramada,
Como o orvalho do céu, esplende em seu fulgor,
Um ósculo de Deus na exaltação da dor.
Há um mundo a rolar latente, palpitante
Em sua pequenez etérea, cristalina,
Que à luz do sol parece estrêla, diamantina;
Há um beijo de Deus para exaltar a vida...
E essa gôta do céu, na pétala caída,
Vivificando a planta e colorindo a flor,
Tem para a Natureza uma expansão de amor.
Assim também o pranto -- a lágrima tremente --
Como a gôta de orvalho, a derramar-se quente
De uns olhos cujo encanto a sobra da tristeza
Apagou, para dar emocional beleza
Que só a dor profunda esboça, plasma, imprime;
Traz em seu cintilar o que há de mais sublime
Nos refolhos sutís da alma desolada;
E num rosto ou num colo ebúrneo derramada,
Como o orvalho do céu, esplende em seu fulgor,
Um ósculo de Deus na exaltação da dor.
1 503
Otaviano Hudson
O Operário
(Fragmentos)
Sobre uma velha enxerga repousa o operário
Doente, sem recursos, exposto ao abandono,
Do leito à cabeceira os filhos recostando-se,
Extorcem-se de fome.
"Papai um pão — papai — exclamam esses lábios
Que a taça do infortúnio estréiam no libar,
"Papai, mamãe é má, o pão mamãe esconde-o,
Pede-lhe o pão — oh! pai!"
E a mulher infeliz, vertendo amaras lágrimas
Como louca vagueia opressa pela dor;
E aos céus conforto roga, ao desespero alívio
Implorando-o debalde!
Quantas vezes, oh! Deus abriu ela o armário
Contemplando-o vazio! e quantas a lareira
Sem nada mais achar, exclama genuflexa:
— Protege-nos oh Deus!
Enquanto atordoado o triste proletário
Revolve-se a gemer e sem poder dormir,
Os míseros filhinhos famintos e esquálidos
Lastimam-se chorando.
A noite desenrola a negra enorme túnica
Sobre áureos palácios e tristes pardieiros,
Em uns quê de folguedos, em outros quê de angústias
Travam-se à sua sombra!
Ai, quanto dissabor esmaga o operário
Quer no leito dolente ou ainda na oficina,
Quanto escárnio, meu Deus, às faces arremessa
Estúpida vaidade!
Tragando humilhações, exposto às intempéries,
À fome, frio, chuvas e outras mil agruras,
Eis do mais inditoso, infeliz operário
Horribile existência!
Novos Sísifos a rolar inglórios
O seixo enorme de um trabalho insano,
Quando tombam no leito — uma trindade abraça —
Miséria, escárnio e dores!
As mãos cheias de calos, as mãos que nobilita
Na lima, no martelo, na serra e na bigorna,
Colhem palhetas de ouro e como as conchas níveas
Pródigas emergem pérolas!
Letras, artes, comércio, indústrias e ciências
Não prescindem do braço invicto do trabalho,
E quando a pátria ultrajam, lá corre o operário
Defende-a te morrer!
Honrando do progresso o prefulgente lábaro,
Na vanguarda marchai dos grandes combatentes
Até que um dia reconquisteis impávidos,
Libérrimos direitos.
O sol que doura os montes espraia os raios ígneos,
Beijando as vossas frontes ungidas de suor;
Quando amortece a flama, no horizonte atufa-se,
Saúda-te operários
Sobre uma velha enxerga repousa o operário
Doente, sem recursos, exposto ao abandono,
Do leito à cabeceira os filhos recostando-se,
Extorcem-se de fome.
"Papai um pão — papai — exclamam esses lábios
Que a taça do infortúnio estréiam no libar,
"Papai, mamãe é má, o pão mamãe esconde-o,
Pede-lhe o pão — oh! pai!"
E a mulher infeliz, vertendo amaras lágrimas
Como louca vagueia opressa pela dor;
E aos céus conforto roga, ao desespero alívio
Implorando-o debalde!
Quantas vezes, oh! Deus abriu ela o armário
Contemplando-o vazio! e quantas a lareira
Sem nada mais achar, exclama genuflexa:
— Protege-nos oh Deus!
Enquanto atordoado o triste proletário
Revolve-se a gemer e sem poder dormir,
Os míseros filhinhos famintos e esquálidos
Lastimam-se chorando.
A noite desenrola a negra enorme túnica
Sobre áureos palácios e tristes pardieiros,
Em uns quê de folguedos, em outros quê de angústias
Travam-se à sua sombra!
Ai, quanto dissabor esmaga o operário
Quer no leito dolente ou ainda na oficina,
Quanto escárnio, meu Deus, às faces arremessa
Estúpida vaidade!
Tragando humilhações, exposto às intempéries,
À fome, frio, chuvas e outras mil agruras,
Eis do mais inditoso, infeliz operário
Horribile existência!
Novos Sísifos a rolar inglórios
O seixo enorme de um trabalho insano,
Quando tombam no leito — uma trindade abraça —
Miséria, escárnio e dores!
As mãos cheias de calos, as mãos que nobilita
Na lima, no martelo, na serra e na bigorna,
Colhem palhetas de ouro e como as conchas níveas
Pródigas emergem pérolas!
Letras, artes, comércio, indústrias e ciências
Não prescindem do braço invicto do trabalho,
E quando a pátria ultrajam, lá corre o operário
Defende-a te morrer!
Honrando do progresso o prefulgente lábaro,
Na vanguarda marchai dos grandes combatentes
Até que um dia reconquisteis impávidos,
Libérrimos direitos.
