Poemas neste tema
Amor não correspondido
Venceslau Queiroz
Gelo Polar
Role do tempo na limosa penha
Um ano mais, e venha mais um ano,
Role este ainda, e mais um outro venha...
Que importa! se no seio teu não medra
Desengano nenhum, nenhum engano,
Pois que ele abriga um coração de pedra.
A indiferença é tanta, é tanta a neve
Que no teu seio álgido se acama,
Do teu amor é tão gelada a chama,
Que a amar-te, estátua, já ninguém se atreve...
E se eu te desse o meu amor, em breve
Sei que se tornaria, altiva dama,
O meu amor, a minha ardente chama,
— Um urso branco uivando sobre a neve.
Um ano mais, e venha mais um ano,
Role este ainda, e mais um outro venha...
Que importa! se no seio teu não medra
Desengano nenhum, nenhum engano,
Pois que ele abriga um coração de pedra.
A indiferença é tanta, é tanta a neve
Que no teu seio álgido se acama,
Do teu amor é tão gelada a chama,
Que a amar-te, estátua, já ninguém se atreve...
E se eu te desse o meu amor, em breve
Sei que se tornaria, altiva dama,
O meu amor, a minha ardente chama,
— Um urso branco uivando sobre a neve.
953
1
Orlando Teixeira
Paisagem Espiritual
Abro as portas do Sonho, alvas de mármore, e entro.
Entro o páramo azul do meu sonho bendito:
Um misticismo bom e suave como um rito,
Avesso ao mundo, avesso ao mal, paira lá dentro.
Ela em tudo, Ela em toda a parte, ansioso fito,
Em cima, em baixo, além, adiante, atrás, no centro;
Essa em quem todos os meus afetos concentro,
Nossa Senhora do meu amor infinito.
Ela e este grande amor com que os dias iludo,
Tudo vive no quadro assombroso, onde a imagem
Do estranho deus avulta e os fiéis ao culto chama;
Tudo de luz se inunda, e, dominando tudo,
Cheio da própria luz, sobressai na paisagem,
O correto perfil dessa que me não ama.
Entro o páramo azul do meu sonho bendito:
Um misticismo bom e suave como um rito,
Avesso ao mundo, avesso ao mal, paira lá dentro.
Ela em tudo, Ela em toda a parte, ansioso fito,
Em cima, em baixo, além, adiante, atrás, no centro;
Essa em quem todos os meus afetos concentro,
Nossa Senhora do meu amor infinito.
Ela e este grande amor com que os dias iludo,
Tudo vive no quadro assombroso, onde a imagem
Do estranho deus avulta e os fiéis ao culto chama;
Tudo de luz se inunda, e, dominando tudo,
Cheio da própria luz, sobressai na paisagem,
O correto perfil dessa que me não ama.
1 177
1
Luciano Matheus Tamiozzo
Solidão
Solidã o é esperar um pouco mais
De alguém que nos oferece um pouco menos
Do que poderia oferecer...
De alguém que nos oferece um pouco menos
Do que poderia oferecer...
899
1
Álvares de Azevedo
Perdoa-me, Visão dos meus Amores
Perdoa-me, visão dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando! ...
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flôres!
De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores...
Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora...
Sem que última esperança me conforte,
Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!
Se a ti ergui meus olhos suspirando! ...
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flôres!
De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores...
Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora...
Sem que última esperança me conforte,
Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!
2 642
1
Marcial
EPIGRAMAS
I, 24 - A COTA
Com quem te não banhaste, não convidas nunca,
E só nos balneários teus convivas buscas.
A mim me perguntava como nunca o fora:
E agora sei que, nu, não pude encher-te os olhos.
Com quem te não banhaste, não convidas nunca,
E só nos balneários teus convivas buscas.
A mim me perguntava como nunca o fora:
E agora sei que, nu, não pude encher-te os olhos.
1 146
1
Michelangelo
RENDETE A GLI OCHI MIEI
A meus olhos volvei, ó fonte, ó rio,
essas ondas não vossas, forte veia,
que mais vos ergue e cresce, grande cheia,
maior que é vosso natural desvio.