O sol que doura os montes espraia os raios ígneos,
Beijando as vossas frontes ungidas de suor;
Quando amortece a flama, no horizonte atufa-se,
Saúda-te operários
528
Carlos Gondim
Maria
No Calvário, Jesus expira. A turbamulta
Desvaira. No estertor, Cristo ainda mais padece
Ante o néscio bramir da multidão, que o insulta,
E o seu magoado olhar, raso dágua, amortece.
Cai a sombra, e o terror gera na plebe inculta,
Que, agora, o árido cerro em muda fila desce.
Trágica, a mais e mais, a sombra cresce e avulta,
Soluça em derredor uma dorida prece,
Desgrenhada, vencendo o monte, na vertigem
Do ascenso, a horrenda cruz finalmente atingia
Aquela que a Jesus gerou no ventre virgem.
Chega, tomba e desmaia... E, de repente, pelas
Alturas, o ermo céu chora a dor de Maria,
Com as lágrimas de luz de todas estrelas!
(Poemas do cárcere, 1923)
Desvaira. No estertor, Cristo ainda mais padece
Ante o néscio bramir da multidão, que o insulta,
E o seu magoado olhar, raso dágua, amortece.
Cai a sombra, e o terror gera na plebe inculta,
Que, agora, o árido cerro em muda fila desce.
Trágica, a mais e mais, a sombra cresce e avulta,
Soluça em derredor uma dorida prece,
Desgrenhada, vencendo o monte, na vertigem
Do ascenso, a horrenda cruz finalmente atingia
Aquela que a Jesus gerou no ventre virgem.
Chega, tomba e desmaia... E, de repente, pelas
Alturas, o ermo céu chora a dor de Maria,
Com as lágrimas de luz de todas estrelas!
(Poemas do cárcere, 1923)
780
Helena Ortiz
Soco
essa lágrima que dói
esse sufoco
essa boca seca
sempre esse eco
no espaço chumbo
esse galho
que escurece
e cai
esse sufoco
essa boca seca
sempre esse eco
no espaço chumbo
esse galho
que escurece
e cai
995
Gervásio de Pilares
Soneto
Ó triste mausoléu! Ó urna fria!
funesto monumento, sombra escura,
depósito fatal da formosura,
horroroso despojo da alegria.
Permite que te façam companhia,
as lágrimas que verto com ternura,
e sirva tanto mar de sepultura,
em que se oculte o Sol do melhor dia.
Mas se não tens da pedra a natureza,
quando pranto que é tão multiplicado,
não consegue abrandar tanta dureza:
deixa que nessa pira arda abrasado,
este meu coração logrando a empresa,
de ser em holocausto consagrado.
funesto monumento, sombra escura,
depósito fatal da formosura,
horroroso despojo da alegria.
Permite que te façam companhia,
as lágrimas que verto com ternura,
e sirva tanto mar de sepultura,
em que se oculte o Sol do melhor dia.
Mas se não tens da pedra a natureza,
quando pranto que é tão multiplicado,
não consegue abrandar tanta dureza:
deixa que nessa pira arda abrasado,
este meu coração logrando a empresa,
de ser em holocausto consagrado.
391
Helena Ortiz
Esperando a Hora
não ouço mais teus gritos
não corro mais atrás de ti
não te abraço
não gozo teu riso
não me espanto
trago em mim esse grito
que não rompe
esse tédio de sala de espera
quieta
onde minha ficha é a última
e talvez não haja tempo para hoje
não corro mais atrás de ti
não te abraço
não gozo teu riso
não me espanto
trago em mim esse grito
que não rompe
esse tédio de sala de espera
quieta
onde minha ficha é a última
e talvez não haja tempo para hoje
1 073
Flávio Villa-Lobos
Separação
Que estranho sentimento é este
que nos arrebata ferozmente
- sangria aberta
em postas de sangue virtual -
vergalhando a alma alquebrada,
chibata onipresente
do invisível feitor?
A dor que nos une
é a mesma do amor
quando se presume
o golpe final.
que nos arrebata ferozmente
- sangria aberta
em postas de sangue virtual -
vergalhando a alma alquebrada,
chibata onipresente
do invisível feitor?
A dor que nos une
é a mesma do amor
quando se presume
o golpe final.
786
Felipe Sampaio
Duas Faces
Morri duas vezes.
Duas faces desiguais.
Estranho...
Eu que procurei-as.
O primeiro rosto era lindo,
Singelamente único e terno.
Engraçado...
Um rosto que tinha tudo
Para me dar a vida,
Uma nova vida.
Mas me negou,
Me magoou,
Me matou.
Senti ali o fardo melancólico
De ser reduzido
Ao mais ínfimo ser.
"Formigas, levem-me!"
Fujo,
Atravesso a porta
E escolho um segundo rosto.
Basta um.
Encho-me de coragem.
A morte vem a 4 rodas.
Um rosto agora desconhecido,
Inocente e amedrontado
Que passa por cima de mim
E compreensivelmente foje.
Esquisito...
Agora ele é quem foge,
Enquanto ali eu fico
Mais uma vez
Sentido um peso
Em minhas costas,
Enquanto espero que o primeiro rosto,
Terrivelmente belo,
Vá até a mim
E ao menos chore.
01/06/97
Duas faces desiguais.
Estranho...
Eu que procurei-as.
O primeiro rosto era lindo,
Singelamente único e terno.
Engraçado...