E tu, ar denso, de que me alumio
a luz não escondas, se suspiro enfreia
quem só de contemplá-la se recreia,
e só de suspirar te faz sombrio.
Devolva a terra os passos a meus pés,
e erva germine já por els pisada,
e Eco, tão surdo, o que eu chorei me chore.
E a vista a mim, o teu olhar cortês.
Que uma outra vez outra beleza adore,
já que de mim te não contentas nada.
essas ondas não vossas, forte veia,
que mais vos ergue e cresce, grande cheia,
maior que é vosso natural desvio.
E tu, ar denso, de que me alumio
a luz não escondas, se suspiro enfreia
quem só de contemplá-la se recreia,
e só de suspirar te faz sombrio.
Devolva a terra os passos a meus pés,
e erva germine já por els pisada,
e Eco, tão surdo, o que eu chorei me chore.
E a vista a mim, o teu olhar cortês.
Que uma outra vez outra beleza adore,
já que de mim te não contentas nada.
1 269
1
Rui Nogar
Xicuembo
Eu bebeu suruma
dos teus ólho Ana Maria
eu bebeu suruma
e ficou mesmo maluco
agora eu quero dormir quer comer
mas não pode mais dormir
não pode mais comer
suruma dos teus olhos Ana Maria
matou sossego no meu coração
oh matou sossego no meu coração
eu bebeu suruma oh suruma suruma
dos teus ólho Ana Maria
com meu todo vontade
com meu todo coração
e agora Ana Maria minhamor
eu não pode mais viver
eu não pode mais saber
que meu Ana Maria minhamor
é mulher de todo gente
é mulher de todo gente
todo gente todo gente
menos meu minhamor.
dos teus ólho Ana Maria
eu bebeu suruma
e ficou mesmo maluco
agora eu quero dormir quer comer
mas não pode mais dormir
não pode mais comer
suruma dos teus olhos Ana Maria
matou sossego no meu coração
oh matou sossego no meu coração
eu bebeu suruma oh suruma suruma
dos teus ólho Ana Maria
com meu todo vontade
com meu todo coração
e agora Ana Maria minhamor
eu não pode mais viver
eu não pode mais saber
que meu Ana Maria minhamor
é mulher de todo gente
é mulher de todo gente
todo gente todo gente
menos meu minhamor.
1 569
1
Fernando Pessoa
Cantigas de portugueses
ALGUMAS QUADRAS
Cantigas de portugueses
São como barcos no mar –
Vão de uma alma para outra
Com riscos de naufragar.
A terra é sem vida, e nada
Vive mais que o coração
E envolve-te a terra fria
E a minha saudade não!
O moinho de café
Mói grãos e faz deles pó.
O pó que a minh'alma é
Moeu quem me deixa só.
Se eu te pudesse dizer
O que nunca te direi,
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei.
Teu vestido porque é teu,
Não é de cetim nem chita.
É de sermos tu e eu
E de tu seres bonita.
Vem cá dizer-me que sim.
Ou vem dizer-me que não.
Porque sempre vens assim
P'ra ao pé do meu coração.
Tenho um segredo a dizer-te
Que não te posso dizer.
E com isso já te o disse
Estavas farta de o saber...
Dona Rosa, Dona Rosa,
De que roseira é que vem,
Que não tem senão espinhos
Para quem só lhe quer bem?
Dona Rosa, Dona Rosa,
Quando eras inda botão
Disseram-te alguma cousa
De flor não ter coração?
Trazes uma cruz no peito.
Não sei se é por devoção.
Antes tivesses o jeito
De ter lá um coração.
Cantigas de portugueses
São como barcos no mar –
Vão de uma alma para outra
Com riscos de naufragar.
A terra é sem vida, e nada
Vive mais que o coração
E envolve-te a terra fria
E a minha saudade não!
O moinho de café
Mói grãos e faz deles pó.
O pó que a minh'alma é
Moeu quem me deixa só.
Se eu te pudesse dizer
O que nunca te direi,
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei.
Teu vestido porque é teu,
Não é de cetim nem chita.
É de sermos tu e eu
E de tu seres bonita.
Vem cá dizer-me que sim.
Ou vem dizer-me que não.