Um rosto que tinha tudo
Para me dar a vida,
Uma nova vida.
Mas me negou,
Me magoou,
Me matou.
Senti ali o fardo melancólico
De ser reduzido
Ao mais ínfimo ser.
"Formigas, levem-me!"
Fujo,
Atravesso a porta
E escolho um segundo rosto.
Basta um.
Encho-me de coragem.
A morte vem a 4 rodas.
Um rosto agora desconhecido,
Inocente e amedrontado
Que passa por cima de mim
E compreensivelmente foje.
Esquisito...
Agora ele é quem foge,
Enquanto ali eu fico
Mais uma vez
Sentido um peso
Em minhas costas,
Enquanto espero que o primeiro rosto,
Terrivelmente belo,
Vá até a mim
E ao menos chore.
01/06/97
374
Gabriel Archanjo de Mendonça
Virtuose
Na vastidão de bocas desdentadas
a pastoral tange o verniz das pedras
— mas onde o eco?
O cocho transborda teclas
e as falanges se incendeiam
na pira de sons vivaces.
Fundem-se os tons na digestão difícil.
O líquido se evapora
ao contato do solo impermeável.
Nervos cozidos fervilhando à pele
derretem-se em lavas
na pausa conclusiva.
Lábios carbonizados se contraem
cobrando a palma impossível.
a pastoral tange o verniz das pedras
— mas onde o eco?
O cocho transborda teclas
e as falanges se incendeiam
na pira de sons vivaces.
Fundem-se os tons na digestão difícil.
O líquido se evapora
ao contato do solo impermeável.
Nervos cozidos fervilhando à pele
derretem-se em lavas
na pausa conclusiva.
Lábios carbonizados se contraem
cobrando a palma impossível.
828
Almeida Garrett
Rosa e Lírio
A rosaÉ formosaPor que lhe chamam — florDamorNão sei.
A florBem de amorÉ o lírioTem mel no aroma, —dorNa corO lírio.
Se o cheiroÉ fagueiroNa rosa,Se é de beleza — morPrimorA rosa,
No lírioO martírioQue é meuPintado vejo: — cor E ardor É o meu.
A rosa É formosa,Bem sei...E será de outros florDamor ..Não sei.
A florBem de amorÉ o lírioTem mel no aroma, —dorNa corO lírio.
Se o cheiroÉ fagueiroNa rosa,Se é de beleza — morPrimorA rosa,
No lírioO martírioQue é meuPintado vejo: — cor E ardor É o meu.
A rosa É formosa,Bem sei...E será de outros florDamor ..Não sei.
3 858
Fernando J. B. Martinho
Fronteira Azul
Esta manhã vai subir
como um lírio estrangulado
lentamente na garganta.
Esta manhã vai ter nas mimosas
e no ar a alta vibração
de um caminho para a Morte
decidido firme e incorrupto.
Vai passar o silêncio
a fronteira azul onde os gerânios estremecem
a mais pura gota de água
a que nega o gosto a gravidade
a que cai no céu e o embacia.
Dizer do vento a primeira sílaba
a primeira semente
quando a terra ainda
se não tinha desprendido
do caos
referir da lembrança
o que mais dói
nos seus recessos
como custa suportar
a luz crua
das salinas
que eleva nas margens
do nosso desespero.
Quando a morte
se não podia ainda
olhar de frente
e os morcegos nos feriam
com o latejar de um sangue
mais fulminante que qualquer luz
acontecia na terra
o que nunca mais ousou repetir-se
um lírio dava cor e dava forma
à simplicidade
bravia
entre o silêncio
e o que prometia ser a noite derradeira.
Uma montanha
ao alcance das veias
um dia
deu mais força aos membros
mais volume
à voz
e quando já no rio
toda uma vontade
de nela ser um cardo
crescia
se me recusou
abruptamente.
Onde foi
que um dia
a limpidez
teve o sangue do ultraje
no rosto
e não houve ninguém
um lenço sequer
para lho limpar?
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
como um lírio estrangulado
lentamente na garganta.
Esta manhã vai ter nas mimosas
e no ar a alta vibração
de um caminho para a Morte
decidido firme e incorrupto.
Vai passar o silêncio
a fronteira azul onde os gerânios estremecem
a mais pura gota de água
a que nega o gosto a gravidade
a que cai no céu e o embacia.
Dizer do vento a primeira sílaba
a primeira semente
quando a terra ainda
se não tinha desprendido
do caos
referir da lembrança
o que mais dói
nos seus recessos
como custa suportar
a luz crua
das salinas
que eleva nas margens
do nosso desespero.
Quando a morte
se não podia ainda
olhar de frente
e os morcegos nos feriam
com o latejar de um sangue
mais fulminante que qualquer luz
acontecia na terra
o que nunca mais ousou repetir-se
um lírio dava cor e dava forma
à simplicidade
bravia
entre o silêncio
e o que prometia ser a noite derradeira.
Uma montanha
ao alcance das veias
um dia
deu mais força aos membros
mais volume
à voz
e quando já no rio
toda uma vontade
de nela ser um cardo
crescia
se me recusou
abruptamente.
Onde foi
que um dia
a limpidez
teve o sangue do ultraje
no rosto
e não houve ninguém
um lenço sequer
para lho limpar?
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
487
Florisvaldo Mattos
Duração do Aroma
Não morrem no campo as flores.
Pacíficas continuam
arquiteturas de angústia
dissolvendo-se no chão
amoroso das searas.