Porque sempre vens assim
P'ra ao pé do meu coração.
Tenho um segredo a dizer-te
Que não te posso dizer.
E com isso já te o disse
Estavas farta de o saber...
Dona Rosa, Dona Rosa,
De que roseira é que vem,
Que não tem senão espinhos
Para quem só lhe quer bem?
Dona Rosa, Dona Rosa,
Quando eras inda botão
Disseram-te alguma cousa
De flor não ter coração?
Trazes uma cruz no peito.
Não sei se é por devoção.
Antes tivesses o jeito
De ter lá um coração.
7 068
1
João Peres de Aboim
Nostro Senhor, que mi a mim faz amar
Nostro Senhor, que mi a mim faz amar
a melhor dona de quantas El fez
e mais fremosa e de melhor prez
e a que fez mais fremoso falar,
El me dê dela bem, se lhe prouguer,
ou mia morte (se m'aquesto nom der)
me dê, por me de gram coita quitar.
E se m'El aquesto nom quiser dar,
que Lh'hoj'eu rogo, rogar-Lh'-ei assi:
que lhe possa, com'ela quer a mi, querer;
ca esto me pode guardar
da mui gram coita que eu hei d'amor.
E se m'esto nom der Nostro Senhor,
por que me fez El tal senhor filhar?
Ben'o sei eu: fez-mi-o por se vengar
de mi, per esto e nom per outra rem;
se Lh'algum tempo fiz pesar, por en
me leix'assi desemparad'andar
e nom me quer contra ela valer;
por me fazer maior coita sofrer
me faz tod'est'e nom me quer matar.
a melhor dona de quantas El fez
e mais fremosa e de melhor prez
e a que fez mais fremoso falar,
El me dê dela bem, se lhe prouguer,
ou mia morte (se m'aquesto nom der)
me dê, por me de gram coita quitar.
E se m'El aquesto nom quiser dar,
que Lh'hoj'eu rogo, rogar-Lh'-ei assi:
que lhe possa, com'ela quer a mi, querer;
ca esto me pode guardar
da mui gram coita que eu hei d'amor.
E se m'esto nom der Nostro Senhor,
por que me fez El tal senhor filhar?
Ben'o sei eu: fez-mi-o por se vengar
de mi, per esto e nom per outra rem;
se Lh'algum tempo fiz pesar, por en
me leix'assi desemparad'andar
e nom me quer contra ela valer;
por me fazer maior coita sofrer
me faz tod'est'e nom me quer matar.
569
Amália Bautista
O incrédulo
Diz-me que não estou enamorada,
às vezes apetece-me jurar-lhe
que esqueceria o sol entre os seus abraços
ou quereria estar a beijar sempre
seus lábios ou que não me importa o tempo
ao olhar-me escuro, fixo, louco.
Porém de quê me serviria tanto?
Não acreditaria uma palavra.
às vezes apetece-me jurar-lhe
que esqueceria o sol entre os seus abraços
ou quereria estar a beijar sempre
seus lábios ou que não me importa o tempo
ao olhar-me escuro, fixo, louco.
Porém de quê me serviria tanto?
Não acreditaria uma palavra.
98
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Canção de Amor
Esta mulher é formosa
como uma flor da montanha,
mas é fria, fria, e é fria
como a margem de neve
onde fria floresce.
como uma flor da montanha,
mas é fria, fria, e é fria
como a margem de neve
onde fria floresce.
1 165
Pero da Ponte
Meus Olhos, Gram Coita D'amor
Meus olhos, gram coita d'amor
me dades vós, que sempr'assi
chorades; mais já des aqui,
meus olhos, por Nostro Senhor,
nom choredes, que vejades
a dona por que chorades.
[...]
me dades vós, que sempr'assi
chorades; mais já des aqui,
meus olhos, por Nostro Senhor,
nom choredes, que vejades
a dona por que chorades.
[...]
302
Pero da Ponte
Pois de Mia Morte Gram Sabor Havedes
Pois de mia morte gram sabor havedes,
senhor fremosa, mais que doutra rem,
nunca vos Deus mostr'o que vós queredes,
pois vós queredes mia mort'; e por en
rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
Nom vos and'eu per outras galhardias,
mais sempr'aquesto rogarei a Deus:
em tal que tolha El dos vossos dias,
senhor fremosa, e e[m] nada nos meus.
Rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
E Deus [que] sabe que vos am'eu muito,
e amarei enquant'eu vivo for,
El me leix'ante por vós trager luito
ca vós por mi; [e] por en mia senhor
rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
senhor fremosa, mais que doutra rem,
nunca vos Deus mostr'o que vós queredes,
pois vós queredes mia mort'; e por en
rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
Nom vos and'eu per outras galhardias,
mais sempr'aquesto rogarei a Deus:
em tal que tolha El dos vossos dias,
senhor fremosa, e e[m] nada nos meus.
Rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
E Deus [que] sabe que vos am'eu muito,
e amarei enquant'eu vivo for,
El me leix'ante por vós trager luito
ca vós por mi; [e] por en mia senhor
rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
666
Pero da Ponte
Pois Me Tanto Mal Fazedes
Pois me tanto mal fazedes,
senhor, se mi nom valedes,
sei ca mia mort'oiredes
a mui pouca [de] sazom.
Senhor, se mi nom valedes,
nom mi valrá se Deus nom!
Gram pecado per fazedes
senhor, se mi nom valedes,
ca vós sodes e seredes
coita do meu coraçom.
Senhor, se mi nom valedes,
nom mi valrá se Deus nom!
Pois m'em tal poder teendes,
senhor, se mi nom valedes,
prasmada vos en veeredes,
se moiro em vossa prijom.
Senhor, se mi nom valedes,
nom mi valrá se Deus nom!
senhor, se mi nom valedes,
sei ca mia mort'oiredes
a mui pouca [de] sazom.
Senhor, se mi nom valedes,
nom mi valrá se Deus nom!
Gram pecado per fazedes
senhor, se mi nom valedes,
ca vós sodes e seredes
coita do meu coraçom.
Senhor, se mi nom valedes,
nom mi valrá se Deus nom!
Pois m'em tal poder teendes,
senhor, se mi nom valedes,
prasmada vos en veeredes,
se moiro em vossa prijom.
Senhor, se mi nom valedes,
nom mi valrá se Deus nom!
716
Pero da Ponte
Se Eu Podesse Desamar
Se eu podesse desamar
a quem me sempre desamou
e podess'algum mal buscar
a quem me sempre mal buscou!
Assi me vingaria eu,
se eu pudesse coita dar
a quem me sempre coita deu.
Mais sol nom poss'eu enganar
meu coraçom que m'enganou,
per quanto mi fez desejar
a quem me nunca desejou.
E por esto nom dórmio eu,
porque nom poss'eu coita dar
a quem me sempre coita deu.
Mais rog'a Deus que desampar
a quem m'assi desamparou,
ou que podess'eu destorvar
a quem me sempre destorvou.
E logo dormiria eu,
se eu podesse coita dar
a quem me sempre coita deu.
Vel que ousass'en preguntar
a quem me nunca preguntou,
por que me fez em si cuidar,
pois ela nunca em mi cuidou;
e por esto lazeiro eu:
porque nom posso coita dar
a quem me sempre coita deu.
a quem me sempre desamou
e podess'algum mal buscar
a quem me sempre mal buscou!
Assi me vingaria eu,
se eu pudesse coita dar
a quem me sempre coita deu.
Mais sol nom poss'eu enganar
meu coraçom que m'enganou,
per quanto mi fez desejar
a quem me nunca desejou.
E por esto nom dórmio eu,
porque nom poss'eu coita dar
a quem me sempre coita deu.
Mais rog'a Deus que desampar
a quem m'assi desamparou,
ou que podess'eu destorvar
a quem me sempre destorvou.
E logo dormiria eu,
se eu podesse coita dar
a quem me sempre coita deu.
Vel que ousass'en preguntar
a quem me nunca preguntou,
por que me fez em si cuidar,
pois ela nunca em mi cuidou;
e por esto lazeiro eu:
porque nom posso coita dar
a quem me sempre coita deu.