Como nuvens distraídas
ficam no solto. Ali somente,
um sofrimento que vem,
uma esperança que vai
da boca dos camponeses
ao chão que abriga silêncio.
Não é pranto nem flor, É vinho.
De amarelo outono e lábios
pranto vinho e flores ficam
incrustados no alimento,
De sangue batendo aos pingos
na superfície das horas
vai seu perfume durando
nas colheitas. Sobrevive
no suor dos músculos tão
sofridos de cicatrizes,
como um hálito de cinza
prenhe de soluço verde.
Prossegue na dor, reunida
à ferrugem dos arados,
a melancolia de olhos,
de pele sacrificada
e ternura corrompida,
de arames e privações.
Que venha o vento brandindo
foices de lua no campo
e corte cercas corte o rio
e das chuvas no caminho
corte horizontes de linho.
Entre abelhas e madeiras,
no coração das florestas
corte as flores e o vizinho
aroma das madrugadas.
Corte pranto dos vaqueiros,
corte rastro dos cavalos
e de quem sofre sozinho
corte voz molhada e fria.
Que venha vento soprando
ferraduras de amargura,
decepe haste das flores
com o alfange da agonia.
Fria lâmina de sombra
inevitável traspasse
o dorso branco do dia.
E o que fica suado na terra
não é pranto nem flor. É vinho.
Sobrevivência do aroma
no lamento desses rostos,
dessas chuvas no caminho,
não morrem no campo as flores:
perduram constituídas
de soluços como o vinho.
Pacíficas continuam
arquiteturas de angústia
dissolvendo-se no chão
amoroso das searas.
Como nuvens distraídas
ficam no solto. Ali somente,
um sofrimento que vem,
uma esperança que vai
da boca dos camponeses
ao chão que abriga silêncio.
Não é pranto nem flor, É vinho.
De amarelo outono e lábios
pranto vinho e flores ficam
incrustados no alimento,
De sangue batendo aos pingos
na superfície das horas
vai seu perfume durando
nas colheitas. Sobrevive
no suor dos músculos tão
sofridos de cicatrizes,
como um hálito de cinza
prenhe de soluço verde.
Prossegue na dor, reunida
à ferrugem dos arados,
a melancolia de olhos,
de pele sacrificada
e ternura corrompida,
de arames e privações.
Que venha o vento brandindo
foices de lua no campo
e corte cercas corte o rio
e das chuvas no caminho
corte horizontes de linho.
Entre abelhas e madeiras,
no coração das florestas
corte as flores e o vizinho
aroma das madrugadas.
Corte pranto dos vaqueiros,
corte rastro dos cavalos
e de quem sofre sozinho
corte voz molhada e fria.
Que venha vento soprando
ferraduras de amargura,
decepe haste das flores
com o alfange da agonia.
Fria lâmina de sombra
inevitável traspasse
o dorso branco do dia.
E o que fica suado na terra
não é pranto nem flor. É vinho.
Sobrevivência do aroma
no lamento desses rostos,
dessas chuvas no caminho,
não morrem no campo as flores:
perduram constituídas
de soluços como o vinho.
888
Francisco Nóbrega
Ode ao Aleijadinho
Na sorte amarga que curtiste outrora,
pisando a dor a todo momento,
a mim restou de tua memória
uma grandeza imensa ante o sofrimento.
Quisera a vida retornasse seus passos,
e que pudéssemos refazer a história;
arrastaria de ti esta cruz pesada,
e só tua obra restaria em glória.
Poeta foste de cinzel em riste,
tuas imagens são épicos, em nós, gravadas,
e tua famosa arte, em si embala,
comove o alegre e enleva o triste.
O amor acendrado à tua arte,
manteve vida no teu corpo decomposto;
não te deteve a sombra de atroz morte,
nem o sofrimento a que te viste exposto.
No adro da igreja de Matosinhos
deixaste impresso em divino bailado,
nas pedras que dançam e tangem
os profetas, de luz e beleza inebriados.
Na via-sacra tua e do divino
mestre em cedro reveladas,
mais nos consterna o coração
as duas dores tão identificadas.
Expressão maior da raça brasileira,
em ti colheste nossas sagradas auras;
num meio hostil foste a bandeira
de uma belíssima e radiosa causa.
pisando a dor a todo momento,
a mim restou de tua memória
uma grandeza imensa ante o sofrimento.
Quisera a vida retornasse seus passos,
e que pudéssemos refazer a história;
arrastaria de ti esta cruz pesada,
e só tua obra restaria em glória.
Poeta foste de cinzel em riste,
tuas imagens são épicos, em nós, gravadas,
e tua famosa arte, em si embala,
comove o alegre e enleva o triste.
O amor acendrado à tua arte,
manteve vida no teu corpo decomposto;
não te deteve a sombra de atroz morte,
nem o sofrimento a que te viste exposto.
No adro da igreja de Matosinhos
deixaste impresso em divino bailado,
nas pedras que dançam e tangem
os profetas, de luz e beleza inebriados.
Na via-sacra tua e do divino
mestre em cedro reveladas,
mais nos consterna o coração
as duas dores tão identificadas.
Expressão maior da raça brasileira,
em ti colheste nossas sagradas auras;
num meio hostil foste a bandeira
de uma belíssima e radiosa causa.
870
Fernando Batinga de Mendonça
Dois Momentos da Infância
1.
pesquisam o sangue
dentro do seu ventre
remexem a carne
pele nervo e osso.
arrancam o filho
do fundo colo escuro
trazido pelo fio
na ponta das agulhas.