1 386
Pero da Ponte
Tam Muito Vos Am'eu, Senhor
Tam muito vos am'eu, senhor,
que nunca tant'amou senhor
home que fosse nado;
pero, des que fui nado,
nom pud'haver de vós, senhor,
por que dissess': ai, mia senhor,
em bom pont'eu fui nado!
Mais quem de vós fosse, senhor,
bom dia fôra nado!
E o dia que vos eu vi,
senhor, em tal hora vos vi
que nunca dormi nada,
nem desejei al nada
senom vosso bem, pois vos vi!
E dig'a mi: por que vos vi,
pois que mi nom val nada?
Mal dia nad', eu que vos vi,
e vós bom dia nada!
Que se vos eu nom viss'entom
quando vos vi, podera entom
seer d'afã guardado;
mais nunc'ar fui guardado
de mui gram coita, des entom;
e entendi-m'eu des entom
que aquel é guardado
que Deus guarda; ca, des entom,
é tod'home guardado.
que nunca tant'amou senhor
home que fosse nado;
pero, des que fui nado,
nom pud'haver de vós, senhor,
por que dissess': ai, mia senhor,
em bom pont'eu fui nado!
Mais quem de vós fosse, senhor,
bom dia fôra nado!
E o dia que vos eu vi,
senhor, em tal hora vos vi
que nunca dormi nada,
nem desejei al nada
senom vosso bem, pois vos vi!
E dig'a mi: por que vos vi,
pois que mi nom val nada?
Mal dia nad', eu que vos vi,
e vós bom dia nada!
Que se vos eu nom viss'entom
quando vos vi, podera entom
seer d'afã guardado;
mais nunc'ar fui guardado
de mui gram coita, des entom;
e entendi-m'eu des entom
que aquel é guardado
que Deus guarda; ca, des entom,
é tod'home guardado.
708
Pero da Ponte
A Mia Senhor, Que Eu Mais Doutra Rem
A mia senhor, que eu mais doutra rem
desejei sempr'e amei e servi,
que nom soía dar nada por mi,
preito me trage de me fazer bem:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
Em qual coita me seus desejos dam
tod'a sazom! Mais, des agora já,
por quanto mal me faz, bem me fará,
ca morrerei e perderei afã:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
E quanto mal eu por ela levei,
ora mi o cobrarei, se Deus quiser;
ca, pois eu por ela morte preser,
nom mi dirám que dela bem nom hei:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
Tal sazom foi que me tev'em desdém,
quando me mais forçava seu amor;
e ora, mal que pês a mia senhor,
bem me fará e mal grad'haja en:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
desejei sempr'e amei e servi,
que nom soía dar nada por mi,
preito me trage de me fazer bem:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
Em qual coita me seus desejos dam
tod'a sazom! Mais, des agora já,
por quanto mal me faz, bem me fará,
ca morrerei e perderei afã:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
E quanto mal eu por ela levei,
ora mi o cobrarei, se Deus quiser;
ca, pois eu por ela morte preser,
nom mi dirám que dela bem nom hei:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
Tal sazom foi que me tev'em desdém,
quando me mais forçava seu amor;
e ora, mal que pês a mia senhor,
bem me fará e mal grad'haja en:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
566
Rui Queimado
Pois Minha Senhor Me Manda
Pois minha senhor me manda
que nom vá u ela ´stiver,
quero-lho eu por en fazer,
pois mo ela 'ssi demanda.
Mais nom me pod'ela tolher por en
que lh'eu nom queira gram bem.
Por quanto eu dela vejo,
minha senhor me defende,
que nom vá u ela entende
que eu filho gram desejo.
Mais nom pod'ela por ende o meu
coraçom partir do seu.
E por quant'eu dela entendo,
que nom quer que a mais veja,
bem me praz que assi seja:
mais vai-se meu mal sabendo;
e meus olhos me querem matar
quando lha nom vou mostrar.
que nom vá u ela ´stiver,
quero-lho eu por en fazer,
pois mo ela 'ssi demanda.
Mais nom me pod'ela tolher por en
que lh'eu nom queira gram bem.
Por quanto eu dela vejo,
minha senhor me defende,
que nom vá u ela entende
que eu filho gram desejo.