— e em resto os meninos
são pedaços
para quem o silêncio
não rompeu.
2.
no centro das paredes
do ventre vão exato
momentos de pesquisa
meninos que se calam.
instalam serpentina
no leito colo escuro
paredes que se fecham
nas portas de platina.
— e nos muros os meninos
se procuram
nas paredes que se fecham
de metal.
pesquisam o sangue
dentro do seu ventre
remexem a carne
pele nervo e osso.
arrancam o filho
do fundo colo escuro
trazido pelo fio
na ponta das agulhas.
— e em resto os meninos
são pedaços
para quem o silêncio
não rompeu.
2.
no centro das paredes
do ventre vão exato
momentos de pesquisa
meninos que se calam.
instalam serpentina
no leito colo escuro
paredes que se fecham
nas portas de platina.
— e nos muros os meninos
se procuram
nas paredes que se fecham
de metal.
986
Fernanda Benevides
Dor
Não sei de onde vem esta dor pungente
dilacerando a alma.
Dói.
Sangra o coração.
—Será que sofro assim por querer-te
e me encontrar na solidão?...
dilacerando a alma.
Dói.
Sangra o coração.
—Será que sofro assim por querer-te
e me encontrar na solidão?...
689
Fernando Batinga de Mendonça
Poema do Homem Latino-Americano
Para Diego de Rivera,
em cima dos ombros
tens uma pedra:
pedra sem rosto
enorme incerta.
teu corpo de fome
de ossos de pele
trabalha na mina
na lavra da terra.
estendes as mãos
sem forma incertas
nos calos nos cortes
nos dedos nos ferros.
um corpo de fome
vestido de pele
carregas as mãos
um rosto de pedra.
em cima dos ombros
tens uma pedra:
pedra sem rosto
enorme incerta.
teu corpo de fome
de ossos de pele
trabalha na mina
na lavra da terra.
estendes as mãos
sem forma incertas
nos calos nos cortes
nos dedos nos ferros.
um corpo de fome
vestido de pele
carregas as mãos
um rosto de pedra.
1 150
Fernanda Benevides
Flagrante
Eu não tinha este ar preocupado.
O coração sofrido.
A alma dilacerada.
Eu não tinha este este olhar perdido.
Esta dor da vida.
Estas mágoas...
Eu não sabia o que era solidão.
Esta sede de afeto.
Esta fome de emoção.
Eu não tinha este sabor amargo.
Este fel.
Este travo.
Eu não tinha esta face.
Serei eu?...
( in, QUANDO AS MUSAS CANTAM)
Fortaleza - Ce, 1990
O coração sofrido.
A alma dilacerada.
Eu não tinha este este olhar perdido.
Esta dor da vida.
Estas mágoas...
Eu não sabia o que era solidão.
Esta sede de afeto.
Esta fome de emoção.
Eu não tinha este sabor amargo.
Este fel.
Este travo.
Eu não tinha esta face.
Serei eu?...
( in, QUANDO AS MUSAS CANTAM)
Fortaleza - Ce, 1990
941
Eustáquio Gorgone
O Rodeio - 3
Gradil de madeira,
gradil de madeira.
Uma donzela com focinho
de rosas
quebrando a vidraça.
Por desespero e fatuidade
os animais choram
dentro das moringas.
Ela tem lenços e miniaturas,
ela tem lenços e miniaturas.
Mas nada, nada, nada enxuga
seu crescente sofrimento.
E o sol vai passando
com sua viseira de luz.
Ela não conhece corcundas,
ela não conhece corcundas
cheias de orquídeas.
Tudo para ela é cinzento.
Debalde doidos amores
esperam o seu sorriso.
gradil de madeira.
Uma donzela com focinho
de rosas
quebrando a vidraça.
Por desespero e fatuidade
os animais choram
dentro das moringas.
Ela tem lenços e miniaturas,
ela tem lenços e miniaturas.
Mas nada, nada, nada enxuga
seu crescente sofrimento.
E o sol vai passando
com sua viseira de luz.
Ela não conhece corcundas,
ela não conhece corcundas
cheias de orquídeas.
Tudo para ela é cinzento.
Debalde doidos amores
esperam o seu sorriso.
795
Castro Alves
La negristoshipo
(Tragedio sur Maro)
I
Jen ni sur plena mar ... en spac freneze
lunklaro ludas - papili orbrila -
ondegoj ghin postkuras... lacighante,
samkiel hord infana maltrankvila.
Jen ni sur plena mar ... el firmamento
la astroj saltas kiel shaum el oro...
repagas mar per brul de fosforeskoj
- konstelacioj de fluajh-trezoro.
Jen ni sur plena mar ... du infinitoj
sin chirkauprenas streche kun anhelo...
sublimaj, oraj, bluaj, mildaj... Kiu
la ocean kaj kiu la chielo?
Jen ni sur plena mar ... shvelintaj veloj
per varmaj, de zefiro mara, frapoj,
de brig surmara kuro estas kvazau
tusheto de hirund sur ondokapoj...
Devenon kaj fincelon, kiu scias,
de shipo travaganta senmezurojn?...
En chi Sahar chevaloj polvon levas,
galopas, flugas, ne postlasas spurojn...
felicha homo, kiu povas tiam
de jena bildo ghui majestecon!...
malsupre - maron... supre - firmamenton...
kaj en chiel kaj maro - la vastecon...
Ho, kian harmonion vent alportas...
Muziko dolcha sonas, malproksima!
Ho Di ! sublima estas arda kanto,
sen cel flosanta sur ondad senlima!
Viroj de l maro! Ho maristoj krudaj,
sunbruligitaj de la mondoj kvar!
Infanoj, kiujn lulis la tempesto
en la lulil de chi profunda mar !
Atendu kaj min lasu chi sovaghan
liberan poezion trinki tute...
Orkestro - estas maromugh cheprua
kaj vento tra shnurar siblanta flute...
............................................................................
Vi, kial fughas tiel, bark rapida?
Vi, kial fughas timan la poeton?...
Volonte sekvus mi disondon vian,
similas ghi frenezan markometon...
Ho albatros! Kondor de l oceano,
dormanta sur la gaza nubofloso,
la plumojn skuu, spacolevjatano!
Al mi flugilojn pruntu, albatroso!...
II
Por maristo ja ne gravas,
kie lia hejm situas!...
chiun verskadenco ravas,
kiun mar al li instruas!
Kantu! dia estas morto...
Lofe brig sub ventoforto
glitas per rapid delfena.
Flago sur postmast hisita,
kun la ondo postlasita
flirtas, de sopiro plena.
De hispan la kant subluna,
traplektita per langvor ,
memorigas pri sunbruna
andaluzanin en flor.
La italo kantas pri
la dormema Venezi
- lando de perfid kaj amo -
che l Vulkano, sur golfondo,
memorigas al la mondo
Tasostrofojn per deklamo.
Anglo - mara frida tipo,
kiun mar denaska flankis -
(char Anglujo estas shipo,
kiun Di Kanale ankris),
kun fier patrujon gloras,
dum pri Nelson li memoras
kaj pri Albukirrenkonto...
Kantas laurojn intajn, franco
- destinita al bonshanco -
kaj la laurojn de l estonto...
La helena maristaro,
kiun Ioni akushis,
chi piratoj de la maro,
kiun jam Ulis trapushis,
de Fidias la skulptitoj,
pri Homeraj ghemaj mitoj
longe kantas sub lunhelo...
Ho, maristoj vi, tutmondaj!
trovas vi en maroj ondaj
melodiojn el chielo...
III
El vasta spac descendu, ho oceankondoro!
Descendu pli kaj plie... nur via vidoboro
en brigon povas mergi dum tia fluga kuro...
Sed ve! mi kion vidas... kia amara sceno!
kia funebra kanto... kiom da abomeno!
kiaj figuroj tristaj!... kia, ho Di, teruro!
IV
Danteska bildo estas... la ferdeko
briligas tagon per rughega streko,
banante sin en sango.
Tintad de chenoj... vipklakad sonora...
amaso nokte nigra kaj horora
dum danc de fifandango...
Patrinoj negraj che la mamoj havas
infanojn magrajn, kies bushojn lavas
patrina sangkaskado.
Knabinoj jen... sed nudaj, miroplenaj,
trenitaj de fantomokirl, chagrenaj,
en vana anhelado.
Orkestro ironie, akre blekas...
Serpento de l freneza rondo strekas
spiralojn fantazie...
Se la oldul anhelas... kaj glitfalas,
audighas krioj... la rimeno knalas
kaj ili flugas plie...
De sama chen kaptitaj en la mashoj,
l amas malsata per shancelaj pashoj
kun plor kaj danc rapidas...
Freneza unu, dua en kolero
deliras... brutigita de sufero,
alia kantas, ridas...
Komandas dume kapitan manovron...
rigardas li chielon, puran kovron,
sternitan super maro.
Kaj diras inter densaj fumnebuloj:
"La vipon vigle svingu, ho shipuloj!
plu dancu la brutaro."
Orkestro ironie, akre blekas...
Serpento de l freneza rondo strekas
spiralojn fantazie...
Kiel en songh danteska ombroj fluas...
malbenoj, krioj, veoj, preghoj bruas,
Satano ridas fie!...
V
Ho Sinjor de l mizeruloj!
Diru chu frenez... chu vero
estas tiom da hororo
fronte al chiela sfero...
Maro! kial via ondo
de l mantelo de la mondo
ne forvishas makularon!...
Astroj! Nokto! Tempestegoj!
Vi rulighu el vastegoj!
Uragan! balau maron!
Kiuj estas chi povruloj,
ne trovante pli en vi
ol trankvilan ridon pleban,
- spron por turmentistrabi ? - ...
Kiuj estas? Se la stelo
mutas, se la ondakcelo
estas fugh komplica, krima,
che la nokta lumkonfuzo...
Vi ghin diru, fera muzo!
liberega muz sentima!
Jen la filoj de l dezerto,
kie teron lum saturas,
kie sur la kamp kun lerto
trib de nudaj viroj kuras.
Militistoj spitaj estas,
kiuj tigrojn lukte estras,
che soleja ventozum ...;
viroj simplaj, fortaj, bravaj...
estas nun mizeraj, sklavaj,
sen aer, sen prav, sen lum ...
Kaj virinoj malbonsortaj...
kiel estis jam Hagar.
Soifegaj kaj malfortaj,
el forfor devena ar .
Sur la brakoj, filojn, chenojn
portas - en anim malbenojn,
larmojn, galon en la koro.
De Hagar suferon sentas,
ke por Ishmael prezentas,
ech ne lakton de la ploro...
Tie en la sabloj helaj,
sub la palmoj, en ravinoj,
lulis sin - infanoj belaj,
vivis - charmaj junulinoj...
Preterpasas karavano...
Revas ili en kabano,
sub la noktvual ... Hodiau...