Mais nom pod'ela por ende o meu
coraçom partir do seu.
E por quant'eu dela entendo,
que nom quer que a mais veja,
bem me praz que assi seja:
mais vai-se meu mal sabendo;
e meus olhos me querem matar
quando lha nom vou mostrar.
538
Nuno Fernandes Torneol
Que Bem Que M'eu Sei Encobrir
Que bem que m'eu sei encobrir
com mia coita e com meu mal!
Ca mi o nunca pod'hom'oir.
Mais que pouco que mi a mim val!
Ca nom quer'eu bem tal senhor
que se tenha por devedor
algũa vez de mi o gracir.
Pero faça como quiser,
ca sempre a eu servirei
e quanto a negar poder,
todavia negá-la-ei.
Ca eu por que hei a dizer
o por que m'hajam de saber
quam gram sandece comecei
e de que me nom há quitar
nulha cousa, se morte nom?
(pois Deus, que mi a fez muit'amar,
nom quer, nen'o meu coraçom)
Mais a Deus rogarei por en
que me dê cedo dela bem,
ou morte, se m'est'há durar.
E bem dev'eu ant'a querer
mia morte ca viver assi,
pois me nom quer Amor valer,
e a que eu sempre servi
me desama mais doutra rem.
Pero fui home de mal sem
porque, d'u ela é, saí!
com mia coita e com meu mal!
Ca mi o nunca pod'hom'oir.
Mais que pouco que mi a mim val!
Ca nom quer'eu bem tal senhor
que se tenha por devedor
algũa vez de mi o gracir.
Pero faça como quiser,
ca sempre a eu servirei
e quanto a negar poder,
todavia negá-la-ei.
Ca eu por que hei a dizer
o por que m'hajam de saber
quam gram sandece comecei
e de que me nom há quitar
nulha cousa, se morte nom?
(pois Deus, que mi a fez muit'amar,
nom quer, nen'o meu coraçom)
Mais a Deus rogarei por en
que me dê cedo dela bem,
ou morte, se m'est'há durar.
E bem dev'eu ant'a querer
mia morte ca viver assi,
pois me nom quer Amor valer,
e a que eu sempre servi
me desama mais doutra rem.
Pero fui home de mal sem
porque, d'u ela é, saí!
592
Rui Queimado
O Meu Amig', Ai Amiga
O meu amig', ai amiga,
a que muita prol buscastes
quando me por el rogastes,
pero vos outra vez diga
que me vós por el roguedes,
nunca me por el roguedes.
El verrá, ben'o sabiades,
dizer-vos que é coitado;
mais sol nom seja pensado,
pero o morrer vejades,
que me vós por el roguedes,
nunca me por el roguedes.
Quanto quiser, tanto more
meu amigo em outra terra
e ande comigo a guerra;
mais, pero ante vós chore,
que me vós por el roguedes,
nunca me por el roguedes.
a que muita prol buscastes
quando me por el rogastes,
pero vos outra vez diga
que me vós por el roguedes,
nunca me por el roguedes.
El verrá, ben'o sabiades,
dizer-vos que é coitado;
mais sol nom seja pensado,
pero o morrer vejades,
que me vós por el roguedes,
nunca me por el roguedes.
Quanto quiser, tanto more
meu amigo em outra terra
e ande comigo a guerra;
mais, pero ante vós chore,
que me vós por el roguedes,
nunca me por el roguedes.
647
Rui Queimado
Pois Que Eu Ora Morto For
Pois que eu ora morto for
sei bem ca dirá mia senhor:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
Pois souber mui bem ca morri
por ela, sei que dirá assi:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
Pois que eu morrer, filhará
entom o soqueix'e dirá:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
sei bem ca dirá mia senhor:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
Pois souber mui bem ca morri
por ela, sei que dirá assi:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
Pois que eu morrer, filhará
entom o soqueix'e dirá:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
465
Nuno Fernandes Torneol
Que Prol Vos Há 'Vós, Mia Senhor
Que prol vos há 'vós, mia senhor,
de me tam muito mal fazer,
pois eu nom sei al bem querer
no mundo, nem hei d'al sabor?
Dizede-me, que prol vos há?