Ve! adiau, dom sur monto!...
Ve! adiau, palm che fonto!...
Ve! adiau, am ... adiau!...
Morgau la sablar senlima...
ocean da polvo... sur
horizonto malproksima
nur dezert ... dezerto nur...
kaj lacigh , soif , malsato...
Cedas la mizervipato,
falas por ne plu kuniri!...
Vakas ero en la cheno,
sed sur sablo la hieno
trovas korpon por disshiri.
Iam Sieraleono
sub de vasta tendo brilo,
venko, chaso al leono,
dorm dormita kun trankvilo...
Nun la nigra hold terura,
streta kaj infektmalpura,
kun la pest por jaguaro...
Dormon tranchas jen kaj jen
shiro de mortint el chen ,
ghia jheto al la maro...
Iam pri liber fieraj...
nur sufichis vol por povo...
Kaj hodiau... malliberaj!...
ech por mort ... Maliceltrovo!
Ilin ligas sama ringo
- fata ferserpentostringo -
de l sklaveco chirkaumano...
Forrabitaj al la morto,
dancfunebras la kohorto,
che vipsono... Ho rikano!...
Ho Sinjor de l mizeruloj!
Diru chu delir... chu vero
estas tiom da hororo
fronte al chiela sfero...
Maro! kial via ondo
de l mantelo de la mondo
ne forvishas makularon? ...
Astroj! Nokto! Tempestegoj!
vi rulighu el vastegoj!
Uragan ! balau maron! ...
VI
Popol ekzistas, kiu flagon dona
I
Jen ni sur plena mar ... en spac freneze
lunklaro ludas - papili orbrila -
ondegoj ghin postkuras... lacighante,
samkiel hord infana maltrankvila.
Jen ni sur plena mar ... el firmamento
la astroj saltas kiel shaum el oro...
repagas mar per brul de fosforeskoj
- konstelacioj de fluajh-trezoro.
Jen ni sur plena mar ... du infinitoj
sin chirkauprenas streche kun anhelo...
sublimaj, oraj, bluaj, mildaj... Kiu
la ocean kaj kiu la chielo?
Jen ni sur plena mar ... shvelintaj veloj
per varmaj, de zefiro mara, frapoj,
de brig surmara kuro estas kvazau
tusheto de hirund sur ondokapoj...
Devenon kaj fincelon, kiu scias,
de shipo travaganta senmezurojn?...
En chi Sahar chevaloj polvon levas,
galopas, flugas, ne postlasas spurojn...
felicha homo, kiu povas tiam
de jena bildo ghui majestecon!...
malsupre - maron... supre - firmamenton...
kaj en chiel kaj maro - la vastecon...
Ho, kian harmonion vent alportas...
Muziko dolcha sonas, malproksima!
Ho Di ! sublima estas arda kanto,
sen cel flosanta sur ondad senlima!
Viroj de l maro! Ho maristoj krudaj,
sunbruligitaj de la mondoj kvar!
Infanoj, kiujn lulis la tempesto
en la lulil de chi profunda mar !
Atendu kaj min lasu chi sovaghan
liberan poezion trinki tute...
Orkestro - estas maromugh cheprua
kaj vento tra shnurar siblanta flute...
............................................................................
Vi, kial fughas tiel, bark rapida?
Vi, kial fughas timan la poeton?...
Volonte sekvus mi disondon vian,
similas ghi frenezan markometon...
Ho albatros! Kondor de l oceano,
dormanta sur la gaza nubofloso,
la plumojn skuu, spacolevjatano!
Al mi flugilojn pruntu, albatroso!...
II
Por maristo ja ne gravas,
kie lia hejm situas!...
chiun verskadenco ravas,
kiun mar al li instruas!
Kantu! dia estas morto...
Lofe brig sub ventoforto
glitas per rapid delfena.
Flago sur postmast hisita,
kun la ondo postlasita
flirtas, de sopiro plena.
De hispan la kant subluna,
traplektita per langvor ,
memorigas pri sunbruna
andaluzanin en flor.
La italo kantas pri
la dormema Venezi
- lando de perfid kaj amo -
che l Vulkano, sur golfondo,
memorigas al la mondo
Tasostrofojn per deklamo.
Anglo - mara frida tipo,
kiun mar denaska flankis -
(char Anglujo estas shipo,
kiun Di Kanale ankris),
kun fier patrujon gloras,
dum pri Nelson li memoras
kaj pri Albukirrenkonto...
Kantas laurojn intajn, franco
- destinita al bonshanco -
kaj la laurojn de l estonto...
La helena maristaro,
kiun Ioni akushis,
chi piratoj de la maro,
kiun jam Ulis trapushis,
de Fidias la skulptitoj,
pri Homeraj ghemaj mitoj
longe kantas sub lunhelo...
Ho, maristoj vi, tutmondaj!
trovas vi en maroj ondaj
melodiojn el chielo...
III
El vasta spac descendu, ho oceankondoro!
Descendu pli kaj plie... nur via vidoboro
en brigon povas mergi dum tia fluga kuro...
Sed ve! mi kion vidas... kia amara sceno!
kia funebra kanto... kiom da abomeno!
kiaj figuroj tristaj!... kia, ho Di, teruro!
IV
Danteska bildo estas... la ferdeko
briligas tagon per rughega streko,
banante sin en sango.
Tintad de chenoj... vipklakad sonora...
amaso nokte nigra kaj horora
dum danc de fifandango...