E que prol vos há de fazer
tam muito mal a quem voss'é?
Nom vos há prol, per bõa fé!
E mia senhor, se eu morrer,
dizede-me, que prol vos há?
[E] que prol vos há d'eu estar
sempre por vós em grand'afã?
(e éste mui grande, de pram).
E pois mi o voss'amor matar,
dizede-me, que prol vos há?
E vós, lume dos olhos meus,
oir-vos-edes maldizer
por mim, se eu por vós morrer.
E senhor, por amor de Deus,
dizede-me, que prol vos há?
de me tam muito mal fazer,
pois eu nom sei al bem querer
no mundo, nem hei d'al sabor?
Dizede-me, que prol vos há?
E que prol vos há de fazer
tam muito mal a quem voss'é?
Nom vos há prol, per bõa fé!
E mia senhor, se eu morrer,
dizede-me, que prol vos há?
[E] que prol vos há d'eu estar
sempre por vós em grand'afã?
(e éste mui grande, de pram).
E pois mi o voss'amor matar,
dizede-me, que prol vos há?
E vós, lume dos olhos meus,
oir-vos-edes maldizer
por mim, se eu por vós morrer.
E senhor, por amor de Deus,
dizede-me, que prol vos há?
697
Fernão Garcia Esgaravunha
Senhor Fremosa, Convém-Mi a Rogar
Senhor fremosa, convém-mi a rogar
por vosso mal, enquant'eu vivo for,
a Deus, ca faz-me tanto mal Amor,
que eu já sempr'assi lh'hei de rogar:
que El cofonda vós e vosso sem
e mim, senhor, porque vos quero bem,
e o Amor, que me vos faz amar.
E [por] vosso sem, que em mi errar
vos faz tam muito, serei rogador
a Deus assi: que confonda, senhor,
el muit'e vós e mim, em que errar
vos el faz tanto. E al mi ar convém
de lhe rogar: que ar cofonda quem
me nom leixa convosco mais morar.
E os meus olhos, a que vos mostrar
fui eu, por que viv'hoje na maior
coita do mundo, ca nom hei sabor
de nulha rem, u vo-lhes eu mostrar
nom poss'; e Deus cofonda mi por en,
e vós, senhor, e eles e quem tem
em coraçom de me vosco mezcrar.
por vosso mal, enquant'eu vivo for,
a Deus, ca faz-me tanto mal Amor,
que eu já sempr'assi lh'hei de rogar:
que El cofonda vós e vosso sem
e mim, senhor, porque vos quero bem,
e o Amor, que me vos faz amar.
E [por] vosso sem, que em mi errar
vos faz tam muito, serei rogador
a Deus assi: que confonda, senhor,
el muit'e vós e mim, em que errar
vos el faz tanto. E al mi ar convém
de lhe rogar: que ar cofonda quem
me nom leixa convosco mais morar.
E os meus olhos, a que vos mostrar
fui eu, por que viv'hoje na maior
coita do mundo, ca nom hei sabor
de nulha rem, u vo-lhes eu mostrar
nom poss'; e Deus cofonda mi por en,
e vós, senhor, e eles e quem tem
em coraçom de me vosco mezcrar.
484
Nuno Fernandes Torneol
Ai Mia Senhor! U Nom Jaz Al
Ai mia senhor! U nom jaz al,
haverei mui ced'a morrer,
pois vosso bem nom poss'haver;
mais direi-vos do que m'é mal:
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
E praz-me, si Deus me perdom,
de morrer, pois ensandeci
por vós, que eu por meu mal vi;
mais pesa-me de coraçom
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
E de morrer m'é mui gram bem,
ca nom poss'eu mais endurar
o mal que mi amor faz levar;
mais pesa-me mais doutra rem
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
haverei mui ced'a morrer,
pois vosso bem nom poss'haver;
mais direi-vos do que m'é mal:
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
E praz-me, si Deus me perdom,
de morrer, pois ensandeci
por vós, que eu por meu mal vi;
mais pesa-me de coraçom
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
E de morrer m'é mui gram bem,
ca nom poss'eu mais endurar
o mal que mi amor faz levar;
mais pesa-me mais doutra rem
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
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