Patrinoj negraj che la mamoj havas
infanojn magrajn, kies bushojn lavas
patrina sangkaskado.
Knabinoj jen... sed nudaj, miroplenaj,
trenitaj de fantomokirl, chagrenaj,
en vana anhelado.
Orkestro ironie, akre blekas...
Serpento de l freneza rondo strekas
spiralojn fantazie...
Se la oldul anhelas... kaj glitfalas,
audighas krioj... la rimeno knalas
kaj ili flugas plie...
De sama chen kaptitaj en la mashoj,
l amas malsata per shancelaj pashoj
kun plor kaj danc rapidas...
Freneza unu, dua en kolero
deliras... brutigita de sufero,
alia kantas, ridas...
Komandas dume kapitan manovron...
rigardas li chielon, puran kovron,
sternitan super maro.
Kaj diras inter densaj fumnebuloj:
"La vipon vigle svingu, ho shipuloj!
plu dancu la brutaro."
Orkestro ironie, akre blekas...
Serpento de l freneza rondo strekas
spiralojn fantazie...
Kiel en songh danteska ombroj fluas...
malbenoj, krioj, veoj, preghoj bruas,
Satano ridas fie!...
V
Ho Sinjor de l mizeruloj!
Diru chu frenez... chu vero
estas tiom da hororo
fronte al chiela sfero...
Maro! kial via ondo
de l mantelo de la mondo
ne forvishas makularon!...
Astroj! Nokto! Tempestegoj!
Vi rulighu el vastegoj!
Uragan! balau maron!
Kiuj estas chi povruloj,
ne trovante pli en vi
ol trankvilan ridon pleban,
- spron por turmentistrabi ? - ...
Kiuj estas? Se la stelo
mutas, se la ondakcelo
estas fugh komplica, krima,
che la nokta lumkonfuzo...
Vi ghin diru, fera muzo!
liberega muz sentima!
Jen la filoj de l dezerto,
kie teron lum saturas,
kie sur la kamp kun lerto
trib de nudaj viroj kuras.
Militistoj spitaj estas,
kiuj tigrojn lukte estras,
che soleja ventozum ...;
viroj simplaj, fortaj, bravaj...
estas nun mizeraj, sklavaj,
sen aer, sen prav, sen lum ...
Kaj virinoj malbonsortaj...
kiel estis jam Hagar.
Soifegaj kaj malfortaj,
el forfor devena ar .
Sur la brakoj, filojn, chenojn
portas - en anim malbenojn,
larmojn, galon en la koro.
De Hagar suferon sentas,
ke por Ishmael prezentas,
ech ne lakton de la ploro...
Tie en la sabloj helaj,
sub la palmoj, en ravinoj,
lulis sin - infanoj belaj,
vivis - charmaj junulinoj...
Preterpasas karavano...
Revas ili en kabano,
sub la noktvual ... Hodiau...
Ve! adiau, dom sur monto!...
Ve! adiau, palm che fonto!...
Ve! adiau, am ... adiau!...
Morgau la sablar senlima...
ocean da polvo... sur
horizonto malproksima
nur dezert ... dezerto nur...
kaj lacigh , soif , malsato...
Cedas la mizervipato,
falas por ne plu kuniri!...
Vakas ero en la cheno,
sed sur sablo la hieno
trovas korpon por disshiri.
Iam Sieraleono
sub de vasta tendo brilo,
venko, chaso al leono,
dorm dormita kun trankvilo...
Nun la nigra hold terura,
streta kaj infektmalpura,
kun la pest por jaguaro...
Dormon tranchas jen kaj jen
shiro de mortint el chen ,
ghia jheto al la maro...
Iam pri liber fieraj...
nur sufichis vol por povo...
Kaj hodiau... malliberaj!...
ech por mort ... Maliceltrovo!
Ilin ligas sama ringo
- fata ferserpentostringo -
de l sklaveco chirkaumano...
Forrabitaj al la morto,
dancfunebras la kohorto,
che vipsono... Ho rikano!...
Ho Sinjor de l mizeruloj!
Diru chu delir... chu vero
estas tiom da hororo
fronte al chiela sfero...
Maro! kial via ondo
de l mantelo de la mondo
ne forvishas makularon? ...
Astroj! Nokto! Tempestegoj!
vi rulighu el vastegoj!
Uragan ! balau maron! ...
VI
Popol ekzistas, kiu flagon dona
1 430
Fábio Afonso de Almeida
Queda
Então fui; sabia de meu fIm,
Apenas, em recônditos de minha alma
Um atavismo indefinido agia sem cessar
Na busca incessante do que estaVa escrito.
E fui. Ninguém viu a luta formidável
Que destroçou todas as fibras do meu ser
Quando, patético, segui como um morto vivo
A estrada longa e árida do deserto
Na solidão absoluta vi-me, então,
Como uma pálida sombra do que fui,
A descer mais e mais a senda do abandono.
E já sem reação alguma, chorei
Como uma criança desprotegida,
E implorei, titubante: Pai, me ajude!
Apenas, em recônditos de minha alma
Um atavismo indefinido agia sem cessar
Na busca incessante do que estaVa escrito.
E fui. Ninguém viu a luta formidável
Que destroçou todas as fibras do meu ser
Quando, patético, segui como um morto vivo
A estrada longa e árida do deserto
Na solidão absoluta vi-me, então,
Como uma pálida sombra do que fui,
A descer mais e mais a senda do abandono.
E já sem reação alguma, chorei
Como uma criança desprotegida,
E implorei, titubante: Pai, me ajude!
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